VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Raquel Rolnik: Governar é inaugurar obras?


03/09/2012 - 11h54

por Raquel Rolnik, no seu blog

Outro dia, viajando de carro de Brasília até São Paulo, fui observando as propagandas eleitorais das cidades por onde passei. Me chamou a atenção o fato de que a maioria dos outdoors e cartazes, assim como os spots de rádio e TV, referiam-se a obras inauguradas pelo candidato.

Isso tem tudo a ver com a lógica de que prefeito bom é aquele que inaugura obras, de preferência bem visíveis. Lembrei até de um prefeito de uma grande cidade do Centro Oeste que colocava uma plaquinha em cada uma das obras, numerando-as. Uma praça era 387, um ponto de ônibus era 421, e assim por diante. Infelizmente, essa lógica deixa de lado um dos maiores desafios de qualquer cidade que é a gestão e a manutenção de seus espaços e equipamentos.

O que mais existe por aí é obra que é inaugurada e depois abandonada porque o município não tem política permanente de gestão. A lógica predominante, inclusive da própria estrutura de financiamento do desenvolvimento urbano no Brasil, é a dos programas que oferecem recursos para executar as obras, mas o investimento permanente necessário à qualificação das cidades está longe de ser equacionado.

Como a lógica é a da visibilidade da obra e do momento sublime de sua inauguração, o tema da gestão fica relegado… mesmo porque até as próximas eleições, outra obra será inaugurada! Por trás desta relação “obra-eleição” está também a lógica da crescente importância da contribuição financeira das empreiteiras para campanhas eleitorais.

Obras novas geram novos recursos de campanha num modelo de financiamento eleitoral, prevalente hoje no Brasil, em que os candidatos dependem mais e mais dessas contribuições privadas para poder se eleger em pleitos cada vez mais competitivos e midiáticos.

A questão da gestão e manutenção cotidiana dos espaços e equipamentos de uma cidade é importantíssima. É como na nossa própria casa: se paramos de investir, um dia a torneira quebra, no outro, o ralo entope, e assim, rapidamente, a casa se degrada.

Manutenção não é só fazer faxina, é, também, sempre renovar. De novo, conhecemos isso da experiência de nossas casas: reformar é absolutamente necessário para manter a casa sempre em dia com as necessidades de quem nela mora. Mas como a lógica eleitoral é a da fitinha da inauguração da obra, esse assunto não aparece no debate. O que importa é mostrar quem cortou a fita e inaugurou a obra, e quem estava no palanque, participando daquele evento.

Além do mais, diante dos milhares de problemas que uma cidade enfrenta, nem sempre executar uma obra é necessário ou prioritário. Muitas vezes obras desnecessárias são realizadas apenas porque “aparecem”, ou seja, mostram que o prefeito está “fazendo o serviço”. Essa lógica primária cria “o prefeito que trouxe o hospital”, “o prefeito da escola”… Quando vamos superar essa lógica e enfrentar os desafios da gestão urbana no Brasil?

Raquel é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Veja também:

André Singer: Neoliberalismo no Brasil é retardatário

Vladimir Safatle: O conservadorismo filho bastardo do lulismo

Requião: A privataria petista

Saul Leblon: O sarau entre Clinton, Blair e FHC

Paulo Ghiraldelli Jr.: A antessala do arrocho salarial





15 comentários

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Nabil Bonduki: Falta de visão gera contradições nas cidades e exclusão - Viomundo - O que você não vê na mídia

15 de maio de 2013 às 22h44

[…] Raquel Rolnik: Governar é inaugurar obras? […]

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Zé Dirceu: Haddad já empata com Serra e se elegerá prefeito « Viomundo – O que você não vê na mídia

06 de setembro de 2012 às 19h51

[…] Raquel Rolnik: Governar é inaugurar obras? […]

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Altamiro Borges: Incêndio em favelas de SP, acidente ou crime? « Viomundo – O que você não vê na mídia

05 de setembro de 2012 às 09h22

[…] Raquel Rolnik: Governar é inaugurar obras? […]

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Bruno de Pierro

03 de setembro de 2012 às 19h04

Em fevereiro, entrevistei a urbanista Ermínia Maricato para o Blog do Luis Nassif. Falamos sobre o capital imobiliário em SP, e a questão agrária na cidade. Recomendo a leitura:

http://brunodepierro.blogspot.com.br/2012/09/incendios-desocupacoes-e-o-hegemonico.html

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NessaRJ

03 de setembro de 2012 às 15h49

Genocídio em SP.
De segunda-feira p/ cá, já somam 4 incêndios nas favelas de SP. De janeiro até hoje, já somam 31 incêndios. Com a palavra, srª Raquel Rolnik.

