Maduro, Trump e o tigre
Por Valter Pomar*, em seu blog
Talvez nunca saibamos toda a verdade sobre o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela, ocorrido no dia 3 de janeiro de 2026.
Mas o pouco que sabemos, no dia seguinte ao ataque, confirma que parte da esquerda parece mesmo acreditar que o imperialismo é um tigre de papel.
Prova disso foi a quantidade de defensores da Venezuela que ficaram chocados com a maneira “cirúrgica” com que tudo transcorreu, recorrendo a explicações do tipo “Maduro se entregou”, “traição na cúpula”, “acordo por cima entre Trump, Putin e Xi” etc.
Claro que estas e outras “teses” são totalmente compreensíveis.
Em primeiro lugar, porque quando se está à distância e em estado de choque, nada mais fácil do que “viajar na maionese”.
Em segundo lugar, porque capitulações, traições e acordos espúrios muitas vezes existem.
E, em terceiro lugar, como dissemos antes, porque há setores da esquerda que subestimam a força bruta do imperialismo estadunidense, inclusive suas capacidades militares.
Ao que tudo indica, ao menos até agora e salvo provas em contrário, o que assistimos no dia 3 de janeiro foi uma demonstração daquelas capacidades, que incluem desde alta tecnologia até soldados de elite, passando por armas precisas e com imensa capacidade de destruição, sem falar de uma boa ajuda de métodos clássicos e modernos de espionagem.
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Aliás, por falar em “clássico”, quantas vezes vimos ou ouvimos falar deste tipo de operação, em que se ataca diretamente o principal comandante do inimigo, desorganizando as suas cadeias de comando e desmoralizando as suas tropas?
Motivo pelo qual é preciso, sempre, ter direção coletiva e nunca, nunca, depositar todas as expectativas em uma única pessoa.
O ataque e o sequestro mostraram, também, que boa parte da esquerda tem uma crença totalmente irrealista na capacidade (e na disposição) da China e da Rússia servirem de contraponto tático e imediato a este tipo de intervenção estadunidense, especialmente quando realizada em nosso continente. Não é apenas o México que está perto demais dos EUA e longe demais de Deus.
O ocorrido no dia 3 de janeiro confirma que, sobre tigres, o velho Mao tinha razão, quando dizia que “de um ponto de vista de futuro, estrategicamente, o imperialismo e todos os reacionários devem ser considerados tal como são — tigres de papel. É nessa base que devemos assentar o nosso pensamento estratégico. Por outro lado, porém, eles são também tigres vivos, tigres de ferro, verdadeiros tigres capazes de devorar as pessoas. É nessa base que devemos assentar o nosso pensamento tático”.
Do ponto de vista “tático”, o que vimos no dia 3 de janeiro foi mais uma vitória da operação de cerco e ingerência implementada pelos EUA, que tem como um de seus objetivos afastar os chineses e russos do que eles consideram ser seu “quintal”.
E que tem como um de seus alvos principais o controle do petróleo venezuelano (aliás, registre-se o erro daqueles especialistas que chegaram a dizer que seria necessário “desmistificar” um “suposto interesse estratégico dos EUA nas reservas petrolíferas da nação sul-americana”).
Muita gente acha que a atual operação de cerco e ingerência começou com Trump, mas na verdade começou com Obama (remember o golpe contra Dilma).
Mas é fato que com Trump a operação adquiriu características muito próprias, que estão expressas na “Doutrina Donroe” (o termo foi usado pelo próprio Trump, na entrevista de 3 de janeiro, juntando o início da palavra Donald com o final da palavra Monroe).
Segundo as determinações da “Doutrina Donroe”, a Venezuela é apenas a bola da vez.
Cuba, Nicarágua, Uruguai, México, Colômbia e principalmente Brasil que se cuidem. Carnívora ou vegetariana, a esquerda precisa ser derrotada. Por isso, aliás, tem pouca relevância para os gringos a discussão sobre as características de cada processo e de seus líderes.
Já na esquerda tem gente que adora divagar acerca da psicologia dos líderes (mesmo que nestas divagações haja quem consiga dizer, em 2024, que Maduro teria “pregações quase caricatas” e, em 2025, dizer que o mesmo Maduro seria “o mais importante líder da esquerda da atualidade”).
Como dissemos antes, uma parte da esquerda parece subestimar o imperialismo, suas capacidades e sua disposição de perseguir seus propósitos, sem dó nem piedade.
