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Mino Carta: Globo vomita no prato em que comeu


06/09/2013 - 13h56

A ingratidão da Globo

por Mino Carta, em CartaCapital

Ingratidão da Globo me espanta, ela vomita no prato em que comeu, com o perdão pelo uso do verbo, de eficácia indiscutível, no entanto. Aludo ao editorial com que o mais autorizado porta-voz das Organizações, O Globo, brindou seus leitores dia 1º de setembro. Diz-se ali que apoiar o golpe de 64 foi erro nascido de um equívoco. Veio a ditadura, como sabemos, provocada pelos gendarmes chamados pelos donos do poder civil, entre os quais figurava, com todos os méritos, Roberto Marinho, e os anos de chumbo de alguns foram de ouro para a Globo.

A empresa do doutor Roberto cresceu extraordinariamente graças aos favores proporcionados pelos ditadores, gozou de regalias incontáveis, floresceu até os limites do monopólio. O apoio de 64 prosseguiu impavidamente por 21 anos, enquanto o Terror de Estado imperava. Grassavam tortura e censura, repetiam-se os expurgos dentro do Congresso mantido como estertor democrático de pura fancaria. Só o MDB do doutor Ulysses Guimarães redimiu o pecado original ao reunir debaixo da sua bandeira todos os opositores do regime. Para desgosto da Globo.

Sim, O Globo apoiou o golpe, juntamente com os demais jornalões como o editorial não deixa de acentuar, e também apoiou os desmandos do regime, a começar pelo golpe dentro do golpe que resultou no Ato Institucional nº 5. E prisões e perseguições, e até as ditaduras argentina, chilena e uruguaia.

Em contrapartida, combateu Brizola governador, e de modo geral, os demais governos de estado conquistados pela oposição em conjunturas diversas, bem como o movimento sindical surgido sob o impulso de um certo Luiz Inácio, presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, responsável pelas greves de 78, 79 e 80, finalmente preso e enquadrado na famigerada Lei de Segurança Nacional.

Derradeiro lance global, a condenação inapelável do movimento das Diretas Já, quando a Globo foi alvo da ira popular e um veículo da empresa foi incendiado na Avenida Paulista no dia 25 de janeiro de 84, ao término de uma manifestação que reuniu na Praça da Sé 500 mil pessoas. Rejubilou-se, contudo, o doutor Roberto, com a rejeição da emenda das Diretas, obra magistral da Arena de José Sarney, e com a formação da Aliança Nacional, nome de fantasia da enésima, inesgotável conciliação das elites.

Não se diga que a Globo deixou de ser coerente com seus ideais. Decisiva na eleição de Fernando Collor em 89, com a manipulação do debate de encerramento com Lula, comandada pelo doutor Roberto em pessoa. Nosso colega, como sustentavam seus assalariados, não hesitou em promover a festa carnavalesca contra o presidente corrupto, desmascarado somente pela IstoÉ ao descobrir a testemunha inesperada e fatal, o motorista Eriberto. Antes disso, o governo Sarney contara com o apoio irrestrito da Globo, sempre beneficiada por Antonio Carlos Magalhães, ministro da Comunicações, na mesma medida em que o fora por outro amigo insubstituível, Armando Falcão, ministro da Justiça do ditador Ernesto Geisel.

O governo Fernando Henrique quebrou o País três vezes, mas nunca lhe faltou o aplauso global oito anos a fio, tanto mais na hora do singular episódio intitulado “Privataria Tucana” e da compra dos votos para garantir a reeleição do príncipe dos sociólogos, sem falar do “mensalão” também tucano.

Houve até o momento em que, tomado de entusiasmo, o doutor Roberto acreditou cegamente na sua colunista Miriam Leitão, segundo quem, eleito pela segunda vez, FHC garantiria a estabilidade da moeda até o último alento. Doze dias depois de reempossado, o príncipe desvalorizou o real e cobriu a Globo de dívidas. Havia, contudo, um BNDES à disposição para tapar o buraco.

