VIOMUNDO

Diário da Resistência


Mulheres atacam a “misoginia dos patriarcas eclesiais”
Política

Mulheres atacam a “misoginia dos patriarcas eclesiais”


03/08/2013 - 18h00

por Conceição Lemes

Nas duas últimas semanas a presidenta Dilma Rousseff  tomou duas decisões importantíssimas.

No dia 25 de julho, a pedido da CUT e outras sindicais e contra o desejo dos empresários, vetou o fim da multa adicional de 10% sobre o saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) de trabalhadores demitidos sem justa causa. O Congresso Nacional havia aprovado a sua extinção.

Em 2 de agosto, Dilma sancionou sem vetos o projeto de lei 60/99, de  autoria da deputada federal Iara Bernardi (PT-SP), aprovado unanimemente  no Senado e Câmara dos Deputados sob a referência PLC 3/2013 .

A Lei do Estupro, como ficou conhecida, dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual. Embora não altere em nada as normas que hoje regulam o atendimento à saúde das mulheres e adolescentes vítimas de violência sexual, sofreu pesada campanha de grupos religiosos conservadores que pediram à presidenta o seu veto (AQUI, AQUI e AQUI).

A decisão foi saudada por movimentos de mulheres, de saúde e feministas.

Ana Reis, médica, do Coletivo Feminista Manas Chicas: 

“A presidenta Dilma fez o que esperávamos dela. Cumpriu o juramento  feito,  no seu discurso de posse, de honrar as mulheres desse país.

Se a presidenta não sancionasse o PLC 03/2013, teria oficializado o Estado Teocrático. Pela primeira vez, ao que sabemos, uma decisão do Congresso,  um projeto de lei que ficou 14 anos (!) sendo discutido sofreria um veto, por motivos religiosos, através da Presidência da República.

A misoginia dos patriarcas eclesiais chega a este  ponto: o de querer negar assistência médica, psicológica, social e jurídica a meninas e mulheres vítimas de violência sexual. Ou seja, negar-lhes o acesso a direitos civis e humanos, quando essa mesma misoginia assume a sua face mais horrenda — a da violação dos corpos. Agem como verdadeiros talibispos. A chantagem eleitoral a que recorrem é demonstrativa de sua maneira antiética de se imiscuir na política.

O zelo que dizem ter pela “vida” nada mais é do que a biopolítica que sempre exerceram por meio da manipulação da legítima fé das pessoas. Desde os tempos inquisitoriais, não mudaram. Atualizam-se, através da disputa pelo discurso da bioética, como se vê no manual distribuído na Jornada Mundial da Juventude. Mas o território em que se firmam para exercer o poder é sempre o mesmo: os corpos das mulheres”.

Angela Freitas, comunicadora social, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro (Cedim-RJ):

“Hoje, temos hoje motivo para comemorar. Viva o Estado laico!”

Beatriz Galli, advogada, relatora do Direito Humano à Saúde Sexual e Reprodutiva da Plataforma Dhesca e assessora de políticas para a América Latina do Ipas:

“A sanção do PLC 3/2013 é fundamental para a garantia dos direitos das mulheres e meninas em situação de violência sexual.

Esta medida ajuda a diminuir as resistências em relação à assistência médica nos serviços que hoje funcionam precariamente, colaborando para acabar com as recusas, omissões e as demais barreiras no acesso das mulheres e meninas a saúde.

A nova lei dá maior respaldo jurídico para o trabalho dos profissionais de saúde. Esperamos que o próximo passo seja uma campanha de informação para a população em geral”.

Nina Madsen, socióloga e integrante do Colegiado de Gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea):

“Têm sido escassos os nossos motivos de comemoração nos últimos tempos; raras as nossas oportunidades de exercitar o otimismo; menos e menos freqüente o sentimento de estarmos representadas por aquelas e aqueles nos quais votamos para nos representarem.

Na quinta-feira, porém, com a sanção integral do PLC 03/2013, algo novo parece ter brotado dos abundantes gramados da Esplanada dos Ministérios. Um sonoro e retumbante BASTA! Foi esse o grito que nos alcançou e nos encheu de alívio.

A sanção do PLC 03/2013 é uma lufada de esperança em meio a uma tempestade de absurdos que já parecia não ter fim.

Esperança de que a justiça social e os direitos humanos prevaleçam sobre o ranço misógino, racista e homofóbico que se instalou no país.

Esperança de que a vida, a dignidade e a autonomia das mulheres sejam respeitadas, garantidas e protegidas por nosso Estado (Laico!!!!!).

Esperança de que [email protected] governantes tenham coragem de erguer suas vozes conosco para fazerem valer nossos direitos, os direitos de [email protected]

Esperança de que a história compartilhada entre movimentos e partidos, que construíram a democracia fundada nos direitos humanos nesse país, não seja esquecida nem renegada por oportunismos eleitorais.

A sanção do PLC 03/2013 nos diz que é sempre tempo de lutar e que nossa luta deve manter intacto e íntegro o seu sentido. Estamos lutando por nossas vidas, pelas vidas de todas as mulheres brasileiras. E não iremos retroceder.

Queremos entender essa decisão da Presidenta Dilma Roussef como um BASTA ao conservadorismo e ao oportunismo político. Um BASTA aos fundamentalismos. Um BASTA àqueles que pensam que a vida das mulheres não vale nada. Um BASTA à misoginia, ao racismo, à homofobia.

