VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Paulo Kliass: Quando a sobrevivência básica é vendida como revolução


30/09/2012 - 14h30

Colunistas| 27/09/2012 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Quais são essas “vozes” da nova classe média?

Renda do capital ainda é renda do capital, assim como renda do trabalho continua sendo renda trabalho. Por mais que a remuneração mensal dos despossuídos tenha evoluído, o conceito de classes sociais e seus conflitos de interesses continuam valendo para a análise do modo capitalista de produção.

Paulo Kliass, na Carta Maior

A Presidência da República está colocando em marcha uma delicada operação política, que pode trazer conseqüências perigosas para a análise e a compreensão de nossa realidade social e econômica. Tudo começou com o anúncio, por parte da Secretaria de Assuntos Estratégicas (SAE), do lançamento de um novo programa, considerado prioritário no âmbito do governo. Foi batizado com o nome de “As Vozes da Classe Média”.

Em tese, nada demais a chamar atenção, não é mesmo? Afinal, esse tema da classe média tem ocupado as páginas dos grandes jornais de forma crescente, ao longo dos últimos tempos.

No entanto, vale a pena chamar a atenção para alguns elementos do entorno desse programa em especial e do simbolismo político envolvido com o fato. O atual titular da SAE é o dirigente do PMDB/RJ, Wellington Moreira Franco, que substituiu o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães desde o início do mandato da Presidenta Dilma. O órgão mais importante de sua pasta, porém, é o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), que era presidido desde 2007 pelo economista Marcio Pochmann, professor da UNICAMP e pesquisador crítico das correntes mais conservadoras dos vários campos das ciências sociais.

Sob tais condições, o ministro carioca pouco conseguia influenciar na política interna do instituto.

As mudanças na direção do IPEA: de Pochmann a Neri

Convencido a disputar a prefeitura de Campinas pelo PT, Pochmann pediu demissão do cargo e Dilma optou há poucos dias pela nomeação definitiva de outro economista: Marcelo Neri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ). Com esse passo, a avaliação reinante nos corredores do poder é que o conservadorismo tem todas as possibilidades de retornar às áreas dirigentes do IPEA.

Independentemente de sua competência técnica e suas qualidades profissionais, o novo presidente do órgão representa grupos e correntes ligados à ortodoxia econômica e à ressonância de todo o pensamento neoliberal em solo tupiniquim. Afinal, as posições da FGV são mais do que conhecidas nesse domínio.

O lançamento do novo programa “Vozes da Classe Média” é a perfeita expressão política de mais um movimento de mudança no interior do governo. Neri é um estudioso da questão da distribuição de renda e coordenou recentemente uma publicação chamada “A nova classe média – o lado brilhante da base da pirâmide”, onde todo o foco reside nessa suposta nova composição de classe social em nossas terras. Do ponto de vista político, o trabalho articulado pelo pesquisador da fundação carioca cai como sopa no mel para os dirigentes políticos governistas.

Tanto que a própria Presidenta fez referência pública ao autor, em um evento no Rio de Janeiro, ainda em abril passado, elogiando e recomendando a leitura da obra. Bingo: o recado político estava dado, para quem quisesse ouvir. Talvez tampouco seja mera coincidência o fato do PT não ter lançado candidato a prefeito no Rio de Janeiro e do governo federal apoiar o peemedebista Eduardo Paes, sempre ao lado do governador Sérgio Cabral, também do PMDB e muito prestigiado pelo núcleo duro de Dilma. O círculo se fecha.

Já Pochmann, havia lançado um livro com interpretação bastante diferente desse oficialismo chapa branca. A Editora Boitempo publicou há pouco a obra“Qual classe média?”, que chama a atenção logo de início pelo ponto de interrogação no próprio título. Como estudioso sério e crítico, o ex-presidente do IPEA lança uma série de indagações a respeito da suposta unanimidade em torno desse “novo” conceito de classe média. E demonstra que não se pode confundir a inegável melhoria nas condições de renda na base da sociedade com a transformação em sua estrutura de classes sociais.

