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Álvaro dos Santos: Kassab perdeu chance de reduzir enchentes


09/03/2012 - 08h27

por Álvaro Rodrigues dos Santos

Em 9 de janeiro último o prefeito Gilberto Kassab  sancionou a Lei 15.442/2011, pela qual há um aumento das multas a serem aplicadas a proprietários ou locatários de imóveis cuja calçada frontal esteja esburacada ou deteriorada.

À primeira vista uma medida pertinente e politicamente simpática. Mas que, lida sob uma ótica um pouco menos simplista, revela o quanto o atual Prefeito está distante de conhecer a lógica das enchentes urbanas, que a cada ano assolam mais gravemente sua cidade, e o quão longe de um mínimo entendimento gerencial comum encontram-se as diferentes instâncias operacionais da Prefeitura Municipal.

Não há hoje a mínima dúvida sobre quais sejam as principais causas de nossas enchentes urbanas: a impermeabilização generalizada da cidade, o excesso de canalização de cursos d’água e a redução da capacidade de vazão de nossas drenagens pelo volumoso assoreamento de que são vítimas. Enfim, é muita água chegando em tempo muito curto ao sistema de drenagem. Por óbvio, a capacidade de vazão desse sistema não suporta tal sobrecarga hídrica e aí reside a origem elementar de nossas enchentes.

Diante desse inquestionável diagnóstico não há que haver dúvidas sobre a premente e escancarada necessidade de se concentrar todos os esforços em reverter a impermeabilização das cidades, fazendo com que a região urbanizada recupere ao menos boa parte de sua capacidade original de reter as águas de chuva, seja por infiltração, seja por acumulação.

Pois bem, tendo esse fato em conta, faz algum sentido nossas calçadas serem em sua quase totalidade totalmente impermeáveis? A cidade de São Paulo tem hoje cerca de 17 mil quilômetros de ruas. Obviamente, há nesse conjunto ruas e calçadas de todos os tipos, mas vamos considerar modestamente que em ao menos metade dessa extensão total haja condição de se implantar, sem prejuízo aos transeuntes, faixas ajardinadas permeáveis nessas calçadas (dois lados da via). Teríamos então algo como um incremento de cerca de 17.000.000 m2 de áreas urbanas francamente apropriadas para absorver e reter águas de chuva. Medida isoladamente suficiente para evitar enchentes?

Claro que não, mas que, se considerada como parte de um enorme conjunto de outras medidas não estruturais de mesma natureza, seguramente começaria a mudar a história desses graves fenômenos urbanos, agindo ainda como uma importante sinalização para a substituição da atual e trágica cultura técnica da impermeabilização pela cultura técnica de retenção de águas de chuva.

Que bela oportunidade o prefeito está perdendo com sua legislação simplória. Poderia, ao contrário, ao invés de estar pensando em multas, estar criando algum tipo de estímulo a proprietários ou locatários que, além de recuperar, ajardinassem suas calçadas. Com o que São Paulo muito lhe agradeceria.

Álvaro Rodrigues dos Santos é geologo, ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia, consultor em  Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente. É autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos” e “Cubatão”.

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24 comentários

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Marat

10 de março de 2012 às 20h59

Não adianta! Não consigo dissociar Kassab da personagem Crô da novela! A Tereza Cristina vocês já sabem quem é!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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edson

10 de março de 2012 às 15h27

Vamos colocar em pauta a Lei Ambiental Urbana seguindo as mesmas regras da Rural. Justificativa: o Todo pertence ao planeta e as nascentes, regatos(pequenos riachos) permanentes ou não e demais corredores d'água, várzeas, morros em 45° também estão presentes nos municípios, principalmente nas capitais desordenadas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

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Jairo_Beraldo

10 de março de 2012 às 10h33

Os políticos brasileiros são os mais católicos do mundo.Nunca assinam nada, sem ter um terço na mão.

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ricardo silveira

09 de março de 2012 às 22h40

Acorda, paulistano!

