VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Flávio Aguiar: A direita brasileira e o sadomasoquismo


02/01/2013 - 21h11

por Flávio Aguiar, em Carta Maior, sugestão de Julio César Macedo Amorim

Estava eu posto em sossego, das festas colhendo o doce fruito, tendendo a voltar às lides apenas para o ano, quando dois excelentes artigos vieram arrancar-me do merecido repouso.

Refiro-me a Uma proposta de reflexão para o PT, do amigo e governador Tarso Genro, e Pacto adversativo x Pacto progressista, do também amigo e editor, Saul Leblon.

Ainda que de modos diversos, tocam ambos na mesma tecla de entrada: como pode a direita brasileira desqualificar a atual experiência democrática das administrações populares que se sucedem, notadamente no plano federal, as de Lula e Dilma?

Também deve-se incluir aí tentativas internacionais. Primeiro foi a da The Economist, numa iniciativa digna dos tempos império-coloniais, pedindo a cabeça do ministro Guido Mantega. Mais recentemente o Financial Times entrou na dança, montando uma ridícula farsa dialogada em que se misturam alusões toscas e grosseiras à presidenta Dilma Roussef, ao ministro Mantega, com outras a Putin e aos BRICS, a Cristina Kirchner, apenas para manifestar a indigestão que as administrações progressistas da América Latina provocam na sua linha editorial sempre alinhada com os princípios da ortodoxia neo-liberal.

Durante muito tempo a mídia ortodoxa internacional exerceu um “ruído obsequioso” em relação ao Brasil, visto como uma terra exótica de empreendimentos governamentais exóticos que “davam certo” no desconcerto universal da hegemonia neoliberal.

Um acontecimento mudou essa situação: a vitória de François Hollande na França, destruindo a “aliança Merkozy” e introduzindo – ainda que de modo tímido – uma cunha adversa na hegemonia orotodoxa no reino da Zona do Euro. A partir daí – de modo conjugado com a diminuição ostensiva dos lucros (e dos bônus, prebendas e sinecuras) do investimento financeiro-especulativo no Brasil, este tornou-se uma influência perigosa, que necessariamente deve ser desarticulada para impedir que se espraie acima do Mediterrâneo. Ainda mais depois da exitosa passagem de ambos, Lula e Dilma, por Berlim (o primeiro) e Paris (ambos), articulando um seminário anti-ortodoxia com o próprio Hollande – que também deve ser desarticulado, ou nem chegar a se articular.

É nesse movimento internacional que se situam as iniciativas da nossa direita caseira, tendo sempre em vista a neutralização de qualquer exercício de soberania popular em nossa terra – iniciativa em que desde sempre se harmonizaram conservadorismo político e midiático, sobretudo desde que a Revolução de 30 e acontecimentos em torno introduziram no cenário político institucional esse “elemento” duvidoso e arriscado, o chamado “povo brasileiro”, às vezes, simplesmente “o povão”, outras vezes de modo mais preciso “os trabalhadores”.

Num ensaio brilhante, publicado em 1945, logo ao fim da Segunda Guerra (‘As raízes psicológicas do nazismo’), Anatol Rosenfeld caracteriza o universo espiritual nazista: um misto de sadomasoquismo. De modo masoquista, o típico nazista se situava como “inferior” dentro de uma hierarquia estabelecida, tendo ao topo o Führer, ou simplesmente uma “Ordem Superior”, à qual este mesmo estaria submetido: no caso, era uma visão fanática de uma superioridade racial associada a uma missão civilizatória no estabelecimento de uma sociedade de eleitos. Auto-eleitos, sublinhemos. Daí, de modo sádico, o nazista típico se voltava para oprimir – negando toda a forma de humanidade – os que vê como inferiores nesta hierarquia que é, ao mesmo tempo, social, cultural, antropológica, espiritual, até religiosa.



Mutatis mutandis, pois não estamos falando de nazistas, a estrutura espiritual da(s) direita(s) hoje é análoga. A atividade política é algo por natureza reservado a uma casta superior, os “entendidos”, aqueles que carregam consigo não mais uma superioridade racial, pois esse assunto tornou-se proibitivo, mas uma superioridade civilizatória. No caso europeu, por exemplo, isso se manifesta em relação aos “extemporâneos” muçulmanos, norte-africanos, ou até mesmo, por parte dos que se identificam com um “norte saudável e austero”, em relação aos que estes “auto-eleitos” identificam como os “sulistas ineficientes e perdulários”.

