VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Paulo Moreira Leite: “Novo”, “velho”? Não vale fazer papel de bobo


14/07/2013 - 11h18


por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Procura-se minimizar o Dia Nacional de Luta convocado pelas centrais sindicais a partir de uma comparação cinematográfica com os protestos de caráter político ocorridos em junho. É uma comparação indevida. A nova moda ideológica é falar em “velho” e “novo.”

Aquelas mobilizações tiveram clara natureza política, apontando, difusamente, para autoridades constituídas – fosse o prefeito, o vereador, o guarda da esquina, o governador, a presidente da República e assim por diante. Eram formadas por uma massa de jovens, em sua maioria estudantes, com ideias diversas e até antagônicas.

Sua direção era semi-secreta, movimentando-se por sites, vídeos e blogs da internet. Havia anarquistas, libertários e fascistas, que chegaram a carregar faixas pedindo a volta dos militares ao poder. Vídeos com audiência nos milhões de pessoas pediram boicote a Copa e até a suspensão de investimentos no país. Interessada em manter Dilma Rousseff sob pressão, os grandes grupos de mídia adoraram. Divulgaram datas e locais dos protestos como se prestassem um serviço para shows e peças de teatro.

Os protestos trouxeram benefícios palpáveis, como redução nas tarifas. Também obrigaram as instituições políticas a responder a demandas há muito tempo ansiadas pela população. Mas também deram curso a atos de demagogia e grande oportunismo.

O Congresso Nacional transformou-se numa usina de projetos aprovados a toque de caixa, apenas para agradar a multidão. Uma das principais questões colocadas pelas ruas – uma reforma de fundo em nosso sistema político – pode ser destruída, ponto a ponto, em negociações destinadas a bloquear a participação popular nas decisões. Velho? Novo?

O Dia Nacional de Luta foi um ato das lideranças de trabalhadores, que, como apontou o jornal espanhol El País, pela primeira vez em 22 anos foram às ruas numa mobilização nacional para defender seus interesses e cobrar providências do governo. Não foi um grande espetáculo nem um ato de ruptura com o governo Dilma, como gostaria a oposição.

Mas foi um aviso definido numa situação bem específica.

Em vários pontos de São Paulo, viveu-se um clima de feriado – ainda mais notável porque as linhas de ônibus e o metrô funcionaram normalmente. Os protestos em grandes empresas, no Paraná, em Goiás, foram vigorosos entre categorias importantes.

Um ato reuniu 15 000 pessoas no Recife e 10 000 em Belo Horizonte. Ocorreram marchas em Cuiabá e em Brasília mas também em São Luís e Fortaleza. Quatro mil trabalhadores de São Bernardo do Campo desfilaram pela Via Anchieta. Se cabe registrar a denúncia de pagamento de ajuda de custo cachê recebido por manifestantes da avenida Paulista, convém não tomar a árvore pela floresta. A 25 de março, maior centro de comércio do país, foi paralisada, evento nada desprezível. O Rio de Janeiro assistiu a um protesto de 20 000 pessoas.

É preciso muito esforço para não enxergar sua importância – apesar da desvantagem numérica e da falta daquele glamour midiático de uma ação comandada por pessoas com menos de 24 anos.

No Brasil de 2013, os juros estão em alta, o crescimento econômico encontra-se em queda e os trabalhadores estão preocupados com o futuro de suas famílias. Ninguém sabe até quando o desemprego permanecerá baixo. Nem até quando os salários poderão subir sempre um pouco acima da inflação. Coisas “velhas”, com certeza. Mas imagine o “novo” que pode estar a caminho.

Antes de acreditar nos ideólogos que em menos de 24 horas descobriram a nova divisão do mundo e das pessoas, é bom lembrar que o trabalho assalariado não foi abolido, apesar do desemprego estrutural crescer em vários países e versões inesperadas de trabalho escravo terem surgido.

Ter um bom emprego continua sendo a principal referência de existência e conforto para a imensa maioria da população, ao menos enquanto o mundo viver sob regras da economia atual e não for possível criar uma sociedade do lazer ampla e irrestrita.

As questões deste universo, do trabalho foram colocadas pela manifestação de ontem. Nada “novo,” é verdade. Mas dolorosamente real.

