Fátima Oliveira: Não há o que pague o bem que me faz o fuzuê!

Tempo de leitura: 3 min

O Carnaval de Sabará é mágico, caseiro e descontraído
Não há o que pague o bem que me faz aquele fuzuê!

por Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Sou fascinada por Carnaval e são João (leia-se quadrilha e bumba-meu-boi). E não sei dançar, para desgosto da vovó Maria, que dizia: “Moça que não dança não gozou a vida”. Pode ser. Mas não aprendi, fora os treinos da valsa de formatura em medicina. Ah, sim, dancei, mas fiquei uma semana doente dos pés. O sapato era de “salto alto”, o tal Luís XV! Tragédia total. Não sei andar de “salto alto”!

Em suma, adoro pular Carnaval e brincar quadrilha, como se diz no meu sertão: Carnaval pula-se e quadrilha brinca-se. Não é o mesmo que dançar. A minha porção foliona desabrochou no ano seguinte à mudança para Beagá, idos de 1989, quando descobri o Carnaval de Sabará para levar as crianças, que eram “fominhas” pela folia. Às vezes até fico hospedada lá. Só em dois anos não fui.
Até conhecer o Carnaval de Sabará eu nem tinha ideia do que era pular Carnaval na rua! Onde eu nasci – pra quem não sabe ou esqueceu, Graça Aranha, antiga Palestina, médio sertão do Maranhão -, criança inventava “Carnaval de lata”, o único possível!

Havia apenas duas tradições carnavalescas, só para adultos: o “baile da sociedade”, dos remediados do lugar, num salão qualquer, pois nem clube havia naquele cafundó; e o desfile, pelas principais ruas da cidade, das putas do cabaré do Derivaldo, vestidas a rigor: na seda! Saia curtinha pregueada, barriga de fora, sutiã de seda, cara com muito rouge e batom vermelhão cheguei. Um encanto brega! Desfilavam na tarde da terça-feira gorda. Sucesso total! Era comum, durante o dia, duplas de fofões fazendo graça pelas ruas. E mais nada!

A primeira vez que vi um Carnaval diferente, como aparecia na revista O Cruzeiro, estava com 14 anos, quando fui estudar em São Luís (1965), pois as aulas começariam na semana seguinte ao tríduo momesco – era assim que se dizia naquele tempo -, então mamãe decidiu que passaríamos o Carnaval lá.

E a criançada
fantasiada,
acompanhando os blocos, ao som das
marchinhas de bandinhas que
encantam serpentes…

Depois, já médica, morando em Imperatriz, “lugar morto para Carnaval , anos 1980, não havia Carnaval de rua. Puro medo. Matadores de aluguel zanzavam por todo canto. Nos dois clubes da cidade, Tocantins e Juçara, havia matinês, vesperais e bailes – que eu quase nunca ia, pois gostava de assistir aos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, programa que não me apetece mais. Todavia, já fui daquelas que “varava a noite” e só dormia após a última escola passar, aquilo de que Luís da Câmara Cascudo disse tão bem: “O Carnaval de hoje é de desfile, Carnaval assistido, paga-se para ver. O Carnaval, digamos, de 1922, era compartilhado, dançado, pulado, gritado, catucado. Agora não é mais assim, é para ser visto”.

Aprendi a pular Carnaval com minhas crianças nas matinês carnavalescas do Juçara Clube. Era empolgante, desde fazer as fantasias da família, uma para cada dia, e a pulação em si. Mas foi em Sabará que me descobri foliona de rua. Qual é o encanto que tanto mexe comigo no Carnaval de Sabará?

É o ar de festa do povo do lugar e os homens vestidos de mulher! No centro histórico, nas três praças da muvuca, quase toda casa vira uma venda de água, refrigerante, cerveja e de alguns “comes”; mulheres idosas nas janelas pulando Carnaval dentro de suas casas, na maior animação; e a criançada fantasiada, subindo e descendo as ruas, acompanhando os blocos, ao som das marchinhas de bandinhas que encantam serpentes… E eu lá no meio da folia sinto que todo mundo está ali pelo lúdico da vibração. Em 20 anos, nunca presenciei uma briga.

Não há o que pague o bem que me faz aquele fuzuê!

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Comentários

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Morvan

Bom dia.