No caso brasileiro (latino-americano, de um modo geral), os arautos dessa apologia da desigualdade se situam (inclusive e sobretudo na mídia) como portadores de uma mensagem civilizatória vinda de uma “ordem superior”, qual seja, a atual ordem capitalista imposta pela financeirização da economia e da política, e como tais, negam qualquer possibilidade de exercício de soberania democrática por parte dos que estão “abaixo” desse círculo de “auto-eleitos”.

Como aponta Tarso Genro, uma das vias para se concretizar essa negação da soberania democrática é a “judicialização” da política; como aponta Leblon, outra via é a pura e simples negação da história. Abrir o caminho da participação no círculo do consumo para dezenas de milhões de brasileiros que dela estavam excluídos não tem o menor significado para esse tipo de pensamento que se cristaliza em torno da “auto-eleição”. Ou melhor, tem sim um significado: é insuportável, porque isso pode abrir-lhes o apetite para quererem mais, como diz Genro, citando Döblin, do que “pão e manteiga”.

Portanto, para esse tipo de pensamento, é necessário destruir essa experiência de soberania democrática, destruí-la institucionalmente, pela negação da política ao seu alcance, e destruí-la na memória, negando seu valor histórico ou até mesmo a sua existência, ou afirmando-a como um “anti-valor”: coisa de “demagogia”, de “compra das consciências através de favores”. Se bem olhada, outra não foi a argumentação de Mitt Romney para justificar sua derrota em novembro.

Como Leblon e Genro, situo-me entre aqueles que olham também – com alguma apreensão – para o lado esquerdo do tabuleiro, onde me situo. 

Haverá entre nós suficiente amplitude de espírito para entender o que está em jogo? Claro, existe uma dimensão imediata que está presente de modo imperativo: no Brasil, a eleição de 2014. Mas não é só isto. O que está em jogo é, depois da derrota histórica do socialismo ao final do século XX, a possibilidade ou não de reconstrução de uma alternativa que reponha na agenda política a questão da soberania democrática e popular. Esta é a questão hoje colocada nos cinco continentes.

Com a palavra, no caso do Brasil, o governo. Mas não só: com a palavra, também, todos nós.

Leia também:

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19 comentários

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Marcos Coimbra: Ainda bem que a credibilidade da mídia é pequena « Viomundo – O que você não vê na mídia

06 de janeiro de 2013 às 11h06

[…] Flávio Aguiar: A direita brasileira e o sadomasoquismo […]

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Mário SF Alves

05 de janeiro de 2013 às 23h27

Sadomasoquismo e …
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Enquanto os fins justificarem os meios… ainda que montados em falácias, preconceitos e mitos… prosperará o mito da superpopulação da Terra. Enquanto isso, a maioria de nós faz ouvidos de mouco e ignora o fato de que toda a população da Terra [ainda que fôssemos 10 bilhões de almas] caberia numa área de 50 mil Km², uma área do tamanho do Estado do Espírito Santo, um dos menores estados da Federação. E, detalhe, sobraria 5 m² para cada um, e sem a necessidade de edifícios.
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Enquanto isso monstros mais antigos, detentores de todo o poder, ensinam a novos monstrinhos os segredos da dissimulação, da trapaça e da manipulação. Propagam mitos, falácias e preconceitos a aliviarem suas consciências e a justificarem seus meios.

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José X.

04 de janeiro de 2013 às 20h56

Não me convence esse argumento de que não vale a pena investir em produção. Já avisaram a China disso ?

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Mário SF Alves

04 de janeiro de 2013 às 00h52

Houve um tempo [1964!] no qual a direita se descabelava de medo do comunismo [ao menos propagava isso]. Tá. A URSS ainda fazia o chão tremer. Mas, agora, não, passou. O muro caiu. O demônio soviético sucumbiu. Felicidade geral? Não, ledo engano. O mundo não podia mudar; o poder não podia se desconcentrar. Era preciso inventar outros demônios: Bin Laden; o ex-sócio iraquiano Saddam Hussein; o líbio Muamar Kadafi. Pronto, aparentemente tudo sob controle. Equação reequilibrada. Mas, aí, pombas!, do nada, surge o Brasil fazendo piruetas endiabradas com a economia e com a política externa; liberta-se do jugo do FMI, manda às favas o Consenso de Washington, influencia toda a América Latina e, não satisfeito, influencia também a França, de Hollande. Daí, só podia dar nisso: sai o comunismo entra o desenvolvimentismo. O inimigo agora é esse: “o capitalismo desenvolvimentista brasileiro”. E quem são os responsáveis? Lula, Dilma, Dirceu, Genoino e Mantega, e, de certa forma, os povos da Grande Latino-América.
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Hora de resistir. Não somos aprendizes de feiticeiros. Democracia neles, até à indigestão.

