VIOMUNDO

Diário da Resistência


Esperança dos democratas repousa no discurso de esquerda, como o de Alexandria
Foto Facebook
Cartas da Heloisa

Esperança dos democratas repousa no discurso de esquerda, como o de Alexandria


07/11/2018 - 11h38

Azenha,

Dessa vez, as pesquisas cantaram a pedra direitinho.

Nas eleições do meio de mandato de Donald Trump, nos Estados Unidos, a previsão era de que os democratas se tornariam majoritários na Câmara e os republicanos manteriam a vantagem no Senado. Projetado e cumprido.

Foi uma derrota avassaladora para Trump? Não.

É comum o presidente perder terreno no Congresso nessas eleições parciais. O resultado foi ruim mesmo para os democratas.

Se é tão difícil fazer frente a um candidato tão direitista quanto Trump, eles devem estar fazendo alguma coisa muito errada.

No fim das contas, o resultado geral das urnas não dá grande impulso à agenda de Donald Trump, também não cerra fileiras com os democratas. Mas é um freio para os projetos do presidente.

A retórica do medo, que Trump domina tão bem, mobilizou muitos eleitores. Mas também ficou claro que os democratas não têm uma agenda clara para o país, focada nas necessidades do eleitorado.

Salário mínimo, universidades públicas, saúde para todos, meio ambiente. Os candidatos que se concentraram nesses pontos, que são os problemas reais da população, se saíram muito bem.

E vários são filiados a partidos socialistas, mas concorrem sob a legenda democrata, como Bernie Senders fez.

Um dos melhores exemplos talvez seja o da mais jovem deputada da história que foi eleita por Nova York. Alexandria Ocasio-Cortez tem 29 anos, foi cabo eleitoral de Sanders e é uma real representante da classe trabalhadora da cidade.

Ela era garçonete em um restaurante de Manhattan quando decidiu concorrer pelo Partido Democrata, apesar de ser filiada a um partido socialista.

No discurso da vitória ela prometeu que a geração dela ainda vai transformar o Texas, tradicionalmente republicano, em um estado democrata.

O recado de Alexandria é simples: chega de concentração de renda, de empresas financiando campanhas políticas, de dívidas impagáveis para quem cursa a faculdade e pega empréstimo para dar conta da mensalidade.

Imbuída da urgência que a sobrevivência do planeta exige, ela também disse que os Estados Unidos botaram o homem na lua e fizeram isso com audácia e coragem política.

“Primeiro, traçamos o rumo a seguir depois descobrimos com chegar lá”, disse ela.

E é assim que Alexandria propõe enfrentar o aquecimento global: transformar os Estados Unidos em um país com 100% de energia renovável em 15 ou 20 anos. Ela também fez campanha para acabar com o ICE, a polícia da imigração.

“Uma organização que desrespeita os direitos humanos não deve ser reformada, ela deve ser eliminada”, afirmou.

As cenas de crianças separadas dos pais na fronteira do México com os Estados Unidos ainda pesam na consciência dos americanos. Mas foi justamente a questão migratória que Trump usou para levar a turma dele às urnas.

E foi tão longe no preconceito que até a Fox New acompanhou a CNN, a NBC e o Facebook.

Todos se recusaram a veicular a propaganda do presidente que mostrava um mexicano condenado à morte aqui por matar dois policiais.

Na propaganda, Trump dizia que os democratas deixaram o mexicano entrar e ficar no país. E aproveitou para sugerir que a caravana de imigrantes que deixou a América Central em direção aos Estados Unidos deve estar cheia de homens perigosos como o assassino.

A caravana parou na Cidade do México, que montou um programa para receber, dar comida e assistência médica aos imigrantes.

Outras vitórias marcantes: a Câmara terá, pela primeira vez, duas mulheres muçulmanas.

Rashida Tlaib é palestina, ativista, praticante da desobediência civil e, antes de se tornar candidata, ficou conhecida porque enfrentou o presidente Donald Trump, em um evento público, armada com uma cópia da constituição americana.

Ela perguntou várias vezes se ele já tinha lido o documento. Rashida foi eleita em um distrito dominado por negros e latinos.

A outra muçulmana é Ilhan Omas, refugiada da Somália. Ela foi eleita em Michigan para representar um distrito que pega parte de Detroit e um trecho do subúrbio da cidade.

