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Marcos Coimbra: As lições de Demóstenes


23/04/2012 - 09h30

20 de Abril de 2012 – 10h28

Marcos Coimbra: As lições de Demóstenes

na CartaCapital, via Vermelho

A primeira reação dos setores conservadores às denúncias contra Demóstenes Torres foi de silêncio estupefato. Demoraram a perceber o que estava acontecendo: um de seus heróis tinha sido apanhado com a boca na botija.

À medida que os detalhes de suas relações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira foram sendo revelados, viram que seria impossível defendê-lo. Tiveram de reconhecer que alguém em quem haviam apostado nada mais era que o cúmplice – para dizer o mínimo – de um suspeito – continuando a dizer o mínimo – de nebulosas transações.

A segunda reação foi apressar-se na condenação. Talvez por raiva do senador, que os fez de bobos. Devem tê-lo imaginado rindo dos aplausos, enquanto brindava com os amigos.
Mas a razão principal estava na necessidade de controlar os prejuízos colaterais. O apodrecimento do senador Demóstenes poderia contaminar um pedaço grande da política brasileira. Que fosse rapidamente extirpado.

A terceira foi uma clássica manobra de luta ideológica: passar para o ataque. Se a defesa é insustentável e se não interessa protelar, o jogo tem de ser mudado. Era preciso embaralhar as culpas do Demóstenes oposicionista com aquelas de políticos governistas. E era óbvio com quais: os acusados pelo “mensalão”. Eles e Demóstenes tinham de ser igualados.

Se esse diversionismo fosse bem-sucedido, o escândalo terminaria por ser positivo: aumentaria as pressões para que o STF julgasse logo o caso.

Quem conhece o funcionamento do Supremo sabe, no entanto, que a chance de que ele se pronuncie nos próximos meses é pequena. A complexidade das questões que suscita, sua sensibilidade, seus efeitos na dinâmica interna do Tribunal, tudo sugere que o julgamento não vá começar de imediato.

Essa perspectiva não agrada a quem quer utilizá-lo para atingir o PT e suas lideranças. Por extensão, para fragilizar o governo.

Tudo o que esses setores desejam é que o País fique meses a discutir o episódio. Sonham recriar os dias em que a TV Câmara disputava audiência, transmitindo ao vivo as sessões da CPMI dos Correios.

É uma aposta com pequena possibilidade de sucesso. Acreditar que o retorno do “mensalão” pela via judiciária terá o mesmo efeito na opinião pública que a sua revelação original é imaginar muito.

Para a vasta maioria das pessoas, será igual a ler o jornal de anteontem. Tudo é conhecido, não há qualquer fato novo.

Sem falar que a discussão no Supremo dificilmente terá a teatralidade do Legislativo. A leitura de um voto – que pode durar horas – costuma fazer dormir até os especialistas.

Mas quem não tem cão, caça com gato. Confusa em seu discurso, dividida por conflitos internos, a oposição partidária avalia que a volta do assunto às manchetes é uma oportunidade para adquirir novo fôlego. O mesmo vale para os veículos da mídia conservadora, que acreditam que assim poderão fazer seu acerto de contas com o “lulopetismo”.

O problema é que o escândalo Demóstenes e o “mensalão” são completamente diferentes. No primeiro, um político é suspeito de fazer o que os bandidos fazem. No segundo, alguns políticos são acusados de fazer o que todos fazem.

Não são, portanto, nem de longe, a mesma coisa.

A maior parte dos que serão julgados pelo “mensalão” fez, apenas, aquilo que as regras não escritas da política sempre admitiram. E que, por essa razão, seus colegas praticaram – e continuam a praticar. Ou alguém acha que, agora, tudo é feito de maneira ortodoxa?

Ninguém os acusa de advocacia de interesses escusos ou de conluio com os fora da lei. Suspeitar que receberam uma espécie de mesada para votar com o governo é uma simples história da carochinha: petistas ganhando para isso?

No fundo, o esforço de igualar o que é flagrantemente diferente, talvez acabe sendo positivo na hora em que o Supremo julgar. Deixa nítido que o inaceitável é Demóstenes.

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12 comentários

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zezinho

24 de abril de 2012 às 03h41

É um absurdo ler uma reportagem dessas!

Moral do texto: já que todo mundo rouba então podemos roubar também. Se nós formos pegos roubando não devemos ser punidos porque os outros também roubam.

Nunca imaginei ler algo tão baixo.

Responder

pperez

23 de abril de 2012 às 17h50

Ainda bem que o Demostenes é pato novo, porque flagrado, não negou a amizade nem os mimos que recebeu do amigo cachoeira.
Fosse cascudo no crime, estaria negando tudo sobre a cruz de cristo até hj!

Responder

    felipe

    23 de abril de 2012 às 18h13

    Igual os petistas. hahaha

Taiguara

23 de abril de 2012 às 15h30

No caso dos demofrênicos tucanopatas eu afirmo que há diferentes calibres apontando para a cabeça de diferentes calados.

Responder

Emerson Sousa

23 de abril de 2012 às 14h05

Sr. Azenha, poderia me indicar um blog de natureza semelhante ao vosso que esteja sediado na Argentina ou Espanha (de preferência em Madrid)? Favor remeter resposta para meu e-mail pessoal!

Responder

    Willian

    24 de abril de 2012 às 08h34

    Vi el mundo?

