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Diário da Resistência


Política

Polícia provocou massacre que desencadeou deposição de Lugo


16/09/2012 - 18h18

do Opera Mundi

Os responsáveis pelo massacre de Curuguaty, que desencadeou o processo de destituição do presidente Fernando Lugo, são policiais, de acordo com uma investigação independente paraguaia. A tragédia, que deixou 11 sem-terras e 7 policiais mortos na zona rural paraguaia, aconteceu durante o desalojamento de sem terras que ocupavam uma propriedade de 2 mil hectares.

O relatório preliminar da massacre de Curuguaty divulgado nesta terça-feira (11/09), contradiz as conclusões das autoridades paraguaias ao apontar que a responsabilidade pela tragédia não é dos camponeses.

A partir de entrevistas com testemunhas, familiares e vítimas, o grupo concluiu que os trabalhadores sem-terra foram cercados pela polícia em duas frentes e que muitos foram executados. Segundo sua investigação autônoma, o dirigente sem-terra Avelino Espínola foi atingido pelo primeiro disparo.

A investigação do governo paraguaio, que está nas mãos da Seção de Homicídios do Departamento de Investigação de Delitos, aponta exatamente o contrário. Para Gilberto Freitas, oficial responsável pelo caso, os camponeses organizaram uma emboscada aos policiais e começaram a atirar entre 10 a 15 metros de proximidade contra o efetivo de 400 oficiais.

“A missão constatou que 54 pessoas foram acusadas arbitrariamente por sete delitos penais (homicídio doloso, tentativa de homicídio, grave lesão, associação criminal, coação grave, coação e invasão) já que se carece de indícios minimamente suficientes”, diz o relatório se referindo aos camponeses presos pela matança.

De acordo com as informações recolhidas, a Justiça paraguaia chegou a prender pessoas que nem mesmo estavam presentes no local no dia 15 de junho, momento do massacre. O grupo acredita que os promotores e investigadores responsáveis pelo caso se basearam em uma antiga lista de famílias assentadas em Curuguaty para fazer as acusações.

Além disso, a comissão afirma que as autoridades paraguaias não reconheceram todos os mortos. “É notório que um número significativo de feridos e cadáveres foi reconhecido pela população e não pelas instituições responsáveis”, afirma.

Violação dos direitos humanos

A investigação ainda revelou que as autoridades paraguaias violaram os direitos humanos dos sem-terra antes e depois do massacre. “Os depoimentos das vítimas do grupo camponês denunciaram presença policial diária com ameaças de desalojamento”, afirma o documento.

“Numerosos depoimentos coincidem que houve execuções, perseguições, ameaças de morte, torturas físicas e psicológicas e desatenção médica aos campesinos durante o operativo, imediatamente depois e nos dias seguintes do 15 de junho”, acrescenta. O texto relata diversos casos de detentos que possuem ferimentos decorrentes do massacre, mas que o acesso ao hospital lhes foi negado por juízes.

Os integrantes da Missão Internacional se instalaram em Curuguaty entre os dias 5 e 9 de setembro, onde montaram um centro de levantamento e processamento de dados. Baseados nestes dias de trabalho, a comissão elaborou um relatório preliminar, mas pretende escrever um relatório completo no final do ano para entregar às Nações Unidas e à OEA (Organização de Estados Americanos). O grupo é constituído por diversos movimentos sociais e campesinos paraguaios e internacionais e organizações de direitos humanos.

Massacre

Em Curuguaty, uma localidade rural no nordeste do Paraguai, forças policiais tentaram desalojar um grupo de camponeses sem-terra que ocupavam uma propriedade de 2 mil hectares, apropriada irregularmente por um empresário e político da ditadura, Blas Riquelme. A polícia interviu e se iniciou um batalha que acabou com 17 mortos (11 camponeses e 6 policiais) e mais de 20 feridos.

Foi a mais grave tragédia desde o fim da ditadura no Paraguai, que tocou um dos temas mais sensíveis no país: a alta concentração das terras e a grande pobreza no campo. No Paraguai, 80% de terras férteis estão nas mãos de 2% da população, concentrando-se no agronegócio de alta produtividade, que gerou um crescimento econômico de 14,5% em 2010, mas ao custo de uma taxa de 39% da população vivendo abaixo dos níveis de pobreza e 19% em situação de pobreza extrema, segundo dados do censo nacional.

