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Laura Greenhalgh: Doutor Preto teria algo a dizer aos médicos brasileiros


02/09/2013 - 11h50

por Laura Greenhalgh, no Estadão, sugestão de Fátima Oliveira

Espetáculo patético. Médicos estrangeiros são obrigados a cruzar um corredor polonês de manifestantes em jalecos brancos gritando slogans que julgam ser de grande elevação espiritual – “Revalida!”, “volta pra casa”, “escravo, escravo…”.

A nau dos insensatos parecia ecoar no dia seguinte, na imagem publicada de um médico cubano, negro, visivelmente constrangido pelo protesto de que era alvo, em Fortaleza. E as insanidades prosseguiram: da tuiteira que indaga como lidar com médicas parecidas a domésticas a comentaristas tratando os vaiados como “agentes cubanos”. É triste, bate até um desalento. Não funciona dizer que é culpa do governo, saída fácil a escamotear o pior. Trata-se de preconceito.

Sabemos não é de hoje que a medicina no Brasil se fez uma profissão tão branca quanto a roupa que distingue seus profissionais – apenas 1,5% deles se declaram negros, segundo o IBGE. Dado estatístico, de uma constatação empírica – afinal, quantos clínicos ou cirurgiões negros você conhece?

Não é de hoje que este país sofre da má distribuição de seus médicos, o que faz com que vastidões continuem desassistidas para o atendimento básico, o que dizer então dos casos em que se requer atendimento especializado.

Como não é de hoje que, embora tenhamos o SUS, predomina em nossas vidas, bem como em nossas expectativas de futuro, a visão mercadológica da medicina, no sentido de que o melhor estará sempre reservado a quem pode bancar. Mas, ainda que saibamos de tudo, vale indagar se os atores do protesto terão vaiado apenas os profissionais de fora, inscritos no programa oficial.

Saiu vaiada a medicina social brasileira. Como saíram vaiados profissionais que deram e dão duro para fazer com que a saúde seja um direito de todos neste país. Hoje pretendo usar este espaço para lembrar de um deles, por coincidência negro e, mais coincidência ainda, neto de escravos.

Chamava-se Justiniano Clímaco da Silva, mas a clientela o tratava como “Doutor Preto”. Fez história no Paraná, precisamente em Londrina, onde trabalhou até morrer, em 2000, aos 93 anos.

Destacou-se numa cidade muito pobre até idos de 1930, depois enriquecida pela cafeicultura – cidade em cujos anais consta a saga vitoriosa dos colonos brancos, de origem europeia, nem tanto a força de trabalho dos negros libertos. E não foram poucos – no século 19, os escravos representavam 25% da população do Estado.

Pois bem, Justiniano Clímaco nasceu preto e pobre em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1908. Filho de carpinteiro e criada doméstica, cismou de imitar o Dr. Bião, médico da cidade. Queria ser como ele. Então virou preto, pobre e pretensioso. Tanto fez que lhe arrumaram estudos num seminário e cama na casa de uma tia em Salvador.

Daí, preto, pobre, pretensioso e persistente, não virou padre, mas bacharel em Ciências e Letras. Depois virou professor do ginásio, deu aulas de matemática e latim, o que pagaria o preparatório para a Faculdade de Medicina da Bahia. Entrou. Fez o curso.

Formou-se em 1933 numa classe com 95 alunos, contabilizados aí uma única mulher e ele, o único negro. Topou com a notícia de que a Companhia de Terras Norte do Paraná, firma inglesa que loteava uma vasta área do Estado, recrutava braços para a lavoura, apesar do avanço do tifo e da febre amarela. Pensou: se tem doença, precisa de médico. É lá que eu vou.

Assim começa a maior viração do Doutor Preto, 50 anos de clínica, mais de 30 mil pacientes, fundador de hospitais na região e tema de trabalho acadêmico de Maria Nilza da Silva, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A pesquisa da socióloga, da qual participou a aluna Mariana Panta, dá conta de um “escravo da medicina”, usando expressão do médico cubano vaiado em Fortaleza.

Justiniano Clímaco chegou em 1938 a uma Londrina sem luz elétrica para acionar o infravermelho que trouxe de Salvador. Fervia e flambava os próprios instrumentos, não tinha raio X, anestesiava os pacientes com máscaras de clorofórmio, rastreava tumores por apalpação, ouvia pulmões e corações longamente.

Dizia: “Clínica geral tem que ser feita assim: sem pressa”. Foi pioneiro no uso da penicilina ao tratar doenças sexualmente transmitidas, que proliferavam numa fronteira agrícola com gente de tudo quanto é lugar. Com o tempo, arrumou um Ford 28 para atender na roça e levar casos graves até Curitiba – 400 quilômetros por terra, dois dias de viagem.

Cobrava de quem tinha para pagar. E aceitava uma leitoinha, ou um queijo caseiro, por serviços prestados. Da clínica que abriu inicialmente, Casa de Saúde Santa Cecília, passou a se articular com os mais influentes para criar instituições como a Santa Casa de Londrina e a Sociedade Médica de Maringá.

Chegou a arrancar do presidente Dutra os tostões necessários para um hospital de tuberculosos em Apucarana, depois transferido para Londrina. Hoje ali funciona o Hospital Universitário, centro de referência médica do norte do Paraná.

Um belo dia Doutor Preto achou que seria bom provar do poder. Disputou uma vaga como deputado estadual, foi o quinto mais votado, mas odiou os anos na política, vividos solitariamente numa pensão em Curitiba. Queria voltar para a clientela. E dela não mais se separou.

