Fátima Oliveira: Cuidando dos encantadores piu-pius de Clarinha

Tempo de leitura: 3 min

Cuidando dos encantadores ‘peu-peus’ da Clarinha…
Revolucionei meu jardim com comedouros e casinhas

Fátima Oliveira, no Jornal O TEMPO
Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Acordo com o canto de passarinhos e, após o almoço, é doce cochilar ao som de suas melodias. Ensinei ao neto Lucas e às netas Luana e Maria Clara o encantamento de passarinhos livres, leves e soltos em nosso jardim-quintal.

Em “A Magia de ‘Passarinhar’ com Clarinha na Cidade Jardim”, disse que sou passarinheira desde criança. O encanto com passarinhos é minha herança para a netaiada. Não vejo a hora de o Inácio, da minha filha Débora, estrear na vida para ensiná-lo a ouvir “peu-peus” (“piu-pius”) e ter com ele o aconchego de registrar também que, “após o almoço, ouvimos uma sinfonia e Clarinha, que já apurou o ouvido, detecta imediatamente que é ‘passarim’… Pede silêncio: põe o dedinho na boca e murmura: ‘xiiiiiiiiii’… E dorme embalada pelo chilrear dos nossos passarinhos…”.

Após quase um mês passarinhando com Clarinha, em setembro passado, quando ela foi embora, decidi ser mais acolhedora com seus “passarins”, como uma parte dela que ficou comigo. Revolucionei meu jardim-quintal com comedouros e casinhas-ninho – não há bebedouros nem banhadouros (ai, como é lindo um pássaro fazendo estripulias na água!) por causa da dengue. Apesar da recomendação de lavá-los com esponja ou bucha e trocar a água semanalmente, melhor não arriscar! Estou astuciando um chafariz, pois água corrente não é arriscada… E sorrio sonhando: ai, ai, Clarinha vai endoidar aqui! E, se aparecer o bem-te-vi gago da Cecília Meireles: “Bem-bem-bem… te-te-te… vi-vi-vi?” (“Histórias de Bem-Te-Vi”).

Atrair pássaros é uma
arte a aprender.
Podemos estabelecer convívio
com pássaros
até mesmo via
uma floreira na janela!
É um prazer manhoso

E digo os versos de Cecília Meireles, que tanto alumbravam a minha filha Lívia (mãe da Clarinha), quando criança, quem, certa noite, quando pedimos que lesse para nós uma poesia do seu livro “Ou Isto ou Aquilo”, que ganhou da sua professora Márlia, no 2º ano do Pandiá Calógeras, disse: “Ai, não fala em Cecília Meireles, não, que nem durmo!”. Mas emendou: “Quem me compra um jardim/ com flores?/ borboletas de muitas/ cores,/ lavadeiras e passarinhos,/ ovos verdes e azuis/ nos ninhos?”… (“Leilão de Jardim”, Cecília Meireles).

Atrair pássaros é uma arte a aprender. Um jardim, e/ou quintal, com árvores, arbustos, flores, comida e bebida é o bastante. Podemos estabelecer convívio com pássaros até mesmo via uma floreira na janela! É um prazer manhoso, mas basta saber alimentá-los – sementes, frutas, verduras, legumes frescos e limpeza cuidadosa e diária dos comedouros para evitar doenças, e, sobretudo, fungos. Os bebedouros de beija-flor merecem atenção especial: açúcar na água fermenta muito com o sol, podendo causar doenças; use néctar de beija-flor.

Ser cuidadora de pássaros sobreviventes da selva de pedras tem sido um lazer prazeroso que me faz sonhar: “Pássaro da lua,/ que queres cantar,/ nessa terra tua,/ sem flor e sem mar?/ Nem osso de ouvido/ Pela terra tua./ Teu canto é perdido,/ pássaro da lua…/ Pássaro da lua,/ por que estás aqui?/ Nem a canção tua/ precisa de ti! (“Pequena Canção”, Cecília Meireles).

Dizem que temos em Beagá 347 espécies de aves e que, em determinadas épocas do ano, aparece uma diversidade incomum, a bordo de correntes migratórias: algumas “atraídas pelo clima ou apenas para descansar de uma viagem longa”.