Os sindicatos pedem atenção às aposentadorias, questão essencial num país em processo acelerado de envelhecimento. Também denunciam as políticas de terceirização, que ameaçam progressos históricos obtidos a partir da CLT. Não querem o “novo”, se isso significa criar um mundo pior que o “velho.”

Enfraquecer as organizações do movimento sindical de todas as maneiras constitui um objetivo estratégico do conservadorismo brasileiro desde 1954, quando Getúlio Vargas foi arrancado do Catete pelo tiro do suicídio. Essa meta alimentou o golpe de 1964, e, com todas as nuances e correções, encontra-se por trás de campanhas permanentes contra o sindicalismo brasileiro nos dias de hoje. Como a CLT foi assinada em 1944, é vista como símbolo do “velho.” Mas era o “novo” em relação a 1930, quando a questão social era “caso de polícia.”

Novo, velho? Não vale fazer papel de bobo.

Convém não esquecer que o atual governo não foi gerado em gabinetes da FIESP nem em piqueniques acadêmicos mas tem raízes nas greves de trabalhadores dos anos 70.

E é evidente que dividir e enfraquecer o movimento sindical será um objetivo essencial da oposição para 2014, quando se joga a sucessão presidencial de Dilma Rousseff, desde já a mais difícil disputa política para os trabalhadores desde 2002.

A principal crítica que se faz aos protestos foi ter, supostamente, um caráter governista, de quem teria sido cooptado pelo governo em troca de favores e presentinhos. Em tom de lamúria, lamenta-se que o sindicalismo tenha perdido a vocação “autêntica” para assumir velhas práticas de conciliação e submissão.

Numa versão verde-amarela da estratégia thatcherista de deixar as entidades sindicais sem recursos, estrangulando sua atividade com a falta de dinheiro, volta-se a criticar o imposto sindical, que todo trabalhador pode se recusar a pagar, sendo devidamente estimulado a fazer por funcionários de RH de grandes empresas.

Falar em “acomodação” e “peleguismo” é uma ação de fundo eleitoral, para ajudar aquele “novo” que ninguém sabe quem será. Tenta-se, com ela, esconder benefícios reais conseguidos nos últimos anos.

A maioria dos trabalhadores votou na eleição de Dilma em 2010, assim como assegurou as duas eleições de Lula. Obteve conquistas importantes, ainda que o país não tenha, obviamente, chegado ao paraíso.

A renda média do cidadão brasileiro continua muito baixa. O salário médio não permite à maioria dos brasileiros ter acesso a bens e confortos que são padrão neste início de século XXI.

A falta de qualidade nos serviços públicos atinge um padrão vergonhoso.

Apesar disso, na última década os trabalhadores conseguiram melhorias importantes, muitas inéditas. O desemprego caiu a um nível nunca visto. O salario mínimo não parou de subir. O emprego formal cresceu e a desigualdade regional diminuiu.

Apresentado como filantropia de fins eleitorais, o Bolsa Família nada mais é do que uma resposta dos poderes públicos à condição de miséria na qual sobrevivem milhões de famílias de trabalhadores sem emprego decente, sem estudo formal e sem qualificação profissional, a que todos deveriam ter direito.

O problema real é outro. Entregue aos solavancos e misérias do mercado, o mundo encontra-se em sua pior crise desde 1929. Em toda parte, conquistas históricas da se encontram sob ameaça – quando não foram simplesmente revogadas.

A regressão é geral e muita gente repete que não há outra saída. É o novo conformismo. Novo?

Este é o mal que ronda a Terra, como assinalou Tony Judt, um dos principais historiadores de nosso tempo.

O debate realmente novo é impedir este processo de chegar ao País.

A oposição, em suas várias faces e muitas máscaras, está pronta para cumprir seu papel. Recebe estímulos, favores e até carinhos. Fala através de eufemismos e encontra-se bem protegida.

Por trás dela encontra-se o rumo das conquista arrancadas depois de 2002 – e o que será feito com elas no pós-2014.

Este é o debate que o Dia Nacional de Luta colocou. Convém não desprezá-lo.