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    Conceição Lemes

    03 de setembro de 2012 às 15h55

    Por que a professora Raquel Rolnik, Nessa? Vc está achando que ela é ligada à Prefeitura? Se sim, te esclareço que não. abs

    NessaRJ

    03 de setembro de 2012 às 16h05

    Ela denunciou na ONU a desapropriação que vem acontecendo nas residencias dos mais necessitados, segundo ela, p/ obras p/ a copa e a olimpíada do RJ. Gostaria de saber, ela denunciou esses incêndios também?

    FrancoAtirador

    03 de setembro de 2012 às 18h21

    .
    .
    Com a palavra o Kassab, o Serra, o Alckmin, o Afif, a Soninha…
    .
    .

baader

03 de setembro de 2012 às 14h45

o outro lado da questão, debitário da mesma lógica, é que os equipamentos públicos não são apropriados pelas comunidades/bairros e continuam como fazendo parte dessa ou daquela administração, continuam dependendo unicamente dos poderes públicos instituídos/constituídos para que sejam mantidos, renovados, conservados. falta-nos o senso comunitário (quem combate tanta alienação sabe quão difícil é mudar tal lógica…)

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Narr

03 de setembro de 2012 às 13h50

Finalmente, o gênio de Paulo S. Maluf é reconhecido! O engenheiro paulista foi o faraó pioneiro das grandes obras urbanas que tanta alegria trazem aos empreiteiros e a tantos eleitores. De Maluf para o Brasil, o modelo de gestão de reproduziu e se multiplicou com belas cores entre o azul e o vermelho. Entre construir pequenas unidades médicas ou o grande hospital Zigurate, já se sabe qual vai ser escolhido pelo governante. Entre a escolinha de bairro e a grande estrada persa, os sátrapas já decidiram. E tome financiamento de campanha, e tome inauguração em época eleitoral e tome sorrisos e mais sorrisos.

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Rodrigo Leme

03 de setembro de 2012 às 13h33

Estive em Cascavel (PR) mês passado, e conversei com o taxista sobre eleições na cidade, quem era forte e quem não era, etc. Lá pelas tantas, perguntei o que ele achava do prefeito, a resposta foi “ah, ele é bom, fez muita praça aqui na cidade”.

Infelizmente, o referencial de muita gente é o que está na cara delas, e nisso obras são imbatíveis.

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    Elton

    03 de setembro de 2012 às 15h15

    Inclusive muito se diz sobre a insatisfação de taxistas em São Paulo quando algum passageiro se atreve a falar mal de Paulo Maluf e suas obras viárias.

Eduardo Guimarães

03 de setembro de 2012 às 13h24

Perfeito. A propaganda eleitoral de TODOS os candidatos de TODO o Brasil alimenta essa lógica burra entre a população, por isso as coisas não melhoram nas terríveis cidades brasileiras,absolutamente incompatíveis com o estágio de desenvolvimento econômico, científico, cultural e tecnológico do país. O social é o grande fosso do Brasil e a qualidade das urbes tem tudo que ver com o problema. A cidade injusta, excludente, sem infra-estrutura, sem serviços públicos de mínima qualidade ajuda a aprofundar as desigualdades, a infernizar e a torturar o munícipe, que, em última análise, é o que todos somos. A falta de entendimento do povo brasileiro sobre o que é a administração pública está na raiz de todos os nossos problemas. E vejam que não é nem uma questão de nível educacional. Há gente formada, com diplomas, dinheiro e tudo o que ele pode comprar que não entende nada sobre a organização social e política e o funcionamento da administração pública, bem como as atribuições de cada nível de governo, as responsabilidades de cada gestor e de cada instância. O Brasil, pelo nível intelectual do povo que tem – o que inclui as elites sociais, econômicas, intelectuais e financeiras -, é um país verdadeiramente desolador.

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sergio m pinto

03 de setembro de 2012 às 13h18

Vamos deixar de ter obras eleitoreiras quando o PIG deixar de estar atrelado a determinados partidos e se tornar, de fato, independente ou isento.

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