Com a devida vênia de nossa Presidenta, eu recomendaria também a leitura do livro de Pochmann. No entanto, por se tratar de um estudo que não compartilha desse clima de oba-oba ufanista e irresponsável, ele não é tão útil nem funcional para alavancagem da política governamental no varejo e no cotidiano. Afinal, a honestidade intelectual exige alguns “poréns” e algumas observações de reparo metodológico. Xi, lá vem o chato do Paulo Kliass outra vez… Pois é, são os ossos do ofício!

“Voices of the poor” e “Vozes da classe média”: do Banco Mundial à SAE

Em sua apresentação oficial, está dito que o programa “Vozes da classe média” pretende servir como parâmetro para a elaboração de políticas públicas pelo governo federal. Talvez não seja por outra simples coincidência que ele tenha recebido esse nome. Na verdade, trata-se de uma quase versão para o português de um conhecido programa do Banco Mundial lançado lá em 2000, na virada do milênio, que é chamado de “Voices of the poor” (Vozes dos pobres). Era uma tentativa de ouvir e estudar o fenômeno da pobreza ao redor do mundo, incluindo países como Brasil, Etiópia, Índia, Indonésia, Uzbequistão, entre outros.

Mas para além desse vício de paternidade, o caminho que o governo pretende adotar agora contém graves equívocos metodológicos. Como a idéia é sempre elogiar o suposto sucesso da política de melhoria das condições da população da base da pirâmide, entra em marcha um verdadeiro “vale-tudo” no sentido de organizar, rearranjar e espremer os números e os dados estatísticos. O objetivo é oferecer resultados convincentes e belas conclusões. Tudo perfeito e adequado para o recheio do discurso oficial, a ser faturado politicamente.

Parte-se de um fato inegável: ao longo dos últimos anos, a política de transferência de renda (via programas como Bolsa Família) e a política de valorização do salário mínimo foram o carro chefe de uma transformação significativa nas condições da população mais pobre em nosso País. Com elas vieram também a ampliação dos benefícios concedidos pela previdência social, a melhoria das condições no mercado de trabalho e o acesso ao crédito.

No entanto, também é amplamente reconhecido que a política econômica desse período continuou a favorecer e beneficiar as camadas mais ricas de nossa sociedade, por meio da política de juros elevadíssimos (que só começou a mudar no último ano), das isenções fiscais, das desonerações tributárias, da ampliação da privatização e toda a sorte de benesses dirigidas ao capital em geral e ao setor financeiro em particular.

Assim, apesar de ter ocorrido uma melhoria na distribuição na base da sociedade, o restrito topo da pirâmide foi ainda muito mais beneficiado. E como os níveis da desigualdade e de concentração são muito elevados, o aspecto significativo seria analisar o que ocorreu com os 0,5% mais ricos na comparação com os 99,5% restantes.

Se pegarmos faixas amplas com os 10% ou 20% das famílias com maior renda, estaremos misturando alhos com bugalhos e as conclusões serão, obviamente, apressadas e equivocadas. Isso porque os dados utilizados vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, onde apenas uma pequena amostra do total das famílias responde a um extenso questionário de forma voluntária. Com isso, os domicílios familiares de renda mais elevada tendem a subestimar as informações fornecidas a respeito dos valores e das fontes de seu rendimento efetivo.

Os números do programa e as conclusões equivocadas



De acordo, com o programa “Vozes da classe média”, os limites para fazer parte desse novo recorte de “classe” são os seguintes: de R$ 291 a R$1.091 como renda mensal familiar per capita. Dessa forma, as conclusões são uma maravilha! Mais de 50% da população brasileira estão nesse perfil – um total superior a 100 milhões de pessoas.

Então, vamos lá verificar – na realidade concreta da vida real — quem está enquadrado dentro dessa inovadora definição de “nova classe média” e quem já está recebendo uma renda tão elevada que está até acima desse nível, passa a fazer parte das elites, da classe alta.

Consideremos o caso de um jovem casal, sem filhos. Um dos cônjuges recebe um salário mínimo e o outro está desempregado. Sua renda mensal é de R$ 620, o que nos permite concluir uma renda per capita de R$ 310 a cada 30 dias. Imaginemos ainda que seus vizinhos sejam um casal com 2 filhos, onde os pais trabalham e recebem cada um deles salário mínimo também. A renda mensal da família é de R$ 1.240, com uma renda per capita de R$ 310, como no caso anterior. Vejam que ambas as famílias são integrantes da “nova classe média”, pois estão acima do patamar mínimo de R$ 291, o que lhes permitiria a chave de acesso ao paraíso do consumo, segundo as capas das revistas semanais penduradas nas bancas de jornal.

