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Patrick Cockburn: Gaddafi conseguiu juntar Washington e o Hezbollah


27/08/2011 - 02h48

Patrick Cockburn: Hatred of Gaddafi brought Libyans together. What can unify them now?

Saturday, 27 August 2011, no diário britânico Independent

Aviões da OTAN estão bombardeando a cidade de Muammar Gaddafi, Sirte, sublinhando o grau em que a OTAN aderiu à guerra contra ele no último mês.

Foi o uso de observadores altamente treinados em solo, orientando os ataques aéreos em posições defensivas e bases pró-Gaddafi, que levou à surpreendentemente rápida vitória militar e queda de Trípoli no último fim-de-semana. Na estrada ao sul da capital, pela qual os rebeldes avançaram, é possível ver os prédios ocupados pelas forças de Gaddafi destruídos pelas bombas e mísseis da OTAN. As barreiras de areia montadas pelas tropas do governo para bloquear a estrada parecem pateticamente ineficazes diante desse tipo de destruição.

Sem a OTAN os rebeldes teriam sido derrotados cinco meses atrás. Apesar de todos os V da vitória de milicianos em júbilo, sobre suas picapes, nas ruas de Trípoli esta semana, os rebeldes nunca foram suficientemente fortes militarmente para derrotar Gaddafi por contra própria. Mas eles serão capazes de converter um triunfo militar apoiado por estrangeiros em um sucesso político, criando uma Líbia democrática, próspera e estável? Vai o país seguir os terríveis precedentes do Afeganistão e do Iraque, onde o talibã e Saddam Hussein foram substituídos por governos fracos e desfuncionais?

“Somos todos uma família”, disse um homem de negócios líbio esperançosamente, ontem, quando dirigíamos pelas ruas vazias do centro de Trípoli sob o som de rajadas de metralhadora que afogavam nossa conversa. Há relatos espantosos de massacres de prisioneiros dos dois lados. Os próximos seis meses, ou um ano, vão deixar claro quanto os líbios são mesmo parte de uma única família.

Uma vantagem em lutar contra Gaddafi é que ele era um gênio para arranjar inimigos, em casa e no Exterior, que não tinham nada em comum além de detestá-lo. Ele podia ser detestado pelos americanos por causa de Lockerbie, mas também era odiado pelo xiitas libaneses do movimento guerrilheiro Hezbollah por sua alegada cumplicidade no assassinato do líder político e religioso xiita Moussa Sadr, que desapareceu durante uma visita a Trípoli em 1978*. Washington e o Hezbollah não concordam em muitas coisas, mas no intenso desprezo a Gaddafi, sim. Mesmo em fuga, Gaddafi ainda é o foco dos rebeldes. Na entrada do hotel Radisson Blu em Trípoli, onde estou hospedado, milicianos colocaram uma foto do ex-líder e seu Livro Verde no chão para que os que entrem no prédio pisem neles. Existe algum risco de que os hóspedes tropecem na foto ou escorreguem no livro colocado sobre o chão de mármore.

Morto ou capturado, Gaddafi não será o mesmo fator de unidade para os rebeldes como no passado. O mesmo vale para os integrantes da OTAN que querem que seu papel na derrubada seja recompensado com influência política e vantagem comercial. No momento, Trípoli está preocupada com dificuldades mais imediatas e mundanas. O fornecimento de água foi suspenso em boa parte da cidade porque forças pró-Gaddafi supostamente tomaram uma área de 600 km ao sul da capital, onde a água é bombeada das profundezas. De acordo com um engenheiro que já trabalhou para a prefeitura de Trípoli, mesmo quando as bombas forem ligadas, vai demorar alguns dias para que o abastecimento seja retomado.

A segurança em Trípoli também permanece frágil. (No momento em que escrevo isso em meu quarto, com vista para o porto, ouço barulho de tiroteio não muito longe do hotel e, por um momento, cai a energia elétrica). “Os únicos saques que tivemos foram de automóveis do governo e temos pedido aos motoristas que mostrem os documentos para provar que são donos dos veículos que estão dirigindo”, diz um líder rebelde. “Se eles não puderem provar, confiscamos o automóvel”. Na verdade, as preocupações dele são prematuras, já que ninguém está dirigindo para lugar algum por medo de atiradores e por falta de gasolina.

