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Álvaro dos Santos: Governador, é preciso virar a mesa


11/04/2012 - 21h42

por Álvaro Rodrigues dos Santos

Há poucos dias o governador Geraldo Alckmin deu surpreendente e reveladora declaração à imprensa: a prioridade do governo no combate às enchentes estaria em construir mais dezenas de piscinões e, através de operações de desassoreamento, transformar o Tietê também em um grande “piscinão”, recuperando sua capacidade de vazão de 2005, ano da conclusão das últimas obras de ampliação da calha, 1.048 m³ por segundo nas proximidades do Cebolão. Vazão, diga-se de passagem, já hoje insuficiente para dar conta do gigantesco volume de águas pluviais que aportam ao rio em episódios de chuvas mais intensas na região.

Primeiro, uma admissão da culpa direta da administração pública pelas enchentes que ocorreram nesses últimos anos, dada a voluntária interrupção do desassoreamento do rio e seus afluentes. Segundo, uma triste rendição do governo à continuada e incrivelmente equivocada estratégia de combate às enchentes que vem sendo há anos adotada pelo governo estadual e pelos governos municipais da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).

Estratégia a eles “vendida” por aqueles que arrogantemente e irresponsavelmente, e talvez interessadamente, insistem em afirmar que as enchentes somente serão evitadas com grandes obras hidráulicas bilionárias e com o espalhamento dos deletérios e caríssimos piscinões por toda a metrópole. Estratégia que, por segurança, adota também o esperto costume, induzindo os governantes a também adotá-lo, de culpar a natureza, o aquecimento global e São Pedro pelas chuvas que dizem sempre ser “anormais”.

Prezado Governador, nossas enchentes são decorrência direta e exclusiva de três fatores causais que têm marcado a história de nosso crescimento urbano:

1. a impermeabilização generalizada da cidade;

2. o excesso de canalização de cursos d’água;

3.e a redução da capacidade de vazão de nossas drenagens pelo volumoso assoreamento provocado pelos milhões de metros cúbicos de sedimentos que anualmente provêm dos intensos processos erosivos que ocorrem nas frentes periféricas de expansão urbana e pelo lançamento irregular de entulhos da construção civil e do lixo urbano.

Desde há muito impõe-se como um imperativo da lógica técnica uma nova estratégia baseada no esforço em se reduzir o impacto desses fatores causais. Ou seja:

1. revertendo a impermeabilização das cidades para que a região urbanizada recupere boa parte de sua capacidade original de reter as águas de chuva;

2. não mais retificando e canalizando cursos d1água;

3. e, concomitantemente,  promovendo um intenso combate técnico à erosão e ao lançamento irregular de entulho e lixo, com o que se reduziria o fantástico grau de assoreamento do sistema de drenagem.

Se com a adoção dessa nova estratégia algumas obras hidráulicas de maior porte eventualmente ainda se mostrarem necessárias, por certo serão de muito menor dimensão e de custos financeiros extremamente mais reduzidos. Como também serão de muito menor porte e custo as indispensáveis operações de desassoreamento.

Depois de décadas de contínua aplicação não cabem mais dúvidas, Governador, a atual estratégia de combate às enchentes fracassou fragorosamente em seus objetivos e promessas. A incrível insistência na manutenção dessa estratégia vem custando um altíssimo preço à sociedade paulistana.

Como na medicina, caro Governador, ouvir uma segunda opinião e atacar as causas da doença. Esperamos todos que não lhe faltem a coragem e o discernimento para tal decisão, pela qual os paulistanos lhe seriam eternamente agradecidos.

Géologo Álvaro Rodrigues dos Santos ([email protected]) é ex-diretor de Planejamento e Gestão do IPT e ex-diretor da Divisão de Geologia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo. É autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Cubatão” e “Diálogos Geológicos”.

Leia também:

Para Alckmin, “a culpa é das chuvas”





18 comentários

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Álvaro dos Santos: Estamos melhor preparados para enfrentar enchentes e deslizamentos? - Viomundo - O que você não vê na mídia

26 de dezembro de 2013 às 18h59

[…] Álvaro dos Santos: Governador, é preciso virar a mesa […]

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Marcelo de Matos

12 de abril de 2012 às 14h33

Por que o meu comentário foi glosado, ou grosado, o que dá na mesma. Parecia tão inocente, vejam: Estamos em um período pré-eleitoral. Portanto, não se assustem com a quantidade de obras virtuais que irão aparecer. A televisão irá mostrar o túnel ligando o Guarujá a Santos; o Bom Dia Brasil mostrou hoje o projeto do aquanel, um anel aquático que (sabe-se lá quando) irá ligar toda a grande São Paulo. Diante desses “projetos” o aerotrem do Levi Fidelix é fichinha. Serra é mestre nessas obras virtuais; Alckmin não fica atrás.

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RicardãoCarioca

12 de abril de 2012 às 11h22

O que está escrito naquela panfleto do governo tucano e onde posso ver uma versão ampliada do mesmo?