FHC deixou saudades, a justificar o apoio compacto aos candidatos tucanos nas eleições de 2002, 2006 e 2010. E a adesão à maciça campanha midiática que, como em 1964, coloca jornalões e quejandos de um lado só, então a favor do golpe, nos últimos dez anos contra um governo tido como de esquerda, atualmente a carregar a herança de Lula.

Vale observar, aliás, que mesmo no instante do pretenso arrependimento, O Globo de domingo passado desfralda os mesmos argumentos de 50 anos atrás. Donde a evocação da “divisão ideológica do mundo” à sombra álgida da Guerra Fria, aprofundada no Brasil “pela radicalização de João Goulart”. Enfim, renova-se o aviso fatídico: a marcha da subversão estava às portas. Eu a espero em vão até hoje.

Sim, o doutor Roberto acreditou ter agido acertadamente até sua morte e sempre chamou o golpe de revolução. Explicaria em um dos seus retumbantes editoriais da primeira página, no 20º aniversário daquele que seus pupilos agora definem como “equívoco”, que “sem povo não haveria revolução”. E quem seria o povo daquela quadra criminosa? As marchas dos titulares da casa-grande e dos seus aspirantes, secundados pelos fâmulos momentaneamente retirados da senzala.

Sim, é verdade que muitos jornalistas de esquerda tiveram abrigo na redação de O Globo, e alguns deles foram e são amigos meus, mas não me consta que o doutor Roberto se tenha posicionado “com firmeza contra a perseguição” de profissionais de quaisquer outras redações. Vezos nativos. O Estadão chegou a hospedar colunistas portugueses, inimigos do regime salazarista. Tinham eles a virtude de escrever em castiço os editoriais ditados pelo doutor Julinho. Este gênero de situações reflete a pastosidade emoliente da realidade do País, onde o dono da casa-grande pode permitir-se tudo o que bem entender.

De todo modo, não é somente deste ponto de vista que a Globo foi deletéria. Ensaios foram escritos no exterior para provar como a influência global foi daninha, inclusive com telenovelas vulgarizadoras de uma visão burguesota, movida a consumismo e cultura da aparência, visceralmente apolítica, anódina e inodora.

Como tevê, e como jornal, a Globo já foi bem melhor. Ocorrem-me programas de excelente qualidade, conduzidos por humoristas como Chico Anysio e Jô Soares, capazes às vezes de ousar o desafio sutil à ditadura. Mas a queda foi brutal, como se deu em relação ao jornal à época da direção de Evandro Carlos de Andrade.Lamentáveis as opiniões, em compensação, boa, frequentemente, a informação.

O texto do editorial carece, é óbvio, da grandeza que a situação recomendaria, pelo contrário é de mediocridade e superficialidade doridas, não somente na lida difícil com o vernáculo, mas também pela demonstração, linha a linha, palavra a palavra, e, mais ainda, no desenrolar do raciocínio central, da sua insinceridade orgânica. Surge, de resto, da covardia diante das manifestações anti-Globo e, como de hábito, aferra-se à hipocrisia típica dos senhores da casa-grande, velhacos até a medula.

Esta é a gente que gosta de brigar na proporção de cem contra um, se possível mil, sem mudar o número de quantos ousam confrontá-los.

Incrível, embora natural, inescapável, nesta pasta víscida e maligna que compõe a verdade factual do país da casa-grande e da senzala, a falta de um debate em torno da peculiar confissão global, como acentua Claudio Bernabucci na sua coluna desta edição. Que dizem os jornalões acusados de conivência pelo O Globo? Que dizem as lideranças partidárias? E o Congresso? Nem se fale das figuras governistas e parlamentares que até agora enxergam na Globo um sustentáculo indispensável.

Silêncio geral, entre atônito e perplexo.

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15 comentários

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henrique de oliveira

09 de setembro de 2013 às 11h32

Para mim basta mostrar o DARF. Cadê?

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jbonifacio

07 de setembro de 2013 às 17h42

O golpe militar no brasil teve três pais: A CIA, muitos setores militares e muitos outros civis, que neste caso se inclui as organizações globo. Não há como renunciar esta “paternidade”. Faz parte da natureza da globo, ser reacionária e conservadora.

