Por Gustavo Guerreiro*, especial para o Viomundo
“É assim que o mundo acaba
É assim que o mundo acaba
É assim que o mundo acaba
Sem estrondo, num gemido.”
Os Homens Vazios, T.S. Eliot
Como previu T. S. Eliot, o mundo não termina com um estrondo, mas com o silêncio ensurdecedor de uma caneta que se recusa a assinar um protocolo de paz ou, no caso do que assistimos neste alvorecer de 2026, com o som seco de um martelo que nem sequer chegou a bater.
O veto antecipado de uma resolução que condenaria a agressão a Caracas, antes mesmo que os embaixadores pudessem ajustar seus fones de tradução simultânea em Nova York, é o epitáfio de do nosso tempo.
Enquanto os grandes veículos da imprensa corporativa se apressam em qualificar a agressão imperialista como “necessidade estratégica” ou da “estabilização regional”, o que vemos é o desmoronamento final de uma pilastra jurídica que já vinha sendo devorada por cupins ideológicos há décadas.
O tal Direito Internacional, essa construção hercúlea erguida sobre os escombros fumegantes de 1945, não foi apenas ferido; ele foi declarado morto por negligência deliberada de seus próprios criadores.
Escrevo este texto tardio sob o impacto (mas nada surpreendido) de uma cobertura midiática que, com uma sobriedade fria e quase cúmplice, diagnostica a absoluta irrelevância do Conselho de Segurança da ONU.
É fascinante, de uma forma perversa, observar como certos editoriais da grande imprensa, inclinada a validar qualquer hegemonia vinda do Norte, tratam o “anacronismo das potências” como um fenômeno inevitável, e não como um crime de lesa-humanidade.
A análise que se faz nos grandes jornalões de São Paulo ou de Washington tenta transformar a barbárie em estatística, ignorando que o que ruiu em Caracas foi a própria ideia de que a força deve ser submetida à razão e não o contrário.
O que mais me estarrece, e aqui peço licença para uma digressão de quem passou a vida estudando a anatomia do poder nas ciências sociais, não é a violência física dos mísseis, mas a sofisticação retórica do cinismo que os precede.
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Washington, em um lance de audácia que faria os teóricos do realismo político mais brilhantes, como o próprio Maquiavel parecerem amadores, sacou do coldre o conceito de “legítima defesa antecipada”.
Não se trata mais de responder a um ataque, mas de punir uma intenção suposta, um “pré-crime” geopolítico que deixaria os roteiristas de Hollywood ruborizados.
Segundo os fatos, não havia um único míssil venezuelano apontado para o Norte. O que havia, e isso o Itamaraty sabe em suas conversas de bastidor, era uma movimentação soberana que desequilibrava o tabuleiro energético global em favor de quem não reza pela cartilha de Wall Street.
Ao invocar a “autodefesa” para bombardear uma capital vizinha sem o crivo do multilateralismo, os Estados Unidos não apenas atingiram alvos militares; eles incineraram o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas.
É o triunfo da lei do mais forte sobre a força da lei. Lembro-me, e aqui abro um parêntese para uma nota de rodapé imaginária, de ter lido um texto que dizia que o Direito Internacional era como uma teia de aranha: capaz de segurar os pequenos insetos, mas facilmente rasgada pelos pássaros.
Pois bem, hoje não há mais teia. Há apenas o pássaro e sua vontade imperial, enquanto a ONU assiste a tudo com a paralisia de quem perdeu a razão de existir.
A manobra de vetar uma resolução antes mesmo de sua votação formal, uma espécie de “veto fantasma”, é a cereja desse bolo de lama.
O Conselho de Segurança tornou-se um teatro onde os atores já conhecem o desfecho trágico da peça e, por isso, decidem nem subir ao palco. Quando uma potência ignora o multilateralismo para agir e, simultaneamente, usa sua prerrogativa institucional para impedir que a instituição sequer lamente o ocorrido, estamos diante do fim da política como mediação de conflitos.
O silêncio das chamadas democracias liberais europeias, que assistem a tudo com uma complacência de gado, é igualmente perturbador.
Onde estão os defensores da “ordem baseada em regras”? Quando o Sul Global clama por moderação, a resposta é a bomba redentora da “liberdade” imposta de fora para dentro.
Isso nos leva, inevitavelmente, a uma reflexão obrigatória sobre nosso próprio país.
Nós, brasileiros, fomos educados em uma tradição diplomática de paz, de solução negociada, do “soft power” do Barão do Rio Branco, uma herança que muitas vezes beira a ingenuidade nesses tempos de realpolitik bruta.
A agressão a Caracas, ignorando solenemente a soberania regional, é um sinal de alerta.
Se o Direito Internacional morreu, como sugere o diagnóstico do funeral que descrevo, o que nos resta para garantir que o próximo alvo não seja um pedaço da nossa própria Amazônia ou o nosso pré-sal?
Aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, que a guerra moderna não começa mais apenas com o barulho dos canhões, mas nos cabos de fibra ótica e nos servidores de dados muito antes de chegar aos tanques.
A necessidade de uma defesa cibernética robusta e de uma capacidade dissuasória própria não é uma pauta de “falcões” ou de uma direita nacionalista tacanha.
É, antes de tudo, uma urgência de sobrevivência para qualquer projeto de nação que se pretenda soberano e, ousaria dizer, verdadeiramente progressista. Se não tivermos esses “dentes” — sejam eles digitais, tecnológicos, nucleares ou convencionais —, seremos o próximo item na agenda de “estabilização” dessa potência em busca de recursos naturais ou alinhamento ideológico forçado.
O Brasil precisa entender que a diplomacia sem o respaldo de uma força de defesa é apenas literatura e boa vontade, e o mundo atual não parece estar interessado em ler belas frases.