É fácil ver paralelos ameaçadores entre a Líbia, o Afeganistão e o Iraque. Em todos os casos os governos foram derrubados direta ou indiretamente por intervenção estrangeira. Militarmente o Afeganistão se parece com a Líbia porque o Talibã foi derrotado pela milícia da Aliança do Norte, cujo avanço era completamente dependente do maciço apoio aéreo dos Estados Unidos, dirigido do solo por pequenas equipes de observadores americanos. No Iraque, os Estados Unidos e seus aliados há muito diziam que o país era governado por iraquianos que deviam suas posições inteiramente ao apoio americano. Apesar de todas as declarações hipócritas em contrário em Washington e Londres, as guerras que começaram em 2001 no Afeganistão e em 2003 no Iraque nunca realmente acabaram.

A Líbia terá o mesmo destino? A luta de baixa intensidade vai continuar por meses? Apesar das similaridades, Trípoli parece diferente de Cabul e Bagdá. Ao contrário delas, não tem um legado de 30 anos de guerras. Quando a guerra líbia começou, jornalistas estrangeiros zombaram da incapacidade dos milicianos ineptos do sul de Benghazi em lidar com armas, mas pelos menos isso era melhor que os milhões de jovens do Afeganistão e do Iraque altamente experientes no uso de armamentos.

Apesar de toda a demonização de Gaddafi, ele nunca foi um monstro na linha de Saddam Hussein. Seu regime podia matar, torturar e prender seus inimigos, mas não na escala industrial do Iraque. Em visitas à Líbia nos últimos 30 anos, me chamou mais atenção o lado Inspetor Closeau do regime do que qualquer outra coisa. Nos anos 80, funcionários do governo me levaram ao deserto para ver o exército líbio em retirada do Chade, mas nunca conseguiram encontrar os soldados. Eventualmente nosso carro parou e o motorista explicou: “Acabou a gasolina”. Ele saiu em busca de combustível. Eu disse que ia dar uma volta. Um dos funcionários disse que não era boa ideia, já que estávamos no meio de um campo minado e pude ver os pinos para fora da areia, ao lado da estrada.

Um dos perigos na Líbia é que a propaganda de guerra, na qual o lado rebelde tem experiência, acabe envenenando as relações entre os líbios, a ponto de tornar difícil para os vitoriosos evitar vingança. Por exemplo, a história de estupros maciços propagada pelos rebeldes e levada a sério pela mídia internacional. Uma comissão da ONU, a Anistia Internacional e a Humans Rights Watch não encontraram provas disso e de muitas outras notícias de atrocidades, mas os relatórios foram em geral ignorados pela mídia. Líbios comuns ainda acreditam na propaganda. Em maio, conversei com refugiados da cidade petrolífera e portuária de Brega que disseram que a principal razão para a fuga deles foi a crença de que suas mulheres seriam estupradas por tropas pró-Gaddafi.

Os legados da guerra podem ser difíceis de superar. Mas os líbios tem uma boa chande restaurar a paz e a prosperidade. Eles não tem as divisões comunitárias e sectárias do Afeganistão e do Iraque. Apesar de todas as reclamações contra o mau uso do dinheiro do petróleo por Gaddafi, o nível de vida e os padrões educacionais do país são altos. Não existe um setor marginalizado da população, vivendo próximo da desnutrição, como acontece com um terço dos afegãos. A renda do petróleo é alta e uma população de seis milhões é suficientemente pequena para que todos se beneficiem. Ao contrário do Iraque, não existe um exército de ocupação.

Além disso, eu gostaria que o tiroteio do lado de fora de minha janela parasse.

*Pelo mesmo motivo, Gaddafi é desprezado no Irã (adendo do Viomundo).

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9 comentários

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fernandoeudonatelo

29 de agosto de 2011 às 13h19

Eu também não sei explicar, com um só motivo, a intervenção militar ocidental na Líbia.