Não mais invejo as inspirações passarinheiras de Cecília em seu “Ciclo do Sabiá”, nos “Diálogos do Jardim”: “Debaixo de tanto calor,/ o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,/ e pôs-se a falar./ O pássaro perguntava-me: “Lembras-te das grandes árvores,/ com lágrimas douradas de resina?”. Tenho os “passarins” da Clarinha em meu jardim-quintal…

PS do Viomundo: Quem acompanha Fátima Oliveira aqui no Viomundo já teve a oportunidade de “ouvi-la” falar de Clarinha, um dos seus netos queridíssimos. Mas, cá entre nós, tenho a impressão de que Clarinha, tal qual a vovó, nasceu com os “cabelinhos na venta” e não terá papas na língua para enfrentar injustiças e desigualdades. O presente e o futuro. A você, Fátima, e à tua princesa, um beijo enorme pelo Dia Internacional da Mulher, Conceição Lemes.

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Comentários

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Márcia Arruda

Um amor de crônica e reveladora de amor aos passarinhos e de lições de vida

JULIO/Contagem-MG

Cadê meu comentario ? censura por aqui !!!!!!!

Fátima Oliveira

Um agradecimento especial para a Conceição e o Azenha. Fiquei muito emocionada. Aproveito para compartilhar uma poesia que fiz quando Clarinha completou um ano, um registro da brincadeira que ela adora, que é "pular" em meus joelhos, imitando um cavalinho trotando:
PO-TO-TÓ*
Fátima Oliveira

Po-to-tó, po-to-tó, po-to-tó…
Vumbora ca-vaaaaa-lo…
Anda loooo-go…
A Clarinha quer chegar lá no Corado!
Po-to-tó, po-to-tó, po-to-tó…
Cadê, cadêêêê Taj Mahal?
Po-to-tó, po-to-tó, po-to-tó…
Upa, upa cavalinho!
Uuuuuuuuuuuuuupa!
Po-to-tó, po-to-tó, po-to-tó…
Vumbora ca-vaaaaa-lo…
Anda loooo-go…
A Clarinha quer chegar lá no Corado!

[* Para minha neta Clarinha, em seu 1º. Aninho Beagá, 30 de dezembro de 2010]
** Corado, é um restaurante-pouso de cavalgadas, maravilhoso e qause no meio do nada, na região de Brumadinho-MG – um lugar que eu adoro, pela comida e pela hospitalidade do dono, o Corado, professor de computação aposentado da UFMG!

Paulo

Passarinhar e cuidar de passarinhos urbanos hoje em dia tem a dimensão maior das causas ecológicas. Felicito à Dra. Fátima Oliveira pelo ensico à sua neta Clarinha da importância e da beleza de tais atividades recreativas.

Elias

Passarim, de Tom Jobim… Passaredo, de Chico Buarque…A Magia de 'Passarinhar' com Clarinha na Cidade Jardim, de Fátima Oliveira…música…poesia…literatura com muito Brasil.

Ernê

Azenha e Conceição, faz todo sentido mulherar Fátima Oliveira pelo Dia Internacional da Mulher, com um dos mais bonitos textos que ela escreveu sobre suas passarinhadas com a neta Clarinha. Achei a crônica uma prosa-poema, que dá muito gosto de ler, aliás, gosto do estilo de escrita da Fátima, sobre qualquer assunto. O que ela escreve é literatura na mais pura acepção da palavra literatura, mesmo que sejam textos políticos.

Laura Antunes

PASSARINHOS
Zalina Rolim

A um passarinho que andava
Cantando pelo jardim,
Foi perguntar Elisinha
– Quem é que te cuida assim?

Onde achas doce alimento,
Coisas nutritivas, sãs?
– Tenho bichinhos gostosos
Figos, laranjas, romãs.

– E quando estás fatigado,
Onde é que vais descansar?
– Qual de nós não tem seu ninho?
Nosso ninho é o nosso lar.

– E sede não sentes nunca?
– Tenho rio e ribeirão,
E gotinhas de sereno,
Que as folhas verdes me dão.

– E no inverno não te falta
Agasalho contra o frio?
– Tenho penas que me cobrem,
Tenho agasalho macio.

– E quando não há bichinhos,
Grãos e frutinhas não há?
– Há uma boa criancinha
Que pão e alpiste me dá.

Passarinhos, de Zalina Rolim (Brasil, 1869-1961)

Alberto

A Clarinha é linda, não é só corujice da vovó Fátima, não! Uma crônica de muitas lições

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