Sempre que a ONU falha, surge o coro dos especialistas pedindo reforma. Já ouço isso desde a Guerra do Iraque em 2003, passando pela tragédia da Líbia e pela inoperância sistemática no Oriente Médio.
“Precisamos ampliar o Conselho”, dizem uns, com um otimismo que já soa canhestro. “Precisamos democratizar o veto”, dizem outros.
Tudo bobagem. É como tentar reformar um navio que já está no fundo do oceano. A estrutura da ONU reflete a distribuição de poder de 1945, um mundo que nem existe mais.
O mundo de 2026 é multipolar, fragmentado e profundamente desigual, onde as potências em declínio tornam-se as mais perigosas por terem tudo a perder e pouco a oferecer além de ameaças.
A proposta que agora ganha corpo entre alguns intelectuais orgânicos e líderes do que chamamos de Sul Global, e que eu subscrevo, não é a reforma, mas a construção de algo novo, uma arquitetura paralela de justiça.
Precisamos articular, junto aos BRICS e ao bloco de países que se recusam a ser meros satélites, a criação de uma espécie de tribunal arbitral independente. Um órgão que não dependa do humor de Washington para julgar crimes de agressão militar e violações de soberania.
Muitos dirão, com um certo desdém eurocêntrico, que tal tribunal seria um “tigre de papel”.
Mas pergunto: e a ONU hoje, é o quê? Um tribunal que possa aplicar sanções econômicas coordenadas pelo Sul Global — que detém as maiores reservas de commodities, energia, ambientais e mercados consumidores em crescimento — teria muito mais poder real de dissuasão do que mil resoluções vetadas na atual estrutura da ONU. É preciso atacar o bolso e a conveniência logística de quem agride, já que a consciência moral dessas potências parece ter sido extirpada cirurgicamente.
Ao olhar para a derrocada da legalidade internacional em Caracas, não posso deixar de sentir uma indignação profunda, temperado com uma certa ironia.
É irônico que os mesmos paladinos que enchem a boca para falar em “democracia e liberdade” sejam os que aplicam a lei da selva com a maior desfaçatez. Eles nos chamam de “emergentes”, um termo que carrega em si a condescendência de quem espera que o outro termine de nascer, mas o que realmente desejam é que permaneçamos subalternos, aceitando passivamente os ditames de uma ordem que já expirou e cujo cadáver exala um cheiro insuportável e muita hipocrisia.
O Brasil tem um papel histórico a cumprir, e ele não passa por ser o “aluno bem-comportado” da classe que não existe mais.
Não podemos ser apenas o país que emite “notas de repúdio” redigidas em um português impecável, mas impotente, enquanto o vizinho é invadido sob pretextos espúrios.
Precisamos liderar a reconstrução de uma arquitetura multilateral que nasça das entranhas das nossas necessidades, e não das conveniências do Norte.
Isso exige coragem política para romper com o complexo de vira-lata diplomático e um despojamento das ilusões liberais que nos acorrentaram ao sonho de uma “comunidade internacional” que, na prática, nunca passou de um clube exclusivo para os donos das bombas. A morte do Direito Internacional deve anunciar o nascimento da nossa maioridade geopolítica.
Concluo com uma provocação: se a ONU morreu e o que sobrou foi o velório de uma instituição zumbi, qual é o nosso plano para o dia seguinte? Continuaremos a ser espectadores educados do nosso próprio cerco, ou teremos a audácia de construir uma nova ordem onde a força não seja a única linguagem compreendida?
O episódio na Venezuela não foi um ponto fora da curva, nem uma exceção em uma regra de paz.
Foi o “novo normal” de um mundo que perdeu a vergonha de ser brutal. E no novo normal, ou você se senta à mesa como um igual, com a força de quem se faz respeitar, ou você fatalmente estará no cardápio.
O Brasil, com sua imensidão, sua cultura e seu povo, não nasceu para ser banquete de ninguém.
Mas para evitar esse destino, precisaremos de mais do que bons diplomatas; precisaremos de uma estratégia de poder que entenda que a paz, ironicamente, só é respeitada por quem tem meios de garantir que a agressão custará caro demais para o agressor.
O velório acabou. Que as cinzas desse sistema falido sirvam, ao menos, para fertilizar uma consciência brasileira mais lúcida, menos ingênua e mais soberana sobre o lugar que ocupamos que, por direito e dever, devemos conquistar no mundo que emerge deste caos.
O silêncio acabou, e a nossa voz, a voz do Sul Global, da maioria global, precisa ser ouvida não mais como um lamento, mas como um projeto de futuro. O galo precisa cantar.
*Gustavo Guerreiro é doutor em políticas públicas e pesquisador do Observatório das Nacionalidades.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Comentários
Zé Maria
https://portal.stf.jus.br/textos/verTexto.asp?servico=campanha&pagina=democracia_inabalada
Zé Maria
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Documentário:
ATO 18: O GOLPE CONTRA LULA
Episódio 1: Terrorismo de Estado
https://youtu.be/QLPo5K2xzc4
Episódio 2: Festa da Selma
https://youtu.be/D-vQ9YWzCe8
Episódio 3: Contragolpe
https://youtu.be/aTv0zXcfg24
Episódio 4: Punhal Verde Amarelo
https://youtu.be/SHk2OZ3GUlk
Direção: Jornalista Luiz Carlos Azenha.
Produção: Fórum Filmes.
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Zé Maria
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Documentário: “Democracia Inabalada”
O 08/01/2023 Contra o STF
https://youtu.be/yxTBnvMeYus
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Zé Maria
“Democracia Inabalada”
https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/campanha/anexo/democraciainabalada/EBOOK_democracia_inabalada_28x28cm.pdf