VIOMUNDO

Diário da Resistência


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Justiça autoriza exumação do corpo de aposentado espancado por PMs no Pinheirinho


12/06/2012 - 20h08

Após a primeira sessão de espancamentos, o senhor Ivo Teles chama os PMs de covardes e mostra-lhes os machucados. As imagens são do dia 22 de janeiro de 2012, data do “massacre de Pinheirinho”. Horas depois, ele foi internado no Hospital Municipal de São José dos Campos. Fotos: Blog do Gusmão

do Blog do Gusmão em parceira com os Blogueiros Progressistas de São Paulo

No dia 22 de janeiro deste ano, os moradores de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), foram expulsos de suas residências por uma força policial que uniu dois mil homens da PM paulista, mais um contingente ignorado da guarda civil do município.

A ação obedeceu a uma ordem da juíza Márcia Loureiro, que determinou a reintegração de posse, com aprovação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, ambos do PSDB.
A área onde estavam os moradores de Pinheirinho possui mais de um milhão de metros quadrados, e pertence ao especulador financeiro, Naji Nahas, preso em 2008 pela polícia federal (operação Satiagraha), por crimes contra o sistema financeiro.

Cerca de 1600 famílias (aproximadamente 8000 pessoas) foram expulsas violentamente. Segundo a jornalista Conceição Lemes (do site Viomundo), “trabalhadores foram espancados, um baleado nas costas, dois óbitos de alguma forma relacionados à reintegração de posse, pais barbarizados (tiveram armas apontadas para a cabeça) na frente dos filhos, animais mortos a tiros. Tudo o que tinham – de moradia, móveis, geladeiras, computadores, TV a brinquedos, livros, fotos, filmes, documentos – foi destruído. Gente que ficou sem passado, vive um presente miserável (há pessoas morando na rua) e não sabe qual será o futuro”.

Entre os flagelados, se encontrava Ivo Teles dos Santos, um ilheense de 69 anos, aposentado, suspeito de ter sido barbaramente espancado pelos policiais.

No mesmo dia da expulsão, 22 de janeiro, Ivo Teles deu entrada no Hospital Municipal de São José dos Campos, onde ficou internado por dois meses. O aposentado, que morava só em Pinheirinho num lugar chamado “Cracolândia”, só foi encontrado no dia 03 de fevereiro, por sua ex-companheira, Osorina Ferreira de Souza, com quem viveu durante 20 anos. A ex-mulher afirma ter encontrado Ivo Teles entubado e em pleno estado de coma.

PROMOTOR CONSEGUIU QUE O CORPO FOSSE EXUMADO NA BAHIA

Ivo Teles saiu de Ilhéus nos anos 80, para buscar emprego em São Paulo. Deixou uma filha de sete anos, Ivanilda Jesus dos Santos.

O Blog do Gusmão conversou com a filha do aposentado, hoje com 34 anos. Ivanilda, camareira de um hotel da zona sul de Ilhéus, afirmou que teve pouco contato com o pai. “Passei quase toda a minha vida procurando ele. Depois que foi para São Paulo, só veio aqui quando eu tinha nove anos. Sofri muito pela falta de meu pai. Certa vez, quando eu tinha 13 anos, fiquei sabendo que ele estava em Itabuna (a 26 km de Ilhéus). Fugi de casa, sem avisar a ninguém e voltei triste, pois não achei ele. Depois de um tempo, fiquei sabendo que ele já estava aposentado e morava em São José dos Campos, com uma senhora. Eu não sabia que ele morava naquele lugar, em condições tão ruins. Só fui descobrir quando ele estava internado no hospital, em coma. Fui avisada por Osorina no início de março, e fui para São Paulo cuidar dele”.

Ivanilda não quis ser fotografada, mas relatou seu sofrimento durante duas horas a este blog. Ela conta que foi para São José dos Campos no dia 16 de março desse ano. Custeou a passagem área (ida) com dinheiro do próprio bolso, parcelada no cartão de crédito.

Em São José, depois de muitos anos sem vê-lo, ela encontrou o pai internado, com vários hematomas espalhados pelo corpo, pernas paralisadas, muitos pontos na cabeça e com um furo no pescoço (devido à traqueostomia: infiltração de um tubo para passagem de ar).