Voltou também para a garotada do ginásio, ele que se tornara poliglota – falava além de grego e latim, alemão e francês.

Perguntavam-lhe por que dar aulas, afinal, já suava o jaleco. “Docendo discitur“, respondia. Ensinando é que se aprende. Só um dia perdeu as estribeiras com paciente.

O sujeito marrento o interpelou no corredor do hospital, perguntando pelo Doutor Clímaco. Ouviu um naturalíssimo “sou eu”. E rebateu com um insultuoso “não vem não, negão, vai logo chamar o médico”. Preconceito não só fere, como turva os sentidos.

Justiniano Clímaco agarrou o homem e jogou-o no rua. Sem consulta. Fez cardiologista seu único filho, adotivo, e doou tudo para a cidade, inclusive a maleta de médico. A casa onde morou até morrer foi derrubada, mas seu nome continua de pé numa unidade básica de saúde. Neto de escravos, Doutor Preto teria algo a dizer aos médicos brasileiros que hoje vaiam médicos cubanos.

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12 comentários

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Caracol

03 de setembro de 2013 às 17h16

Gostaria de deixar um recado para a jornalista tuiteira que só quer se tratar com médico elegante e que não tenha cara de empregada doméstica:

Querida, eu compreendo os seus anseios. Olha, eu tenho uma indicação elegantéééérrrrima pra você: tem um Dr. Roger Abdelmassih lá em S. Paulo (dizem que ele está de férias no Líbano, mas ele volta logo), esse cara é tudo que você quer e precisa. Você deve fazer tudo o que ele mandar e vai se sentir otimamente bem atendida em medicina. Ele é rico, tem um bigodão elegante, não tem pinta de mecânico sujo e mal-ajambrado nem de empregada doméstica e tem outra coisa hein(!): Ele é branco. Médico de classe tá ali, ó!
Você vai gostar!

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Elias

03 de setembro de 2013 às 12h51

Um punhado de representantes da “máfia de branco”, não vai mudar os rumos do Mais Médicos. Vai apenas expor ainda mais uma corporação que nunca identificou-se com os pobres. O Doutor Preto, ao deparar-se com um estúpido preconceituoso “agarrou o homem e jogou-o no rua”; o médico cubano na foto acima talvez desejasse fazer o mesmo com os ‘brasianques’ que o vaiaram. Mas preferiu seguir calado e orgulhoso de sua missão: ser médico para todos em qualquer lugar.

PS: Enquanto uns países exportam soldados para matar, Cuba exporta médicos para salvar.

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Aline Costa

02 de setembro de 2013 às 22h37

Ninguém perde nada por ficar calado. Quanta falta de respeito com quem veio para ajudar. De muitos anos pra ca o Brasil sofre com a má distribuição de médicos, levando muitas pessoas a morte em filas de hospitais, em corredores, e em outras inúmeras situações, quanta falta de respeito com o publico brasileiro, estamos vivendo pelo SUS desde quando e ate quando? Os médicos cubanos, e de outros países tambem, vieram para fazer o trabalho que os brasileiros não exercem, onde eles não querem, mas há uma necessidade muito grande. Hipocrisia é a palavra que define o infeliz comentário de uma jornalista semanas atras, não se julga uma pessoa que estudou para salvar a vida do próximo pela roupa, pela aparência, pela cor.

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Ana Raposo

02 de setembro de 2013 às 21h55

Laura foi de uma precisão a toda prova. Um artigo analítico precioso

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killimanjaro

02 de setembro de 2013 às 16h05

VIDA LONGA!

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renato

02 de setembro de 2013 às 15h45

Este médico é Urologista e veio atender os senhores de pijama, para fazer o teste de toque, para ver o tamanho da próstata dos senhores generais e capitães.
Desejo a estes senhores uma boa sorte.

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flavio jose

02 de setembro de 2013 às 15h32

O Ceará não é isso. Apenas uma meia dúzia de mentes doentias, sem a menor noção daquilo que vem a ser EDUCAÇÃO DOMESTICA que passa a noção de um Ceará doente, empobrecido pela ignorância de pessoas que dizem representar os médicos do estado. Quantos medico existem no estado e quantos fora ao aeroporto apresentar uma festival de mediocridade. É lamentável porem real.

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augusto

02 de setembro de 2013 às 13h12

a gente tem algumas criticas a atuaçao da nossa presidenta, é claro.
Mas tem ai dois gols de placa de autoria dela.
UM no fim do primeiro tempo, apos a avalanche das ruas, o MAIS MEDICOS.
Golaço indefensavel.
O segundo – a tomada de um bilhao de Reais pelos compradores de casa propria dentro do “Minha Casa Melhor” – Em menos de dois meses, 220 mil familias TOMARAM um bilhaozinho em compra de eletrodomesticos e similares para suas casas novas… turbinando o emprego, produçao, e renda.
Chora, PIG.

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Luís Carlos

02 de setembro de 2013 às 13h04

“Clínica geral tem que ser feita assim: sem pressa”. Aqui resume-se muito do que representa o Mais Médicos. A recuperação da clínica, esvaziada pelo modelo flexneriano de fazer medicina.

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Ivan Cordeiro

02 de setembro de 2013 às 12h55

São uns racistinhas contumazes

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Eunice

02 de setembro de 2013 às 12h31

Silêncio é melhor.

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    Malvina Cruela

    02 de setembro de 2013 às 15h00

    “o silencio é melhor’??? pra que??? pra quem???


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