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Ricardo Antunes: No mundo em rebelião, racismo de Estado vigora
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Ricardo Antunes: No mundo em rebelião, racismo de Estado vigora


05/03/2014 - 22h05

por Luiz Carlos Azenha

O professor Ricardo Antunes é um dos maiores especialistas brasileiros no mundo do trabalho.

É uma importante voz na oposição ao projeto de lei 4.330, do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO) que, se aprovado no Congresso, vai permitir a terceirização em praticamente todas as atividades econômicas do Brasil.

Notem como, numa entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos, Antunes definiu o “labor” dos latino-americanos, que está no título de um dos livros dele, O Continente do Labor:

 “O que é o labor? É o trabalho como sinônimo do sofrimento, que não envolve a criação. Os termos em inglês nos facilitam o entendimento. Quando falamos em work nos referimos a um trabalho que tem um sentido de construção da vida humana, de criação de bens socialmente úteis. Quando falamos em labor, nos referimos ao lado da exploração do trabalho. E a expressão “continente do labor” associada à América Latina serve para mostrar que fomos “concebidos” desde o início da colonização e da montagem do sistema de produção colonial como o continente da exploração. Por isso que a América Latina é, ainda hoje, o continente da superexploração do trabalho. Mas esse continente e seus povos estão dando sinais de que não aceitam mais esses saques, esse vilipêndio, essa superexploração intensificada do trabalho. Somos o continente do massacre, mas também da rebelião; do saque, mas da luta; da escravidão, mas que luta pela felicidade social; somos o continente da exploração, mas também da revolução”.

Antunes tem uma visão muito peculiar sobre o atual momento da política mundial e as consequências para os trabalhadores: numa ponta, o capitalismo financeiro trabalha com “capital fictício”; na outra, com a exploração sem limites da mão-de-obra. Duas questões, dentre muitas outras, contribuíram para esta conjuntura: o desmanche da União Soviética e sua esfera de influência e o capitalismo estatal chinês, que incorporou ao mercado de trabalho milhões e milhões de pessoas que antes viviam no campo.

Não é por acaso, digo eu, que os Estados Unidos ajudaram a desenvolver técnicas de desobediência civil adequadas às “revoluções coloridas”, que ajudaram a promover no Leste europeu para “liberar” mão-de-obra barata. Provavelmente quem fez isso observava um mapa da demografia local e sabia que sociedades repletas de jovens E de demandas sociais eventualmente explodem em mudanças impossíveis de prever. Se as mudanças são inevitáveis, devem ter pensado em Washington, é importante estar preparado para influenciá-las.

O professor Antunes acredita que estamos em plena era de rebeliões, quando todas as janelas estão abertas. Tanto podemos evoluir para um período revolucionário quanto para a ascensão do fascismo, diz ele. Há uma certeza, afirma Antunes: boa parte da população está consciente de que o que está aí não servirá à Humanidade no futuro. Muito disso tem a ver com as frustrações, insatisfações e promessas não cumpridas do mundo do trabalho pós-neoliberalismo.

Vale a pena ouvir os dois primeiros trechos da entrevista de Ricardo Antunes ao Viomundo, que só foi possível graças à generosa contribuição de nossos assinantes. Eles compartilham gratuitamente conteúdo exclusivo com todos os demais internautas.

Da entrevista participou o repórter Padu Palmério.

Trecho:

1% ganham e 99% pagam. 600 transnacionais dominam o mundo. Estamos vivendo uma era de rebeliões. Elas são multiformes. Qual é o traço comum entre todas elas? O nosso espaço é a praça pública, não é o Parlamento. Aliás, quando chegam perto do Parlamento é para invadir. O país pode estar em levante mas isso não afeta as eleições, porque grande parte dessa juventude tem uma descrença completa das eleições, não vai votar!

Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009). É autor, entre outros, de Adeus ao trabalho?, Os sentidos do trabalho (1999) e O caracol e sua concha (2005), além de O continente do labor.

