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Naomi Klein: Não falta dinheiro para comprar balas de borracha e canhões de água


17/08/2011 - 17h12

Londres, 2011
Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

16/8/2011, Naomi Klein, The Nation, EUA

Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado  [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em http://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004.

Pode ser baixado em:

http://docverdade.blogspot.com/2009/03/memorias-do-saque-memoria-del-saqueo.html [NTs].

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25 comentários

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24 de novembro de 2011 às 08h47

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Exportando as armas de contenção em massa | Viomundo - O que você não vê na mídia

23 de novembro de 2011 às 19h31

[…] Naomi Klein: Não falta dinheiro para comprar balas de borracha   […]

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Antonio Carlos de O.

06 de outubro de 2011 às 21h55

Surpreendente a riqueza, a vibração, a enormecontribuição do blog para a discussão democrática. Longa vida!!!

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Jorge

16 de setembro de 2011 às 14h05

Hoje a rede Federal de Ensino está passando por uma greve de mais de 50 dias. O Mec diz que não pode negociar. A realidade é bem cruel para Técnicos Administrativos e Professores, porque o que se tem em mente é que todos estão ganhando muito dinheiro, coisa que é irreal. Hoje um Bibliotecário, Engenheiro Civil, Médico, Dentista entra para trabalhar nos Institutos Federais com um salário de 3.000 reais. Um Professor com um pouco mais, desde que tenha no mínimo especializaçao. Que política educacional é essa? educação se faz com pessoas bem pagas, hoje o Ministério da Educação paga os piores salários do governa Dilma. Para que tehamos uma idéia um Bibliotecário do TRF ganha 8.000 reais inicial. Que prioridade educacional é essa Dilma?

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Os Estados Unidos, a caminho de nova recessão? | Viomundo - O que você não vê na mídia

02 de setembro de 2011 às 16h15

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18 de agosto de 2011 às 19h01

[…] Naomi Klein: Canhões e balas de borracha […]

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tiago tobias

18 de agosto de 2011 às 15h17

Não se sustenta uma família real como a britânica impunemente.

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Substantivo Plural » Blog Archive » Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

18 de agosto de 2011 às 08h21

[…] Por Naomi Klein The Nation, EUA – NO VI O MUNDO […]

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carmen silvia

18 de agosto de 2011 às 02h45

Apenas passando uma vista d'olhos na história,parece que a vida humana sempre teve menos valor que a propriedade,os bens.A impressão que se tem é de um retrocesso no dito processo civilizatório,o que difere os predadores do passado com os de hoje é apenas as técnicas e tecnologias utilizadas,no mais tudo igual.O povo não é mais jogado aos leões,nem empalados,mas são levados a enlouquecer com a perda das condições mínimas pra se levar uma vida decente.Como a propriedade é mais importante,tudo é permitido pra acabar com essa gente que não conseguiu morrer calada.

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Fabio_Passos

18 de agosto de 2011 às 01h24

Não podemos mais alimentar ilusões.

Há presos políticos na Inglaterra:

"Governo inglês, protestos e as redes sociais" http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/g

"Dois ingleses foram condenados a quatro anos de prisão em Chester, no Reino Unido, por postarem mensagens no Facebook incentivando seus amigos a participarem dos distúrbios na Inglaterra. As informações são do jornal inglês The Guardian."

Defender a revolta contra o sistema e a destruição de objetos inanimados dá cadeia.
Já destruir a vida de milhões de seres humanos, roubar dos pobres e transferir aos ricos… dá polpudo financiamento de campanha.

Esta é a "democracia" ocidental. Uma farsa.

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Marcio H Silva

18 de agosto de 2011 às 00h27

Caraca, a moça arrebentou. Falou da Inglaterra, mas tava se dirigindo aos EUA.

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Nelson

17 de agosto de 2011 às 23h38

Ainda no livro DE PERNAS PRO AR: A ESCOLA DO MUNDO AO AVESSO, Eduardo Galeano escreve sobre a Inglaterra do século XIX e sua rainha Vitória. Segundo Galeano, a Enciclopédia Britânica nos informa que “a rainha guiou seus compatriotas com o exemplo de sua vida austera, sempre fundada na moral e nos bons costumes”. Mas, conforme o escritor, a mesma enciclopédia não menciona que a rainha Vitória foi “a maior traficante de drogas daquele século”.

