Ângela Carrato: Mídia preparou o terreno para Trump bombardear a Venezuela
Tempo de leitura: 9 min
Por Ângela Carrato*, especial para o Viomundo
O bombardeio do governo Trump à Venezuela, seguido pela prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, acontecido na madrugada deste sábado (3), é gravíssimo.
É gravíssimo por se tratar de um ato de guerra cometido pelos Estados Unidos contra um governo soberano, com o explícito objetivo de roubar petróleo.
A Venezuela, como se sabe, possui a maior reserva de petróleo do mundo e a distância entre Caracas e Miami não passa de 3 mil km. Distância seis vezes menor do que a rota feita por petroleiros estadunidenses ao irem ao Oriente Médio em busca do mesmo produto.
A entrevista coletiva de Trump sobre o assunto é das coisas mais cínicas e cretinas de que se tem notícia.
Na cara dura, disse que irá comandar a Venezuela até transição e controlará o petróleo do país, ao mesmo tempo em que divulgava imagem do presidente Maduro algemado e de olhos vendados, a bordo de navio, a caminho de Nova York.
Trump disse que assistiu à prisão de Maduro em tempo real, como se estivesse vendo um programa de TV.
O que Trump fez tem nome: mais um ataque imperialista com o objetivo de mudar um regime com o qual os Estados Unidos não concordam.
No mínimo, essa é a terceira vez que os Estados Unidos atacam a Venezuela, para tentar retomar o controle de suas jazidas de petróleo e de ouro. O país possui também enormes reservas deste mineral.
As condenações ao ato terrorista de Trump já estão acontecendo nas mais diversas partes do mundo, por governos como os da Rússia, da China, do Irã, da União Europeia, mas também por governos da América Latina, como Colômbia, Cuba e Brasil. Já o extremista de direita que governa a Argentina, Javier Milei, celebrou a operação.
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Sobre o assunto, Lula, que está no Rio de Janeiro, em recesso de final de ano, convocou reunião de emergência, e fez um importante pronunciamento.
Lula deixou claro que “os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”.
Indo além, enfatiza que “esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
Enquanto o pronunciamento de Lula se deu na direção certa, condenando o uso da força e alertando para “os riscos de um mundo de violência, caos e instabilidade”, a mídia corporativa brasileira se mostrava em festa, numa atitude que mistura estupidez e subserviência ao imperialismo.
Há poucas semanas, Trump interferiu diretamente no resultado das eleições presidenciais em Honduras, impondo a vitória do extremista de direita, Nasry Asfura, por ele apoiado.
No final de outubro do ano passado, o Tesouro dos Estados Unidos aportou US$ 20 bilhões para o Banco Central argentino, com a condição de que os aliados do presidente Javier Miley vencessem as eleições.
Não exatamente venceram, mas Miley melhorou bastante sua posição no Congresso, conseguindo descartar assim a possibilidade de impeachment.
Neste ano que se inicia, três países da América Latina terão eleições presidenciais: Colômbia, Peru e Brasil.
Será que alguém minimamente informado acredita que Trump não tentará interferir no resultado dessas eleições para beneficiar candidatos subservientes aos interesses da Casa Branca?
Sempre alinhado aos interesses dos Estados Unidos, o grupo Globo, nos seus diversos veículos, estampou manchetes que deixam enojados qualquer um que não seja venal.
Tentando aparentar neutralidade, o portal G1, por exemplo, deu a notícia como se fosse algo corriqueiro, enfatizando que “Maduro e esposa serão julgados em Nova York”, enumerando a seguir os “crimes” cometidos pelo presidente venezuelano, como se os Estados Unidos tivessem qualquer legitimidade para julgar um chefe de estado estrangeiro.
Na mesma linha, o portal UOL, do grupo Folha de S. Paulo, manchetou: “EUA capturam Maduro”.
Normalmente utilizado para se referir a criminosos, o verbo capturar evidencia a posição deste veículo, que sempre se referiu a Maduro como “ditador” e a presidentes como Trump e Milei como “democratas”.
Tão ou mais grave ainda foi a posição da apresentadora Maria Beltrão que, em programa na manhã do mesmo sábado na GloboNews, outro veículo do grupo Globo, comemorou a prisão de Maduro e a incluiu entre as “boas notícias do dia”.
