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O bombardeio sustentado das manchetes econômicas


20/07/2013 - 22h24

O PIB cresce 4% ao ano

Por Francisco Lopes, no Valor Econômico, via Vermelho, que publicou em 18.07.2013

O título deste texto não é uma piada, nem uma projeção, nem mesmo a expressão de um desejo. É apenas a constatação de um fato: os últimos números publicados para o Índice de Atividade do Banco Central, o IBC-BR, que pode ser considerado uma aproximação em base mensal para o PIB trimestral do IBGE, indicam claramente que no segundo trimestre de 2013 a economia brasileira estava crescendo ao ritmo de 4% ao ano.

Mas espere um momento! Não foram esses números que repercutiram de forma tão negativa na imprensa, sugerindo até que estamos novamente a caminho da recessão?

Basta olhar os títulos de algumas das matérias publicadas: Indicador do BC mostra país na rota da recessão; Economia tem maior retração desde 2008; Cada vez mais difícil decolar; Bancos oficiais já prevêem crescimento abaixo de 2%; IBC-BR reforça sinais da lenta perda de gás da economia em 2013; Pibinho de inverno.

Na realidade, a única coisa que fica clara aqui é que a mídia especializada e a grande maioria dos analistas da economia parecem sofrer atualmente de um pessimismo obsessivo. De fato a leitura que foi feita dos números do BC configura um caso clássico do que a psicologia cognitiva denomina de viés de confirmação (confirmation bias), que ocorre quando as pessoas só são sensibilizadas por informações que pareçam confirmar suas crenças ou hipóteses, ignorando qualquer evidência em sentido contrário.

Todo esse pessimismo foi produzido apenas pela observação de que a variação percentual de maio sobre abril do IBC-BR com ajuste sazonal foi de menos 1,4%. Acontece, porém, que essa série de variação mensal tem muito ruído. É no mínimo temerário extrair qualquer sinal de direção de movimento com base na observação de um único mês. Além disso, quando usamos dados mensais a introdução do ajustamento sazonal não aumenta muito o poder informativo de uma observação isolada.

No dado mensal o padrão de sazonalidade pode variar muito ao longo do tempo em resposta a uma serie de fatores, como feriados, greves, paralisações ou mudanças institucionais. Sabemos que não existe técnica perfeita de ajuste sazonal, mas com dados mensais as dificuldades ficam ainda maiores.

Se quisermos ter uma ideia precisa do que está acontecendo com uma economia, o caminho mais seguro é trabalhar com variações em doze meses. Mesmo assim uma observação mensal isolada tem que ser vista com cautela. Por exemplo, a variação em doze meses do IBC-BR até maio de 2013 (portanto sobre maio de 2012) foi de 2,28%, mostrando sem dúvida uma desaceleração importante em relação à variação em doze meses de 7,3% até abril.

Note-se, porém, que esse excepcional resultado de abril foi simplesmente ignorado tanto pela imprensa como pela maioria dos analistas de economia. Por outro lado, a variação em doze meses de maio significou aceleração em relação às variações de 1,16% até março e de 0,44% até fevereiro. Que direção de movimento estaria sendo sinalizada aqui?

Existe amplo consenso de que a forma mais segura para se analisar o movimento do PIB é usar dados trimestrais. Não é por outra razão que contas nacionais em toda parte são sempre elaboradas em base trimestral, como acontece também com o nosso IBGE.

O que então pode ser concluído quando os dados do IBC-BR são transformados por média para uma base trimestral? Se compararmos o trimestre composto pelos meses de março a maio de 2013 com o mesmo período de 2012 obtemos uma variação de 3,74%. Podemos notar também que ao longo do ano essa variação em doze meses calculada para grupos sucessivos de três meses só aumentou: 1,55% até janeiro. 1,71% até fevereiro, 2,86% até março, 3,5% até abril e 3,74% até maio.