E Galeano conta que a produção de ópio na Índia foi incentivada e controlada pelo império britânico, que boa parte da droga entrava na China através de contrabando e como a rainha Vitória decretou guerra contra o governo chinês, que proibira o tráfico e o uso do ópio no país, para obrigá-lo a reverter o decreto. “A canhonaços caiu Pequim” e a “China, então, aceitou o ópio, multiplicaram-se os viciados e os mercadores britânicos foram felizes e comeram perdizes”, escreve Eduardo Galeano.

Como nos conta Galeano, é histórico: a sociedade britânica realmente “tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada” como teria se referido o ministro David Cameron.

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Nelson

17 de agosto de 2011 às 23h12

No magnífico DE PERNAS PRO AR: A ESCOLA DO MUNDO AO AVESSO, de 1999, o jornalista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano, faz uma síntese genial e definitiva do que é a ordem mundial que Naomi Klein tão bem descreve em seu artigo. Diz Galeano:

“O crime é o espelho da ordem. Os delinqüentes que povoam as prisões são pobres e quase sempre atuam com armas curtas e métodos caseiros. Se não fosse por esses defeitos da pobreza e do feitio artesanal, os delinqüentes de bairro bem poderiam ostentar coroas de reis, cartolas de cavalheiros, mitras de bispos e quepes de generais e assinariam decretos governamentais em lugar de apor a impressão digital ao pé das confissões.”

Em tempo. Recomendo a leitura do livro de Galeano a todo aquele que queira enxergar em profundidade o que é a sociedade moderna. Trata-se, arrisco-me a dizer, de uma análise sociológica dessa sociedade.

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Nelson

17 de agosto de 2011 às 23h00

Excelente artigo; Naomi Klein vai na veia.

"Os assassinos estão livres, nós não estamos" cantava Renato Russo.

"Meus inimigos estão no poder" cantava Cazuza.

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Marroni

17 de agosto de 2011 às 22h46

Alguém já viu uma foto da Naomi? Pesquisem no google. É uma judia linda além de ser extremanente inteligente. Sou fã desta mulher!

Responder

    Diogo

    18 de agosto de 2011 às 21h34

    [youtube NBfzp74FDAU http://www.youtube.com/watch?v=NBfzp74FDAU youtube]

    cronopio

    19 de agosto de 2011 às 15h02

    Vídeo excelente! Parabéns pela postagem!

    cronopio

    19 de agosto de 2011 às 15h07

    Espero que o Sr. EUNAOSABIA se manifeste a respeito, argumentando que Pinochet fez o que era preciso fazer em nome da liberdade!

    Carlos

    13 de maio de 2012 às 22h44

    Prefiro o Norman Filkenstein, esse cara faz análise ‘de guerrilha’, um judeu que foi nos campos do Hizbolah no Líbano.
    Essa Klein faz parte da ‘esquerda’ judia, que não é nada progressista, só se firma nos discursos contra o sistema, mas que é alimentado pelo mesmo.

Fabio_Passos

17 de agosto de 2011 às 22h07

Análise precisa.

E prá acabar com o saqueo global promovido por esta minoria branca e rica do olho azul… que tal uma Revolução Global?

Os ricos são o crime.

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Operante Livre

17 de agosto de 2011 às 21h56

Por falar em saqueo não me descanso enquanto o Brasil não trazer para cá a grana que investiu em títulos do tesouro americano. Eles são piratas profissionais. Bem faz o Chavez que vai tirar da CEE a grana da Venezuela e colocar em lugares mais confiáveis (Brasil, Russia e China). além de nacionalizar o ouro. Espero que seja verdade e um incentivo a outros países. E que o Brasil não fique com o mico dessa pirâmide global entre banqueiros e Bancos Centrais controlados por eles.

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francisco.latorre

17 de agosto de 2011 às 19h58

saqueo. global.

..

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