Esse é o grito engasgado que precisamos dar. É nosso grito de liberdade. É nossa possibilidade real e tangível de resgatar o sentido histórico e político da democracia que vimos construindo até aqui. Esperamos que, a partir daqui, ele ecoe e se amplifique em muitas, novas e velhas vozes. BASTA!!!”

Sonia Corrêa,  pesquisadora associada da Abia e co-cordenadora do Obsevatório de Sexualidade e Política: 

“A presidenta Dilma fez o que tinha que ser feito. Não havia nenhuma justificativa sólida — técnica ou jurídica —  para não fazê-lo.

Resta saber se a sanção também vai significar a ampliação e melhoria da qualidade da rede de atenção às mulheres vítimas de violência pois, no  mundo da vida, é isso o que importa”.

 Leia também:

Eleonora Menicucci: Respeito às mulheres que sofrem violência sexual





15 comentários

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Luana Tolentino: Pelo fim das revistas vexatórias « Viomundo - O que você não vê na mídia

23 de julho de 2014 às 07h48

[…] Mulheres atacam a “misoginia dos patriarcas eclesiais” […]

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Alexandre Bastos

05 de agosto de 2013 às 23h10

A sanção foi um ato de coragem necessário

Responder

Centrais sindicais protestam em todo o país contra terceirização - Viomundo - O que você não vê na mídia

05 de agosto de 2013 às 22h54

[…] Mulheres atacam a “misoginia dos patriarcas eclesiais” […]

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Objete

05 de agosto de 2013 às 18h18

Parabens Dilma, continue avançando sobre outras pautas de real importância colocadas pelo povão, mormente agora depois das manifestações de jun/2013.E não deixar de enfatizar que o Brasil é um pais Laico.

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Gildásio

05 de agosto de 2013 às 17h09

Dilma está indo bem. A ministra Eleonora muito mais. E viva o Estado laico

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Vinícius

05 de agosto de 2013 às 11h00

Nesse movimento “teocrático” formado por evangélicos, espíritas e católicos, quem vai mandar? Um pastor, um médium ou um padre? Ou eles vão se revezar?

Não existe ameaça nenhuma ao Estado Laico. Ou, ironicamente, existe a ameaça de uma única visão religiosa querer marginalizar todas as outras, mas ela não vem dos conservadores..

Em relação ao PL 03, parabéns à Dilma por ter aprovado a lei, com sensibilidade para indicar a modificação daquele trecho que podia legalizar o aborto na prática e na maciota, sem a devida discussão e transparência democráticas.

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Gerson Carneiro

05 de agosto de 2013 às 08h20

O inferno do Governo Dilma é a SECOM-PR.

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    Gerson Carneiro

    05 de agosto de 2013 às 08h22

    Coincidentemente comandada por uma mulher.

    Em tempo: não entendam isso como machismo, só achei curiosa a coincidência. E nada mais.

Magda Viana Areias

04 de agosto de 2013 às 20h30

Mulheres, tá valendo

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renato

04 de agosto de 2013 às 19h15

Dilma arrebenta!!!!!!!!!

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Sônia

04 de agosto de 2013 às 18h19

Não sei porque tanto receio em avançar nas políticas públicas progressistas… Dilma tem popularidade pra isso e será apoiada, principalmente pelo eleitorado feminino, pelos gays, pelos negros, etc. Está demorando demais em tomar uma atitude mais firme sobre pautas específicas ( mais difíceis de serem boicotadas pelo congresso tal aconteceu com o plebiscito). Ela pode se fortalecer mais ainda se conseguir avançar nessas questões e tem o apoio da população para tal. Quanto aos congressistas, se continuarem impedindo as demandas populares, não passarão na próxima e o aviso já foi dado pelas ruas.

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Zenildo

04 de agosto de 2013 às 18h19

A Presidenta DILMA está de parabéns, mas além de administrar o país, precisa ocupar espaço na mídia e apresentar os problemas e as perspectivas de solução, os projetos em estudo e os projetos em execução. Informar o que está sendo feito para que o Brasil continue crescendo com distribuição renda. A PRESIDENTA DILMA PRECISA ECONOMIZAR O DINHEIRO QUE O GOVERNO GASTA NA PROPAGANDA INSTITUCIONAL (80% PARA A GLOBO – A REDE SONEGA)e falar mais, gratuitamente, através de REDE DE RÁDIO E TELEVISÃO. Cobre as dívidas, DILMA…

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Ciro Gomes: A militância de esquerda corre o risco de ser engolida pela direita golpista - Viomundo - O que você não vê na mídia

04 de agosto de 2013 às 14h57

[…] Mulheres atacam a “misoginia dos patriarcas eclesiais” […]

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pereira

04 de agosto de 2013 às 10h26

Parabéns DILMA, não cedeu ao mundo escuro dos pastores e da igreja católica.

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Luís CPPrudente

03 de agosto de 2013 às 22h03

Depois de sancionar na íntegra a Lei do Estupro, enfrentando a barbárie e o obscurantismo dos setores religiosos, a presidenta Dilma tem que avançar: começar a Ley de Medios exigindo a punição da corruptora e sonegadora famiglia Marinho.

Avance mais presidenta Dilma!

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