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28 comentários

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Cristiane Andriotti: O dial sob controle do mercado - Viomundo - O que você não vê na mídia

30 de julho de 2013 às 12h39

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Reforma: Deputados do PT condenam intromissão e se solidarizam com Fontana - Viomundo - O que você não vê na mídia

19 de julho de 2013 às 10h05

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Sede do jornal O Globo vai para a rua Leonel Brizola, 35 - Viomundo - O que você não vê na mídia

18 de julho de 2013 às 19h32

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18 de julho de 2013 às 02h10

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17 de julho de 2013 às 18h21

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maria bartolomeu

17 de julho de 2013 às 13h15

Bravo, Maria Mercedes,mas vai explicar isso aos hitlernautas que estão dizendo que o PT está dando um golpe comunista, e pedindo a volta dos militares em sites como o da OCC e o Moral Brasileira. A direita está chafurdando na NET como um porco no lodaçal, já que o governo e o PT não tomam a menor providência junto ao MInistério Público.

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Eloi Kirsten

15 de julho de 2013 às 19h22

“Imprensa cínica,parcial, manipuladora e corrupta acaba formando opinião pública tão vil quanto ela própria” Joseph Pulitzer
Esta frase, que tem mais de quarenta anos, aplica-se muito bem às atuais circunstâncias nas ruas do Brasil.

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Francisco

15 de julho de 2013 às 17h57

Se os sindicatos tivessem queimado uma foto 3X4 de Dilma, seriam o “novo”, o “pós-moderno”, o “cibernético” futuro.

Não fizeram.

Mas as fotos dos Marinho estão por ai, à disposção…

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Jose Mario HRP

15 de julho de 2013 às 07h37

Velhas mutretas…….

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Paulo Moreira Leite: “Novo”, “velho”? Não vale fazer papel de bobo | Irredutíveis Gauleses

14 de julho de 2013 às 21h50

[…] direção era semi-secreta, movimentando-se por sites, vídeos e blogs da internet. Havia anarquistas, libertários e fascistas, que chegaram a carregar faixas pedindo a volta dos […]

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Leandro_O

14 de julho de 2013 às 21h26

Em tempo: não é só serviços públicos que ficam a dever, mas também muitos serviços privados, inclua-se por exemplo as telefonicas!

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Ramalho

14 de julho de 2013 às 20h38

Andam a dizer, e tem gente boa nisso, que a “nova classe média” – isto é, pessoas que foram beneficiadas pelos governos do PT – foi às ruas querendo mais. Você acredita nisso? Eu não, e por vários motivos.

A nova classe média é assalariada, bate cartão de ponto, e, diferentemente de aposentados abastados, advogados, médicos, engenheiros, analistas de sistemas, professores universitários, estudantes universitários, pós-graduandos etc., não dispõe de tempo para ir a passeatas à tarde. Para ir a passeata, só estando em greve, pois, só assim, pode se ausentar do serviço.

A nova classe média não sofreu lavagem cerebral pois não tem hábito de ler “papo cabeção” da imprensa engajada e nem tempo para tal (quem diria que ácidos críticos da arte engajada – de esquerda – praticariam jornalismo engajado de direita com tanto entusiasmo e desfaçatez). Quem sofreu lavagem cerebral foi a velha classe média. Os que foram para as ruas defendiam bandeiras da imprensa engajada, outro indicativo de que não era a nova classe média que estava nelas, mas a velha.

Quem lê fóruns onde a caquética classe média se expressa reconhece o modus expressandi de seus membros nas manifestações. São ofensas às autoridades, desprezo pelo Brasil, manifestação de besteirol fruto de percepção deformada da realidade, elogio ao que é estrangeiro. O que se viu nas ruas, foi discurso idêntico, e este discurso não é, de forma alguma, da nova classe média; ao contrário, é da velha.

O vandalismo fascista que se observa no discurso da velha classe média quando se vai às chamadas redes sociais, blogs e fóruns de jornais engajados aconteceu nas passeatas. Isto não é definitivamente coisa da nova classe média, mas da caquética.

A verdade é que a velha classe média não aguenta mais a ascensão social de pobres, e seu levante nada mais é do que expressão de revolta contra ela. Não aguenta mais a perda de privilégios e, a bem da verdade, de alguns direitos (como, por exemplo, a deterioração das aposentadorias dos que ganham mais de 1 SM, a degradação do ensino público, o garrote dos planos de saúde). Não aguenta mais ver o pobretões, e não ela, no centro do discurso governamental (como prova o levante médico). Não quer mais pagar impostos (mas, paradoxalmente, não se queixa da sonegação – que ela também pratica – e do pagamento do serviço da dívida, por exemplo, que estão a inviabilizar o país).