A reforma agrária, para acabar com essa dívida antiga com os setores mais humildes camponeses do Paraguai, foi uma das principais promessas eleitorais de Fernando Lugo.

O massacre de Curuguaty foi explorado pelos líderes do Partido Colorado para vender a ideia de que Lugo foi o principal responsável pela morte de 11 camponeses e seis polícias. “Hoje temos um país sem lei, e o presidente Lugo é o principal responsável”, disse Lilian Samaniego, presidente do Partido Colorado, ao anunciar na noite de segunda-feira (18/06) que seu partido havia decidido pedir o impeachment do chefe de Estado no Parlamento.

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10 comentários

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geniberto paiva campos

17 de setembro de 2012 às 21h22

Grande novidade! Todos cidadãos democratas da América Latina têm a clara certeza sobre quem urdiu e executou o golpe no Paraguai, que deasalojou (o uso do termo é proposital) do poder um presidente eleito democraticamente. O mesmo script de Honduras, a hora e a vez do presidente Zelaya.
Trata-se da nova ameaça à nascente democracia latino americana: golpes de estado suaves nos métodos e impiedosos nos seus objetivos, liquidar pela força, travestida de legalidade, pois sabem ser impossível através do voto, governos populares e democráticos que ousam fazer inclusão social, distribuir renda e garantir direitos de cidadania.
Causa espanto a aparente falta de percepção sobre o andamento do golpe que está sendo perpetrado no processo democrático brasileiro. Parece que o insidioso método hondurenho/paraguaio torna-se imperceptível a todos nós, crédulas almas latinas.

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paulo roberto

17 de setembro de 2012 às 12h42

Melhor seria dizer que os golpistas criaram as condições para o golpe.

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Rodrigo Leme

17 de setembro de 2012 às 08h47

Investigação independente anônima? Xiiiiiiiiii…sinto cheiro de Chavez.

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    Luiz Moreira

    17 de setembro de 2012 às 21h37

    É facil responder esta tua colocação e ver como está seu leme, heroi dos latifundiarios paraguaios. Nem sei se não estava lá um assessor da CIA, como no brasil tinha em MINAS o especialista em torturas, que depois os TUPAMAROS executaram.Deviam esra ter tirado o escalpo daquele gringo canalha. Aqui no Brasil, se tu não sabe, os latifundiarios do MARANHAO jogavam dos aviões, comida envenenada para os indios. Depois querem ir para o CEU. Deviam era ser castrados antes de matar.

Julio Silveira

17 de setembro de 2012 às 08h45

Me lembra o assassinato dos agricultores no Pará.
Elite Paraguaia, tão longe e tão perto da elite Brasileira.

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Sérgio Vianna

16 de setembro de 2012 às 23h00

Ao saber da notícia no dia das mortes no que ficou conhecido como “massacre de Curuguaty”, comentei com minha namorada que o evento tinha a cara e o modo de operação da polícia. Policia que assim foi treinada em toda América do Sul pelos americanos que instalaram as ditaduras no continente na década de 60.

E os fatos que se sucederam nos dias subsequentes – culminando com a deposição do presidente – me deram a certeza de que tudo foi planejado e arquitetado para o objetivo pretendido: – não permitir a continuidade de um governo popular.

O relatório independente agora publicado vem confirmar a avaliação política que deve ter sido realizada por todos os governos do Mercosul ao tomar as atitudes fortes de suspensão do Paraguai. Posições que irritaram nossa mídia submissa que aprovaram o golpe – ainda que timidamente – e somente publicaram críticas aos governos, usando como fator de argumentação que o golpe era do lado de cá, apenas para incluir a Venezuela no Mercosul.

Mais uma vez, nossa mídia é revelada ao mundo como agrupamento político, que se abstém de investigar ou de publicar corretamente os fatos.

A bem da verdade, a mídia nativa pode discordar das posições políticas adotadas pelos governos populares da América do Sul, direito inalienável. O que não deveria fazer é publicar versões e ignorar os fatos. Nossa mídia publica versões como fatos incontestáveis, e ignora os fatos atribuindo a eles o conteúdo de versões governamentais. É de lascar!

