Olímpio Cruz Neto: Tensão na América Latina

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Olímpio Cruz Neto: A crise na Venezuela pode redesenhar o apetite chinês pelo Brasil Ilustração: Olímpio Cruz Neto

Tensão na América Latina

Como a crise na Venezuela pode redesenhar o apetite chinês pelo Brasil: oportunidade ou risco para o dinheiro de Pequim

Por Olímpio Cruz Neto*, em seu blog

A captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em 3 de janeiro de 2026, recolocou a Venezuela no centro do tabuleiro geopolítico das Américas e, por extensão, reintroduziu o imponderável nos cálculos de risco de quem investe na região.

Mais do que a troca de comando em Caracas, o que tende a importar para empresas e governos é o sinal de disposição de Washington em voltar a exercer influência direta no hemisfério — um movimento que, na leitura de analistas internacionais, pode elevar o custo político e reputacional da presença de potências extra-hemisféricas, sobretudo a China.

Para Pequim, a Venezuela é um caso emblemático porque mistura exposição financeira e energética.

Uma análise da Channel News Asia lembra que a relação bilateral foi sustentada por grandes linhas de crédito e por compromissos de fornecimento de petróleo, em arranjos que, ao longo dos anos, funcionaram como “seguro” político e econômico entre os dois países, ainda que novos empréstimos chineses tenham diminuído desde meados da década passada, com foco em reestruturar a dívida existente.

A instabilidade gerada pela intervenção direta da Casa Branca tende a aumentar a incerteza sobre a continuidade desses acordos e sobre os termos em que um novo arranjo de governança venezuelano se relacionará com credores e compradores.

A reação chinesa foi de condenação, mas o ponto mais sensível para investidores é o precedente: o episódio funciona como um “teste de estresse” para a estratégia chinesa na América Latina num ambiente em que a competição com os EUA se torna mais determinante.

Em entrevista ao estúdio Eixos, Creomar de Souza (Dharma Political Risk) afirmou que a operação pode deixar a China mais reticente em fazer negócios na região, à medida que o risco deixa de ser apenas doméstico e passa a incorporar fatores de disputa entre grandes potências — especialmente em ativos vinculados a energia e commodities.

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Esse pano de fundo aparece também na leitura do South China Morning Postempresas chinesas operando na América Latina tenderiam a se preparar para maior incerteza — mais do que para uma ruptura imediata — em meio a esforços dos EUA para conter a presença chinesa em recursos estratégicos, infraestrutura e comércio na região.

A consequência prática, do ponto de vista corporativo, costuma ser menos “proibição” e mais fricção: mais escrutínio, maior sensibilidade reputacional, ciclos decisórios mais longos e maior probabilidade de contestação política de projetos.

O Brasil entra nessa equação por dois motivos: por ser um dos principais destinos do capital chinês no mundo e por sua posição diplomática diante do episódio.

Em nota conjunta publicada pelo Itamaraty com México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha, os governos defenderam que a situação venezuelana seja resolvida por meios pacíficos, sem ingerência externa e em conformidade com o direito internacional, além de reafirmarem a América Latina e o Caribe como zona de paz. A nota foi destaque no site de O Globo.

Para o ambiente de negócios, isso preserva coerência institucional, mas adiciona complexidade: a tendência é que o país precise calibrar interlocução com Washington sem comprometer a previsibilidade que sustenta investimentos produtivos de longo prazo.

Para companhias chinesas com operação industrial no Brasil, o cenário combina risco e oportunidade.

O risco é que a elevação do “barulho geopolítico” amplifique questionamentos e aumente o escrutínio sobre projetos em áreas percebidas como sensíveis — exigindo mais disciplina de comunicação, governança e documentação de compliance.

A oportunidade é que, se a China reduzir exposição a ambientes mais voláteis na região, o Brasil pode se fortalecer como “porto seguro relativo” para capital produtivo, desde que consiga sustentar segurança jurídica e uma narrativa pública centrada em desenvolvimento.

É preciso falar em emprego, cadeia local de fornecedores, transparência e contribuição tecnológica. Essa é uma agenda mais operacional do que ideológica — e é justamente o tipo de linguagem que tende a reduzir ruído num momento em que política externa e economia voltam a se misturar com mais força no hemisfério.

Leitura recomendada

What the US capture of Maduro means for China’s interests in Venezuela and beyond – Channel News Asia

China pode ficar mais reticente em fazer negócios na América Latina, afirma sócio da Dharma Political Risk – Eixos

After Trump’s Venezuela takeover, China’s investors prep for Latin American era of anxiety – South China Morning Post

Brasil condena na ONU intervenção militar dos EUA na Venezuela e alerta para riscos à ordem internacional – O Globo

*Olímpio Cruz Neto é jornalista. Ex-secretário de imprensa da Presidência da República no governo Dilma Rousseff.

