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Venício Lima: Jornalistas na CPI, por que não?


23/05/2012 - 12h00

Há relatos de que ações de bastidores foram realizadas por altos executivos dos grupos Globo e Abril junto a partidos políticos e parlamentares, inclusive com ameaças de retaliação política, caso fossem convocados os suspeitos de relações promíscuas com o esquema de Carlinhos Cachoeira.

por Venício Lima, no Observatório da Imprensa, via Carta Maior

A possibilidade de convocação de jornalistas e/ou empresários de mídia para depor na CPMI do Cachoeira provocou uma unânime reação contrária da grande mídia brasileira.

O argumento principal é de que jornalistas e/ou empresários de mídia não poderiam se submeter ao constrangimento de serem questionados publicamente por deputados e senadores. Afinal, políticos constituem alvo permanente do “jornalismo investigativo”. E, claro, a convocação representaria uma perigosa ameaça às liberdades de expressão e da imprensa.

Da relação inicial de pessoas convocadas a depor na CPMI, aprovada na reunião do dia 17 de maio, não constam jornalistas nem empresários de mídia.Há relatos de que ações de bastidores foram realizadas por altos executivos dos grupos Globo e Abril junto a partidos políticos e parlamentares, inclusive com ameaças de retaliação política, caso fossem convocados os suspeitos de relações promíscuas com o esquema criminoso.

Dois dos principais grupos de mídia brasileiros considerariam inaceitável a convocação de jornalistas e/ou empresários – independente das comprometedoras conversas telefônicas já conhecidas – entendida como “um precedente perigoso para o futuro” e “uma verdadeira humilhação para toda a classe”.

Estarão corretos os argumentos e será que os temores alegados se justificam?

Última Hora e TV Globo

Em países de tradição democrática consolidada, a convocação de jornalistas e/ou empresários de mídia para esclarecer suspeitas relativas a atividades empresariais e ao exercício profissional, em comissões no parlamento e em inquéritos policiais, não só tem sido feita como não é considerada constrangimento ou ameaça.

Ao contrário, a convocação é entendida como servindo ao interesse público e à democracia e é aplaudida, inclusive, pela mídia tradicional. O melhor exemplo disso é o que está acontecendo na Inglaterra em relação à investigação do grupo News Corporation, tanto na Câmara dos Comuns, quanto no Inquérito Levinson.

Aqui mesmo na Terra de Santa Cruz, ao contrário do que alega a grande mídia, há pelo menos dois precedentes importantes: a CPI da Última Hora, em 1953 e a CPI Globo x Time-Life, em 1966.

Na CPI da Última Hora, sugerida ao presidente Getúlio Vargas pelo próprio Samuel Wainer com o objetivo de investigar as operações de crédito realizadas entre o Grupo Wainer e o Banco do Brasil, foram convocados os jornalistas Samuel Wainer e Carlos Lacerda, que prestaram dois depoimentos transformados, respectivamente, nas publicações Livro branco contra a imprensa amarela e Preto e branco (ver aqui).

Na CPI Globo x Time-Life, criada “para apurar os fatos relacionados com a organização Rádio e TV e jornal O Globo com as empresas estrangeiras dirigentes das revistas Time e Life”, foram convocados, dentre outros, Rubens Amaral, ex-diretor geral da TV Globo; Joseph Wallach, assessor técnico de grupo Time-Life junto a TV Globo; Robert Stone, correspondente do grupo Time-Life no Brasil; Walter Clark, diretor-geral da TV Globo; João Calmon, dos Diários Associados e presidente da Abert; e o diretor presidente da TV Globo, “doutor” Roberto Marinho, que além de prestar depoimento por duas horas ininterruptas, submeteu-se ainda a longuíssimo questionamento (cf. Projeto de Resolução nº 190 de 1966 [Relatório Final], publicado no Diário do Congresso Nacional I, Suplemento B, em 12/1/1967, pp. 1-79).

Interesse público e democracia

É verdade que lá se vão várias décadas, as circunstâncias políticas, a composição da Câmara dos Deputados, a identidade doutrinária dos partidos e as motivações eram outras. De qualquer maneira, não se justifica o argumento do “precedente” alegado pelos executivos da grande mídia: no passado, o Congresso Nacional convocou e tomou depoimentos de jornalistas e empresários de mídia em Comissões Parlamentares de Inquérito.

Quando se trata de esclarecer práticas, identificar autores e propor medidas de proteção para salvaguardar o interesse público e a democracia, os únicos critérios que devem prevalecer para a convocação ou não de qualquer cidadão para depor em uma CPI são a existência fundada de suspeitas de atividades criminosas.

