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Ana Maria Costa: “A ministra Léo é testada na luta”


08/02/2012 - 11h34

por Ana Maria Costa

Léo Menecucci, como as companheiras feministas a chamamos, é uma mulher que dedicou sua vida e talento às varias frentes de luta por justiça social, pela dignidade do trabalho, pelo direito à saúde e, especialmente, pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Nesse sentido e perspectiva, tem na sua história ativa participação nos movimentos feministas, no seu partido político e na vida acadêmica como docente e pesquisadora no campo da saúde das mulheres e direitos sexuais e reprodutivos. Léo foi nossa companheira de fundação da Rede Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos, primeira e mais importante iniciativa de articulação de ativistas e entidades nacionais na luta pela saúde das mulheres. Também participa do Grupo Temático sobre Gênero e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, a ABRASCO, do Grupo de Estudos sobre o Aborto da SBPC entre tantas outras caminhadas. É por isso que Léo é, como diria Clair Castilhos que é uma outra feminista histórica, “testada na luta”.

Desde que as iniquidades de gênero saíram do espaço privado e doméstico e foram para a esfera pública, novos confrontos políticos surgiram, nem sempre bem acolhidos pelos setores clássicos da política. Também é certo que nem sempre os atores do campo da esquerda tenham sido mais receptivos às demandas por ampliação da igualdade de direitos para as mulheres. É que as questões que sufocam e que são reclamadas nessa luta envolvem mudanças de valores culturais e morais, conformados na naturalização dos papeis sociais e da desigualdade entre os sexos que são cristalizados pela moralidade e pelas religiões, particularmente as evangélicas e católica.

Hoje contabilizamos grandes avanços e conquistas tanto no plano legal como nas políticas sociais e mesmo na vida societária. Estas mudanças têm sido construídas pelo trabalho e atuação de mulheres e homens que, com coragem e sensibilidade política, deram conta de assumir compromissos de justiça pela dignificação das mulheres brasileiras. O contexto da participação das mulheres na força de trabalho e na economia nacional tem um papel importante nisso tudo. Mas se muito já andamos, mais ainda há que ser feito. O caminho envolve ação da sociedade, das mulheres mas também do Governo, do Parlamento, enfim, do Estado no seu sentido e significado amplo.

A legalização do aborto é exemplo da dívida que o país ainda tem com as mulheres brasileiras, com a democracia e a saúde publica. É a ilegalidade que remete as mulheres à condição de barbárie da prática clandestina do aborto, responsável por mortes e comprometimento da saúde. Todas as mulheres, de todas as classes sociais e níveis de escolaridade engravidam sem querer ou sem poder prosseguir na gestação e acabam recorrendo ao aborto. As pobres arriscam suas vidas e morrem. Essa injustiça é intolerável.

A despeito do Ministro Temporão ter, solitariamente, pautado o tema na sua gestão, pouco pôde ser feito. O Ministério da Saúde atual tem tido ouvidos de mercador no que diz respeito ao aborto e às perversidades que produz para a saúde das mulheres e, por isso, nada incluiu como proposta para seus projetos. Sua política conseguiu voltar a décadas atrás e reificar o papel social das mulheres no estrito lugar da maternidade, agora infantilizadas na marca da Rede Cegonha.

A Ministra Eleonora Menecucci assume a tarefa de pautar a temática no interior do Governo e das políticas públicas, mesmo que a solução definitiva da legalização do aborto possa continuar remetida à agenda do poder legislativo por um executivo acuado mediante a configuração de sua base de sustentação política no parlamento. Adotando esse caminho, ela contará com o apoio das mulheres brasileiras e também dos homens incluindo os que conseguem distinguir valores e moralidades religiosas pessoais de sua ação pública, a qual deve sempre preservar o interesse público no centro dos objetivos da prática política.

O Brasil dos últimos tempos perseguiu um lugar no mundo e conquistou um papel protagonista no plano da política internacional e, nesse cenário globalizado exposto ao capital financeiro e suas crises frequentes, se impôs entre as economias mais robustas contemporâneas. Se, na visibilidade externa o Brasil está bem na foto, internamente nossos problemas são persistentes e agravados: desigualdades sociais, recuo e fragilidade das políticas sociais universais, dos direitos sociais, dos direitos humanos e dos direitos sexuais e reprodutivos, configuram alguns desses problemas. Estas persistentes questões se interagem e se acumulam determinando a precariedade das condições de vida dos pobres, negros e outros grupos sociais. Nestes grupos as mulheres são especialmente atingidas. Logo, os desafios para nossa Ministra são enormes e é por isso que desejamos, vida longa à Ministra Léo.