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12 comentários

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Magda Mª Magalhães

10 de março de 2014 às 00h32

Gente, vamos refletir. Nós viemos a este mundo para quê? A trabalho, a passeio, para ser felizes?
O trabalho realmente nos faz felizes? E o ócio? Sem trabalho vamos sobreviver?
Acredito que o trabalho é apenas um meio para sobrevivermos. Nossa finalidade não é o trabalho. No entanto, é isto que está acontecendo. Somos escravos do trabalho. Principalmente as mulheres com a jornada dupla.
Quando, juntos, daremos uma guinada em nossas vidas a caminho da felicidade? Quando o trabalho deixará de ser um fim em si mesmo? Quando a família, os amigos, o ser humano em geral, os animais, as plantas serão as nossas principais preocupações?

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Luiz

06 de março de 2014 às 12h13

Há um ditado que diz: “O Velho Mundo produz intelectuais e o Novo Mundo (as Américas) produzem carpinteiros”

Não dá para asseitar as velhas normas

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    Apavorado com a cara-de-pau humana.

    06 de março de 2014 às 18h14

    Acho que já produzimos homens deitados no chão, ……

Fernando

06 de março de 2014 às 11h41

É interessante notar que na minha área ( sou músico profissional) onde a destruição do trabalho e do emprego vem se processando a muito mais tempo, e onde além disso no Brasil se vive o preconceito generalizado da música como profissão (Se eu falo para alguém que sou músico quase sempre eles perguntam: e para ganhar dinheiro o que você faz? ) este processo de invasão da mão obra do leste europeu ( com alta escolaridade e competência ) se faz até mesmo em Belo Horizonte. Veja a Orquestra Filarmônica ! A “maravilhosa” ideia do Aécio para destruir as bases da então “estatal” orquestra sinfônica se sustenta com grande contigente de mão de obra especializada do leste europeu (basta assistir a um concerto da orquestra e você irá logo reparar em lindas loiras jovens que me motivaram a pensar: pôxa nem parece Brasil, afinal mulheres tocando violoncelos e harpas nunca existiram por aqui). Acho importantíssimo esta mistura de etnias e cultura que a vinda dessas pessoas para MG significa, mas seria melhor tê-las aqui em outras condições que não significassem a morte do trabalho e criatividade na área musical.
Se você acha que não existe uma destruição do ambiente de trabalho na área da música (por não ter informações ou por não ser músico) basta você reparar que vários bares que antes tinha música ao vivo hoje somente tem uma televisão barulhenta ligada nas emissoras da Globo passando as idiotices irritantes do futebol e até Ultimate Fighting. Tolices essas que não trazem nenhuma cultura e ainda reforçam a concentração de renda !!

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Luiz Fortaleza

06 de março de 2014 às 11h36

A discussão etimológica ou mitológica do trabalho é uma discussão que subtrai a discussão ontológica ou teleológica do trabalho. Para Marx, a atividade prática é o trabalho, uma relação metabólica entre o homem e a natureza e entre os próprios homens. O problema é que os que criticam o trabalho como um categoria puramente histórica, esquece que o caráter ontológico do trabalho tem base mais real, quando uma ação, a partir de uma finalidade criada previamente na mente, se transforma algo em outro ser. Quando o homem transforma o linho em tecido, um ser em outro ser, isso é trabalho ou atividade prática como fala Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Não confundir abolição do trabalho estranhado, alienado, abstrato com trabalho concreto, útil, que visa satisfazer as necessidades do ser humano. O trabalho abstrato visa o enriquecimento, o lucro de poucos, visa o aumento da mais valia, o trabalho concreto ou útil, tem um finalidade de satisfazer as verdadeiras e reais necessidades humanas. Kurz nega o trabalho pela sua reflexão de cariz determinista tecnológico como Claus Offe e André Gorz. É bom ler Lúkacs, Ontologia do Ser Social, para ver o caráter ontológico da filosofia dialética de Marx.

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Euler

06 de março de 2014 às 11h34

Boa entrevista, feita com um crítico do sistema capitalista muito atento às dinâmicas e transformações do mundo atual. Revela, de fato, um mundo em crise, com suas variantes de super exploração do trabalho ou do trabalhador como meio essencial para a manutenção e reprodução do capitalismo. Uma contagem regressiva para um sistema que se “desmancha”.