Pouco se fala a respeito da qualidade dos serviços públicos que recebem, como saúde, educação, saneamento, transporte público, etc. O que importa é a renda auferida. 

Cabe ao leitor optar: o estabelecimento arbitrário desses valores seria ato de ingenuidade ou de maldade? Afinal, não é lá muito difícil contabilizar os níveis de despesa mensal dessas unidades familiares: o transporte coletivo numa grande cidade; o aluguel de moradia em péssimas condições; as contas de água, luz e telefone celular; o gás para cozinha; as compras de cesta básica e seus complementos; etc.

Ora, o retrato é de uma sobrevivência nesse nível básico, que não permite quase nenhuma capacidade de poupança, nem o usufruto das boas condições de vida. Quem teria a coragem de afirmar que esses indivíduos seriam integrantes da “nova classe média”?

Em sentido oposto, Pochmann nos oferece uma interessante reflexão a respeito do fenômeno, na apresentação de seu livro: 

”O adicional de ocupados na base da pirâmide social reforçou o contingente da classe trabalhadora, equivocadamente identificada como uma nova classe média. Talvez não seja bem um mero equívoco conceitual, mas expressão da disputa que se instala em torno da concepção e condução das políticas públicas atuais”.

Por outro lado, tão ou mais impressionantes são as conseqüências da definição casuística do limite superior para o enquadramento em “nova classe média”.

Imaginemos outra vez a situação de um casal típico de assalariados, com um filho. Ele acabou de conseguir um emprego numa empresa automobilística no ABC e recebe o piso da categoria. Ela é empregada de um banco e também recebe o piso salarial assegurado pelos acordos dos sindicatos com a FENABAN. A renda mensal do trio familiar supera R$ 3.300, com um equivalente per capita superior aos R$ 1.091 do programa oficial do governo.

Dessa forma, a conclusão é assustadora: pasmem, mas essa família de trabalhadores não seria mais integrante da “nova classe média”. Em função dessa “estupenda” remuneração mensal, eles já teriam sido alçados à condição da elite, fazem parte das classes altas da sociedade brasileira! Uma loucura, para dizer o mínimo!

Trabalhadores ou classe média?



As políticas desenvolvidas ao longo da última década contribuíram para a melhoria das condições de vida da maioria da população. No entanto, o elevado grau de desigualdade social e econômica nos coloca ainda entre os países mais injustos do planeta. Assim, não se “acaba com a pobreza” da noite para o dia, apenas com uma canetada, estabelecendo um limite arbitrário de renda de forma injustificada. O caminho é longo e passa pelo aprofundamento das políticas de distribuição de renda.

Não será por força dos limites quantitativos constantes de um eventual Decreto que o Brasil amanhecerá menos pobre ou menos injusto.

Reconhecer as significativas transformações ocorridas com a população de menor renda em nosso País ao longo dos últimos 10 anos não nos permite tentar avançar na deturpação dos dados da realidade. Não se pode ser conivente com a utilização política e eleitoral de informações viesadas, com o fim exclusivo de propiciar análises encomendadas para usufruto do governo de plantão.

Renda do capital ainda é renda do capital, assim como renda do trabalho continua sendo renda trabalho. Por mais que a remuneração mensal dos despossuídos tenha evoluído, o conceito de classes sociais e seus conflitos de interesses continuam valendo para a análise do modo capitalista de produção.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

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24 comentários

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Fabio Passos

01 de outubro de 2012 às 21h59

Preocupante a mudança no IPEA.

Responder

Indio Tupi

01 de outubro de 2012 às 14h22

Aqui do Alto Xingu, os índios informam que esse assunto já foi abordado com toda a propriedade no recente livro “Os sentidos do Lulismo”, de André Singer (Companhia das Letras).