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    Mário SF Alves

    06 de janeiro de 2013 às 23h08

    Alguém notou a desproporcionalidade?

    O demônio soviético sucumbiu. Felicidade geral? Não, ledo engano. O mundo não podia mudar; o poder não podia se desconcentrar. Era preciso inventar outros demônios: Bin Laden; o ex-sócio iraquiano Saddam Hussein; o líbio Muamar Kadafi.”
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    Vejamos a comparação entre os demônios. De um lado a ex-URSS, a mesma praticamente derrotou o Hitler; de outro, os novos demônios, Bin Laden, o que, dizem, mentalizou intelectualmente a destruição das torres gêmeas; Saddam Hussein, o ex-sócio iraquiano para assuntos de guerra contra o Irã e o líbio Muamar Kadafi, tido por sanguinário ditador, morto na tal primavera. Parece icrível, mas foi justamente isso o que aconteceu. Ora, mas não era ex-URSS a causa de todos os males do mundo? Então? Cadê, omde foi parar o índice de felicidade bruta? Aumentou? Não. Espanha, Portugal e Grécia que o digam.
    ______________________________________________
    A dinâmica do processo: saem de cena a URSS, o Estado do Bem Estar Social e entram os terroristas [tão ou mais ameaçadores e custosos quanto a União Soviética!], o neolioberalismo e a subsequente quebradeira de muitos países da Europa.
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    Daqui a pouco outros serão os demônios eleitos. Entre os canditados tinha ou tem até o MST.

    max

    26 de janeiro de 2013 às 14h57

    Dê poder para o povo! Mas, diga-me quem é o povo? Pt é o povo? Democracia = esquerda? O povo sabe o q quer. Fez sua escolha ao por canalhas no poder. O povo não se interessa por política. O homem médio não sabe e nem qr saber o q se passa em Brasília, afinal todos são ladrões. Q democracia representa um governo q elimina aliados e idolatram assassinos como Fidel e Guevara?

kalifa

03 de janeiro de 2013 às 19h55

E simples o que da certo na esquerda tem que ser eliminado senao a direita fica assistindo os bons governos de entao!

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Job

03 de janeiro de 2013 às 14h10

O nome deste sadomasoquismo é EGO, poder e prazer em fazer o mal.
De que vale ter milhões se outros conseguem com uma vida básica serem felizes.
Esta inculto principalmente na nossa cultura da classe média burguesa,
o sentido de culto ao sadismo. O sentimento de ver outros sofrerem, serem destratados, sofrerem sobre o julgo de serem inferiores, dá a classe média prazer. Quando se vê muitos reclamarem “Veja só, agora até pobre come carne”, “que as empregadas domésticas estão muito salientes”, “que pobre anda se achando”, etc. e ai vai o regozijo da maldade.

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Julio Silveira

03 de janeiro de 2013 às 12h03

O Tarso tem demonstrado ser um grande pensador para revistas, de todas as tendências, sua intelectualidade é indiscutivelmente brilhante. Com certeza deleita bastante leitores, mas principalmente os amigos. Porém deveria passar, no seu governo, a ser um praticante do próprios pensamentos, sendo menos litigante e judicante, nas questões envolvendo seu estado. Principalmente no tocante a servidores, um de seus principais braços de apoio no passado, quando não era tão simpatico aos grupos economicos do RS.

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Masan

03 de janeiro de 2013 às 10h20

Artigo excelente! Esclarecedor em seu alerta.

Será que Dilma irá lê-lo? E se ler, irá compreendê-lo em sua extensão? Seus ‘excelentes assessores’, inclusive os oriundos do chamado PIG, irão qualificá-lo como pertinente, pelo menos?

Duvido, para meu desgosto e desilusão…

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José X.

02 de janeiro de 2013 às 21h54

Corrijam, plis:
“Como Leblon e Genro, situo-me entre aqueles que olham também – com alguma apreensão – para o LADO esquerdo do tabuleiro, onde me situo.”