Exceto os veículos da mídia progressista brasileira, que desde as primeiras horas passaram a noticiar os bombardeios à Venezuela e a denunciar a ação dos Estados Unidos, o que se viu foi um festival de aplausos e comemorações. Atitudes que, lamentavelmente, só surpreendem quem desconhece como a mídia corporativa age.
Vamos aos fatos.
A mídia corporativa brasileira não faz cobertura própria do que acontece no mundo. Vale-se de agências estadunidenses como Associated Press (AP) e Bloomberg, da britânica Reuters, da francesa France Press (AFP), da alemã DPA e da italiana ANSA. Agências desde sempre nitidamente alinhadas aos interesses imperialistas de seus governos.
Foram os principais estados europeus que fizeram a partilha da África, na Conferência de Berlim (1884-1885), configurando-se em uma das razões que deram origem à Primeira Guerra Mundial.
Possuindo correspondentes apenas em países imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, França), a mídia corporativa brasileira se vale de pronunciamentos e fontes destes governos como se fossem a expressão da verdade.
Aliás, esta mídia cobre a Casa Branca com constância e atenção que nunca dispensam aos governos do Sul Global, mesmo depois de a China ter ultrapassado os Estados Unidos em paridade de compra e estar próximo – para muitos já se tornou – de ser a primeira potência mundial.
Não por acaso, o famoso livro do jornalista Phillip Knightley (1929-2016) “A Primeira Vítima”, publicado em 1975, continua sendo de uma atualidade impressionante.
Nascido na Austrália, Knightley foi um dos mais célebres estudiosos da cena internacional. Tendo vivido na Índia e na Inglaterra, consolidou uma longa carreira de cobertura de guerra num estudo em que soma aos seus enormes conhecimentos históricos a visão extremamente aguçada de jornalista.
O resultado é uma publicação que desmascara tanto os intrincados interesses dos veículos da mídia corporativa quanto o da maioria de seus jornalistas, sempre na linha de frente na defesa dos fabricantes de armas, da propaganda imperialista de guerra e da construção de mitos. O trabalho de Knightley aborda da guerra da Criméia (1853-1856) ao Vietnã (1959-1975).
Se estivesse vivo, o que está acontecendo na Venezuela seria um prato cheio para a sua análise. O método por ele utilizado, no entanto, continua atual e à nossa disposição.
A observação inicial que ele faria é de que o bombardeio contra a Venezuela não ocorreu nas últimas 24 horas. Teve início bem antes, em 1998, quando da vitória do militar socialista e nacionalista Hugo Chávez, cujas promessas de campanha envolviam a nacionalização do petróleo e o fim à miséria em seu país.
Nos 14 anos em que esteve no poder, eleito e reeleito por esmagadora maioria de votos, Chávez enfrentou várias tentativas de golpe, sendo a mais grave delas em 11 de abril de 2002, quando ficou afastado por 47 horas. Graças ao apoio popular e a setores leais no exército, retornou ao Palácio Miraflores, nele permanecendo até a morte por um câncer tão súbito quanto estranho, em 2013.
Não escaparia da atenção de Knightley o documentário irlandês “A Revolução Não Será televisionada” (2003), dirigido por Kim Bartley e Donnacha O’Brian, que narra o que ocorreu nos quase dois dias em que Chávez esteve fora do poder, com destaque para o lamentável papel da mídia corporativa daquele país.
Quase na mesma época, dirigentes latino-americanos progressistas como Evo Morales, Fernando Lugo, José Mujica, Lula e Dilma também enfrentaram cânceres.
Antes deles, o dirigente cubano Fidel Castro (1926-2016) já tinha conseguido escapar de mais de 600 tentativas de morte pela CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos. Um dos métodos empregados por ela é o envenenamento.
Nem a mídia corporativa brasileira e nem a internacional jamais deram destaque a estes fatos. Ao contrário. Sempre lamentaram que Chávez não tivesse sido derrubado e que governos progressistas chegassem ao poder na América Latina durante a primeira década dos anos 2000, a chamada “onda vermelha”, sempre reproduzindo vozes e interesses dos Estados Unidos.
Mesmo Maduro sendo o vice que assumiu o poder com a morte de Chávez, eleito e reeleito pelo voto popular, a mídia corporativa brasileira e internacional fazia questão de diminuí-lo, apontando-o como um “motorista”, um “bronco” que chegou ao poder.