Resumidamente, nos governos Lula e Dilma, boa parte dos excluídos tornaram-se subproletários, boa parte dos subproletários tornaram-se proletários, boa parte dos proletários melhorou de vida, a tradicional classe média continuou algo estável e a minoria rica teve sua renda também ampliada, mas não como no passado, graças aos juros reais declinantes mas ainda altos — embora inequivocamente em queda, de 18,32% a.a., em média, ao longo do governo de FHC, para algo em torno de 2% a.a. neste ano.

Quem quiser se informar mais é só comprar o livro do Andre Singer e ler, pois os índios, agora, vão pescar.

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Almir

01 de outubro de 2012 às 09h02

Querem saber de onde vem essa nova classe média? Ora, esse segmento nada mais é do que a 1ª leva de beneficiários do Bolsa-Família, a quem os burguesóides estúpidos chamavam de “escola da vagabundagem”.

Mas – perguntam os estúpidos – como é que tanta gente saiu do BF, se o número de beneficiários só cresce?

Ora, porque na fase inicial do Programa, não foi possível chegar com a assistência a todos os necessitados. A necessidade dessas pessoas era a mais básica de todas as necessidades: alimento, comida mesmo, tipo café almoço e jantar. A miséria era tamanha (equivalente a uns 10 Haitis), que os pobres, de tão pobres, eram invisíveis até para as estatísticas. Na fase atual, o (grande) número de pessoas que saem ainda é ligeiramente menor que os borbotões que entram.

Satisfeita a mais básica das necessidades (alimento), essas pessoas agora precisam e querem mais: saúde, educação, segurança, emprego, moradia digna etc. Daí que vieram o FUNDEB, o PROUNI, o ENEM, os novos CEFET, as cotas, as novas Universidades, o Minha Casa Minha Vida…Claro que ainda é pouco, mas pelo menos algo já está sendo feito.

Mas, para os estúpidos, nem desenhando eles vão entender.

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Marcos W.

01 de outubro de 2012 às 06h12

E no “modelito” que o articulista parece sugerir eu não precisaria trabalhar?! E ganharia um baita salário?! É dizer e serei um modesto combatente em favor da revolução!

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assalariado.

01 de outubro de 2012 às 00h07

Mais uma análise para colocar no devido lugar a manipulação da social democracia petista sobre conceito de classe média que, partindo de uma soma de despesa minima necessária para sobrevivencia de um assalariado.

Esta aqui a explicação: Salário mínimo nominal: R$ 622,00 e o salário mínimo necessário, segundo o DIEESE: R$ 2.589,78

Salário minimo de acordo com o preceito constitucional “salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo, vedada sua vinculação para qualquer fim” (Constituição da República Federativa do Brasil, capítulo II, Dos Direitos Sociais, artigo 7º, inciso IV). Foi considerado em cada Mês o maior valor da ração essencial das localidades pesquisadas. A família considerada é de dois adultos e duas crianças, sendo que estas consomem o equivalente a um adulto. Ponderando-se o gasto familiar, chegamos ao salário mínimo necessário.

O endereço é este, esta no rodapé desta pagina:

http://www.dieese.org.br/rel/rac/salminMenu09-05.xml

Responder

J Souza

30 de setembro de 2012 às 19h07

Tem “ingrato” que reclama de “barriga cheia”…
Esses R$ 291,00 por pessoa permitem a esta:
– comer,
– pagar sua parte no aluguel ou na prestação da casa própria,
– pagar seu plano de saúde,
– pagar a escola particular dos filhos,
– comprar roupas,
– pagar a prestação do carro,
– pagar a gasolina, e
– ainda dá para jantar fora uma vez por semana!
Ou seja, dá para satisfazer todo o sonho de consumo da classe média!

É tanto dinheiro que o governo deveria cobrar imposto de renda de pessoas com essa faixa de renda, já que são da “classe média”.

Já que o negócio da SAE é humor…
“Governo Tabajara. Seus problemas acabaram!”

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JoãoP

30 de setembro de 2012 às 16h51

Muito bem escrito, didático e ajuda a melhorar nossa capacidade de entender a realidade brasileira. Parabéns Paulo Kliass.

Responder

Otaciel de Oliveira Melo

30 de setembro de 2012 às 16h47

CAPITALISMO É ISSO AÍ
Por Otaciel de Oliveira Melo

Por acaso eu estava ontem falando sobre consumo com um “amigo”. Ele trabalha na Caixa Econômica e falava do tempo em que uma parcela da população colocava meia sola no par de sapatos. E disse que só tinha um relógio, dois pares de alpercatas, três pares de sapatos e camisas e calças para trabalhar. Mas que dormia tranquilo por não dever nada a ninguém.

