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Emir Sader: O significado da vitória de Cristina


24/10/2011 - 14h49

Blog do Emir Sader

Todos os que seguem a situação argentina sabiam, desde pelo menos um ano e meio, que o governo de Cristina Kirchner havia recuperado grande apoio popular e teria continuidade, seja na presidência de Nestor, seja na dela. Só poderia ser “surpresa” para os que foram vítimas dos seus próprios clichês, denegrindo a imagem da Argentina e do seu governo. Agora não sabem como explicar uma vitória tão contundente, no primeiro turno, com uma diferença de mais de 8 milhões de votos para o segundo colocado.

A vitória de Cristina tem o mesmo sentido da vitória de Dilma. Pela primeira vez, nos dois países, uma mesma corrente obtém, pelo voto popular, um terceiro mandato. Vitórias fundadas em políticas econômicas que permitiram a retomada do crescimento da economia – depois das recessões provocadas por governos neoliberais, Menem lá, FHC por aqui – articuladas estruturalmente com políticas sociais de distribuição de renda.

No caso argentino, a crise de 2005 aqui, foi a de 2008 lá, com a reação violenta dos produtores rurais ao projeto de lei de elevação do imposto de exportação. Em aliança com a conservadora classe média de Buenos Aires, fizeram com o que o governo perdesse parte substancial do seu apoio e terminasse derrotado na votação do Congresso. Essa derrota se desdobrou numa derrota eleitoral, quando já se sentiam os efeitos da crise internacional.

Tal como aqui, a oposição acreditou que havia desferido um golpe mortal nos Kirchner e se preparava já para voltar ao governo, em meio a disputas enormes entre todas as suas tendências, unidas na oposição e na ambição de sucedê-los no governo.

Para surpresa da oposição, o governo reagiu positivamente – como aqui – diante dos efeitos da crise, com políticas anticíclicas e renovando suas políticas sociais. Os reflexos não tardaram a surgir e o governo passou a reconquistar apoio popular, até que, a partir do ano passado, tendo recuperado iniciativa, voltou a aparecer como o grande agente nacional contra a crise.

Dois fatores vieram consolidar essa reação. O primeiro, as comemorações do bicentenário da independência argentina, que despertou grande fervor popular, especialmente em amplos setores da juventude, capitalizados evidentemente pelo peronismo, com sua tradicional marca nacionalista.

O outro, foi a súbita morte de Nestor Kirchner, que alguns previram – lá e cá – que seria um golpe definitivo no kirchnerismo. Nesse momento Cristina se assumiu como estadista à altura daquele momento crucial da historia argentina, dado que Nestor era o candidato à sua sucessão e o maior dirigente político do processo que ele mesmo havia iniciado.

Cristina fez daquela perda um momento de afirmação do processo político protagonizado por Nestor e por ela, no bojo da recuperação do apoio popular, que tinha seu fundamento no sucesso das novas iniciativas de políticas sociais – bolsas para a infância, para a terceira idade, para os desempregados, entre outras iniciativas.

Enquanto isso a oposição se digladiava, conforme via a recuperação do prestígio do governo, na disputa pela sucessão presidencial, em um processo suicida, que veio complementar o cenário politico que foi tornando Cristina cada vez mais favorita para triunfar, até mesmo no primeiro turno.

As prévias eleitorais de agosto, finalmente, cristalizaram todas essas tendências, permitindo prever as melhores perspectivas para Cristina, que se confirmaram plenamente nas eleições de ontem. Cristina teve um triunfo esmagador, além de recuperar a maioria na Camara e aumentar no Senado, e eleger oito dos nove governos estaduais em jogo.

Ela triunfa e a oposição, dividida entre vários candidatos, sofre sua maior derrota, deixando o campo aberto para novos e grandes avanços do governo. Lá como aqui, a segunda década do século XXI estende a vigência de um governo que busca alternativas de superação do neoliberalismo, nas condições da herança pesada que ambos receberam, avançando na direção do pós-neoliberalismo.