O golpe no Paraguai está desvendado, mas Lugo será impedido até de se candidatar a Senador. Veremos em breve, escrevam aí e confiram no futuro.

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FrancoAtirador

16 de setembro de 2012 às 22h22

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E OS GOLPISTAS AINDA TÊM A OUSADIA DE EXIGIR INDENIZAÇÃO DO MERCOSUL
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Paraguai apresenta protesto formal
contra suspensão do Mercosul
e incorporação da Venezuela

Por Renata Giraldi, repórter da Agência Brasil

Brasília – O governo do Paraguai apresentou hoje (15) um protesto formal aos governos do Brasil, da Argentina e do Uruguai por ter sido suspenso, há cerca de três meses, do Mercosul e pela incorporação da Venezuela ao bloco.
O protesto foi determinado pelo presidente paraguaio, Federico Franco, e anunciado neste sábado pelo ministro das Relações Exteriores, José Féliz Estigarribia Fernández.
Em comunicado, o governo diz que vai exigir o pagamento de indenizações pelos danos causados em decorrência das medidas adotadas no Mercosul.

“A República do Paraguai destaca o protesto para exigir seus direitos de reparação de injustiças infligidas na sua moral, que são uma afronta à dignidade da República, como Estado e como membro da comunidade internacional, e exige uma indenização dos danos que decorreram, incluindo os econômicos, de acordo com os princípios da responsabilidade internacional dos Estados”, diz o texto do governo paraguaio.

O comunicado, porém, não esclarece como serão cobrados esses danos nem cita valores materiais.
Na nota, o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai reclama de “abusos” cometidos contra o país e avisa que vai recorrer a “outros caminhos para a resolução da controvérsia”. Também não informa quais são essas instâncias.

No protesto, os paraguaios chamam a suspensão de “injusta e ilegal” e pedem para participar das deliberações do Mercosul.
O protesto foi encaminhado às embaixadas do Brasil, da Argentina e do Uruguai em Assunção.
O texto completo do governo paraguaio pode ser lido no site do Ministério das Relações Exteriores do país (http://www.mre.gov.py/v1/Noticias/174-presentacin-de-protesta-dirigida-a-los-gobiernos-de-argentina-brasil-y-uruguay.aspx).

Em 29 de junho, os presidentes Dilma Rousseff, Cristina Kirchner (Argentina) e José Pepe Mujica (Uruguai) aprovaram a suspensão, até abril de 2013 – quando há eleições presidenciais –, do Paraguai do Mercosul. A medida foi tomada por que os presidentes discordaram da forma como Fernando Lugo foi destituído do poder, em 22 de junho.

Para Dilma, Cristina e Mujica, a ordem democrática foi rompida no Paraguai, uma vez que Lugo foi submetido ao processo de impeachment em menos de 24 horas.
Um mês depois, o Mercosul formalizou o ingresso da Venezuela no bloco.
A decisão contrariou o Paraguai, que até então não havia aprovado a incorporação do país ao bloco e nem participou das últimas negociações.

Edição: Graça Adjuto

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-09-15/paraguai-apresenta-protesto-formal-contra-suspensao-do-mercosul-e-incorporacao-da-venezuela