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aurica_sp

09 de março de 2012 às 22h31

" Multas a serem aplicadas a proprietários ou locatários de imóveis cuja calçada frontal esteja esburacada ou deteriorada". E quanto as ruas ***esburacadas e deterioradas***, multa-se quem Prefeito Kabessa ?? Ridículo !!!

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Regina Braga

09 de março de 2012 às 21h31

Kassab tbém poderia renunciar…e ninguém ia perguntar das enchentes.

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edson

09 de março de 2012 às 20h11

Não só Kassab, mas tbem o governo de São Paulo e o governo Federal. Primeiro, para resolver ou começar a movimentar nesse sentido, as universidades e institutos educacionais estaduais e federais deveriam ser levadas para o interior, de preferência para as pequenas cidades. Daí favoreceríamos a mobilidade urbana nas grandes cidades, uma vez que os alunos são em grande parte "culpados" pelos engarrafamentos e tbem favoreceríamos as economias das pequenas cidades que hoje estão em bancarrota a espera de ajuda $$$ dos estados e do governo federal.
Segundo, transformaria a marginal tietê em um corredor arborizado com parques e ciclovias e apenas uma pista de cada lado para o transporte público (BRT – Bus Rapid Transport).
Terceiro, levaria a rodoviária tietê para o anel rodoviário ligada a uma perna do metrô (a ser construído).
E quarto, bem, uma pergunta: Não é inconstitucional a nomeação de subprefeitos para as grandes capitais?? esses não deveriam ser eleitos pelo povo? Quanto ganha $$$ um subprefeito de São Paulo? Quantos cargos de confiança tem a sua disposição? cadê o Ministério Público?

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Francisco

09 de março de 2012 às 19h33

Abatimento no IPTU para quem plantar e/ou mantiver uma árvore. Abatimento no IPTU para quem mantiver um metro de área descoberta, mais "X" para quem mantiver dois metros quadrados, três, etc.

Reduz a temperatura média do microclima da cidade, PORTANTO reduz o uso de energia em refrigeradores de todo tipo, amplia o micro-ecossistema (pássaros, insetos, etc.).

Depósito residêncial ou comercial para agua fluvial? Mais estimulo. Telhado verde (gramado) ou branco (pintado)? Mais ainda (porque mais caro de fazer). O negócio é o seguinte:

Ter de explicar liberalismo para liberal é uma jabuticaba!

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Antonio C.

09 de março de 2012 às 16h49

Sinto-me envergonhado, pois o Álvaro Rodrigues dos Santos pensou o simples. É natural que a água, ao não encontrar local permeável, tende a correr para as bocas-de-lobo; se estão entupidas, enche; se não existem, enche; se são poucas, pode encher…Aquilo que deságua nos rios e córregos paulistanos é resultado daquela impermeabilização de um trecho seja lá de Itaquera, seja lá do Itaim Bibi… infelizmente, parece que o pessoal quer ver obra, máquina na pista, alvoroço, em vez de tomar iniciativas específicas que tenham impacto em um conjunto de medidas. É como aquela história do R$ 0,01: se você não quer, que você e mais 100 milhões de pessoas doem para mim: parece pouco, mas vejamos no conjunto.

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José Eduardo

09 de março de 2012 às 16h24

Ótima idéia! Pois além de reduzir o problema das enchentes as calçadas ficariam mais bonitas, e a sensação de calor que vem do solo nos dias quentes seria bem menor. Mas tragicamente a capital e, sobretudo, o Estado não são governados por gente preocupada com o bem-estar da coletividade. Muito pelo contrário, o único bem-estar que lhes interessa é o próprio e de seus bolsos sem fundo…

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Caracol

09 de março de 2012 às 12h56

Isso aí é uma estupidez mas serve pra enricar produtor de cimento. A Votorantim é paulista, né?

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Fabio_Passos

09 de março de 2012 às 10h36

A sugestão é ótima.
Todas as grandes cidades do Brasil já deveríam ter regulamentação p/ calçadas permeáveis. Já há materiais/soluções com viabilidade economica para este fim.