No dia 21 de março, o pai teve alta médica, entretanto, não conseguia falar, e só podia se locomover em cadeira de rodas. Com todas as dificuldades, Ivanilda trouxe o pai de volta a Ilhéus. “Apesar dos problemas, enfim consegui ver meu pai. Eu estava disposta a cuidar dele. Ele estava doente, mesmo assim, ele me reconhecia e me abraçava. Mesmo sofrendo, ele queria carinho e não queria que eu saísse de perto dele”.

Quando cuidou do pai, Ivanilda teve a ajuda da tia paterna, Roseneide Santos Barreto, 47 anos. Apesar dos cuidados da família, Ivo Teles não suportou as complicações. No dia 08 de abril, deu entrada no Hospital Regional de Ilhéus em estado grave.

Segundo Ivanilda, o médico plantonista não o atendeu. Alegou não ser especialista no tipo de atendimento necessário, e recomendou que o aposentado fosse levado para casa. O nome do médico não foi revelado.

No dia 10 de abril, Ivo Teles dos Santos faleceu, aos 70 anos, diante dos prantos da filha desgarrada que pouco conviveu. O sepultamento ocorreu no dia 11, no cemitério São João Batista, no bairro do Pontal, Ilhéus.

As causas da morte de Ivo Teles são alvo de intensa discussão entre a Defensoria Pública Estadual de São Paulo e representantes da Polícia Militar paulista.

O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE) acusa a Polícia Militar de ter espancado o aposentado, diante dos olhares de várias testemunhas. O caso tem o acompanhamento do defensor público Jairo Salvador.

O Hospital Municipal de São José dos Campos afirma que o senhor Ivo Teles sofreu um acidente vascular hemorrágico (AVCH). Parlamentares e integrantes do Condepe questionam, pois o aposentado apanhou muito e foi visto, mal conseguindo andar, cheio de hematomas. O hospital não divulgou o boletim de atendimento de urgência (BAU), documento que descreve as condições de Ivo Teles quando recebeu os primeiros cuidados.

A filha, Ivanilda, tem sido procurada pela imprensa paulista, incluindo a Folha de São Paulo e a apresentadora Sonia Abrão. Entretanto, prefere a discrição do que atender os apelos da mídia. Apenas o Blog do Gusmão, graças às informações do blogprog SP, conseguiu manter um contato mais duradouro.

Wilker dos Santos Lopes e Luis Magda Nascimento, oficiais da polícia militar paulista, procuraram Ivanilda duas vezes no hotel em que ela trabalha. Queriam saber se Ivo Teles foi bem tratado em Ilhéus e acompanharam um depoimento dela na Defensoria Pública da cidade. Os pms disseram que o aposentado não deveria ter saído de São José dos Campos.

Aos policiais, Ivanilda questionou os hematomas encontrados no corpo do pai. Segundo ela, um homem de 70 anos não deveria ter sido tratado com violência. Os policiais teriam dito: “quando seu pai ofereceu resistência, ele não se comportou como um velho”. Eles levaram uma cópia do atestado de óbito. No documento, consta como causa da morte “falta de atendimento médico”.

O defensor público Jairo Salvador, por meio da justiça baiana, solicitou a exumação do corpo de Ivo Teles. O juiz Antônio Alberto Faiçal Júnior, da 2° Vara Criminal de Ilhéus, determinou a realização do procedimento no dia 14 de junho, na próxima quinta-feira.

Após a exumação, Ivanilda pretende voltar a São José dos Campos, para retirar uma cópia do boletim de atendimento de urgência, do hospital municipal.

O Blog do Gusmão conseguiu imagens exclusivas do aposentado Ivo Teles, gravadas no dia do “Massacre de Pinheirinho”.


Leia também:

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16 comentários

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ELIS – COMO NOSSOS PAIS….. « ( E.V.S. )

21 de janeiro de 2013 às 12h36

[…] Justiça autoriza exumação do corpo de aposentado espancado por PMs no Pinheirinho […]

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PM tentou proibir conselheiro do Condepe de assistir à exumação do corpo de ex-morador do Pinheirinho « Viomundo – O que você não vê na mídia

14 de junho de 2012 às 20h37

[…] Justiça autoriza exumação do corpo de aposentado espancado por PMs no Pinheirinho; será dia 14 […]

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abolicionista

14 de junho de 2012 às 14h58

O hospital não seria obrigado a fornecer o BAU? Não cabe processo? E que médicos são esses que ficam de boca fechada diante de um assunto tão grave? Será que foram ameaçados pela polícia? Lembro que o hospital omitia várias informações à época. Acho no mínimo suspeita a atuação dessa instituição.