A revolta que aconteceu vem sendo preparada diariamente pela imprensa engajada há, pelo menos, 10 anos. Alimentada com preconceitos, desinformação, mentiras, deboches, teses promotoras de egoísmo e, além disso, por ser incapaz de introjeção crítica, a caquética classe média por meio de seus jovens (que tristeza) desandou a fazer baderna pelo país afora, como se isso fosse resolver alguma coisa.

As manifestações não são da nova classe média querendo mais, como andam dizendo por aí, mas de revolta da velha classe média contra a nova e de condenação de um governo que fez pobres ascenderem à classe média. A nova classe média só tem a ver com elas por ser alvo que a velha quer destruir.

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    Jorge Vieira

    15 de julho de 2013 às 01h30

    Perfeito. Concordo plenamente. Acertou em cheio.
    O que pavimentou essas manifestações foi a brusca queda nos juros, que deu um tiro na velha classe média que vive de rendimentos em caderneta de poupança, cdb’s e títulos do tesouro, etc e o que detonou as manifestações foi a PEC das domésticas, que no imaginário da velha classe média retirou o seu poder de manter quase como escravas essas trabalhadoras.
    É óbvio que não se trata somente disto, mas as bandeiras que essa moçada que fica pendurada em redes sociais defende, como mais saúde e educação de qualidade e contra a corrupção, apesar de louváveis, não passam de uma cortina de fumaça, para aquilo que verdadeiramente se passa no imaginário da velha classe média: a sua perda de privilégios em face da ascensão da nova classe média.

    Rogério Braga

    15 de julho de 2013 às 18h40

    Perfeita a análise do Jorge Vieira. A PEC das domésticas “estressou” bastante a velha classe média. Pode até não ser uma coisa consciente, mas, no nível subconsciente, o que alimentava tanta raiva nos jovenzinhos de classe média que estava nas ruas em junho era o chororô e as lamúrias de seus pais em casa, em virtude da PEC das domésticas. O discurso de vítima de seus pais, dizendo que a PEC das domésticas vinha para “massacrar a classe média”, alimentava o sentimento de frustração e raiva dos jovenzinhos que foram às ruas, nem que tenha sido em um nível subconsciente.

    Isso se soma ao fato de que, hoje em dia, na maioria das famílias da classe média tradicional, os filhos que entram no mercado de trabalho recebem salários bem inferiores aos de seus pais, alimentando o sentimento de que nunca conseguirão ter o mesmo padrão de vida do papai, quando saírem de casa. Isso acontece, em parte, devido ao aumento do número de jovens provenientes das “classes inferiores” terminando o Ensino Superior e aumentando a concorrência no mercado de trabalho, o que reduz os níveis salariais de diversas categorias de nível superior. Exemplo clássico é a carreira de advogado, onde o aumento descomunal no número de bacharéis formados faz com que muito advogado hoje trabalhe pelo mesmo salário que um eletricista.

    Outro fator que eu acho que também deve ser levado em consideração, principalmente em relação aos transportes, é a profunda irritação de muitos jovens de classe média que passaram a vida toda indo pra escola particular de carona no carro do papai, ou então no transporte escolar contratado, e que quando passam no vestibular, e não ganham um carro de presente do papai, passam a ter que ir de ônibus para a faculdade. É um choque para eles, que nunca tiveram que andar de ônibus na vida, ter que passar diariamente pelo mesmo sufoco que a maioria dos alunos das escolas públicas passam desde os 10 anos de idade. Isso causa uma revolta imensa nesses jovenzinhos universitários de classe média.

    Claudio Freire

    15 de julho de 2013 às 09h42

    Também concordo plenamente com ambos.

FrancoAtirador

14 de julho de 2013 às 20h28

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Punição para os hitlernautas

Os hitlernautas não devem ser subestimados. É melhor que a sociedade os conheça. A apologia da quebra do estado de direito é crime e deve ser combatida com os rigores da lei. Cabe ao Ministério Público, com a ajuda da Polícia Federal, identificá-los e denunciá-los à Justiça, para que sejam julgados e punidos, em defesa da democracia.

Por Mauro Santayana*, na Carta Maior

Para quem acha que Dani Shwery, Thismir Maia e Carla Dauden são o máximo que a direita “espontânea” conseguiu preparar para mobilizar seus simpatizantes – no contexto do quadro reivindicatório das manifestações de junho – podemos dizer que entre os servidores do Google e da Microsoft e os mouses dos internautas comuns há muito mais coisas que a nossa vã filosofia possa imaginar.