Ana Maria Costa é médica e presidente do Cebes (Centro Brasileiro de Estudos em Saúde)

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19 comentários

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Joana

09 de fevereiro de 2012 às 08h18

Olhem o que está escrito no blog Resisitência democrática que se define como: "Somos um grupo que crê em DEUS, na ordem, no equilíbrio como princípio básico de construção do Universo. Somos cordatos mas firmes em nossas convicções! Cremos no futuro… Nosso ideal comum é a crença na democracia!"(Gracias a La Vida) …..
Eleonora Menicucci de Oliveira já deu o aviso: vai lutar pela liberação do aborto!
Dilma manda uma banana para os cristãos que acreditaram nela e nomeia ministra para levar adiante o projeto de liberação do aborto http://resistenciademocraticabr.blogspot.com/2012

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Laura Antunes

09 de fevereiro de 2012 às 06h55

Dra. Ana Maria Costa, estou com a senhora nos elogiuos a Léo Menecucci, ela bem merece. Mas não posso concordar com os elogios ao ministro José Gomes Temporão que concedeu poder de coordenação da Área Técncia de Saúde da Mulher em benefício familiar, como a senhora bem conhece e sabe mais do que eu. Falando nisso, a senhora sabe dar notícias sobre que atitude o ministro Padilha tomou para anular aquela maldita portaria do Temporão, também no apagar das luzes de 2010?
PORTARIA Nº 4.159, DE 21 DE DEZEMBRO DE 2010

Define o Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), como Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira da FIOCRUZ, para atuar como órgão auxiliar do Ministério da Saúde no desenvolvimento, na coordenação e na avaliação das ações integradas para a saúde da mulher, da criança e do adolescente no Brasil.
(>>>) Art. 3º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

JOSÉ GOMES TEMPORÃO

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Laura Antunes

09 de fevereiro de 2012 às 06h44

As feministas precisam ficar atentas 24 horas por dia em defesa de Eleonora Menecucci, que agora viou a preferida do tio Rei da Veja. Em apenas dois dias ele produziu duas matérias contra ela e um twtaço na noite
de ontem, com suas velhas esculhambações.

1 Algumas questões essenciais sobre o aborto. Vamos fazer este debate http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/algu
2 O aborto, os amantes de tartaruga e a luta de classes http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-ab

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Mari

08 de fevereiro de 2012 às 17h46

Muito especial as boas-vindas da Dra. Ana à Dra. Eleonora como ministra da mulher. Esperamos que ela tenha muita garra para nos defender dos espíritos do mau vindo de todas as partes ehehehehe.

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Joelma

08 de fevereiro de 2012 às 14h28

ALEXANDRE PADILHA
Ministro da Saúde diz que tratará aborto como problema de saúde pública

Pergunta – Como o sr. vê a questão da legalização do aborto? Defende mudança na legislação?

Resposta – É um problema de saúde pública no país. Meu esforço principal é que qualquer mulher que chegue no serviço de saúde, com problemas, seja acolhida, independentemente das crenças religiosas ou posições morais. Defendo cumprir a lei que já existe.

http://www.abortoemdebate.com.br/wordpress/?p=1950

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    beattrice

    08 de fevereiro de 2012 às 20h51

    Fiquei até emocionada com as palavras do Torquemada, tocante.

Joelma

08 de fevereiro de 2012 às 14h25

Ministro HUMBERTO COSTA> "Critica a visão preconceituosa e conservadora de alguns profissionais da saúde no atendimento às mulheres que realizaram clandestinamente um aborto e que buscam atendimento nos serviços de saúde, mas ao mesmo tempo chama atenção para o fato de que boa parte desses profissionais tem consciência de que o abortamento no Brasil é realmente um "problema de saúde pública".
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0104-026×2008000200...

Temporão: "O aborto é coberto por um véu de hipocrisia"
http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-gerais/

Aborto é uma questão de saúde pública, afirma Temporão
Ministro da Saúde defende que SUS esteja preparado para atender mulheres que tenham abortado http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,abort

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leandro

08 de fevereiro de 2012 às 14h19

“Eu já dei entrevistas, sobretudo nos anos 70, 80 e 90, quando o feminismo necessitava de marcar posições e muitas mulheres ousaram dizer até da sua vida privada. Não me arrependo, mas, a partir de sexta-feira [data de sua posse], eu sou governo e a matéria da legalização ou descriminalização do aborto é uma matéria que não diz respeito ao Executivo, diz respeito ao Legislativo”….sei….é só virar governo que o discurso muda..