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Zé Maria

.
“Cabe ao Conselho de Segurança da ONU assumir
sua responsabilidade e reagir com determinação, clareza e obediência ao direito internacional, a fim de
evitar que a lei da força prevaleça sobre a força da lei”

Discurso do Embaixador Sérgio França Danese,
Representante Permanente do Brasil no Conselho
de Segurança das Nações Unidas, sobre a Venezuela
(em 5 de Janeiro de 2026):

“Senhor Presidente,

O Brasil agradece à Presidência somali a convocatória
desta sessão de emergência do Conselho de Segurança.

O Brasil rechaça de maneira categórica e com toda
a firmeza a intervenção armada em território venezuelano,
em flagrante violação da Carta das Nações Unidas
e do direito internacional.

Os bombardeios em território venezuelano e a captura
de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável.

Estes atos constituem uma gravíssima afronta à
soberania da Venezuela e firmam um precedente
extremamente perigoso para toda a comunidade
internacional.

A Carta das Nações Unidas estabelece, como pilar
da ordem internacional, a proibição do uso da força
contra a integridade territorial ou a independência
política de qualquer Estado, salvo nas circunstâncias
estritamente nela previstas.

A aceitação de ações dessa natureza conduziria
inexoravelmente a um cenário marcado pela violência,
pela desordem e pela erosão do multilateralismo,
em detrimento do direito e das instituições internacionais.

Os efeitos do enfraquecimento dos mecanismos de
governança internacional já são evidentes:

– o número recorde, desde a Segunda Guerra Mundial,
de 61 conflitos armados ativos;

– o número sem precedentes de 117 milhões de pessoas
em situação de catástrofes humanitárias em todo o
mundo, refletindo o aumento de guerras, deslocamentos
e crimes contra a humanidade, como o genocídio em Gaza; e

– o incremento global de gastos militares, que se
aproximam da marca histórica de 2,7 trilhões de
dólares.

Tal como o Brasil tem sustentado em reiteradas
oportunidades, as normas que regem a convivência
entre os Estados são obrigatórias e universais.
Não admitem que a exploração de recursos naturais
ou econômicos justifique o uso da força ou a troca
ilegal de um Governo.

O mundo multipolar do Século 21, que promove a paz
e a prosperidade, não se confunde com áreas de
influência.

Não podemos aceitar o argumento de que o fim justifica
os meios.
Este raciocínio carece de legitimidade e abre a possibilidade
de outorgar aos mais fortes o direito de definir
o que é justo ou injusto, o que é correto ou incorreto,
e inclusive de ignorar as soberanias nacionais,
impondo aos mais fracos as decisões que devem adotar.

A América Latina e o Caribe têm feito da paz uma escolha
consciente, duradoura e irreversível.

O recurso à força em nossa região evoca capítulos
da história que críamos superados e põe em risco
o esforço coletivo por preservar a região como uma
zona de paz e cooperação, livre de conflitos armados,
respeitosa do direito internacional e do princípio de
não ingerência.

As intervenções armadas do passado tiveram conseqüências
profundamente negativas e prolongadas.

Ao contrário da liberdade e da democracia, essas
intervenções produziram regimes autoritários e
graves violações dos direitos humanos, deixando
como saldo lamentável milhares de mortos, presos
políticos, torturados e pessoas desaparecidas,
cujos familiares até hoje buscam a seus entes
queridos, além de justiça e reparação.

Pela primeira vez na América do Sul, é produzido
um feito profundamente alarmante:
uma agressão armada externa com a invasão de tropas
e bombardeios em um país vizinho contíguo do Brasil,
com o qual compartilhamos mais de 2 mil quilômetros
de fronteira.

Senhor Presidente,

A América do Sul é uma zona de paz, insisto.

Temos sustentado e sustentaremos com toda
determinação a paz e a não-intervenção em
nosso entorno.

Além do mais, o Brasil não crê que a solução
da situação na Venezuela passe pela criação
de protetorados no país, senão por soluções
que respeitem a autodeterminação do povo
venezuelano, no marco de sua constituição.

Os feitos de 3 de janeiro transcendem o âmbito regional.

O atentado contra a soberania de qualquer país,
independentemente da orientação de seu governo,
afeta a toda a comunidade internacional.

Este e outros casos de intervenção armada contra
a soberania de um país, sua integridade territorial
ou suas instituições devem ser condenados com
veemência.

Cabe a este Conselho assumir sua responsabilidade
e reagir com determinação, clareza e obediência ao
direito internacional, a fim de evitar que a lei da força
prevaleça sobre a força da lei.

O Brasil confia em que o futuro da Venezuela se construa
pelo povo venezuelano, através do diálogo, sem ingerências
externas e no marco do direito internacional.

Muito obrigado.”
.
.
Íntegra do Texto Original em Espanhol:

Declaración del Embajador Sérgio França Danese, Representante Permanente del Brasil, ante el Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas
5 de enero de 2026

Señor Presidente,

Brasil le agradece a la Presidencia somalí la convocatoria de esta sesión de emergencia del Consejo de Seguridad.