Uma delas, ficou comprovado, é a espionagem norte-americana na rede, denunciada pelo agora foragido Edward Snowden.

O súbito aparecimento do fenômeno dos hitlernautas é outra – e esse é um fato que merece ser analisado. O hitlernauta, não é, na verdade, uma nova espécie no ciberespaço brasileiro. Ele sempre existiu, embora não fosse conhecido por esse nome. A questão é que, antes, os hitlernautas só podiam ser encontrados no seu habitat natural, em reservas quase sempre protegidas, e normalmente produzidas e consultadas apenas por eles mesmos.

Encontravam-se, assim, ao abrigo do navegante comum, como nos sites neonazistas, integralistas, da extrema-direita católica, ou que correspondem, no Brasil, a “espelhos” de certas “organizações” fascistas internacionais.

Nesses espaços, eles ficaram, por anos, alimentando suas frustrações, preparando-se para sair à luz do dia tão logo houvesse uma ocasião mais segura para se apresentarem ao mundo. A oportunidade surgiu no âmbito das passeatas de junho. Afinal, nessas manifestações, cada um podia carregar a mensagem que desejasse – desde que não fosse símbolo de partidos políticos.

Os hitlernautas, além de aparentemente apartidários, são, principalmente, anti-partidários. Assim, resolveram engrossar, a seu modo, a procissão mesmo sem conseguir indicar, com clareza, rumo ou andor que lhes valesse.

É fácil reconhecer o hitlernauta. Nas ruas, é o “careca”; o de cara coberta por um lenço; pela máscara do movimento anarquista; o que leva coquetel molotov de casa; joga pedra na polícia; agride violentamente o militante do PSDB, do PT, ou do PSTU que estiver carregando uma bandeira; quebra prédios públicos; arranca semáforos; saqueia lojas; põe fogo em carros da imprensa ou invade o Itamaraty.

Na internet, o hitlernauta é ainda mais fácil de ser identificado. É aquele sujeito que acredita (piamente?) que estamos vivendo a penúltima etapa da execução de um Golpe Comunista no Brasil. E que o Fórum de São Paulo é uma espécie de conclave secreto, destinado a dominar o mundo via implantação, no continente, de uma União das Repúblicas Socialistas da América do Sul.

O hitlernauta é o “anônimo” que, atuando no Exterior ou em nosso território, nos comentários, na internet, tenta convencer os interlocutores, de que as urnas eletrônicas são manipuladas; de que não existe oposição no Brasil, porque o PSDB é uma linha auxiliar do PT na implantação do stalinismo por aqui; que FHC é fabianista, logo, uma espécie de socialista a serviço da entrega do Brasil aos vermelhos; que a ONU é parte de uma conspiração mundial, e o único jeito de consertar o país é acabar com o voto universal, fechar o Congresso, dissolver os partidos, prender, matar, arrebentar e torturar, no contexto de novo golpe militar, sob orientação norte-americana.

No dia 10 de julho, os hitlernautas saíram às ruas, sozinhos, pela primeira vez. Segundo o portal Terra, fecharam a rua Pamplona, até a esquina com a Consolação, com a Marcha das Famílias contra o Comunismo, convocada nas últimas duas semanas pela internet.

O portal IG calculou, em cerca de 100 pessoas, o grupo que se reuniu no vão do MASP e marchou, com bandeiras, pedindo intervenção militar, até as imediações do Comando Militar do Sudeste.

No Rio, a convocação conseguiu juntar, frente à Candelária, trinta e poucos manifestantes, em cena em que se viam mais bandeiras e cartazes sobre as escadas do que pessoas para empunhá-los. Ao ver a foto da “manifestação”, muita gente os ridicularizou na internet.

Os primeiros desfiles das SA na República de Weimar também não reuniam mais que 30 pessoas, que carregavam as mesmas suásticas hoje tatuadas na pele dos skinheads presentes à Marcha das famílias contra o Comunismo, em São Paulo, no dia 10. As pessoas normais, ao vê-los desfilando nos parques, com os seus ridículos uniformes, acharam, na década de 30, que os nazistas eram um bando de palhaços. Eles eram palhaços, mas palhaços que provocaram a maior carnificina da História. Sob seus olhos frios, seus gritos carregados de ódio, milhões de inocentes foram torturados, levados às câmaras de gás, e incinerados, em Auschwitz, Maidanek, Birkenau, Dachau, Sachsenhausen – e em dezenas de outros campos de extermínio montados por ordem de Hitler.