Responder

    Joelma

    08 de fevereiro de 2012 às 15h25

    O discurso da ministra Eleonora não mudou porque é governo. Nem mudou. Ela continua com as mesmas ideias e vai lutar dentro do governo por elas. Não tenho dúvidas. No entanto, claro, enquanto o governo tem o aborto criminalizado nenhum funcionário do governo vai dizer que está legalizado porque não está! Nada a ver com defender a legalização do aborto. Humberto Costa e Temporão, cansaram de dizer isso, até postei nos comentários. Com Eleonora é o mesmo

beattrice

08 de fevereiro de 2012 às 14h13

Sem querer parecer demasiado incrédula, repito,
só acredito vendo.
neste governo quem não é empossado cooptado
é enquadrado a posteriori, ou cai.

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    Vilma

    08 de fevereiro de 2012 às 18h06

    Querida beatrice, com certeza você não conehce Eleonora Menecucci, então me poupe! Você acha que essa festejação toda de ponta a ponta do Brasil é por causa de quê? Respeite a opinião de quem a conhece e se dê a chance de ser menos amarga. Você terá gratas surpresas. A primeira é que o Padilha agora não pode mais pisar no pescoço de todas as mulheres, isso eu garanto.

    beattrice

    08 de fevereiro de 2012 às 20h50

    Não, não poupo.
    Não sou amarga, sou realista, e não festejo biografias,
    festejo fatos, quando ocorrem.

Roberto Leão

08 de fevereiro de 2012 às 13h40

Interessante é que a opinião da D. Ana Maria Costa parece ser de todas as mulheres. Como se todas as mulheres fossem a favor do aborto.

Dívida do país? Não, não. O aborto não deve ser legalizado. Para os casos mais graves já é e assim deve permanecer. O País não pode adquirir uma dívida moral.

“Todas as mulheres, de todas as classes sociais e níveis de escolaridade engravidam sem querer ou sem poder prosseguir na gestação e acabam recorrendo ao aborto”

Sem querer? Ah!!! Estamos em 2012 e TODAS AS MULHERES SABEM COMO SE ENGRAVIDA. Em vez de recorrer ao efeito porque as feministas não combatem a causa? Mais prevenção, educação e esclarecimentos.

Responder

Oliveira

08 de fevereiro de 2012 às 13h26

A Sra. Ana Maria culpa o legislativo e o executivo pela não legalização do aborto. Sem entrar no mérito da questão, ela só esquece de um detalhe importantíssimo, a grande maioria do povo brasileiro é CONTRA.

Responder

A. Mendes

08 de fevereiro de 2012 às 13h10

Faço minhas as palavras finais da Dra. Ana Maria Costa: Logo, os desafios para nossa Ministra são enormes e é por isso que desejamos, vida longa à Ministra Léo. As brasileiras precisam muito da garra dela.
Porém reservo-me o direito de discordar quando a doutora louva o ministro Temporão. Menos, nossa doutora. Ele foi bom em várias áreas, mas em saúde da mulher foi fraco.
De discurso ele era bom mesmo, defendia até a legalização do aborto, mas fez pouco pela saúde da mulher. Muito pouco. Ou a senhora conhece outras coisas boas feitas por ele para a saúde da mulher, além de ter tornado a área invisível? Aumentou em quantos os serviços de aborto previsto em lei? Que políticas adotou para incrementar a atenção ao abortamento inseguro? Sou médico e sei do que falo.
Não dá para criticar o Padilha comparando com o Temporão. Troco um pelo outro e não peço troco. São dois pavões.

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Aparecida Damasceno

08 de fevereiro de 2012 às 12h11

Mais um depoimento que demonstra que Eleonora Menecucci é a pessoa talhada para ser ministra da mulher. Presidenta Dilma, amém!

Responder

    Vilma

    08 de fevereiro de 2012 às 18h19

    Assino por ser verdade

gabriela fernanda

08 de fevereiro de 2012 às 12h08

A Dilma e seu governo já se ajoelhou para os tucanos (Zé Educarod Cardoso e Marta Suplicy – PTSDB), para a mídia (no incio de seu governo, levou todo o ministério para a festa da folha e estendeu a mão, o pé, a perna..) agora quero ver se a Léo não será OBRIGADA a se ajoelhar para a retrógrada Igreja Católica.. A ver !!!

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Morvan

08 de fevereiro de 2012 às 12h06

Bom dia.

Que sorriso bonito, D. Ana Maria Costa. Também gostei do texto, claro.

E toda a ventura do mundo a D. Leo. Léo Menecucci tem curriculum, tem histórico. Acreditei mais nela ainda depois que vi suas posições sobre os direitos reprodutivos e ainda mais após a "Trolha de SumPalo" ter enquadrado-a – um verdadeiro banimento moral; a Trolha é o que é.

:-D

Morvan, Usuário Linux #433640.

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