Brasil rechaza de manera categórica y con la mayor firmeza la intervención armada en territorio venezolano, en flagrante violación de la Carta de las Naciones Unidas y del derecho internacional.
Los bombardeos en territorio venezolano y la captura de su presidente traspasan una línea inaceptable. Estos actos constituyen una gravísima afrenta a la soberanía de Venezuela y sientan un precedente extremadamente peligroso para toda la comunidad internacional.

La Carta de las Naciones Unidas establece, como pilar del orden internacional, la prohibición del uso de la fuerza contra la integridad territorial o la independencia política de cualquier Estado, salvo en las circunstancias estrictamente previstas en ella.

La aceptación de acciones de esta naturaleza conduciría inexorablemente a un escenario marcado por la violencia, el desorden y la erosión del multilateralismo, en detrimento del derecho y de las instituciones internacionales.

Los efectos del debilitamiento de los mecanismos de gobernanza y cooperación internacionales ya son evidentes: el número récord, desde la Segunda Guerra Mundial, de 61 conflictos armados activos; la cifra sin precedentes de 117 millones de personas en situación de catástrofe humanitaria en todo el mundo, reflejando el aumento de guerras, desplazamientos y crímenes contra la humanidad, como el genocidio en Gaza; y el incremento global de gastos militares, que se aproxima a la marca histórica de 2,7 billones de dólares.

Tal como Brasil ha sostenido en reiteradas oportunidades, las normas que rigen la convivencia entre los Estados son obligatorias y universales. No admiten excepciones basadas en intereses o proyectos ideológicos, geopolíticos, políticos, económicos o de cualquier otra índole. No admiten que la explotación de recursos naturales o económicos justifique el uso de la fuerza o el cambio ilegal de un Gobierno.

El mundo multipolar del siglo XXI, que promueva la paz y la prosperidad, no se confunde con áreas de influencia.

No podemos aceptar el argumento de que el fin justifica los medios. Este razonamiento carece de legitimidad y abre la posibilidad de otorgar a los más fuertes el derecho de definir qué es justo o injusto, qué es correcto o incorrecto, e incluso de ignorar las soberanías nacionales, imponiendo las decisiones que deben adoptar los más débiles.

América Latina y el Caribe han hecho de la paz una elección consciente, duradera e irreversible.

El recurso a la fuerza en nuestra región evoca capítulos de la historia que creíamos superados y pone en riesgo el esfuerzo colectivo por preservar la región como una zona de paz y cooperación, libre de conflictos armados, respetuosa del derecho internacional y del principio de no injerencia.

Las intervenciones armadas del pasado han tenido consecuencias profundamente negativas y duraderas. Al contrario de la libertad y de la democracia, esas intervenciones produjeron regímenes autoritarios y graves violaciones de los derechos humanos, dejando como saldo lamentable miles de muertos, presos políticos, torturados y personas desaparecidas, cuyos familiares aún hoy buscan a sus entes queridos, además de justicia y reparación.

Por primera vez en la América del Sur, se ha producido un hecho profundamente alarmante: una agresión armada externa con el despliegue de tropas y bombardeos en un país vecino contiguo de Brasil, con el que compartimos más de 2 mil kilómetros de frontera.

Señor Presidente,

América del Sur es una zona de paz, insisto.

Hemos sostenido y sostendremos con toda determinación la paz y la no-intervención en nuestro entorno.

Además, Brasil no cree que la solución de la situación en Venezuela pase por la creación de protectorados en el país, sino por soluciones que respeten la autodeterminación del pueblo venezolano, en el marco de su constitución.
Los hechos del 3 de enero trascienden el ámbito regional. El atentado contra la soberanía de cualquier país, independientemente de la orientación de su gobierno, afecta a toda la comunidad internacional.

Éste y otros casos de intervención armada contra la soberanía de un país, su integridad territorial o sus instituciones deben ser condenados con vehemencia. Corresponde a este Consejo asumir su responsabilidad y reaccionar con determinación, claridad y obediencia al derecho internacional, a fin de evitar que la ley de la fuerza prevalezca sobre la fuerza de la ley.

Brasil confía en que el futuro de Venezuela se construya por el pueblo venezolano, a través del diálogo, sin injerencias externas y en el marco del derecho internacional.

Muchas gracias

Vídeo: (https://www.instagram.com/reel/DTJMlHejtNy/)

https://www.gov.br/mre/pt-br/delbrasonu/discursos-na-onu/2026/janeiro-2026/discurso-do-representante-permanente-embaixador-sergio-franca-danese-em-do-conselho-de-seguranca-das-nacoes-unidas-sobre-a-venezuela-5-de-janeiro-de-2026-texto-em-espanhol
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https://operamundi.uol.com.br/conflito-eua-e-venezuela/na-onu-brasil-rechaca-protetorados-na-venezuela-futuro-sera-construido-pelos-venezuelanos/
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