Ele certamente não é um gênio político ou estratégico como Chávez, mas tem competência e o mesmo compromisso com os interesses populares. O que explica o combate sem tréguas de que foi vítima por esta mídia a serviço do Tio Sam.
Em agosto de 2025, os Estados Unidos ampliaram para US$ 50 milhões a recompensa por informações que levassem à sua prisão. Tamanho absurdo em se tratando do presidente de um país livre e soberano como a Venezuela não deveria ter merecido o repúdio de uma mídia que se diz democrática e comprometida com os direitos humanos?
As permanentes mentiras divulgadas contra Maduro explicam os motivos pelos quais parcela significativa dos brasileiros e latino-americanos acredita que ele fosse um ditador. Quem se recorda da extensa cobertura feita pela TV aberta brasileira em relação à onda de imigrantes venezuelanos que chegava ao nosso país?
Pois é. A pobreza dos imigrantes era ressaltada, mas nunca foi dito que a raiz dela estava nas centenas de sanções que os Estados Unidos passaram a aplicar à Venezuela.
Sanções que fizeram o país perder 213% do seu PIB entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024, segundo dados da Global South Insights.
A Venezuela dependia do petróleo para 95% de suas receitas de exportação. Além disso, a receita do petróleo vinha sendo crucial para o financiamento da agenda progressista do governo. Essa perda fez a inflação disparar e deu início à crise imigratória, que a mídia brasileira, de forma mentirosa, atribuía ao governo Maduro.
Outros absurdos que a mídia corporativa brasileira naturalizou dizem respeito aos ataques a barcos de pescadores venezuelanos na costa daquele país, cujas mortes ultrapassam 100 pessoas, sem que qualquer evidência de que transportavam drogas fosse apresentada.
É importante frisar que, mesmo se houvesse provas, os Estados Unidos jamais poderiam executar sumariamente pescadores ou quem quer que seja.
Nem durante guerras as execuções sumárias são permitidas. O que deixa nítido que quem age como um ditador e dono do mundo é Trump.
A esses absurdos se somam a guerra psicológica implementada pelos Estados Unidos contra a Venezuela nos últimos meses, que culminou com a presença, no mar do Caribe, do maior porta-aviões dos Estados Unidos, numa clara intimidação a Maduro e a outros países da região, de cujos regimes a Casa Branca não gosta, a exemplo da Colômbia, do México, de Cuba e da Nicarágua.
Não faltam outros exemplos de como a mídia corporativa brasileira é vil e sem nenhum compromisso com a realidade dos fatos.
Três deles merecem destaque.
PRIMEIRO – Esta mídia procurou encobrir, de todas as maneiras, que foi Maduro quem socorreu o estado do Amazonas com o oxigênio que salvou milhares de vidas de brasileiros. O responsável pela calamitosa situação da saúde naquele estado era o então presidente Jair Bolsonaro. O criminoso negativismo dele e de seu ministro da Saúde redundou na morte de 700 mil pessoas, das quais pelo menos 300 mil poderiam ter sido evitadas.
SEGUNDO – Esta mídia não abordou as ameaças de Trump contra a América Latina e seus governantes progressistas. Não vi nenhum editorial indignado nos “jornalões” brasileiros contra afirmações de Trump ou de seu secretario de Estado, Marco Rubio, de que pretendiam retornar o nosso subcontinente à condição de “quintal” do Tio Sam.
TERCEIRO – O silêncio criminoso desta mídia em relação às consequências práticas da nova estratégia de segurança nacional de Trump, um documento de 33 páginas que reforça a doutrina “America first” e define o realinhamento da política externa dos Estados Unidos.
Uma leitura atenta deste documento indica que Trump tem na China seu inimigo, trata como irrelevantes os países europeus que integram a OTAN, faz um nítido aceno para a Rússia em se tratando da Ucrânia, e aborda com desdenho, para dizer o mínimo, os países da América Latina.
Sua política para a nossa região envolve, oficialmente, frear a imigração ilegal, conter o avanço do narcotráfico e melhorar as relações com seus aliados ideológicos ou parceiros comerciais.
Para tanto, se propõe a retomar a política externa do ex-presidente James Monroe (1758-1831), “a América para os Americanos”.