Foram muitas possibilidades, mas ainda creio na questão do comércio marítimo pelo Golfo de Sidra, no Norte da África, com o objetivo de controlar a logística que vem da Ásia.

Responder

JotaCe

28 de agosto de 2011 às 15h18

'Independent' ?
Qualquer líder na região – eivada de satrápias e de problemas religiosos – que nacionalizasse as enormes riquezas petrolíferas do país, e as destinasse para o atendimento das necessidades do seu povo, seria ‘um gênio para arranjar inimigos’. É mesmo uma pena que um jornalista do Independent emita tantos conceitos, ou os insinue no seu artigo, no sentido de penalizar Kadafi pelos crimes cometidos especialmente pelos bombardeios terroristas. Ao que sabe, estes não se restringiram ‘aos prédios ocupados pelas forças de Gaddafi’ e que a falta d’água em Trípoli tenha resultado da ação do exército legalista. Também parece risível dizer que os líbios têm boa chance para restaurar a paz e a prosperidade, porque além de ‘não terem as divisões comunitárias e sectárias do Afganistão e do Iraque, a renda do petróleo é alta e a população de seis milhões é suficientemente pequena para que todos se beneficiem'. E os piratas com que então ficariam?

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Arno Mayer: Livres da economia, políticos poderão se dedicar às guerras | Viomundo - O que você não vê na mídia

27 de agosto de 2011 às 18h20

[…] Patrick Cockburn: Gaddafi conseguiu juntar Washington e o Hezboll […]

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Klaus

27 de agosto de 2011 às 13h40

Kadafi só tem um porto seguro no mundo: esquerda latino-americana. Breve, Kadafi em Caracas…rs

Responder

    Bonifa

    27 de agosto de 2011 às 16h15

    Tem outro. A casa do Klaus, ilustre troll do blog do Azenha.

    Nelson

    27 de agosto de 2011 às 21h46

    Porto seguro mesmo, ditadores, terroristas e outros assemelhados encontram um pouco mais ao sul. Infelizmente, é nisso que os "democratas" transformaram a bela terra de Gabriel Garcia Marquez.
    Há também outro porto, seguríssimo, para essa escória toda, graças a gente mui democrática, bem mais ao norte. Vide a matéria de Jean-Guy Allard, "Estados Unidos da asilo en su territorio a decenas de terroristas y prófugos", em http://rebelion.org/noticia.php?id=134506.

Bonifa

27 de agosto de 2011 às 11h37

Destacamos este trecho do artigo: "Por exemplo, a história de estupros maciços propagada pelos rebeldes e levada a sério pela mídia internacional. Uma comissão da ONU, a Anistia Internacional e a Humans Rights Watch não encontraram provas disso e de muitas outras notícias de atrocidades, mas os relatórios foram em geral ignorados pela mídia." É bom falar que uma parte da imprensa européia independente está relatando casos escabrosos de degolamentos, saques, estupros e incêndio de residências comuns praticados pelos "rebeldes". Além do enorme rastro de destruição dos cruéis bombardeios efetuados pelos europeus.É fácil acreditar-se nisso, dado que entre os "rebeldes" estavam toda sorte de criminoso internacional, a começar pelas milícias de esquadrões da morte colombianas. E pelo visto, haverá em breve farto material sobre tudo isto inundando as redes de informação. Não será possível à contra-propaganga ocidental barrar as imagens e a história real deste conflito. É lícito que não se veja no horizonte nada muito bom para as futuras análises desta guerra de conquista extemporânea.

Responder

    Nelson

    27 de agosto de 2011 às 21h30

    Bonifa.
    Apavorar e aterrorizar a população é parte inseparável de um plano de conquista. O medo provocado por tanto terror vai fazer com que as pessoas aceitem a "nova ordem" que está sendo implantada a canhonaços e bombardeios e se convençam de que não há outra opção a não ser submeterem-se a ela. Na América Latina, temos inúmeros casos de ditaduras que adotaram essa tática para dominarem seus povos.


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