O texto da estimada Fátima Oliveira me rememorou a Itapipoca de '80. Adolescência. Todo mundo brincando no "Carnaval de Clube", pago, claro. Eu, sem um "tusta", me contentava com o carnaval de rua, na "Marquês de Sapo Caindo" (o nome, dado por mim, na então única emissora de rádio, e que "pegou", se deu porque o Presidente do Clube Social Imperatriz, vendo o sucesso do carnaval de rua tomar os clientes cativos do referido clube, já que o baile de rua era gratuito, pagou a pessoas para encher o trajeto do Bloco de Sujos e de outros congêneres de sapos mortos.). Eu não tava nem aí para o carnaval. Ia era atrás das molecas. Lindas. Umas cãezinhas…). Hoje o carnaval de Itapipoca está mais do que privatizado. Se antes as troças tinham as ruas principais da cidade para mostrar seus adereços, hoje só vai a baile quem possui carro, pois transferiram o baile para um Distrito da cidade, para evitar o "canelau". Deu certo; não para o "canelau". Este foi defenestrado, mesmo. É o Brasil privatizado de ponta a ponta.

:-)

Morvan, Usuário Linux #433640.

Antônio

Fora de Pauta, mas sobre CRISE.

Atenção! Crise! Finalmente uma crise pra valer. Vejam o que saiu na Foia de Sum Paulo: crise:
Hebe ameaça deixar Rede TV!

Meu Deus! Quem irá substitui-la? Sim, porque com a sua inteligência, sua idade e seu jeitinho elegante de ser, a Hebe é insubstituível.

Se eu fosse o governo Dilma eu interferiria no processo. Por que o ministério da cultura não oferece um complemento insignificante de uns R$ 200.000,00 mensais para Hebe continuar na Rede TV? Para onde ela vai? Meu Deus, eu estou desesperado! Se a Hebe cair a Dilma pode também cair.

Quem agora colocará a nossa disposição aquelas mulheres maravilhosas em busca de um "casamento" promissor?

E vocês ainda dizem que a Foia não discute o Brasil. Ingratos!

    Alberto

    Não é fora de pauta, amigo. Você é mesmo sem educação

mineiro

concordo em tudo que foi dito em numero e grau. hoje nao é mais carnaval , e sim espetaculo pra gerar dinheiro e mais dinheiro. é o lucro acima de tudo. se todo mundo esta elogiando o carnaval de sabará . entao reza pra que a maldita midia golpista nao se apropre dele , porque se nao vai virar esse jabá maldito que todos nos acompanhamos no brasil afora. onde os que tem mais dinheiro e paga sao os que pula esse carnaval nojento que todos estao vendo. o povo nao tem mais direito a nada, tudo foi apropriado por esse elite maldita golpista. com raras exessoes como em pernambuco que ainda é diferente e em minas gerais. o resto é da bahia pra pior. que carnaval mais sem graça esse da bahia , so ve gente que tem dinheiro correndo atras daqueles trios eletricos , com cantores se sal e musicas horrorosas. e as escolas de samba , que coisa mais sem graça. ainda bem que o pvo do rio esta fazendo seu proprio carnaval de rua. na maioria o povo local , como disse um comentarista aqui, nao participa do carnaval e é a pura verdade.

Eduardo Di Lascio

Carnaval é chato demais.

    Eudes

    Também acho, mas há quem goste, então vamos respeitar. Não apenas quem gosta, mas a cultura criada pelo carnaval.
    Também achei a crônica de Fátima Oliveira de uma leveza cativante e que nos revela o quento ela é uma pessoa sensível,

Mirella Garcia

2012 marca a quarta edição do Carnaval das Cidades Históricas de Minas Gerais – prefeituras de seis municípios mineiros – São João del Rei, Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Sabará e Diamantina, que visa a resgatar as manifestações carnavalescas tradicionais, que privilegiam as marchinhas, bandas locais, bonecos e blocos de carnaval. Cercado de tradição, folia e muita animação, o carnaval nas cidades históricas atrai gente de todo o Brasil e do exterior. Entre os atrativos, além da oportunidade de conhecer a arquitetura e os encantos da cultura mineira, a programação de carnaval é farta: blocos, carnaval de rua, marchinhas, carnaval em repúblicas e diversas atrações gratuitas.
Indiscutivelmente Sabará é o carnaval mais tradicional de marca bem popular

Maria das Graças

Carnaval democrático para mim é sinônimo de carnaval feito majoritariamente pelo povo da cidade onde ele ocorre. Do que tenho lido sobre os carnavais nas cidades historicas mineiras, o de Sabará é o que mantém as características de carnaval local, com expressiva participação do povo local, nos blocos e nas escolas de samba. Em Sabará não há trios elétricos, só as bandinhas. Mas Diamantina e Ouro Preto conseguiu expulsar as pessoas da cidade, viraram festas de estranhos, muito aos moldes de Salvador.