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J.Carlos

06 de setembro de 2013 às 21h18

Tijolaço revela: um atirador treinado está acampado em frente ao palanque que será ocupado por Dilma amanhã:

http://tijolaco.com.br/index.php/o-acampamento-montado-por-um-atirador-treinado-diante-do-palanque-de-dilma/

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FrancoAtirador

06 de setembro de 2013 às 20h58

.
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“…a marcha da subversão estava às portas.
Eu a espero em vão até hoje…”

Grande Mino Carta!
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Responder

bento

06 de setembro de 2013 às 20h19

O Brasil só aceitaria o capitalismo selvagem na veia se sofresse uma lavagem cerebral…daí os gringos ao darem um golpe militar…tinham que ter seu braço direito operando…a rede goebbels…e o seu acordo time-life…etc…etc…etc…

No momento o “famoso pig” tenta jogar o Brasil contra tudo e contra todos…o pig é o ante-Brasil…

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denis dias ferreira

06 de setembro de 2013 às 20h15

A Globo não cuspiu no prato que comeu. Ela fez algo pior: depois de encher a pança e saciar o seu apetite voraz, defecou no prato em que lhe foram servidas as cabeças dos que foram torturados e assassinados pelo golpe militar. A Globo deve ser colocada no banco dos réus e ser julgada pela consciência histórica da nação.

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Mário SF Alves

06 de setembro de 2013 às 19h21

Prato que comeu (interrogação gigantesca). Comeu ou come ainda (outra interrogação igualmente gigantesca). Pode ter mudado a forma de comer; pode ter mudado os modos à mesa, mas… afinal, quem comeu e anda comendo o STF (mais interrogações).
__________________________________
Noutros termos. Alguém aí ainda tem a ilusão de acreditar que o regramento mudou. Pois não tem sido exatamente isso o que temos visto no julgamento do mensalão tudo [só] contra o PT. E também não foi exatamente isso o que declarou o ex-ministro do Exército, Leônidas Pires, quando disse que a democracia que aí está é exatamente a democracia que eles, os golpistas de 64, queriam. Tutelada e relativa. “Democracia é que nem laranja, tem diversas qualidades, disse o general presidente à época do mencionado ex-ministro. O mesmo que preferia cheiro de cavalo a cheiro de povo. O mesmo do o “prendo e arrebento”. O mesmo do “só uma revolução à francesa muda este País”.

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oziel f. albuquerque

06 de setembro de 2013 às 19h04

Acreditar na globo é acreditar em FHC,os dois são farinha do mesmo saco.

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Lindivaldo

06 de setembro de 2013 às 18h33

Ainda sobre o incentivo do Caetano ao uso de máscaras nos protestos de 7 de Setembro:

É importante que, neste momento, cada jovem brasileiro faça uma reflexão sobre o papel que ele quer desempenhar na História do Brasil!
Pois, antes de seguir a primeira passeata, empunhar qualquer bandeira, levantar uma faixa; usar uma máscara; ou compartilhar, no “face”, uma crítica, um convite; questione, questione e questione…

Veja, até mesmo, se aquela bandeira verde-amarela, real, ampla, na qual seu companheiro se embrulha patrioticamente, ao marchar pelas ruas, não está ocultando, lá no fundo falso do seu peito, uma outra, mais importante, talvez subjetiva, ou, quem sabe, vinda do além-mar.

No campo virtual, duvide e questione cada informação, cada mensagem; verbal ou não; sua origem, edição; e qual o propósito subliminar, ou expresso, de sua disseminação!

Pois, do contrário, você poderá está, sem saber, absolvendo um culpado, prendendo um inocente, retirando o leite de uma criança faminta, aumentando o índice de analfabetismo, ou, até mesmo, suprimindo seu próprio emprego!

Afinal, estamos todos sob a influência de um dos maiores oligopólios das comunicações do mundo; são apenas seis famílias, unidas na luta pela reconquista do controle do Estado, que nos despejam, por suas redes de esgotos, diuturnamente, seus dejetos, ou versões, como verdades absolutas, em editoriais, manchetes e notícias.