O dado a destacar é, de fato, com a queda do chamado do socialismo real, a ausência de projetos globais alternativos, no campo das esquerdas. Rebeliões dispersas, como já se percebeu, não se materializam necessariamente na organização dos trabalhadores e em conquistas sociais. Em alguns países, por paradoxo que seja, serviram de pretexto pelos setores conservadores cortarem direitos. De certa forma, estamos assistindo isto no Brasil hoje, após as “rebeliões” de junho de 2013.

Vejamos: de um lado, como consequência destas manifestações, e ainda que elas não sejam dirigidas unicamente contra o governo federal, elas acabaram contribuindo para a queda de popularidade da presidenta Dilma. Que por sorte, ao contrário de outros países, não havia (não há) líderes ou dirigentes ou partidos da oposição de direita fortes o suficiente para captar este descontentamento. Dilma se recupera lentamente, mas a oposição golpista ainda aposta nos protestos contra a copa como meio de desgastá-la.

Por outro lado, os governos e as elites aproveitaram estes protestos para tentar criar leis e mecanismos que inibem o direito à livre manifestação de protesto. A desculpa é combater o “vandalismo”, o “terrorismo”, os black blocs, mas na prática todos os manifestantes e manifestações legítimas estão sendo atingidos. Exemplo disso foi aquele cerco da polícia de SP durante recente protesto naquela cidade. Prenderam dezenas de pessoas de forma indiscriminada e a tendência é que endureçam ainda mais o jogo, o que é extremamente perigoso para a sobrevivência da nossa frágil democracia.

Por outro lado ainda, no caso específico do Brasil, o PT no governo federal tem sua dose culpa ao fugir do confronto aberto contra as elites dominantes, especialmente contra a mídia golpista, mas não somente. Ao invés de assumir o papel de liderança e organizar a população para resistir aos golpes de direita, o PT se cala, omite-se tanto no parlamento – onde conta com dezenas de deputados e senadores -, quanto nas lutas sociais. Aliás, isto se deve à política equivocada do partido de cooptação de lideranças para as asas do estado, ao invés de incentivar a organização autônoma dos trabalhadores comprometidos com um projeto de mudanças sociais.

De resto, é fato que o capital está em estado terminal, mas isto pode se alongar por tempo demasiado. As consequências têm sido as piores, com a pauperização do chamado mundo do trabalho. Seria preciso uma convergência entre os movimentos autônomos que apregoam uma sociedade para além do mercado com os governos populares e progressistas, numa resistência coletiva aos ataques do grande capital, tendo como meta, entre outros objetivos, o alargamento das conquistas sociais.

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Ódette

06 de março de 2014 às 10h03

Excelente entrevista. Quem tem o que dizer diz logo e sem enrolação. Dá medo do futuro, mas “os homens só põem problemas que pode resolver”. Quero acreditar nisso.

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Yasmim

06 de março de 2014 às 05h24

Há esperança para o mundo. Que essa década seja melhor que as duas últimas para todos os trabalhadores!

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Roberta Ragi

06 de março de 2014 às 00h30

Excelente entrevista.

A era das rebeliões materializando um caminho de resistência possível… Um pequeno talvez… melhor que nada.

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Marcos F. L.

05 de março de 2014 às 23h35

Quero ver a ONG AnonymousBr topar essa parada contra o PL 4330!!!!

Responder

    Lucas Gomes

    06 de março de 2014 às 10h43

    você fará o quê? vai ficar esperando no sofá para ver o que os outros vão fazer quanto à PL para depois julgar se são fascistas ou progressistas? Cheiro de coxinha no ar.

    Apavorado com a cara-de-pau humana.

    06 de março de 2014 às 18h17

    Vamos falar de planos concretos:

    Quando será votada essa porcaria?

    Já cobramos nosso sindicato?

    Já fretamos o ônibus?

    Ao que eu sei os sindicatos estão preocupados com a adesão a quem….


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