Massachussets vai mandar uma mulher negra para Washington pela primeira vez na história. Ayanna Pressley, democrata, é mais uma das candidaturas que desafiaram o status quo do partido democrata.

Assim como Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna não aceitou dinheiro de corporações e lobbies e defendeu saúde para todos, universidades públicas e gratuitas e o fim do ICE.

Dentro do Partido Democrata, ela derrubou um representante que tinha dezoito anos de carreira política.

É mais uma representante do movimento que desafiou a direção do partido democrata com propostas mais à esquerda.

Nem tudo deu certo para esse pessoal. No Texas, faltou pouco…

O jovem Beto O’Rouke, que lembra um pouco os Kennedy, defendeu a saúde como um direito de todos (os republicanos não gostam nada disso) e a necessidade de controlar e restringir a venda de armas. No Texas!

Foi a campanha mais cara da história. O Partido Democrata achou que poderia contar com a vitória. Beto tentou desbancar o veterano Ted Cruz, um conservador que foi candidato a candidato a presidente.

No processo, rompeu com Trump. Mas agora, na reta final, pediu arrego e Trump fez comício em Houston para pedir aos eleitores que votassem em Ted Cruz. O senador ganhou suado e ficou na dívida com o presidente.

Uma lição dessas eleições, para os democratas, me parece clara. Se eles insistirem em posições de centro, com aquela quedinha para a direita, vão continuar quebrando a cara.

A senador Claire McCaskill é um exemplo típico. Ela era considerada a democrata mais propensa a votar com os republicanos. Foi derrotada.

Melhor do que um quase republicano é um republicano de verdade. Se ela não oferece uma alternativa aos republicanos, perde a razão de ser.

Na Flórida e na Georgia, os democratas tinham chances reais de elegerem governadores negros. Seria uma novidade.

Stacey Abrams foi longe na Georgia. Contou até com o apoio de Ophra Winfrey, mas o adversário republicano levou a melhor.

Na Flórida, Andrew Gillum disputou o resultado até o fim.

A diferença de votos entre o democrata e o candidato republicano foi de apenas um ponto percentual. Mas uma próxima eleição pode ter resultado bem diferente.

E essa talvez seja uma das maiores vitórias dessa rodada: a Flórida aprovou uma proposição que vai acabar com uma antiga injustiça eleitoral.

O estado suprimia o direito de voto de quem cumpriu pena por qualquer delito. A pessoa é presa, condenada, cumpre pena, é solta e nunca mais recupera o direito do voto.

Um milhão e quinhentas mil pessoas estavam nessa situação, agora corrigida.

Leia também:

A cara de ódio de Jair Bolsonaro

Livro do Luiz Carlos Azenha
O lado sujo do futebol

Tudo o que a Globo escondeu de você sobre o futebol brasileiro durante meio século!

A Trama de Propinas, Negociatas e Traições que Abalou o Esporte Mais Popular do Mundo.

Por Luiz Carlos Azenha, Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni e Tony Chastinet



6 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Zé Maria

08 de novembro de 2018 às 17h37

Rafael Correa, que deu asilo a Julian Assange
na Embaixada do Equador em Londres,
pediu Asilo Político ao Governo da Bélgica,
depois que a Juíza Mora Equatoriana, Daniela Camacho,
decretou a Prisão Preventiva do ex-presidente.
Correa alega que houve contra ele um complô judiciário.

https://br.sputniknews.com/americas/2018110812630277-correa-equador-belgica-asilo/
https://www.correiodopovo.com.br/Noticias/Internacional/2018/7/655291/Justica-do-Equador-decreta-prisao-preventiva-do-expresidente-Rafael-Correa

Responder

Zé Maria

07 de novembro de 2018 às 18h37

“O Departamento da Justiça não será influenciado
de forma imprópria por considerações políticas.”

Procurador-Geral dos EUA, Jeff Sessions,
Demitido hoje (7) por Donald Trump
.
.
Eu tenho bem presente que há uma relação
de subordinação aqui [com Bolsonaro].

Existem receios infundados e minha presença
pode ser salutar porque eu sou um juiz
e não vou admitir nada fora da lei.

Juiz Moro, falando a Jornalistas
como Futuro Ministro da Justiça

Responder

Zé Maria

07 de novembro de 2018 às 15h06

E Deb Haaland, do Novo México, e Sharice Davids, do Kansas,
foram os dois primeiros indígenas eleitos para o Congresso.
Correto?

Responder

Deixe uma resposta