Eu disse então que ele era um péssimo capitalista, pois capitalismo é sinônimo de consumo, mesmo daquelas coisas que nós não precisamos. E no capitalismo de mercado, você é o que consome e o que deve. Sem consumir e dever você não é nada.

Ele disse também que só tinha um cartão de crédito e que raramente o utilizava. “ Que absurdo!” – eu exclamei. E perguntei: “você é do tempo em que se pagava as compras com dinheiro vivo? Você não tem medo de ser assaltado e morto numa saidinha bancária?”

E faz quatro anos que ele está com o mesmo carro. Quando ele me disse isso eu pensei: “vou acabar a amizade com esse cara agora mesmo; ele deve ter um parafuso frouxo na cabeça”.

Falamos também sobre hábitos de higiene. Para ele, basta tomar banho com sabonete e usar desodorante. Sobre marcas de perfumes famosos, ele não soube me citar uma sequer, nem mesmo a do Antonio Banderas. Além de péssimo capitalista, o cara é totalmente desinformado. E fedorento.

Mas o cara tem uns hábitos meios estranhos e eu descobri que ele gasta dinheiro com a compra de livros. E eu perguntei: “qual é o canal de televisão que faz propaganda de livros?” Ele não soube me responder, o que prova definitivamente que ele é um sujeito completamente desinformado.

Os filhos dele parecem uns mendigos.
A filha não tem sequer uma blusa de grife, e ele me perguntou que diabo era grife. “Grife – eu lhe respondi com muito boa vontade – é uma etiqueta ou um pedacinho de pano que um estilista famoso coloca numa roupa, numa bolsa ou num sapato, por exemplos, para vender estes produtos pelo quíntuplo do preço que de fato eles valem.” Ele disse então que desde que morava com os pais usava uma marca de confecção conhecida por “mamãe”. Mas como sua genitora havia morrido há algum tempo, sua esposa havia assumido a confecção de todas as roupas da família. Então eu exclamei: “Meu Deus! Você age como um pobretão! E exatamente você, um alto economiário, que deve ter uma linha de crédito exclusiva, a juros de pai para filho, para fazer o que bem quiser com uma quantia quase que ilimitada de dinheiro…”

Depois, o assunto começou a ficar desinteressante. Ele começou a falar da crise na Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido, Irlanda, etc., e eu irritadíssimo com o assunto, perguntei:”você sabe o porquê de tudo isto está acontecendo na Europa? Porque pessoas muquiranas como você guardam quase todo o dinheiro que ganham debaixo da cama sem nenhuma preocupação com o emprego dos trabalhadores no mundo inteiro.”

E sai daquela visita puto da vida. Mas agradecendo a Deus por ser um ser humano completamente integrado à sociedade de consumo.

Responder

    rita

    30 de setembro de 2012 às 23h09

    adorei o texto¹

    Dialética

    01 de outubro de 2012 às 12h26

    Sim. Se são dados, o governo não os inventou. O IPEA constatou.
    Em geral precisamos apertar a Presidenta a nosso favor.Banqueiros sempre fizeram isso.Presidencia de país deve ser um stress bárbaro, e ela depende muito de assessorias e nem todas confiáveis como sabemos.
    cadê a nossa pressão? Vamos lá…. Mas vamos apoiá-la também.

    Sobre o consumo exagerado, e capitalismo. Não acho que o post do leitor tenha qualquer validade, mormente nestes tempos em que capitalistas famosos perderam a carteirinha, ao menos pra mim.E os maiores consumidores já não tenham essa condição.Verdades definitivas num post? Francamente: Tô fora!