Foi com esta doutrina que os Estados Unidos declararam, em 1823, sua intenção “de proteger a região contra o avanço de potências de outros continentes”.
Na época, a maioria dos países lutava contra a colonização espanhola e a doutrina, num primeiro momento, parecia fazer sentido. Rapidamente, no entanto, o que se verificou foi os Estados Unidos passando a ocupar o papel imperialista.
A guerra pela independência de Cuba (1895-1898) é um exemplo eloquente disso.
Cuba já estava vencendo a Espanha, quando os Estados Unidos arranjaram um pretexto para entrar na guerra em apoio a Cuba.
O pretexto veio em forma de uma mentira contada pela mídia estadunidense, em especial o jornalismo “amarelo” (sensacionalista) praticado pelo primeiro magnata da mídia naquele país, William Randolph Hearst.
Disposto a inflamar a opinião pública e pressionar por uma intervenção militar em Cuba, ele despachou para a ilha do Caribe um profissional com a incumbência de lhe enviar relatos e retratos da guerra.
Como o profissional deixou claro que não havia os absurdos que ele queria, a explosão do navio estadunidense USS Maine no porto de Havana, em 15 de fevereiro de 1898, acabou sendo o evento que inflamou a opinião pública dos Estados Unidos e foi um catalizador contra a Espanha.
Não havia nenhuma evidência de que a explosão tivesse sido provocada pela Espanha, mas os Estados Unidos se aproveitaram da situação para derrotar a Espanha e passar a tutelar a “independente” Cuba.
É deste lamentável episódio a frase de Hearst, dirigida a seu repórter em Cuba: “me envie as fotos, que eu forneço a guerra”.
Com toda razão Fidel Castro e Che Guevara se referiam à Revolução de 1959, em que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista, como “a segunda independência de Cuba”.
A guerra de Trump contra a Venezuela choca por simplesmente passar por cima do direito internacional e de ter na mídia corporativa sua aliada permanente. Mas está longe de ser a primeira vez em que isso acontece. Desde a independência, os Estados Unidos realizaram centenas de intervenções militares e guerras, com as estimativas variando em torno de mais de 200 conflitos armados, sempre apoiados por esta mídia.
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos foram responsáveis por cerca de 80% dos conflitos armados globais, com guerras e intervenções em países tão diversos como Coreia, Irã, Guatemala, Cuba, Vietnã, Brasil, República Dominicana, Chile, Nicarágua, Iraque, Afeganistão, Líbia, Panamá e Síria, gerando milhões de deslocados e mortes.
Na América Latina, a maioria dos países viveu ditaduras sanguinárias bancadas pelos Estados Unidos e, a julgar pelo que acontece agora na Venezuela, Trump pretende trazer de volta aqueles tempos.
A pergunta que não quer calar é: será isso possível?
Muita gente – inclusive eu – estranhou a facilidade com que a Venezuela foi invadida e Maduro preso, diante do apoio, inclusive militar, que tinha da Rússia.
Rússia e China vão aceitar que Trump aja como imperador sobre a América Latina? E seus investimentos na região?
O BRICS não tem nada a dizer sobre o assunto?
As próximas vítimas já estão sendo apontadas por Trump: Cuba e Colômbia.
Os governos progressistas do México e do Brasil também estão na mira.
Estamos assistindo a uma Guerra Fria 2.0, com a divisão do mundo sendo firmada por interesses de duas ou três potências?
Ou estamos vivendo o prenúncio da Terceira Guerra Mundial que, como todo conflito com tais proporções, redefine o poder no mundo?
2026 está apenas começando. Um começo triste, lamentável e criminoso por parte de Trump, mas que pode mobilizar resistências internacionais e até mesmo dentro dos Estados Unidos.
A Venezuela tem tudo para ser um novo Vietnã para o Tio Sam.
*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI




Comentários
Artur da Silva Coelho
Eu tenho nojo dos EUA. Criminosos em todos os sentidos. Minha resposta é sabotar tudo o que venha ou se produza nesse país miserável.
Zé Maria
‘Autocrata’, ‘Ditador’, ‘Narcotraficante’…
Não esqueçam de que, historicamente,
a Mentira Mais Óbvia Repetida à Exaustão
pelos Estados Unidos DA América (EUA)
é Convertida em Verdade Absoluta pelos
Tentáculos Midiáticos Internacionais.
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