Para calcular a variação em doze meses do segundo trimestre de 2013 precisaremos ter também uma estimativa para o IBC-BR de junho. Para ser bem conservador, vamos admitir que o número de junho fique 2,5% abaixo do número de maio, repetindo um comportamento observado em 2012. Isto significa um número de junho 5,6% abaixo do de abril.

Nesse caso a variação em doze meses para o PIB do segundo trimestre será de 3,95%. Ou seja, parece grande a probabilidade de que a taxa de crescimento em quatro trimestres do PIB do segundo trimestre fique muito próxima de 4%.

Se isso for também confirmado pelo IBGE (e é difícil imaginar porque não seria), poderemos estar falando de uma variação trimestral na serie com ajuste sazonal do PIB superior a 1%, talvez até próxima de 1,5%. Vai ser bem mais difícil sustentar o pessimismo quando esses números forem publicados em agosto.

Ainda assim, é importante insistir de imediato numa leitura mais precisa dos dados da economia. Afinal ninguém pode razoavelmente desejar que o pessimismo de hoje venha a afetar negativamente decisões empresariais de produzir e investir, comprometendo nosso crescimento futuro.

Francisco Lafaiete Lopes – PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC).

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11 comentários

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O PIB cresceu, mas a hecatombe é questão de tempo - Viomundo - O que você não vê na mídia

30 de agosto de 2013 às 20h09

[…] O bombardeio sustentado das manchetes econômicas […]

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Apesar do terrorismo econômico, PIB cresce ao ritmo anual de 6% - Viomundo - O que você não vê na mídia

30 de agosto de 2013 às 10h26

[…] O bombardeio sustentado das manchetes econômicas […]

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Yacov

22 de julho de 2013 às 16h14

Eu tenho certeza de que essas manisfestações brochantes sem pé nem cabeça são convocadas pelos PiG-EUA que através de seus grampos sabem quem são os filhinhos de papai do FEICIBUQUI e os vândalos conexos e os convocam despudoradamente para dar consistência às suas manchetes mentirosas e assim mostrar a insatisfação com a regra geral. Bem parecido com as primaveras árabes cooptadas por rebeldes mercenários alhures, que supostamente lutam por mais democracia mas acabam por reforçar ditaduras entreguistas.

ANOS tuKKKânus LEWINSKYânus NUNCA MAIS !!! NO PASSARÁN !! VIVA GENOÍNO !! VIVA ZÈ DIRCEU !! VIVA A LIBERDADE, A DEMOCRACIA E A LEGALIDADE !! VIVA LULA !! VIVA DILMA !! VIVA O PT !! VIVA O BRASIL SOBERANO !! LIBERDADE PARA BRADLEY MANNING JÀ !! FORA YOANI !! ABAIXO A DITADURA DO STF gloBBBobalizado!! ABAIXO A GRANDE MÍDIA EMPRESARIAL & SEUS LACAIOS e ASSECLAS !! CPI DA PRIVATARIA TUCANA, JÁ !! LEI DE MÍDIAS, JÁ !! “O BRASIL PARA TODOS não passa no SISTEMA gloBBBo de SONEGAÇÃO – O que passa no SISTEMA gloBBBo de SONEGAÇÃO é um braZil-Zil-Zil para TOLOS”

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lulipe

21 de julho de 2013 às 23h40

E essa imprensa malvada que teima em divulgar os números negativos do governo petista…Como seria bom uma imprensa nos moldes de Cuba ou China.

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Sidnei Brito

21 de julho de 2013 às 15h46

A oposição de mentirinha (a política) e a de verdade (imprensa), já de há muito que apostam as fichas em profecias autorrealizáveis: de tanto se ouvir que o Brasil vai quebrar, ele acaba quebrando mesmo. Afinal, o sujeito ouve que vai perder o emprego ou que o salário vai achatar e acaba, por conta disso, reduzindo compras e reavaliando projetos e planos e, ato contínuo, a economia retrocede mesmo. Depois disso, imprensa e pig diriam: nós avisamos.