A observância desses critérios é o que se espera dos membros da CPMI do Cachoeira na medida em que o trabalho avance e que, eventualmente, surjam informações complementares confirmando a necessidade de convocação de jornalistas e/ou de seus patrões. Por que não?

Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011.

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29 comentários

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CPI não vota convocação de jornalista da Veja « Viomundo – O que você não vê na mídia

14 de agosto de 2012 às 16h58

[…] Venício Lima: Por que não? […]

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Collor volta a atacar no Senado « Viomundo – O que você não vê na mídia

10 de agosto de 2012 às 15h02

[…] Venício Lima: Por que não? […]

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Advogados denunciam a Abril ao Ministério Público « Viomundo – O que você não vê na mídia

10 de junho de 2012 às 20h50

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Kenarik Boujikian: Estado é conivente com humilhação de preso pela imprensa « Viomundo – O que você não vê na mídia

08 de junho de 2012 às 22h37

[…] Venício Lima: Jornalistas na CPI, por que não? […]

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Samira

25 de maio de 2012 às 16h31

Se você tiver prova conclusiva sobre o mensalão, leva lá no STF ou no MPU … ou acha mais legal ficar fazendo coro com a mídia tucana?

Responder

Jáder

25 de maio de 2012 às 16h30

E uma CPI da imprensa – por que não? Nossos ‘medios’ são uma concessão de serviço público, vários deles pertencem a empresas penduradas no fisco e na justiça trabalhista, com dívidas de bilhões de reais. Além disso, usam o espaço autocrático, de modo sobrepor os interesses do capital aos dos trabalhadores e da nação e chegando a mentir ou falsear informações deliberadamente para atender a esses interesses. São réus condenados em inúmeros processos mas seguem participando de licitações. E ainda consideram-se fichas-limpas …

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CPI está sendo usada como parte da estratégia de defesa da quadrilha de Cachoeira « Viomundo – O que você não vê na mídia

24 de maio de 2012 às 16h49

[…] Leia também: Venício Lima: Jornalistas na CPI, por que não? […]

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lulipe

23 de maio de 2012 às 23h58

Qualquer jornalista que for convocado, se é que vai ser, na CPMI vai usar do mesmo direito invocado pelo cachoeira, vai se manter calado.Os integrantes da CPMI pensarão mil vezes antes de sofrer nova desmoralização!!!

Responder

Cláudio

23 de maio de 2012 às 23h13

“Quando se trata de esclarecer práticas, identificar autores e propor medidas de proteção para salvaguardar o interesse público e a democracia, os únicos critérios que devem prevalecer para a convocação ou não de qualquer cidadão para depor em uma CPI são a existência fundada de suspeitas de atividades criminosas.”.

“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo” – Malcolm X (1925-1965).

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corruta formará um público tão vil como ela mesma.” – Joseph Pulitzer (1847-1911).

Ley de Medios, já ! ! ! Comissão da Verdade, já ! ! !

Responder

Cláudio

23 de maio de 2012 às 22h13

“Jornalistas na CPI, por que não?”?

“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo” – Malcolm X (1925-1965).

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corruta formará um público tão vil como ela mesma.” – Joseph Pulitzer (1847-1911).

Ley de Medios, já ! ! ! Comissão da Verdade, já ! ! !

Responder

Gil Rocha

23 de maio de 2012 às 21h59

“Há relatos de que ações de bastidores
foram realizadas por altos executivos
dos grupos Globo e Abril junto a partidos
políticos e parlamentares”.
Esta afirmação é interessante.
Até porque pelo que me consta, até o Zé
Dirceu foi procurado.
E alguém acredita nessa lorota?
Eu li sobre isso, nenhum nome de político
foi revelado.
Collor e os progressistas, já que políticos
importantes e conhecidos do PT não entraram
nessa lorota de Veja, podem berrar o quanto
quiserem.
Sem prova alguma não terão o Policarpo nem a
Veja na CPMI.
Já vi muitos comentários aqui, mas até agora não
vi nenhum perguntando, porque Lula até agora não
se pronunciou?
Qual seria a razão?
Será que está mancomunado com a Veja?
Ou será que viu que até agora, é muito barulho por
nada?
Os políticos petistas mais destacados já perceberam,
deixem o Collor tomar a frente.
Se der certo será bom para nós, se não der não temos
nada com isso.

Responder

Cláudio

23 de maio de 2012 às 20h13

“Jornalistas na CPI, por que não?