Esse sadomasoquismo da direita brasileira é uma coisa que me intriga, especialmente no segmento empresarial, já que é visível a ineficiência do modelo direitista e neo-liberal, como já vimos antes no Brasil (e Argentina), e todo mundo está vendo agora na Europa. (Isso sem contar com a crise do subprime de 2008, onde o setor privado norte-americano foi salvo pelo estado…)

É inexplicável para mim que empresários, que em princípio deveriam estar interessados em aumentar os lucros, apoiem desastres ambulantes de direita como o Serra. Não faz sentido para os negócios querer que a situação piore se ela pode melhorar.

Responder

    Conceição Lemes

    02 de janeiro de 2013 às 22h01

    Já corrigimos. Obrigada. abs

    Marcio H Silva

    03 de janeiro de 2013 às 00h53

    É explicável, sim, são sadomasoquistas, ora bolas……..

    carmen silvia

    03 de janeiro de 2013 às 01h07

    José, além dessas questões que vc.colocou de forma clara e que eu tb concordo,passa pela minha cabeça já a algum tempo algo mais prosaico que a sua reflexão,que é o fato de uma certa elite,digamos assim,se deslumbrar quando visitam os ditos paises desenvolvidos e voltarem completamente deslumbrados com o que viram e ao invés de querer que seu país tb se torne algo parecido com aquilo que eles chamam civilizado,aqui em seu próprio território a prática dessa gente se traduz na manutenção da dependência,da pobreza,da educação e saúde de baixa qualidade….e por aí vai.Gostaria que alguém me explicasse essa aparente esquizofrenia dessa certa elite.

    leprechaun

    03 de janeiro de 2013 às 07h38

    não há sadomasoquismo algum, há a ‘queda tendencial da taxa de lucros’, ou seja, investir na produção não é mais rentável (há um bom tempo), então os capitais foram migrando para a esfera especulativa, ou melhor, ficcional, desde os anos 70, produzindo um capitalismo de cassino. O sonho da esquerda tradicional é, no fundo, girar a roda da história para trás, (re)migrar os capitais pra esfera produtiva, parece impossível, e os ’empresários’ sabem bem disso, portanto, eles se mantêm como ’empresários’ apenas ficcionalmente, no fim, todos são especuladores.

    Mário SF Alves

    04 de janeiro de 2013 às 01h09

    Comentei exatamente isso. Claro, não com tanta desenvoltura. Mas… e aí? Fazer o quê?
    ———————–
    Tal roda é assim tão irreversível, tão insensível, tão pragmática, tão reacionária?

    Caracol

    03 de janeiro de 2013 às 08h57

    José X, Carmen, Marcio e Leprechaun, talvez Hegel estivesse certo quando escreveu, em suas Lições sobre filosofia da história mundial:
    “A experiência e a história nos ensinam o seguinte: que nações e governos jamais aprendem nada de história ou agem de acordo com algo que pudessem ter aprendido com ela.”
    O que está aí, no Brasil e no mundo, evidencia isso.
    Isso não exclui, sem dúvida, a hipótese do tal sado-masoquismo.

    Roberto Locatelli

    03 de janeiro de 2013 às 10h34

    José, nem todos os empresários se rendem ao capital financeiro. Por exemplo, na questão da redução das contas de luz, a FIESP se colocou ao lado de Dilma, fazendo campanha contra “os que não querem o bem do Brasil”.

    No entanto, nos dias de hoje, dá mais lucro especular do que fabricar máquinas de lavar. Por isso, grande parte dos industriais tem um pé (ou os dois) na especulação financeira. E o neoliberalismo é o regime perfeito para banqueiros e especuladores. Enquanto os espanhóis perdem suas casas, os banqueiros recebem “ajuda” do FMI e do Banco Central Europeu.

    A mídia internacional é uma mídia a serviço dos banqueiros. E ela faz a cabeça de parte da classe média e dos pequenos empresários. A parte otária, diga-se.

    Mário SF Alves

    04 de janeiro de 2013 às 01h03

    Não sei não José X, mas, parece-me que a questão ainda reside no seguinte:

    1- A história do Brasil ainda não registrou a existência da chamada burguesia nacional [espécime que fez a Revolução Francesa contra os barões de lá];
    2- Com ou sem desenvolvimentistismo os caras acham que sobreviem. Aliás, muitos preferem mesmo um cenário de subdesenvolvimentismo. Pinto no lixo é pouco para explicar o êxtase que os absorve na especulação financeira.
    ____________________________
    Vá entender.


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