O método não vem dando certo. Por isso, considero os movimentos de junho como uma etapa radicalizada desse mesmo processo. É como se se fizesse a profecia se autorrealizar à força. Pessoas próximas a mim, que nunca pareceram dar muita pelota para o pessimismo da imprensa, ainda que repetissem muitas de suas tolices, pela primeira vez em anos estão ressabiadas, atrasando viagens, adiando sonhos, revendo investimentos etc. Tudo porque, segundo elas, em outras palavras, “as ruas mostraram que tem alguma coisa muito errada com o País”. O Quê? Lamento decepcioná-los, mas elas não sabem responder.

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    De Paula

    22 de julho de 2013 às 10h46

    Nós, com ajuda da mídia, destruimos tudo o que a turma do Lula construiu, que é para entrarmos de novo. Quando isso acontecer a gente reconstroi tudo, do jeito que estava quando o Lula assumiu. E a tal de nova classe média? Volta pro lugar de onde nunca deveria ter saido. Como parte do programa acabaremos com o bolsa familia e fome zero. Nossos salutares propósitos estarão voltados para o crescimento da renda per cápita, que é o que mais interessa; através da redução drástica desse numeroso contingente de atrevidos nojentos, que só atrapalha.

Isidoro Guedes

21 de julho de 2013 às 14h03

Falsear a verdade é o grande papel desempenhado pela grande mídia. Criar a noção de que temos um país a beira da bancarrota é o que eles querem. Para que? Ora para que! Para que se possa confirmar o caos, não se importando com as consequências, e sobretudo para que as políticas neoliberais mais ortodoxas (Deus nos livre!) voltem a ser o foco do farol que ilumina nossa economia (Deus nos livre mesmo!).

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MarcosAS

21 de julho de 2013 às 12h45

O delfim Netto dizia em meados do anos passado que o PIB estaria rodando uns 4% no último trimestre de 2012. Como se vê pelo artigo do Francisco Lopes, errou por uns dois trimestres, se muito.

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Fabio Passos

21 de julho de 2013 às 11h49

O PiG é, como o nome já diz, um partido político. É o partido da direita.
É a máquina de propaganda da “elite” branca.
Qualquer um que considere o PiG como imprensa é mal informado ou cínico.

A esquerda deve tratar o PiG como adversário político.

O PiG é inimigo do povo… e assim deve ser tratado.