FrancoAtirador

23 de abril de 2012 às 12h08

.
.
"quem não tem cão, caça com gato"

E QUEM NÃO TEM MAIS "GATO" ?

É a terrível situação da mídia mafiosa:

Os cães não se elegeram.
Os gatos foram para a cadeia.
Só restou caçar com ratos…
.
.

Responder

Ramalho

23 de abril de 2012 às 10h54

As falcatruas da direita e da esquerda são ambas condenáveis. Embora sejam todas falcatruas, há, em geral, diferenças marcante entre elas, e essas diferenças situam-se nas motivações de umas e outras. Tomem-se, por exemplo, os casos “Cachoeira” e “Mensalão”, falcatruas emblemáticas da direita e da esquerda respectivamente.

No caso “Cachoeira”, uma quadrilha comandada por líderes do DEM e PSDB – com a participação da Veja, ao que tudo indica – aparelhou parte do Estado brasileiro em proveito dos meliantes da organização criminosa, como se diz. A quadrilha pôs cúmplices e apaniguados em posições governamentais importantes por meio de tráfico de influência; atuou em legislativos e executivos visando a eliminação de concorrentes e proteção dos negócios da quadrilha; plantou falsas notícias na mídia para chantagear adversários e autoridades visando a obtenção de vantagens indevidas para membros da organização. Tentava empolgar o próprio governo federal, pondo na presidência da república um membro da quadrilha, o senador Demóstenes Torres, quando foi pega.

A quadrilha “Cachoeira” pretendeu, com o apoio da parte da imprensa – consciente, ou não –, apoderar-se do Estado brasileiro por meios ilícitos, intentando surrupiar recursos da sociedade em favor dos membros da quadrilha e protegidos, ora dando-lhes emprego público, ora prestígio, ora posição estratégica em governos, ora vantagens indevidas em concorrências públicas, ora através do afrouxamento das ações policiais, ora por meio do afrouxamento das ações legislativas. Nunca se ouviu falar no Brasil de tamanha ousadia do crime organizado. O propósito da quadrilha de Cachoeira foi o de roubar o Estado em grande escala pura e simplesmente.

No “Mensalão”, as circunstâncias foram outras. Não havia a intenção de golpe de Estado, pois os acusados já faziam parte do governo federal, tanto no Executivo, quanto no Legislativo. Havia dívidas de campanha gigantescas, e muitos dos envolvidos – políticos eleitos – não dispunham de recursos para fazer frente a elas (o financiamento de campanha é ferida aberta no sistema político brasileiro). O governo era de coalizão apoiado em partidos “nanicos” que só se movem por meio de estímulos heterodoxos, tal como propina. Alie-se a isto, a empáfia ingênua de certos quadros do governo da época que os fez acreditarem que poderiam comprar os corruptos do Congresso impunemente, e, assim, fazerem passar sem atropelos leis de interesse genuíno do Estado (sob a ótica do governo, evidentemente).

Claro que os chamados “mensaleiros” erraram, mas há atenuantes: não objetivaram ter no “caixa 2” fonte permanente de renda. Tencionaram comprar um congresso corrupto para fazê-lo funcionar em favor de teses altamente combatidas pela direita, e que, sob os olhos do governo da época, eram favoráveis ao país – o que o tempo provou ser verdadeiro. Pretenderam dar cobertura legal aos recursos de campanha conseguidos sob o artifício do “caixa 2”, recursos mais necessários a partido popular do que a partido de direita, pois os membros de partido popular são, em geral, muito mais carentes de recursos do que seus correspondentes de direita: um Tasso Jereissati, por exemplo, pode bancar sozinho a própria campanha. No caso "Mensalão", a motivação foi política; no caso “Cachoeira”, foi a de roubar por roubar.

A ação dos chamados “mensaleiros” – embora não houvesse mensalidade alguma – tem paralelo com o agir de Robin Hood: corromper ricos corruptos do Congresso com dinheiro de “caixa 2” – que depois da vitória nas urnas passou a chover torrencialmente nas hostes do governo – para favorecer os pobres. Já o proceder da quadrilha da direita, a quadrilha de Cachoeira, Demóstenes e outros próceres do PSDB e DEM, tem paralelo com o do ladrão comum, aquele que surrupia bens alheios para próprio proveito exclusivamente.

Responder

    VLO

    23 de abril de 2012 às 11h33

    Você está coberto de razão e seu texto é claro e preciso. Há uma enorme diferença entre a quadrilha do Cachoeira e o caixa 2.

Gerson Carneiro

23 de abril de 2012 às 09h56

Os tradicionais veículos do PIG exibem a empresa Delta, e não o Demóstenes Torres, como o pivô da CPMI. Chegando ao ridículo de veicular manchetes como essa:

"Conheça o garotão amigo de políticos que levou a Delta à esfera nacional" – @Estadao
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,o-gar

É a velha tática de confundir e desinformar.

Responder

Cleverton_Silva

23 de abril de 2012 às 09h53

Já não bastava ç(F)erra, feagagacê e Arruda, a oposição ainda veio o DEMóstenes complicar a oposição??? Assim não pode, assim não dá…

Responder

Tetê

23 de abril de 2012 às 09h50

De acordo na maioria dos pontos com Marcos Coimbra, mas nos entretantos há crimes, nos dois casos. De diferentes calados.

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