Por Pedro Amaral*, em sua página na plataforma Medium
A Asa Norte, bairro da capital federal considerado “nobre” (status reforçado, entre outros, pelo preço dos imóveis), tem frequentado o noticiário policial local devido a ocorrências que perturbam o sossego de seus moradores: a brutal agressão a uma moradora de rua, a invasão de um apartamento em andar térreo, os episódicos roubos de fiação etc.
É certo que o volume de atos criminosos empalidece diante do rosário de desgraças que nos habituamos a ver noutras capitais, mas ainda assim os eventos ampliam a sensação de insegurança — ou abalam a impressão de tranquilidade — dos asa-nortinos e brasilienses em geral.
Assim, é natural que haja um reforço do policiamento ostensivo na região, e foi o que testemunhei, hoje, no meu passeio dominical. Não é mal, reconheço, que homens e mulheres da lei patrulhem o início da Asa Norte nas primeiras horas da manhã, ainda que as ocorrências delituosas pareçam se concentrar no período noturno, e nas últimas quadras do bairro, onde há um comércio de drogas ilegal, mas de todos conhecido.
Em contraste, o que predomina, nessa área e nesse horário (o início da asa, ao amanhecer), é uma paz de cemitério pontuada, aqui e acolá, por corujas buraqueiras, crianças serelepes, cachorros curiosos e atletas motivados. Nalgumas quadras, com a concentração devida, talvez o transeunte consiga ouvir os próprios batimentos cardíacos, tal o silêncio circundante.
Nesse cenário, assumem um ar quase cômico os grupos de policiais, devidamente paramentados, que circulam com ar de quem tem uma missão importantíssima a cumprir (alguns até franzem o cenho, para tentar reforçar sua aura de autoridade).
E há isto: eles circulam em grupos de cinco, em vez de se espalhar, como pareceria mais produtivo a este leigo em segurança pública. Tento imaginar que ocorrência podem estar esperando, que exija a ação imediata e conjunta não de um, nem dois, mas de cinco agentes da lei de arma em punho.
Sei do temperamento difícil das corujas buraqueiras e dos quero-queros — mas não é para tanto, convenhamos.
Na ausência de entretenimento, os guardas procuram caçar o que fazer, e logo encontram. Enquanto tomo um café na banca de jornal, observando uma jovem dupla de colecionadores de figurinhas entretida com seu metiê, observo também, na esquina, um grupo de PMs — são cinco, repito — dando um baculejo num homem que ia passando (se não me engano, um lavador de carros assíduo na região).
O leitor adivinhará a cor de pele do cidadão tido como suspeito. Nenhuma forte emoção, contudo: o homem se identifica, responde a dúvidas dos interlocutores, e após alguns minutos de suspense é liberado para remoer seu ressentimento contra a sociedade que o oprime.
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Pedalando de volta para casa, cruzo com mais um quinteto azulado, e dou graças por minha aparência não atiçar, neles, nenhum tipo de suspeita. Eles querem a atravessar a rua para cá, e eu para lá. Paro a bicicleta na ilhota que separa as duas faixas, aguardando o momento de atravessar em segurança.
Os policiais, porém, não têm a mesma paciência: enquanto um deles (o líder?) acena à motorista que vem vindo, forçando-a frear, os demais cruzam a rua, enfileirados, como uma família de patinhos.
Vejo a expressão de contrariedade da condutora com o pequeno arbítrio, e a entendo: afinal, não havia trânsito, quase (nem motivo identificável para pressa), de modo que retê-la era totalmente desnecessário, uma fútil demonstração de micropoder.
Na bucólica manhã asa-nortina, a PMDF parece não ter, mesmo, coisa a fazer, exceto mostrar-se como aquilo que é.
*Pedro Amaral é escritor, autor de Meninas más, mulheres nuas: As máquinas literárias de Adelaide Carraro e Cassandra Rios (ed. Papéis Selvagens).




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