Em casos criticos como SP, deveria ainda avançar e definir legislação determinando % de área permeável em todos os terrenos particulares.

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EUNAOSABIA

09 de março de 2012 às 10h28

Isso é jardinagem, nada tem a ver, nem de longe mesmo com capacidade de atenuar algum tipo de enchente causada pelas chuvas, e por vários fatores, se fosse assim por exemplo, uma região rural sem cobertura asfáltica alguma ou massa de prédios não sofreria grandes danos com enchentes, e todo mundo sabe que não é o que ocorre.

Se sua solução para enchente for esta, ainda bem que não apitas nada em sampa.

Isso é jardinagem velho.

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    Elton

    09 de março de 2012 às 11h49

    Aham… Jardinagem!!!
    Outra coisa interessante é adubo! Experimenta colocar no capim que você come… Talvez fique mais inteligente.
    Este velho que você comenta é um Geólogo. E me desculpe, eu não sou Geólogo e concordo com ele. Talvez pelo fato de que eu consigo abstrair o obvio. Na verdade eu aprendi ler aos 7 anos, se você soubesse ler teria entendido a parte que diz:

    "Teríamos então algo como um incremento de cerca de 17.000.000 m2 de áreas urbanas francamente apropriadas para absorver e reter águas de chuva. Medida isoladamente suficiente para evitar enchentes? Claro que não,"

    Mas compreendo a sua dificuldade… Não é a toa que EUNAOSABIA… DAN…DAN…

    Fernando

    09 de março de 2012 às 11h56

    "Velho", você leu o texto?

    Kilimanjaro

    09 de março de 2012 às 12h45

    esse eunãosabia é mais burro que uma porta mesmo. Vai durmi!

Vinicius Garcia

09 de março de 2012 às 10h24

Enchente só dá aonde mora pobre, para que resolver então?

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    Marat

    10 de março de 2012 às 21h01

    O pior, Vinícius, é que a "gente pobre" continua vendo a Globo e ouvindo o discurso da Veja (e acredita), pela boca dos patrões!

Carlos

09 de março de 2012 às 10h08

Desde sempre a "Gestapo da casa daquela matriarca" só pensa nas pessoas como fonte de mais e maiores impostos?

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Neto

09 de março de 2012 às 09h46

Não só o Kassab. Os últimos prefeitos/governadores também perderam a chance de reduzir as enchentes.

Incentivo é só pro Itaquerão…

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RicardãoCarioca

09 de março de 2012 às 09h19

Nada a ver com o texto, mas cultura nunca é demais:
Ótica = relativo a audição; Óptica = relativo a visão. Erro recorrente no jornalismo que incomoda, ainda que perdoável pelo fato de muitos confundirem que o 'p' mudo de 'óptica' seja apenas uma forma antiga de escrever a palavra e abolida no penúltimo acordo ortográfico. Não é o caso dessa palavra. Muita 'ótica' por aí – lojas especializadas em vendas de lentes e armações para óculos – mal sabem quão errados estão seus letreiros… Outro erro recorrente do jornalismo é o 'patinar' no sentido de errático, quando o termo certo é 'patinhar' (oriundo do movimento de andar errático e desengonçado dos patos), porque 'patinar' é um termo até atônimo, pois tem a ver com velocidade, precisão e técnica.

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Alberto

09 de março de 2012 às 09h07

Concordo com a matéria. Existe também uma possibilidade de ao invés de asfaltar as ruas de bairros, poderia ser utilizado aquelas blocos de pedra, pois a manutenção é bem mais barata e aumentaria ainda mais a capacidade de absorção da água da chuva e isso não vale apenas para a Capital de SP, mas para qualquer cidade do Brasil.

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LULA VESCOVI

09 de março de 2012 às 08h36

De fora,leigamente,parece uma medida pra lá de paliativa.

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Noir

09 de março de 2012 às 08h33

E desde quando o Kassab teve intenção de reduzir as enchentes ? Isso nunca passou pela cabeça dele.
O Kassab não está alí para isso, ele tem outras coisas a fazer.

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