Os hitlernautas não devem ser subestimados. É melhor que a sociedade os conheça. A apologia da quebra do estado de direito é crime e deve ser combatida com os rigores da lei. Cabe ao Ministério Público, com a ajuda da Polícia Federal, identificá-los e denunciá-los à Justiça, para que sejam julgados e punidos, em defesa da democracia.

*Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

(http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=6197)

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Lucinda

14 de julho de 2013 às 20h24

O quê vamos fazer com o ranço ideológico que domina a mídia brasileira, não sei se ela influencia ou reflete conceitos e preconceitos, ouvi pessoas jovens dizendo que o problema do Brasil é ter sido colonizado por portugueses, que coisa mais antiga e falaciosa. Não conhecemos nossa história, os jornalistas das mídias tradicionais destilam opiniões tão rasas, baseadas no preconceito, ou modismos a grande maioria deles deve estar sem entender os acontecimento e só fazem ler cartazes: abaixo a corrupção, mais saúde, mais educação, alguma segurança. Tenho medo dos discursos moralistas, as instituições (partidos, sindicatos, imprensa, judiciário, ministério público) estão enfraquecidas, lá veem o moralismo ocupando o vácuo. Não há coragem para enfrentar o velho ranço, o Brasil adquiriu certo grau de estabilidade financeira e política, mas temos medo da fragilidade desses ganhos, será que somos um povo acovardado, ou não temos mais modelo para copiar, afinal o mundo (EUA e Europa) está na corda bamba?

Responder

Felipe

14 de julho de 2013 às 18h25

http://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/14/as-manifestacoes-novamente-e-seus-comentaristas-e-observadores/

As manifestações, novamente – e seus comentaristas e observadores

Publicado 14/07/2013 por claudiowiller em Artigos, Opniões e Provocações. Etiquetado:anarquismo, Hakim Bey, manifestações. Deixe um comentário

Já havia comentado o acervo de informações reunido por Elizabeth Lorenzotti no Observatório de Imprensa:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_revolucao_sera_pos_televisionada

Não se deve, é observado, examinar fenômenos do século 21, relacionados à emergências de novos meios de comunicação, através de paradigmas do século 20. Diria que, em alguns casos, do século 19 mesmo. Gente discutindo mídias digitais sem, ainda, haver entendido as convencionais. Com dificuldade para assimilar sua natureza ambivalente. “Tem que dialetizar”: antigo chavão que se aplica a interpretações em circulação, incluindo restrições por adesão haver chegado a 80%, após cobertura da TV. Redes independentes foram decisivas para organização, mobilização e divulgação. Mídia corporativa foi atrás – se não fosse, espectadores mudariam de canal.

Tiveram repercussão reflexões de Marilena Chauí citadas no artigo de Lorenzotti. Diz que manifestações se tornaram espetáculo de massa, com a forma de um evento. E assumem uma dimensão mágica, pois seus usuários não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam. Sofismou. Se fosse para alcançar controle técnico e econômico do meio, sobraria pouco para expressar-se: mimeógrafos, cartas, “piche”, cordas vocais ampliadas por um megafone. No tempo da imprensa alternativa, o jornal era uma cooperativa, mas a gráfica não era nossa.

Postei recentemente algo de Hakim Bey. Para esse pensador, dimensão mágica seria qualidade. Defensor do ativismo cibernético, compara hackers e cyberpunks com antigas comunidades de piratas. Interessa-lhe, assim como a outros anarquistas, não a posse ou controle dos meios de produção, porém sabotá-los ou infiltrar-se neles.

Dimensão mágica? Julian Assange: nosso moderno Cagliostro – correndo o risco de ter o mesmo final, se o pegarem. Wikileaks, conjuração de magos. Membros das redes de comunicação independente baixam oferendas em praias, cachoeiras e encruzilhadas… Saravá.

