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Diário da Resistência


Política

Paulo Nogueira Batista: O caminho da Europa é o FMI


15/12/2011 - 23h16

por Paulo Nogueira Batista Jr., em O Globo , via Projeto Nacional

Escrevo, leitor, sem ter conseguido digerir todos os aspectos da mais recente cúpula europeia. O assunto é extraordinariamente complexo, como se sabe.

Não há dúvida de que a dimensão da crise na área do euro está forçando as lideranças europeias a tomar decisões duras. Resta saber, entretanto, se elas serão suficientes.

Preocupa a possibilidade de que esteja faltando foco às iniciativas europeias. Não estaria havendo ênfase excessiva na dimensão fiscal da crise? Prevalece a visão alemã de que a raiz da crise está na falta de disciplina fiscal no Sul da Europa. A palavra de ordem passou as ser: regras fiscais mais rígidas, com sanções quase automáticas e cessão de soberania fiscal. Grande parte das decisões ontem anunciadas consiste de medidas nessa área. Consolidação fiscal e reformas estruturais constituiriam a chave para superar a crise.

Duvidoso. Não parece claro que a irresponsabilidade fiscal tenha sido a principal causa da crise atual na área do euro. Essa tese só é claramente verdadeira no caso da Grécia, que antes de 2008 teve déficits públicos muitos elevados. Na maioria dos países vulneráveis, o aumento do déficit e da dívida do setor público foi, em boa medida, efeito e não causa da crise financeira iniciada em 2007-2008.

A fragilização das finanças públicas na área do euro, desde 2008, reflete três fatores principais, cuja importância relativa varia de país para país: a) os efeitos da recessão sobre as contas públicas; b) as medidas de estímulo fiscal; e c) o custo do socorro às instituições financeiras.

Em outras palavras, a crise financeira metamorfoseou-se em crise fiscal. Sistemas financeiros superdimensionados, operando com grande liberdade, sem estar submetidos a adequada regulação e supervisão, são causas tão ou mais importantes da crise do que a falta de rigor fiscal no Sul da Europa.

A livre circulação de capitais, intermediados por sistemas financeiros inchados, gerou um ciclo de forte expansão do crédito na periferia europeia. O crédito externo estimulou um boom especulativo, financiou elevados déficits em conta corrente e mascarou os problemas de competitividade.

E, no entanto, essa dimensão da crise não parece atrair suficiente atenção. Pede-se com frequência reformas estruturais – dos mercados de trabalho e dos mercados de produtos – mas raramente se menciona a necessidade de reformas estruturais do sistema financeiro – o setor da economia que parece estar na origem da crise atual. As reformas financeiras propostas desde 2008-2009, embora insuficientes, enfrentam a resistência feroz dos poderosos lobbies financeiros (a turma da bufunfa não brinca em serviço).

Seja como for, reformas – financeiras, fiscais, trabalhistas – não apagam incêndio. E aqui surge outra dúvida cruel: onde está o Banco Central Europeu? Nas duas semanas que antecederam a cúpula europeia, os mercados estavam embalados pela perspectiva de que o BCE entraria maciçamente nos mercados de títulos secundários – se houvesse aceitação pelos outros europeus das regras fiscais teutônicas.

Na quinta-feira, logo antes da reunião dos líderes europeus, o presidente do BCE, Mario Draghi, jogou água na fervura. Perguntado se o BCE responderia com aumentos expressivos das suas compras de títulos públicos em resposta a um acordo fiscal entre os líderes europeus, Draghi respondeu “não”. Diante da insistência da imprensa, acrescentou: “Eu desejo tudo o de melhor aos nossos líderes, e o BCE está aqui. Isso não significa que o BCE responderá, aliás.”

Em matéria de dinheiro novo, a grande novidade da cúpula foi o anúncio, ainda sem detalhes, de que os membros da área do euro e outros países da União Europeia irão considerar, e confirmar dentro de pouco mais de uma semana, contribuições adicionais ao FMI no montante de até 200 bilhões de euros (US$270 bilhões). Os líderes europeus declararam também que esperam “contribuições paralelas da comunidade internacional”.

A discussão se desloca agora para o FMI.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e diretor-executivo representando o Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI). O economista expressou opiniões pessoais, que não devem ser atribuídas ao FMI ou aos países que representa na diretoria da instituição.

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14 comentários

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FrancoAtirador

17 de dezembro de 2011 às 13h25

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Polengo

17 de dezembro de 2011 às 10h20

Meu, que susto
Eu bati o olho rápido e acabei lendo "O caminho da Europa é o FIM"…

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    Marat

    17 de dezembro de 2011 às 16h35

    Com Sarkozy, Cameron, Merkel et caterva, é o fim mesmo…

Marat

16 de dezembro de 2011 às 23h12

Aproveitem e avisem a esse povo atrasado que aqui só aceitaremos, no mínimo, pós-graduados, para trabalhar. Nada de vagabundagem – rsrsrs

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Pedro

16 de dezembro de 2011 às 21h13

Vê-se que é economista!