Consolida-se o campo progressista latino-americano, confirmando que essa é a vida das forças populares para a superação das desigualdades e injustiças, para o fortalecimento da integração regional e para a afirmação de uma América Latina soberana.

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22 comentários

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Tobias Reis O. LLory

25 de outubro de 2011 às 18h05

oxe…

significa q o argentino, assim como o brasileiro, não é perfeito e erra tb!

rsrsrsrs

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cronopio

25 de outubro de 2011 às 12h17

Que sirva de lição para nossa presidenta que, é preciso dizer ,tem sido muito cordial com o PIG… democratização da mídia já!

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Fabio_Passos

24 de outubro de 2011 às 22h42

E ainda devemos lembrar que em segundo chegaram os Socialistas com 17% dos votos.

"A esquerda foi a grande vencedora nas eleições argentinas" http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMos

"O socialismo, por meio da figura de Hermes Binner (foto) e sua coalizão de centro-esquerda, Frente Ampla Progressista, obteve 16,9% dos votos e se transformou na segunda força política do país, superando partidos tradicionais como o radicalismo e a ala direitista do peronismo. O candidato da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, Jorge Altamira (trotskista), obteve 2,35% dos votos, superando a tradicional Coalizão Cívica, da deputada Elisa Carrió."

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Fabio_Passos

24 de outubro de 2011 às 22h02

Os ianques e demais potências colonizadoras sempre apostaram que as "elites" corruptas, medíocres e entreguistas da AL conseguiriam manter eternamente o controle sobre as populações. Séculos de exploração predatória.

Felizmente os colonizadores erraram.

Os avanços progressistas na região já são entusiasmantes e creio que ainda são apenas a centelha de uma transformação radical.

As nações da AL tem um potencial imenso inaproveitado.

Responder

Francisco

24 de outubro de 2011 às 20h29

O "Lula" de Cristina (Kirshner) morreu. Quem vai sucede-la e continuar a recuperação nacional?

Responder

Gustavo Pamplona

24 de outubro de 2011 às 19h49

E os esquerdopatas agora vão a loucura!!!

Derrubamos o PIG!!! (*) Ai que inveja da Argentina…. ai que inveja da Cristina… hahahhahaha

(*) Um dos sonhos da esquerda, pena que no Brasil as coisas são diferentes… ainda bem!

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Leider_Lincoln

24 de outubro de 2011 às 18h02

Enquanto isso, no Chile… A direita mostra toda a sua "competência"!

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Beto

24 de outubro de 2011 às 17h50

O último parágrafo do Emir Sader distoa completamente da realidade vivida por nós.

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luiz pinheiro

24 de outubro de 2011 às 17h42

Cristina e Dilma, duas grandes presidentas.

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El Cid

24 de outubro de 2011 às 16h59

enquanto isso:

TV Globo cobra de Veja as provas contra Orlando Silva – http://www.esmaelmorais.com.br/?p=61319

Uma fonte deste blog na TV Globo, do Rio, informa que não está nada amistosa a relação da emissora dos Marinhos com a revista Veja.
O estranhamento de Veja e Globo tem a ver com a artilharia pesada do semanário contra o ministro do Esporte, Orlando Silva, e o PCdoB.

A produção do Jornal Nacional pediu ontem o áudio que Veja recebeu do ex-policial João Dias Ferreira, no qual dialoga com dois assessores do Ministério do Esporte, mas a revista se recusou a fornecer a matéria-prima ao parceiro de PIG (Partido da Imprensa Golpista).

O blog foi atrás e descobriu que Veja não possui diálogos que comprometem o ministro ou os assessores acusados por ela. Pelo contrário. É o policial Dias quem se complica ainda mais. O “herói” da revista já esteve preso por desvio de recursos da pasta e é suspeito de assassinato.