Interesse público e democracia”

“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo” – Malcolm X (1925-1965).

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corruta formará um público tão vil como ela mesma.” – Joseph Pulitzer (1847-1911).

Ley de Medios, já ! ! ! Comissão da Verdade, já ! ! !

Responder

Tomudjin

23 de maio de 2012 às 19h32

A grande sacada da mídia golpista foi conseguir transformar um contraventor em “laranja”.
Afinal, o único que está preso é o próprio Cachoeira.
O verdadeiro contraventor sabe que não precisa estar dentro da lei – apesar de poderem contar com a assessoria de um bom, experiente e bem remunerável Advogado – já os políticos desonestos, as empresas privadas desonestas e a imprensa desonesta precisam pelo menos disfarçar tais contravenções.

Responder

Fabio Passos

23 de maio de 2012 às 18h18

O Venício Lima mostrou o quão furados estão os argumentos do PIG para tentar blindar a veja.

rupert civita e policrápula jr vão ter de se explicar na CPI.
A sociedade não tem de tolerar bandido fingindo que é jornalista.

É fato que carlinhos cachoeira obtinha vantagens para seus negócios sujos com as “reportagens” da veja.

Os pilantras da veja precisam prestar contas de sua associação com o crime organizado.

Responder

Amaro

23 de maio de 2012 às 17h14

Constituição federal de 88 garante a igualdade de tratamento para todos os cidadãos:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, (…).

Responder

    Fabio Passos

    23 de maio de 2012 às 18h49

    O PIG quer convencer o Brasil que rupert civita e policrápula jr tem o direito de ser bandidos…

A guerra começou

23 de maio de 2012 às 17h04

O site do PHA, o conversa afiada, está sob ataque de hacker’s, nada funciona. Agora já era!

Responder

oziel f. de albuquerque

23 de maio de 2012 às 17h00

Todos são iguas perante a lei, só que o pig se acha superior a todos. senhores parlamentares, o pig estão ameaçandos todos os congressistas que fazem parte da cpmi. o pig não aceita ser convocado para depor, se a cpmi não convocar, a cpmi fica desmoralizada perante a opnião publica.

Responder

Amaro

23 de maio de 2012 às 16h52

Senhores, a não convocação de membros da imprensa, por que não, será uma unanime desmoralização da democracia brasileira. A final esta é a hora de vermos se ela existe de verdade. Indícios de crimes cometidos por estes “jornalistas” têm de sobra nesta cachoeira. Sermos um país de imprensa livre é uma coisa. Termos criminosos intocáveis na imprensa seria a comprovação clara da mediocridade. O PT seria responsável direto por esta calamitosa constatação uma vez que tem sido vítima histórica deste falso jornalismo.
http://www.youtube.com/watch?v=EiWaWZfIi0Q

Responder

José Neto

23 de maio de 2012 às 15h09

Querer blindar jornalistas é um ato de pura ignorância mal intencionada das leis constitucionais e penais, pois quando o jornalista Pimenta Neves (Estadão)assassinou Sandra Gomide, esgotou-se todas as instâncias até seu julgamento e a consequente prisão. Quanto ao caso Veja/Cachoeira claro está que os diálogos entre Policarpo e a quadrilha de Cachoeira sem sombras de dúvidas demonstra um conluio de ações orquestradas para beneficiar determinados grupos políticos que pretendiam continuar assaltando os cofres públicos, se utilizando de expedientes no sub-mundo da política.

Responder

José Luiz Rossi Passos

23 de maio de 2012 às 15h09

Não consegui enviar meu comentário para o Edu Guimarães,acho que está com “problemas” no seu Blog.
Vcs viram a rasgação de seda prá cima do Tomás?Esqueceram o Cachoeira e ficaram jogando confete e serpentina para seu advogado,que sorria sutilmente a cada elogio.Que coisa,sô!!!Tem que partir prá cima desses caras,em vez de ficar elogiando advogado de bandido,regiamente pago com dinheiro subtraído do povo brasileiro,que já deveria estar farto destas hipocrisias.

Responder

    ricardo

    23 de maio de 2012 às 21h56

    Não se esqueça que esse advogado de bandido também presta seus serviços para gente de bem, como aquela turma encabeçada pelo Zé guerreiro do povo brasileiro.

    Willian

    23 de maio de 2012 às 23h08

    Marcio Tomas Bstos é ex-ministro da Justiça do Lula, artífice da tese que o mensalão não passou de caixa-dois. Gente boa, né?


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