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EUNAOSABIA

16 de dezembro de 2011 às 15h22

""A livre circulação de capitais, intermediados por sistemas financeiros inchados, gerou um ciclo de forte expansão do crédito na periferia europeia. O crédito externo estimulou um boom especulativo, financiou elevados déficits em conta corrente e mascarou os problemas de competitividade."""

Nogueira, essas suas palavras refletem exatamente o que está acontecendo com o Brasil… suas palavras, todas elas, refletem a situação brasileira.

A livre circulação de capitais, expansão do crédito (bolha);
crédito externo (via mercado financeiro, maior taxa de juros so mundo, cada unidade de moeda estrangeira que entra cria uma gigantesca base monetária);
boom especulativo (faz tempo que noto que o Brasil já está naquele ponto que Keynes chamava de "ciclo de estoques);
elevados déficits em conta corrente (gravíssimo a meu ver, nossa saldo negativo em conta corrente é o maior desde 1947 quando começou a ser contado);
mascarou os problemas de competitividade (a câmbio desvalorizado estão destruindo a indústria nacional).

Não é a toa que economista espanhol já disse que o Brasil é a Grécia 2.0.

A propósito, o Le Mond de hoje faz este alerta, a situação brasileira não é tão boa quanto parece.

PS1 do ENS: Sintam-se a votade para sanar suas dúvidas a respeito do tema com o grande eunãosabia.

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Sagarana

16 de dezembro de 2011 às 15h18

Quando o FMI vinha trazer o dinheiro que ninguém mais queria nos emprestar a turba saia urrando: "FORA FMI!". Agora que a Europa está quebrada a diretora gerente vem pedir dinheiro e é recebida com pompa e circunstância pelos nativos. Vai entender…

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    CLÁUDIO LUIZ PESSUTI

    17 de dezembro de 2011 às 10h54

    Positivo e digo:concordo com você neste aspecto.

augusto

16 de dezembro de 2011 às 13h32

Os internautas tem razao ao que tudo indica.
Fiscal é a progenitora dos bancos!
Engraçado ou trágico é que nao aparece um lider, um fiodedeus, um sem rabopreso DENTRO do sistema politico que diga que o rei tá nu. (teve o mario soares, mas ele como lider nao mais conta)
E ke esse monarca pelado é sistema do cassino financeiro internacional.

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Alan Patrick

16 de dezembro de 2011 às 13h27

Por que os Estados dos países desenvolvidos estão tão endividados? o endividamento apresentado pelos Estados, antes da crise financeira iniciada em 2008, foi por acaso consequência do excesso de gastos do governo, para atender demandas populares como dizem os neoliberais, ou o endividamento foi fruto de um processo que o Estado ao longo do tempo em cúmplicidade com o mercado financeiro, favoreceu a acumulação de capital no sistema financeiro em detrimento do social?
Estive recentemente debatendo com um ideólogo do neoliberalismo, no site www.visaopanoramica.net, e ele assim como os demais economistas neoliberais dizem que a principal causa da crise foi a violação do primeiro princípio do Consenso de Washington que, prega a "responsabilidade" fiscal, ou seja, o endividamento na ótica dos neoliberais foi decorrente de medidas "populista" e Keynesianas tomadas pelos governos ao longo do tempo.

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Francisco

16 de dezembro de 2011 às 07h40

Tanto a crise não é fiscal que ninguém tinha reparado (ou se preocupado) com as dividas dos países até duas duzias de especuladores criarem o caos em proveito próprio.

Nem a UE nem os EEUU ainda se deram conta de que essa presepada toda pode até restabelecer algum equilíbrio durante um ano ou dois, mas nada impede (porque nada foi feito nesse sentido) os especuladores de acordarem "injuriados" e quebrarem o mundo de novo e de novo e de novo!

Ou os europeus de repente ficaram burros ou tem alguém levando grana nessa história. Encher o baú sem tampar o furo não vai resolver.

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    CLÁUDIO LUIZ PESSUTI

    16 de dezembro de 2011 às 10h09

    Concordo com sua postagem Francisco.E inteiramente com o artigo do Paulo Nogueira.Simplesmente esqueçar a crise de 2008, agora tudo é uma questão "fiscal".Aliás, outro dia postei exatamente a mesma coisa em outro espaço aqui.Me encheram de negativos…

    Sagarana

    16 de dezembro de 2011 às 15h19

    O sujeito afirma que a crise não é fiscal e depois afirma que é preciso tapar o furo antes de encher o baú. Vai entender…

    CLÁUDIO LUIZ PESSUTI

    17 de dezembro de 2011 às 10h53

    Negativo e explico o porquê, ao contrário dos "patotinhas":ele se refere aos desvarios do mercado financeiro, que levaram a crise de 2008, ao endividamento dos estados, e ao discurso da "crise fiscal", manipulada pelo próprio mercado.Se você não entende, é porque não concorda com a análise , o que é um direito seu.Mas o texto é claro e lógico.


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