Alberto

Elias e demais pessoas interessadas,
Recomendo: Enfim, casados! – Capítulo 13 do livro de Fátima Oliveira "Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras, p. 183-195) http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=7
“A vida de carpideira” – capítulo 9 do livro de Fátima Oliveira “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=2
No mesmo Site, Lima Coelho, há um trecho de capítulo do livro dela A hora do ângelus
A omissão milenar do Vaticano & pedofilia clerical – trecho de “A hora do Angelus”- Fátima Oliveira (27.03.2010) http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=3577
Capítulo III: Amores nos subterrâneos da Igreja
http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=3345

Clavier

Carnaval democrático só acontece em poucas regiões do Brasil. E o que toma conta da mídia (boa ou grande parte) são carnavais para elite ver. Uma pena. Lembro quando era criança que corria atrás dos blocos de ursos (em Pernambuco). Era divertido. Então, cada um tinha um nome. E o maior detalhe desses carnavais democráticos é a irreverência das pessoas. Nada de coisa programada e organizadinha ou com firulas.

Jorge Andrade

Outro vídeo do Carnaval de Sabará
Jornal da Alterosa 2ª Edição – Famosos dão as caras no carnaval de Sabará
Fernanda Penna – TV Alterosa
21 de fevereiro de 2012 – Elton John, Justin Bieber e até o Kiko, do Chaves ! Todo mundo deu as caras hoje, 21, no carnaval de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte http://www.alterosa.com.br/html/noticia_interna,i

21 de fevereiro de 2012 – Elton John, Justin Bieber e até o Kiko, do Chaves ! Todo mundo deu as caras hoje, 21, no carnaval de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte

Jorge Andrade

Um bom vídeo, mesmo tendo sido feito pela Globo, ehehhehe…
Foliões curtem o último dia de carnaval em Sabará http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/mgtv-2edi

Gerson

Chega do lixo produzido pelas organiações Globo e congêneres.

Viva o carnaval realmente popular.

Seja em Sabará ou em qualquer outro lugar, o povo já sacou qual é a desses Privatas do Carnaval.

Vamos de Capiba:

Madeira do rosarinho
Vem a cidade sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original

Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer… e com satisfação
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão

E se aqui estamos, cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nós somos madeira de lei que cupim não rói
http://youtu.be/li4SgjHF3Ic

beattrice

Fátima Oliveira, uma intelectual na melhor acepção do termo,
transita do literário ao político, volta ao literário, e a qualidade dos textos só cresce.

Alberto

Elias, conhece os dois romances de Fátima Oliveira? Ambos da Mazza Edições. São de dar água na oca: literatura de primeira. O primeiro chama-se A hora do Angelus; e o segundo, Reencontros na travessia – a tradição das carpideiras.
Quanto ao Carnavald e Sabará fiquei me roendo de vontade de estar lá. Um dia, irei

    Elias

    Vou procurar os livros de Fátima Oliveira e reconhecer minha ignorância. Eu devia calcular que Fátima já havia publicado. Obrigado, Alberto.

Elias SP SP

Quando leio um texto aqui no Azenha que me lembra literatura, é sempre escrito por Fátima Oliveira. Não sei por que os bons editores ainda não a contrataram para pertencer a seus catálogos. Claro que Fátima escreve ‘também’ sobre assuntos importantíssimos do nosso dia-a-dia político. Mas, de quando em vez, ela nos brinda com reflexões típicas de livros adoráveis. Como esse d’o bem que faz um fuzuê’.

Tetê

Eita, nós lá! Dizem que é um Carnaval aos moldes antigos, no qual a família e a vizinhança está toda lá saracoteando, na oa, na paz! Ainda não virou aquela loucura que são Ouro Preto e Diamantina, nos quais as "pessoas do lugar" não têm mais espaço na folia

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