francisco pereira neto

30 de setembro de 2012 às 16h31

Eu não sei onde o autor quer chegar e muito menos o que quer dizer.
Não foi o governo que veio com essa história de ascensão à classe média de mais de 40 milhões brasileiros.Foram os meios de comunicação que assim rotularam.
Seria muita burrice o governo não aproveitar essa onda. Ou voce queria que o governo viesse a público e desmentisse o que vem sendo noticiado?
O que de fato o governo Lula fez e Dilma continua fazendo, foi tirar esses mais de 40 milhões de brasileiros da pobreza. Esse é o fato concreto.
Qualquer um com pouquinho de inteligência sabe disso, e não precisaria voce escrever essa matéria para nos avisar que o governo está deliberadamente comentendo um engodo. Está apenas aproveitando uma onda favorável, num oceano de idiotices e críticas.
Parece ser um programa fácil de implementar, mas ninguém anteriormente tiveram disposição ou vontade de fazer. Enfim bastava reservar cerca de 15 bilhões de reais do orçamento para por em prática esse programa. Mas ninguém fez.
Lula com todas as críticas inimagináveis fez. E logo vieram as críticas da oposição, da mídia e das elites afirmando que se tratava de bolsa esmola, bolsa vagabundagem etc.
Esse é um artigo plenamente descartável e vazio.
Existem temas muito mais complexos para serem discutidos.
É pior do que comparar com a expressão chover no molhado.

Responder

    rodrigo

    30 de setembro de 2012 às 17h01

    Francisco, já que você acha que a proletarização forçada pela política de “nova classe média” é balela, já que você acha que o artigo não tem nada a acrescentar, que tal questionar o incentivo fiscal do governo pras indútrias de armamento? Você acha construtivo?
    Em tempo, esses quarenta milhões de pessoas conseguem planificar o restante de suas vidas com base nessa nova política de distribuição de renda? O empresariado multinacional distribui renda? Esses mesmos quarenta milhões de pessoas são capazes de não depender totalmente de meios de produção alheios?

    francisco pereira neto

    30 de setembro de 2012 às 19h37

    Não só acho construtivo, bem como acho que o Brasil deveria construir sua bomba atômica. Afinal de contas é notícia corrente que a 4ª frota norte-americana fica rondando a AL. Claro, nós temos uma grande reserva de petróleo em pleno oceano Atlântico. Quem acredita nas 500 milhas? Voce acredita? Eu não acredito.
    Voce Rodrigo anda muito apressadinho. Afinal de contas são só quase dez anos de um governo trabalhista. Voce queria o que? Que num passe de mágica o país saisse de uma horrorosa concentração de renda para um patamar da Suécia?

    rodrigo

    30 de setembro de 2012 às 22h34

    Na verdade eu não esperava nenhum passo atrás, não esperava a explosão de interesses internacionais especulativos como está acontecendo, não esperava que fossem mudar os rumos da incipiente socialização iniciada há dez anos atrás, não esperava nenhum alinhamento com o discurso diplomático norte-americano (nem por medo), não esperava que dessem vazão a um projeto hidrelétrico que nem a milicada teve coragem de fazer de tão destrutivo. Aliás, falando em milicada sinto muito, como ser humano, que você seja a favor da bomba atômica, sinto muito se você não consegue enxergar toda a problemática social que o militarismo traz às sociedades ocidentais (quanto mais às sulamericanas) desde sempre. Sinto muito que alguém estudado e culto como você não possa enxergar o que a SAE fez com a sociedade brasileira em âmbito geral só com as diretrizes políticas expostas nessa idéia.

    assalariado.

    30 de setembro de 2012 às 23h33

    Francisco Pereira, eu sei onde o autor deste post quer chegar, a partir do momento em que faz, comparações de um mesma tese/ referencia (‘nova classe média’).

    O Sr. Kliass deixa claro neste paragrafo do post: “Já Pochmann, havia lançado um livro com interpretação bastante diferente desse oficialismo chapa branca. A Editora Boitempo publicou há pouco a obra “Qual classe média?”, que chama a atenção logo de início pelo ponto de interrogação no próprio título. Como estudioso sério e crítico, o ex-presidente do IPEA lança uma série de indagações a respeito da suposta unanimidade em torno desse “novo” conceito de classe média. E demonstra que não se pode confundir a inegável melhoria nas condições de renda na base da sociedade com a transformação em sua estrutura de classes sociais.”

    Ou seja, precisamos ser sinceros/ criticos para com o povo na leitura de que existe uma ‘nova classe média’. E você, na cara dura diz: “Qualquer um com pouquinho de inteligência sabe disso, e não precisaria voce escrever essa matéria para nos avisar que o governo está deliberadamente comentendo um engodo”.