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    Jotace

    17 de setembro de 2012 às 17h02

    Caro Franco,

    Pelo visto, os golpistas paraguaios passaram da escalada de ameaças que incluiram até a instalação de bases militares estrangeiras, à agressão mais direta ao Brasil. Contam para isso não só com o costumeiro comportamento ‘tímido’do nosso governo – que tem transformado o território brasileiro em velhacouto dourado de ex-presidentes assassinos e arrombadores dos cofres públicos – mas também com a estreita colaboração dos kátios, já conhecidos calabares. E, mais ainda, com a fundamental assistência do Ministério das Colônias como hoje está sendo conhecida a OEA. Aquela organização através da sua Comissão de Direitos Humanos jamais que atuou contra os golpistas sanguinários na América Latina e Caribe. De Pinochet a Uribe, como aos demais ditadores que praguejaram a região, e empobreceram seus povos, nenhum sofreu dela qualquer punição merecida. Por isso, e até considerando a atuação do Secretário Insulza no desenvolvimento do caso paraguaio, não há que esperar tenha o devido acolhimento por aquele organismo o resultado da apuração do morticínio dos sem terra em Curuguaty conduzida por organizações independentes e que aponta ter sido a polícia, a serviço dos grandes proprietários de terras, a autora das mortes. Por todas as razões mencionadas não é de estranhar se a Comissão de Direitos Humanos da OEA dê ganho de causa aos fascistas paraguaios e vendepátrias brasileiros, na insólita pretensão de punirem até com indenização monetária países, Brasil inclusive, que cumprindo os estatutos da Unasul, suspenderam o Paraguai do Mercosul. Até porque, e muito recentemente, depois de inumeráveis denúncias por parte do governo venezuelano dos desmandos da Comissão dos Direitos Humanos da OEA, a Corte da mesma Comissão emitiu uma de suas sentenças mais iníquas: condenou a Venezuela ao pagamento de uma indenização monetária no caso de Raúl Dias Peña, prófugo da Justiça daquele país onde cumpria pena e condenado por comprovadamente ter executado atentados terroristas em embaixadas estrangeiras com o uso de explosivos. A decisão foi de tamanha perversidade que provocou o pedido oficial da Venezuela de se retirar daquele organismo. Também não é de se acreditar que o Brasil através do Itamaraty que pervaga os nauseabundos caminhos da submissão, tome qualquer providência decente que caiba no caso. O mais crível é que reconheça o governo do ditador em abril, como ‘compensando-o’ pela atitude que tomou o nosso país ao lado da Argentina e do Uruguai. Nosso patriota Chanceler chega até a considerar como válidas as afirmações ‘moderadas’ do ditador Franco e seu Chanceler Estigarríbia. Tal qual um novo vidente, antecipa que tudo se normalizará no Paraguai, conforme afirmou numa entrevista concedida ao PIG (Estadão) justo agora, dia 15 de setembro. A opinião do nosso representante coincide assim com a do Secretário da OEA, Sr. Insulza, que já antecipou estar o Paraguai vivenciando um pleno regime democrático…Será que iremos ver o nosso patriota Chanceler tirar também os seus sapatos? Jotace

    FrancoAtirador

    17 de setembro de 2012 às 21h45

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    Caro JotaCe.

    Está cada vez mais caracterizada a política externa do Governo Obama/Clinton para a América do Sul: desestruturar os blocos político-econômicos nacionalistas locais.
    Como se viu no caso do Paraguai, agora os ataques vêm pela via jurídico-institucional com ações coordenadas entre a embaixada dos EUA no país-alvo e incursões midiáticas radicais conservadoras da pior espécie.
    Brasil e Argentina estão na mira.
    Neste caso, o Brasil está mais vulnerável, pois em 7 de dezembro deste ano passa a vigorar a Ley de Medios na Argentina, que implementará a regulação da mídia e, dentre outras medidas, extinguirá a propriedade cruzada dos meios de comunicação.
    Nesta investida contra os países sul-americanos não-alinhados o objetivo dos EUA é claro: a desestruturação do MERCOSUL e, portanto, da UNASUL, eliminando os blocos coesos de resistência ao imperialismo.
    Isso tornará mais fácil, inclusive, derrubar Hugo Chavez do poder na Venezuela.
    A obsessão norte-americana de impor, a qualquer custo, a própria cultura do individualismo privatista, em nome de uma suposta democracia, continua a causar desagregação em todo o Planeta.
    O Brasil que não se descuide. Depois do Paraguai, poderá ser o próximo.

    Um abraço camarada e libertário.
    .
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hc

16 de setembro de 2012 às 19h26

Vai uma base americana no Paraguai, ai gente!!!!!!

O Brasil aproveitou o golpe e emplacou a Venezuela, que é e será um grande parceiro comercial.

Vamos fechar a fronteira com o Paraguai e deixar o EUA mandar dinheiro para o pobre povo daquele Pais. É a cara da politica internacional americana apoiar estes golpes, porque uma base no cone sul, é só para intimidar e apoiar golpes, por aqui.

Como aqui tem pouco muçulmano vai dizer que os evangélicos são fanáticos. Apesar do povo aqui ser pouco cuidado, ele já entendeu como votar e como proceder diante de golpes, a exceção de uma minoria gritante paulista que acredita que é outro Pais, e braço direito do EUA no continente.

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