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Álvaro R. dos Santos

12 de abril de 2012 às 11h18

Minha expectativa ao elaborar esse artigo não foi pontuar uma crítica política ao govenador e aos seus antecessores. Ainda que, por óbvio, essa crítica política esteja contida no texto.
A expectativa maior foi colaborar no esforço de criarmos uma massa crítica técnica de tal porte e sustentação no meio profissional e técnico, diante da qual os governantes sintam-se politicamente compelidos a questionar e alterar sua conduta frente a esse crônico e trágico problema paulistano. Muito parecido, aliás, ao que ocorre em outras grandes cidades e metrópoles do país. Da mesma forma, informar aos cidadãos políticos de boa índole que há sim alternativas reais e eficazes para o enfrenrtamento das enchentes urbanas.
Em minha vida profissional e política aprendi uma lição fantástica: não há discurso político e ideológico que consiga substituir a competência e a seriedade científica e tecnológica no trato das mais variadas questões que afligem o cotidiano dos cidadãos.

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Jairo_Beraldo

12 de abril de 2012 às 10h55

Trolóló de tucano…blábláblá…nhénhénhén…tucanos só conhecem a linguagem da violencia. Trabalho não é a praia deles!

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Marcelo de Matos

12 de abril de 2012 às 09h47

Estamos em um período pré-eleitoral. Portanto, não se assustem com a quantidade de obras virtuais que irão aparecer. A televisão irá mostrar o túnel ligando o Guarujá a Santos; o Bom Dia Brasil mostrou hoje o projeto do aquanel, um anel aquático que (sabe-se lá quando) irá ligar toda a grande São Paulo. Diante desses “projetos” o aerotrem do Levi Fidelix é fichinha. Serra é mestre nessas obras virtuais; Alckmin não fica atrás.

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Aline C Pavia

12 de abril de 2012 às 09h18

Quanto dinheiro o sr. Alckmin e o sr. Serra já gastaram dos contribuintes paulistas, para não fazerem ABSOLUTAMENTE NADA em relação ao trânsito, à despoluição dos rios Tietê e Pinheiros, e às enchentes em SP? E o pessoal do "Cansei" e do "Neo-cansei" vêm falar em "impostômetro"?
Aquele dia que a Dilma reuniu 28 empresários para discutir medidas de estímulo à produção, à economia e ao comércio, o Skaf ficou bem quietinho e não tocou no assunto. Afinal, ele é da FIESP. Ou seja, não é nem empresário, nem político – quer dizer, não ajuda o país de nenhuma de duas formas, seja no serviço privado, seja no público. E ia pegar muito mal o cara do estado do "pedagiômetro" vir falar em "impostômetro" com Dilma reduzindo ou isentando uma penca de impostos em vários setores da indústria e do comércio…
Como diria o menino da "fumiguinha", "que dó, que dó, que dóooooo"

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Iracema de Alencar

12 de abril de 2012 às 09h12

agora me digam: a enchente é municipal, estadual ou federal????

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    RicardãoCarioca

    12 de abril de 2012 às 11h31

    É municipal. Mas se a prefeitura não tiver recursos (financeiros e de pessoal), deve recorrer ao estado; se o estado também não tem os recursos, pode apelar para o governo federal.
    Ou seja, se existe incompetência municipal, a bola será passada ao governo do estado e se este também for incompetente com este problema de enchentes, prefeito e governador poderão pedir pinico para o governo federal.
    Tendo a mídia comprada, via aquisição de milhões de reais e assinaturas dos seus impressos, prefeitos e governadores aliados dessa mídia só precisarão dar quatro telefonemas às famílias donas do PiG para que seus repórteres venham a campo colocar a culpa no governo federal. Fácil desse jeito.

Rodrigo

12 de abril de 2012 às 08h43

Bem coerente o texto. Um oásis no mar de panfletagem aqui.

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    RicardãoCarioca

    12 de abril de 2012 às 11h18

    Falou o planfeteiro.

    RicardãoCarioca

    12 de abril de 2012 às 16h17

    "planfeteiro", não. Havia escrevido rápido demais e nem percebi. Putz…

    RicardãoCarioca

    12 de abril de 2012 às 11h23

    Fala pra eles se é panfletagem:
    http://camposesilva.blogspot.com.br/2012/03/soluc

    Aline C Pavia

    12 de abril de 2012 às 11h49

    Então por que continua vindo? A porta da rua é a serventia da casa.

RicardãoCarioca

12 de abril de 2012 às 08h31

Aguardem os telejornais mostrarem sacos de lixo boiando na enchente enquanto o repórte colocar a culpa em você e não no prefeito que manda recolher o lixo apenas uma vez por semana e do governador que não se coça. Depois, em outra reportagem, dirão que você é a nata nacional, aquela que 'sustenta' o país e aí, com o orgulho massageado, votará no Serra.
Há mais de 20 anos é assim e só o despertar para a realidade fará a maioria dos paulistanos mudarem essa situação lamentável.

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Almeida

11 de abril de 2012 às 22h12

Mas se o Adolf Alckmin fazer tudo isso, quem vai pagar o leitinho das crianças de seus mui amigos empreiteiros?

Responder

    Silvio I

    11 de abril de 2012 às 23h38

    O Adolf não resolverá as enchentes com a PM?

    felipe

    12 de abril de 2012 às 14h51

    Alusão ao Hitler pode, produção?


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