    Ora, então voce sugere que o governo dos ‘trabalhadores’ abrace este engodo que ele mesmo criou e que, a imprensa burguesa veio e abraçou está idéia de ‘classe média’ e não o contrário, como afirmas. Mesmo porque seria suicidio politico para as elites do capital, reconhecer de primeira que um presidente ‘analfabeto’ tivesse conseguido esta proesa.

    Abraços.

    francisco pereira neto

    01 de outubro de 2012 às 00h13

    É claro que Pochmann está certo quando declara que classe média é essa.
    O que eu quis dizer, e está bem claro, é que esses 40 milhões de brasileiros sairam da pobreza e não ascenderam à classe média.
    O governo sabe muito bem que esse pessoal não são classe média. O governo apenas faz uso dessa retórica, que não foi ele quem inventou. Ou voce queria que ele viesse a público e dissesse: não gente, esse pessoal não ascenderam à classe média.
    Enfim, o que vale mesmo é que esse contingente melhoraram de vida. É o ideal? Lógico que não. Mas que deram um importante passo à frente, isso é inegável.

    francisco pereira neto

    01 de outubro de 2012 às 00h39

    Rodrigo
    O interessante é que são os EUA que ficam metendo o bico, vetando, pressionando os países com potencial para construir suas armas nucleares. No entanto, foram eles os primeiros que usaram duas bombas atômicas como testes reais com vidas humanas de Hiroshima e Nagasaki.
    Todo mundo sabe que não havia necessidade do uso desse arsenal, mas eles usaram para ver o estrago. Só eles fizeram isso, e não se arrependeram.
    Após esse episódio, os EUA como os “donos” do mundo se aventuraram em outras guerras. Coréia, Vietnam, Afeganistão, Iraque e outras invasões em países menores. No embate com Coréia, Vietnam, Afeganistão e Iraque perderam e estão perdendo nos dois últimos. Sem contar que sairam correndo como baratas perseguidas a chineladas do Vitnam. Porque não usaram e nem cogitam usar arsenal atômico? Por que agora existe equílibrio. Exitem outros países com as mesmas armas. Porque os EUA não põe a cara com o Paquistão ou com a India? Israel pode ter bomba atômica! Os palestinos não! Infelizmente o equílibrio se dá usando a força. E se o Brasil quiser ser potência, não pode abdicar dessa arma.
    Essa é a realidade.

    rodrigo

    30 de setembro de 2012 às 23h56

    E um pequeno PS:
    A Suécia social democrata, o wellfare state sueco, não é mais o mesmo há tempos e mesmo a idéia da Suécia como nação soberana deu um escorregão ultimamente. Basta ver o que a pressão das indústrias fonográfica e cinematográfica norte-americanas fizeram com relação à legislação sueca referente a patentes e internet.
    Ou como diz meu irmão mais velho, que ficou morando por lá, tudo quanto é política vem de Estocolmo, não há poder de decisão profunda e própria no restante do país.

    francisco pereira neto

    01 de outubro de 2012 às 12h59

    Rodrigo
    Coincidência ou não, voce viu a manchete principal do blog?
    Não sei se o Azenha foi buscar deliberadamente essa matéria para postar como manchete. Não quero ser pretencioso. Mas essa entrevista dá todo o respaldo sobre o que eu escrevi.
    Voce acha que os milicos não tiveram coragem de fazer usinas hidreléticas na Amazônia legal porque eles não quiseram? Ledo engano seu. A prova contrária do que voce fala foi a construção da Transamazônica. Isso sim foi o maior crime ambiental. Uma estrada que leva o nada para lugar nenhum. Foi a época do Brasil “potência” que eles venderam para a maioria do nosso povo sofrido e ignorante que dava 90% de audiência assitindo a Globo veiculando propaganda enganosa do regime militar, especialmente o abominável Amaral Neto O Repórter. A minoria informada e resistente ao regime militar deu a alcunha ao ilustre labe-botas dos milicos de Amoral Nato. Não sei a sua idade e nem sei se sabia disso. Meu filho, apesar dos pesares, não queira comparar o país de ontem sob o comando dos vendilhões até os anos FHC, com os dos governos Lula e Dilma.
    Para se fazer um país justo, não precisamos de governantes heróicos. Precisamos sim de um povo heróico. E estamos apenas dando os primeiros passos. Se isso vai continuar, só vai depender de nós brasileiros de alma, porque de fachada, nós estamos cansados e sabemos quem são.