O que vimos na Palestina, no ataque contra a Venezuela e no discurso feito por Trump no mesmo dia 3 de janeiro demonstram mais uma vez que não se deve subestimar o imperialismo: ele não tem nenhum pudor, nenhuma vergonha, nenhum limite.
E isto não vale apenas para o imperialismo estadunidense. Vide, por exemplo, as declarações do “amigo Macron” em sua conta no X: “O povo venezuelano está hoje liberto da ditadura de Nicolás Maduro”.
Mas não existe apenas a esquerda que subestima o imperialismo. Existem também outras esquerdas, entre as quais – ao menos aqui no Brasil – aquela que parece achar que o imperialismo não existe; ou que existe, mas não haveria como derrotá-lo.
Por este ou aquele motivo, não se tomam as medidas necessárias para proteger nossas riquezas, nossa soberania, nossas liberdades, nosso bem-estar, nosso desenvolvimento e nosso futuro. Ou, para ser mais preciso, não se tomam as medidas necessárias, na velocidade e na profundidade necessárias.
Um exemplo: o que está sendo feito para eliminar a subordinação teórica e prática das forças armadas brasileiras à doutrina de segurança hemisférica dos Estados Unidos?
Outro exemplo: o que está sendo feito para construir redes de comunicação digital próprias, livres do controle das big techs?? Nesse caso específico, o que está sendo feito para bloquear a ação da Palantir???
Sempre falando do caso do Brasil, parece às vezes existir, na esquerda, gente que acha que se não provocarmos o tigre, ele não quererá nos fazer de almoço.
A experiência histórica tem mostrado outra coisa: não importa se há provocação, não importa o tamanho da vara, o tigre só pensa naquilo. E se “pintar uma química”, vai devorar com tempero e tudo.
Entre as muitas medidas necessárias para nos proteger do tigre, está a formação político ideológica da própria esquerda e das classes trabalhadoras.
Nesse quesito, precisamos aprender com o modus operandi das classes dominantes, inclusive no país sede do imperialismo. Embora seu poderio material seja brutal, sua máquina de guerra, seus meios de comunicação e suas instituições estatais não se movimentam automaticamente. Dependem de pessoas, que precisam estar predispostas a cometer os mais variados tipos de violência.
Esta predisposição é produzida por vários mecanismos: a inércia, o medo, o dinheiro e, acima de tudo, o convencimento de que “elle$” estão do lado certo da história.
A importância de Trump, neste momento da história dos Estados Unidos, talvez seja exatamente esta.
Trump e a extrema-direita dos EUA estão seguros acerca do seu “destino manifesto” e trabalham para construir, em parte da população dos Estados Unidos, a mesma segurança ideológica.
Sem ela, a força bruta do imperialismo não funciona direito. O Vietnã mostrou isso. E mostrou, também, que do outro lado precisa existir uma disposição ideológica antagônica suficientemente forte e disposta a todo tipo de sacrifício em nome de vencer o imperialismo.
Este é um dos muitos desafios da esquerda brasileira: construir, em dezenas de milhões de integrantes das nossas classes trabalhadoras, um profundo comprometimento político, ideológico, cultural, existencial, com nossa soberania, com nosso desenvolvimento, com nosso bem-estar, com nossas liberdades e com um futuro socialista para nosso país.
Sem força material, não basta comprometimento nem disposição de sacrifício. Mas sem comprometimento e disposição de sacrifício, nunca construiremos a força material necessária e nunca venceremos.
Uma boa medida de nosso comprometimento e disposição será o PT propor ao governo Lula que tome medidas práticas em solidariedade à Venezuela.
Por exemplo: reconhecer formalmente seu governo. Outro exemplo: convidar a Venezuela para entrar nos BRICS. Terceiro exemplo: exigir a imediata libertação de Maduro, caracterizando o que ocorreu com a palavra certa, a saber, sequestro.
Aliás, sequestro seguido de chantagem: uma das coisas que Trump disse dia 3 de janeiro é que se o governo venezuelano não capitular, novos ataques (e, quem sabe, novos sequestros) virão.
Mesmo quem defende a correção das posições anteriores do Brasil frente a Venezuela precisa reconhecer que a situação mudou radicalmente, exigindo atitudes e políticas compatíveis.
Valter Pomar é historiador e professor da UFABC (Universidade Federal do ABC)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




Comentários
Zé Maria
Pessoal pensa que a CIA é uma Invenção de HollyWood.
É exatamente isso que a CIA quer que pensemos que é.
Zé Maria
https://web.archive.org/web/20160831020609/https://www.wsj.com/articles/the-cias-venture-capital-firm-like-its-sponsor-operates-in-the-shadows-1472587352