Às vezes, quem o incita a gritar pela ética é a aquela mesma que impunemente suga e conspira contra o Estado, distorce os fatos, cria empresa de fachada para a prática de crimes fiscais, sonega milhões de reais de impostos, corrompe os agentes públicos, e silencia sobre as roubalheiras de seus correligionários.

E, neste caso, qualquer semelhança com as Organizações Globo é pura realidade!

Responder

Lindivaldo

06 de setembro de 2013 às 18h18

Comentário ao incentivo de Caetano ao uso de máscara em sete de Setembro:

Mais uma vez, abre-se o caminho para o golpe!

Escolhe-se desta vez a data 7 de Setembro numa referência simbólica aos grandes desfiles militares da época da ditadura militar em que só se falava no “amor à pátria”, mas que a gente nunca sabia se eles se referiam à do Brasil ou à dos EUA!

Hoje, numa instigação unânime, a mídia da ultra-direita, estampa em seus panfletos que a operação “Sete de Setembro” vai ser o maior protesto da história do Brasil.

Em frenesi, gritam, em total apoio, que o grupo Anonymous convocou protestos em 149 cidades brasileiras, mediante 5 milhões de convites, tendo já 398.000 confirmações.

Por seu lado, o grupo Revoltados On Line, mais direto, prega abertamente a intervenção militar já.

E, agora, vem essa ajudazinha do afilhado de ACM, o Caetano Veloso! Que vergonha!

Porém, caros jovens, não se deixem ser manipulados.

Muito cuidado, não há nada de novo, tudo é cíclico, quando se fala numa direita historicamente golpista e aliada aos interesses internacionais!

Atualizam-se apenas os nomes dos atores e a estratégia adotada.

Lembrem-se de que, conforme dados de documentos vazados pelo Edward Snowden, o Brasil e a Turquia serão os próximos alvos dos EUA, em virtude dos espaços que vêm ocupando.

No entanto, a Turquia já era! Os protestos, vindo de fora, tais como os que vêm sendo estimulados no Brasil, corroeram suas expectativas!

E, agora, caro jovens, vocês vão deixar que aconteça mesma coisa com o Brasil?

Responder

alvaro

06 de setembro de 2013 às 17h19

A Globo sempre foi golpista desde o seu nascedouro e até hoje. No ano retrasado apoio o golpe em Honduras, no ano passado apoiou o golpe no Paraguai e esse ano apoiou o golpe militar no Egito. É só ler os editoriais e os textos dos principais colunista na época destes três episódios. Está no DNA da empresa.

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Bacellar

06 de setembro de 2013 às 16h58

MC acerta como de costume…somente uma pena o fato da seçao de comentários da Carta estar absolutamente infestada de trolls de direita, acho incrível como os veículos progressistas permitem essa tática rasteira em seus “foruns”

Responder

Regina Braga

06 de setembro de 2013 às 15h46

A grobo vomita, pra depois, poder comer mais…Rede esgoto só vive do cinismo.

Responder

    Clodoaldo Massardi

    07 de setembro de 2013 às 13h54

    As organizações globo que, sempre esteve ao lado da direita. hoje se diz defensora da liberdade de expressão e opinião. a globo na minha opinião,e uma das piores coisas que, ha comunicação brasileira principalmente seu canal aberto com uma programação de péssima qualidade e que, infelizmente é oque o povão assiste sem nenhum questionamento ou uma analise mais profunda daquilo que,lhe é noticiado. basta lembrar oque disse Ricardo Texeira que, só iria se importar com as denuncias contra ele quando essas denuncias fossem veiculadas no jornal nacional.

Luiz Aldo

06 de setembro de 2013 às 15h39

Uma coisa que precisa ser dita: MUITO OBRIGADO, AZENHA: faz tempo que tu manténs as “Declarações de Princípios” (sic) da platinada na primeira página do Viomundo! O gigante piscou, né?!

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