    rodrigo

    01 de outubro de 2012 às 13h07

    Francisco, a realidade não é a propaganda norte-americana. Não são os meios de “comunicação”, filmes, imagens e textos. Não é aquilo que te dizem. Somos nós mesmos que a construímos em e com nossos próprios cotidianos.
    É bom entender a História e o processo histórico humano por trás dela…
    Se você quer continuar insistindo na visão pragmática de que o terror só se combate com um terror maior é seu direito. É nóis! Abraço.

    francisco pereira neto

    01 de outubro de 2012 às 14h23

    Rodrigo
    Que terror é esse que voce fala?
    O terror são das potências hegemônicas.
    Mas eles vendem que o terror vem do povo islâmico. Por isso justificam as suas invasões com esses argumentos pífios. Eles estão lá invadindo e matando civis atrás de grana. É o petróleo principalmente e venda de armas.
    O povo norte-americano é o povo mais alienado do mundo. Eles acham que só existe a “América” no mundo, quando muito a Europa. Eu não culpo o povo norte-americano, mas eles foram doutrinados assim.
    Que conceito eu posso ter de um povo que acreditava no reverendo Moon? No Tim Jones?
    Para ilustrar o que estou falando, eu acho que foi o Azenha que fez uma reportagem para a TV Record sobre a doação de combustível venezuelano para os pobres da cidade, se não me falha a memória, Filadélfia ou Chicago para o sistema de aquecimento interno das residências dessa população pobre. Azenha fez a pergunta para alguns moradores e nenhum tinha a menor idéia de onde vinha e quem era a Venezuela. Mas os grandes empresários e o staff norte-americano sabe até quantas vezes Hugo Chavez vai ao banheiro.

    rodrigo

    02 de outubro de 2012 às 00h57

    Não quero parecer pedante, mas o ANTI-MILITARISMO deve tá tão por baixo que você não conseguiu entender meu raciocínio. Uma CIVILIZAÇÃO não tem necessidade alguma do uso de forças armadas, militares ou paramilitares, para controlar a população civil (esse é o TERROR), no caso, a Doutrina de Segurança Nacional elaborada na escola das américas e encampada pelo exército brasileiro, que continua com a mesma mentalidade até hoje.
    Bomba atômica? É muito mais concreto ver a penetração real de tudo o que representam o capitalismo e o neoliberalismo na psique da população brasileira. Mais do que isso? Entenda o que se tornou a fraternidade humana nos dias de hoje… Bom Chicão, é nói nas frita, se cada um conseguir construir uma idéia própria do mundo que o rodeia, a tal da massificação vai pro saco. Abraxxx

    francisco pereira neto

    02 de outubro de 2012 às 12h31

    Poxa vida Rodrigo.
    Agora estou entendendo a sua essência.
    Quisera eu ter a sua tranquilidade e convicção de que não há maldade no mundo.
    Não sei se voce percebeu, embora eu seja “radical”, mas eu sou do bem. Sou humanista(no sentido amplo da palavra). Como sou bem vivido, e desde que eu era adolescente convivo com a crença que o Brasil era o país do futuro, como foi vendido pelos meus educadores. Como o futuro chegou para mim, ainda vejo que o país precisa ser reinventado.
    Eu tenho que a minha posição, não tem nada de radical, apenas sou realista, mas tento no meio de toda essa brutalidade ser um indivíduo dócil e altruísta. Mas as vezes a realidade é tão dura que a gente precisa estravazar.
    Foi muito bom trocar idéias com voce.
    Abraços.

rodrigo

30 de setembro de 2012 às 15h55

Traduzindo pro debate popular extremamente carregado de paixões da internê, o que um membro da famiglia Civita fazia no comitê que se reuniu com o governo para definir os parâmetros do que seria a “nova classe média”?

http://www.sae.gov.br/site/?p=11984

A nova classe média por definição governamental:

http://www.sae.gov.br/site/?p=12055

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