Li todo o artigo de Chauí em Teoria e Debate, citado por Lorenzotti: http://www.teoriaedebate.org.br/materias/nacional/manifestacoes-de-junho-de-2013-na-cidade-de-sao-paulo?page=full

Defender ética na política, diz, é reprodução de linguagem midiática. A rejeição de partidos e “recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto indiferente à determinação de classe social”. Em outras palavras: as manifestações fogem ao paradigma da luta de classes. A mesma objeção do comunismo soviético à contracultura, aos beats, a outras rebeliões – exemplo, o maio de 1968 boicotado pelo Partido Comunista francês. Pouco importa que tais movimentos resultassem em avanços reais na liberdade de expressão, defesa do ambiente, da diversidade cultural, da diferença individual, do reconhecimento do corpo, entre outros. Conforme a versão determinista (e messiânica) do pensamento marxista, são questões para resolver depois da emancipação do proletariado, na sociedade sem classes.

Décadas atrás, Michel Foucault havia diferenciado o “intelectual universal’ (dono da verdade, entenda-se) do “intelectual específico” – em uma entrevista publicada em Microfísica do Poder, entre outros lugares. Os do tipo universal, parece-me, mostram dificuldade em interpretar a horizontalidade de novas mídias e movimentos, sem hierarquia, aparentemente difusos, sem partido político representando~e conduzindo a classe. Já protagonistas da contracultura como Timothy Leary e William Burroughs apresentaram-se na internet assim que foi implantada, de modo pioneiro.

Um belo exemplo de intelectual específico é a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha. Entende de índios. Havia divulgado no Facebook suas denúncias, em entrevista à Folha de S. Paulo, de que governo permite retrocesso inédito, desde o tempo dos militares, na defesa de povos indígenas. Reforçam o que afirmei em minha postagem anterior neste blog. Pela gravidade da questão, reproduzo aqui: http://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/13/que-as-manifestacoes-em-curso-incluam-em-sua-pauta-a-defesa-do-ambiente-e-dos-povos-indigenas/

Tenho mais sobre intelectuais e manifestações. Aguardem.

Responder

Abel

14 de julho de 2013 às 16h32

Ops! Uma correção: nenhum trabalhador pode recusar-se a que seja descontada a “contribuição” sindical, exceto se for profissional liberal (e mesmo estes devem pagar a dita cuja – voluntariamente ;). Como informa o site do Ministério do Trabalho e Emprego [http://portal.mte.gov.br/cont_sindical/]:

“A contribuição sindical está prevista nos artigos 578 a 591 da CLT. Possui natureza tributária e é recolhida compulsoriamente pelos empregadores no mês de janeiro e pelos trabalhadores no mês de abril de cada ano. O art. 8º, IV, in fine, da Constituição da República prescreve o recolhimento anual por todos aqueles que participem de uma determinada categoria econômica ou profissional, ou de uma profissão liberal, independentemente de serem ou não associados a um sindicato.”

Responder

Paz

14 de julho de 2013 às 14h18

Antes o salário mínimo não era suficiente para o alimento e a pessoa morava em malocas. Hoje há uma valorização do salário, mas isso não é suficiente, pois as pessoas pobres – após Lula – sairam da maloca da mente, e querem usar os canais abertos e ter mais oportunidades.

Na página Mercado do Estadão do domingo anterior consta que o mercado está de boca arreganhada para a graninha da classe média, suponho que a 1 e a 2, que continuará subindo. As espresas devem estar em 475 cidades médias se quiser abocanhar, dizia a metéria. Eles não mentem nesse quesito.

Responder

Hélio Pereira

14 de julho de 2013 às 13h31

A Direita Golpista se “assanhou” e seus partidários,que são fãs do antigo Régime Militar,convocaram uma manifestação no dia 10/07 as 17 horas na Avenida Paulista em frente o MASP,compareceram menos de 100 pessoas,mostrando a “Força” deste grupo.
Acho estranho que nenhum “analista Politico” tenha comentado um fato tão “marcante”.
Eu quero ver o PSDB/DEM e PPS convocarem a População defendendo mudanças no Brasil,duvido que coloquem mais pessoas na Paulista que este Grupo que defende o antigo régime Milico colocou em frente o MASP.

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Euler

14 de julho de 2013 às 12h52

Acho até engraçado alguém falar na tentativa da oposição de “enfraquecer os sindicatos”. O que enfraqueceu estas entidades nos últimos anos foi a sua burocratização pelega, tornando-se meras autarquias do estado. Que força real de mobilização dos trabalhadores tem esses sindicatos e suas centrais sindicais, que ficaram atreladas nos últimos 10 anos ao governo federal?