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2+2

14 de junho de 2012 às 13h32

O hospital não mostrou o boletim, ponto. Ponto final. Já seria o suficiente pra quebra de sigilo bancário dos assassinos mandantes: a juíza e o governador.

Cadê o desburrocratizador Anonymous? Queremos ver, Anonymous, as transações efetuadas entre contas de Naj, de mathey e de alckmin.

E a polícia sempre sem saber se colocar no seu lugar. Ora quer legislar, ora quer ser Judiciário, agora atacam de médicos, tentando dar laudo tipo causa mortis: viagem p Bahia. Quem tá sempre ‘viajando’ é a polícia.

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lia vinhas

14 de junho de 2012 às 12h24

Que justiça é essa, que deixa a pessoa morrer, ser enterrada, para agura exumála (o que não deixa de ser um vilipendio do cadáve) e constatar aquilo que todos já viram em vídeo ou noticiário? Mostra a grande consideração que os juízes têm pelos mais pobres.

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João Vargas

13 de junho de 2012 às 17h42

O Pinheirinho não pode ser esquecido. Ele tem que ser lembrado sempre para que as pessoas saibam que não é só nas ditaduras que acontecem estes horrores. Em pleno estado de direito democrático somos surpreendidos por tamanho ato de covardia e truculência contra pessoas honestas e trabalhadoras. Infelizmente a mídia sempre comprometida com os canalhas da nação não deram a divulgação necessária para que todos os brasileiros fossem informados do que realmente ocorreu.

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Antonio C.

13 de junho de 2012 às 11h38

Os mesmos métodos da ditadura: tortura, forjar laudos, negligência pública. A que se atribui tamanho uso de força pela polícia? Não se trata apenas de ter horror, mas de descobrir as causas (dizer que é por ausência de punição não resolve o problema, é muito simplório). O salário desses capitães-do-mato deve ser “muito bom” para descontar seu ódio em gente desvalida.

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mim

13 de junho de 2012 às 10h18

Cineasta Pedro Rios Leão não mais postou na web, após greve de fome e denúncia de criança baleada no pescoço com posterior sumiço de mãe e filha.

Aos defensores da polícia, favor aposentarem o clichê ‘não se pode generalizar’.

Capitão Sérgio Macaco vomitaria em suas fardas, canalhas assassinos.

Estado pior que nazista. O nazismo pelo menos se assumia, não ficava se fantasiando de estado democrata.

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Gerson Carneiro

13 de junho de 2012 às 08h41

Toda vez que me falam sobre o massacre de Pinheirinho eu lembro da entrevista concedida pela Juíza Márcia Loureiro elogiando a atuação da PM, dizendo que a atuação da PM foi motivo de orgulho.

http://www.youtube.com/watch?v=NtupI-OpCGY

Assassinos!

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Juristas denunciam desocupação do Pinheirinho à Comissão Interamericana de Direitos Humanos « Viomundo – O que você não vê na mídia

13 de junho de 2012 às 08h15

[…] Justiça autoriza exumação do corpo de aposentado espancado por PMs no Pinheirinho; será dia 14 […]

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Eutímio Pimentel

13 de junho de 2012 às 08h11

Cadê o pessoal dos direitos humanos ? Vão deixar por isso mesmo ?

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jandui

13 de junho de 2012 às 07h43

“Os pms disseram que o aposentado não deveria ter saído de São José dos Campos.”

Cúmulo do desrespeito e hipocrisia.

A PM sob comando do governador, o expulsa de São José dos Campos usando a truculência que nos é conhecida a ponto de matá-lo, e me vem com essa!

Pinheirinho tem que ser lembrado sempre.

A filha merece, no mínimo, uma idenização milhonária.

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Arthur Schieck

12 de junho de 2012 às 23h19

Nojo

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Julio Silveira

12 de junho de 2012 às 21h15

O estado, nominado pelo conjuntos dos cidadãos paulistas, poderão ter que pagar a conta do ato que motivou regozijo da juíza, do prefeito e do governador.
São muitos para pagarem a conta de uma ação intencional, que escancarou a soberba a imprudência e imperícia no trato com pessoas humildes.

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Gerson Carneiro

12 de junho de 2012 às 20h20

“Os pms disseram que o aposentado não deveria ter saído de São José dos Campos.”

O aposentado não deveria era ter sido expulso de Pinheirinho.

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    renato

    12 de junho de 2012 às 22h05

    As vezes não achamos palavras, mas as tuas já disseram tudo.
    Me resta a indignação.Que coisa triste este passar na sociedade brasileira.


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