Na fita que está em poder de Veja, o acusador ameaça com um revólver os assessores do Ministério. Por isso a revista não publicou diálogos na reporcagem desta semana.

Como norma padrão, o Jornal Nacional sempre dava destaque às estripulias de Veja com a condição de exclusividade nas “provas” materiais adquiridas. Pela primeira vez a revista não cumpriu o acordo e isso deixou a Globo com muito mau humor.

A direção TV Globo, segundo a mesma fonte, teme que a emissora tenha sido arrastada numa guerra que poderá custar-lhe o pouco de credibilidade (e os pontinhos no Ibope) que tem.

Se a Globo quer saber do áudio secretos de Veja, imagine os comunistas…

O ministro Orlando Silva está rindo à toa da trapalhada. Ele fez a sua parte ao pedir para ser investigado, abrir sigilos bancários e telefônicos, enfim, depor no Congresso Nacional.

O diabo é que a revista Veja se recusa a fazer a parte dela que é bem mais simples: mostrar o áudio coletado clandestinamente pelo policial João Dias.

… ou seja: Wilian Bonner e Fátima Bernardes foram engabelados pela revista Veja !! kkkk !!

Responder

    Klaus

    24 de outubro de 2011 às 18h05

    Bem, o ilustre denunciante entregou treze arquivos de audio à PF hoje. Aguardemos..

    H Aljubarrota

    24 de outubro de 2011 às 19h01

    Olha o resultado aí, palhaço; enfie seu rabinho comprido entre as pernas, e desapareça.

    "PM que acusa ministro entrega gravações à PF sem áudios com Silva"

    FrancoAtirador

    24 de outubro de 2011 às 21h19

    .
    .
    Peraí! Peraí!

    Leva essa no rabo:

    "JOÃO DIAS DIZ NÃO TER PROVAS DIRETAS CONTRA ORLANDO SILVA"
    .
    .

    El Cid

    24 de outubro de 2011 às 19h49

    Fraulein, cá entre nós: o seu partido político tucano com 4 letras é a VEJA ??

fernandoeudonatelo

24 de outubro de 2011 às 16h44

Parece que na Argentina, a concertación de partidos ficava na oposição, sem uma agenda nacional comum ou candidato.

Responder

_spin

24 de outubro de 2011 às 16h16

Que sirva de lição para a esquerda do Chile

Responder

    Roberto Locatelli

    24 de outubro de 2011 às 23h41

    E do Brasil! Cristina enfrentou o PIG e venceu.

    FrancoAtirador

    25 de outubro de 2011 às 00h55

    .
    .
    E com que leveza venceu.
    .
    .

José BSB

24 de outubro de 2011 às 16h01

Parabens a Presidenta argentina. Encarou o maior grupo de comunicação de seu país sem recuar e o resultado emergiu nas urnas. Por estas bandas, sobra covardia.

Responder

Morvan

24 de outubro de 2011 às 15h55

Boa tarde.
Salvo algumas poucas situações, as coincidências terminam aqui. O Governo da Cristina ousou levar avante a Ley de Los Medios, peitou o PIG (o de lá!), enquadrou a máfia da bola, engendrando o maior processo de democratização no futebol do qual se pode ter notícia. Enquanto isso, Dilma continua tentando aplacar o PIG daqui. Sabe-se que este jogo não dá hum-a-hum… o ministro (minúsculo mesmo) das Comunicações (?) admoesta os trabalhadores grevistas, a Anna de Holanda nos "livra" da C. C. e nos "oportuniza" as maravilhas do ECAD, etc., etc., etc.

Viva Cristina Kirchner! Viva a irmã Argentina (a pátria). Viva a amável brasileira Dilma. Mas, por favor, sem comparações benevolentes. Cristina sabe com quem está lidando. Dilma Roussef parece ainda não o saber.

:-)

Morvan, Usuário Linux #433640.

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