Essas entidades estão tão desacreditadas – com poucas exceções – quanto as demais instituições do país: legislativo, executivo, mídia, judiciário, partidos políticos etc. Foi contra essa enganação coletiva dos burocratas dessas entidades que milhões de pessoas saíram as ruas em protesto. Não importa que vários grupos ideológicos, mais à esquerda ou mais à direita, tenham tentado tirar proveito da situação. O fato é que houve um sonoro e vibrante aviso: há um vazio no cenário político brasileiro, marcado pela descrença nos principais agentes e beneficiários desse sistema.

E não adianta tentarem justificar o injustificável: o PT não é mais um partido comprometido com as lutas sociais dos de baixo. Abandonou as bandeiras de reforma agrária, de democratização da mídia, de valorização dos educadores e de uma saúde pública decente, entre outras. Tudo mais é discurso oco, de quem não quer enxergar a realidade. Tal como aconteceu em BH, quando o PT perdeu o governo para uma aliança com os tucanos, os maiores inimigos deste partido não foram as oposições, mas foi o próprio PT, com sua política cada vez mais fisiológica, omissa em relação às lutas sociais e conciliadora de classe com os interesses dominantes dos de cima.

O que deveríamos estar fazendo é discutir uma alternativa com esse movimento horizontal que ocupou as ruas, ao invés de tentar ressuscitar os defuntos presos às máquinas de partidos e sindicatos atrelados aos governos.

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Bruno Moura

14 de julho de 2013 às 12h39

Boas observações, mas essa frase chamou a minha atenção:

“O salário médio não permite à maioria dos brasileiros ter acesso a bens e confortos que são padrão neste início de século XXI”

Esta frase está equivocada. Cabe ao autor do texto melhorar um pouco sua observação da realidade das maioria das famílias trabalhadoras das periferias das cidades brasileiras.

Existe um verdadeiro tsunami de consumo nas periferias brasileiras, até mesmo nas favelas. A televisão de LCD de 32 polegadas com recepção de sinal digital em HD já se tornou lugar comum na favela. O telefone celular com câmera fotográfica embutida também já é objeto banal na favela. Os notebooks, netbooks e tablets, com conexão à internet, se espalham em velocidade vertiginosa pelas periferias, e chegam inclusive às favelas.

É preciso adentrar um pouco mais a favela, conversar com os moradores, entrar em suas casas, observar melhor a realidade, sob pena de se cair em análises equivocadas.

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    Waldinei

    14 de julho de 2013 às 12h59

    Ainda faltam serviços públicos de qualidade que ainda não subiram os morros e nem se espalharam pelas planícies. É a nova missão, urge começar. Sem esquecer, contudo, do aviso ao povo: cuidado com os idos de outubro de 2014.

    Paulo Agostinho

    14 de julho de 2013 às 13h24

    Nem toda a renda que aufere uma família de trabalhadores vem do salário de um único indivíduo. Todos trabalham quando há geração de empregos e eis porque mesmo sob salários médios baixos, uma família operária consegue diversificar seu consumo. Além disso, a mesma geração de emprego e renda faz expandir negócio adicionais, nem sempre formais (os famosos bicos), que também permitem ampliar o consumo das famílias

    Ricardo

    14 de julho de 2013 às 13h31

    Consumo simplesmente não significa qualidade de vida. O consumo é nada, o dinheiro é lastreado em nada, uma enganação em dólares. Todos escravizados pelas dividas e admiradores da própria chibata, a qual servem sem notar. Que tem a dor enganada pela tv nova com a novela do momento, e o pastor gritando para tomar dinheiro. E ainda se tem medo do “novo”. Essa geração tem outra visão do mundo, estamos entrando em um período que a abundancia pode ser para quase todos, e não uma pequena maioria. Caso a realidade não mude estamos fadados a um dstino de merda.

    Maria Mercedes Nobre

    15 de julho de 2013 às 10h34

    Não Ricardo, concordo com você que apenas o consumo não leva ninguém a nada. Do contrário os sacoleiros de Miami seriam as pessoas mais felizes, mais cultas e mais inteligentes do Brasil e os americanos seriam o povo mais respeitado, mais pacífico e mais bem resolvido do mundo. Mas que a vida no Brasil melhorou muito no Governo Lula disso ninguém duvida. Ainda é melhor morar numa favela com geladeira, ar condicionado, micro-ondas e um carrinho mil na porta, do que sem nada…


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