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Hildermes José Medeiros

21 de julho de 2013 às 10h36

É isso que está acontecendo mesmo, em lugar de análise terrorismo econômico. Os partidos de oposição que atuam para dar apoio às diretrizes do capital multinacional e a mídia que divulga, analisando e amplificando favoravelmente tudo que vier dessas fontes estão desesperados com a proximidade das eleições, mesmo ainda a mais de um ano para acontecer. Os partidos de oposição, a extrema direita e as viúvas da ditadura principalmente aquelas encasteladas no aparelho de estado, que estavam sem perspectivas eleitorais, sem candidato competitivo, quase sem chances, com mesmo com total respaldo da mídia viram em junho valiosa oportunidade, nas manifestações iniciadas pelo Movimento Passe Livre, nascido em 2007 na USP, que colou porque a mídia vinha amplificando os problemas decorrentes da inflação (quem não lembra a Ana Maria Braga com colar de tomates? ) e do crescimento do país (o pibinho), que coincidiu com os reajustes em junho, ainda em forte conjuntura inflacionária, embora descendente, fruto do erro de não terem sido as tarifas reajustadas na época prevista, no início ano, exatamente para melhorar o impacto desses preços na meta de inflação. Há dois meses que estamos assistindo manifestações de todos os tipos (vale qualquer coisa, qualquer motivo), sempre a classe média branca,muitos jovens, o povão pouco se manifesta, só quando matam um pobre que pode ser traficante nas favelas, essas coisas. A gracinha agora é a mídia querer fazer crer que as manifestações iniciam pacíficas e tornam-se violentas quando os vândalos atacam. Não há dúvidas, a mídia espera o resultado pacientemente por horas, não retiram seus equipamentos, já que está claro que essas manifestações são na realidade atos terroristas programados meticulosamente. Ninguém se responsabiliza pela manifestação, não se sabe de onde procede a manifestação, não importa que o meio seja a internet,que a tudo se presta. Quem convoca os vândalos terroristas? Ligam-se a quem nos setores ditos pacíficos (significando estes apenas e tão somente que não se envolverão nas lutas finais, apenas esquentarão o ambiente para criar o clima)? Que manifestantes são esses que comparecem encapuzados sendo aceitos pelos demais, portando porretes, armas bancas, afrontando a polícia e desrespeitando a autoridade dos policiais que ou estão postados em frente aos prédios públicos ou privados alvo da manifestação, ou nas estradas bloqueadas por esses atos absurdos, até que forçam e o conflito se estabelece, e haja pancadaria e depredações de bens públicos e privados. Se o resultado esperado não fosse esse, por que muitos advogados estão a postos para libertar manifestante e a OAB e Ministério Público atuando para coibir os excessos da polícia, claro? Nada contra os bandidos encapuzados. Não é uma gracinha? Ninguém, a mídia principalmente, não sabia que a manifestação daria em tumulto e depredações, mas fica horas a fio esperando para tudo documentar. Na realidade estão acontecendo atos terroristas, com ações de caráter militar, e a mídia e órgãos que se dizem defensores dos cidadãos acobertando esses atos, procurando garantir que os baderneiros terroristas saiam livres após o crime cometido contra pessoas e o patrimônio público e privado. Outra gracinha, aí já é sacanagem, é tentar manietar os policiais, impedindo-os de defenderem-se e de evitar a invasão de prédios públicos e privados, ou desimpedir estradas, quando enfrentam ações militares, com pessoas sem dúvidas adestradas para atacar, dotadas de recursos de luta, portando meios capazes de provocar destruição como coquetéis molotov e bombas caseiras. Não seriam armas letais esses aparatos? Ora, façam-me o favor! E a OAB, o Ministério Público e mídia como já dito postados para identificar os excessos da polícia e defender os manifestantes, no caso os vândalos terroristas, porque os pacíficos saem fora desta. Como se fosse possível dosar, planejar as ações num tumulto ou impedir depredações, que exigem toda a energia e poder de fogo a ser usado, compatível com a situação, que é de risco para todos, inclusive risco de morrer. Não dá para ser tolerado no Estado Democrático de Direito. Prevarica quem tenha a atribuição de coibir e não esteja cumprindo sua obrigação. Não restam dúvidas que são atos terroristas programados, mas sem paternidade (a não identificação de responsáveis é pura e simplesmente conivência) , já que o objetivo é mesmo aterrorizar a população e jogá-la contra as autoridades constituídas. Tudo acontece e está dando resultados para a oposição e o capital multinacional que também mostra-se incomodado com a ação do Governo brasileiro, o Financial Times é o exemplo, e a mídia que defende com unhas e dentes o neoliberalismo, já que têm disponível pesquisas fajutas, realizadas exatamente durante esses tumultos e a forte campanha de mídia contra o Governo e suas ações, mostrando queda da intenção de votos de Dilma. Mesmo assim, sei não! Ainda não conseguiram um candidato competitivo, um nome que possa empolgar o povão que está calado e é pouco escutado nessas pesquisas de cunho nitidamente de apoio político às ações de oposição. Urge que os órgãos de inteligência identifiquem a origem desses atos terroristas para que as polícias, inclusive a Polícia Federal possam tirá-los de circulação e prendê-los como devido. Chega de faz de conta!

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