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Cynara Menezes: O julgamento do mensalão mudou o País?


23/10/2012 - 19h09

por Cynara Menezes, em CartaCapital

Em agosto deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello concedeu liminar suspendendo o júri popular que finalmente faria Justiça ao “caso Nicole”. O empresário Pablo Russel Rocha é acusado de, em 1998, ter arrastado com sua caminhonete, até a morte, a garota de programa Selma Artigas da Silva, então com 22 anos, em Ribeirão Preto. A jovem era conhecida como Nicole.

Grávida, Nicole teve uma discussão com Pablo. A acusação diz que ele a prendeu ao cinto de segurança e a arrastou pela rua. Pablo, que responde pelo crime em liberdade, diz “não ter percebido” que a moça estava presa ao cinto e nem ter ouvido os gritos da moça porque “o som da Pajero estava muito alto”. O corpo de Nicole foi encontrado, totalmente desfigurado, do outro lado da cidade. Com a suspensão, a família de Selma/Nicole vai esperar não se sabe quantos anos mais pelo julgamento do acusado.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Celso de Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de formação de quadrilha. Já os havia condenado por corrupção ativa. “Eu nunca vi algo tão claro”, disse ele, sobre a culpabilidade dos réus.

Em novembro de 2011, o ministro do STF Marco Aurélio Mello concedeu habeas corpus ao empresário Alfeu Crozado Mozaquatro, de São José do Rio Preto (SP), acusado de liderar a “máfia do boi”, mega-esquema de sonegação fiscal no setor de frigoríficos desvendado pela Polícia Federal. De acordo com a Receita Federal, o esquema foi responsável pela sonegação de mais de 1 bilhão e meio de reais em impostos. Relator do processo, Marco Aurélio alegou haver “excesso” de imputações aos réus.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Marco Aurélio Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de “formação de quadrilha”. Já os havia condenado por “corrupção ativa”. O esquema do chamado “mensalão” envolveria a quantia de 150 milhões de reais. “Houve a formação de uma quadrilha das mais complexas.  Os integrantes estariam a lembrar a máfia italiana”, disse Marco Aurélio.

Em julho de 2008, o ministro do STF Gilmar Mendes concedeu dois habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, sua irmã Verônica e mais nove pessoas presas na operação Satiagraha da PF, entre elas o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (que morreu em 2009). A Satiagraha investigava justamente desdobramentos do chamado mensalão, mas, para Mendes, a prisão era “desnecessária”.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), o grupo de Dantas teria cometido o crime de evasão de divisas, por meio do Opportunity Fund, uma offshore nas ilhas Cayman que movimentou entre 1992 e 2004 quase 2 bilhões de reais. O grupo também era acusado de formação de quadrilha e gestão fraudulenta.

Na segunda-feira 22 de outubro o mesmo ministro Gilmar Mendes que livrou o banqueiro Daniel Dantas da cadeia enviou para a prisão a banqueira Kátia Rabello, presidente do banco Rural, por formação de quadrilha. Já a havia condenado por gestão fraudulenta, evasão e lavagem de dinheiro. “Sem dúvida, entrelaçaram-se interesses. Houve a formação de uma engrenagem ilícita que atendeu a todos”, disse Gilmar.

O final do julgamento do mensalão multiplica por 25 – o número de condenados – a responsabilidade futura do STF. É inegavelmente salutar que, pela primeira vez na história do País, um grupo de políticos e banqueiros tenha sido condenado por corrupção. Mas, a partir de agora, os olhos da Nação estarão voltados para cada um dos ministros do Supremo para exigir idêntico rigor, para que a Justiça se multiplique e de fato valha para todos.

Estamos fartos da impunidade, sim. E também estamos fartos dos habeas corpus e liminares concedidos por alguns ministros em decisão monocrática, em geral nos finais de semana ou em férias, quando o plenário não pode ser reunido. Não se pode esquecer que o Supremo que agora condena os petistas pelo “mensalão” é o mesmo Supremo que tomou decisões progressistas importantes, como a liberação do aborto de anencéfalos e da união civil homossexual e a aprovação das cotas para afro-descendentes nas universidades. Estas foram, porém, decisões do colegiado. Separadamente, saltam aos olhos decisões injustas como as que expus acima.

Se há, como defendem alguns ministros, uma evolução no pensamento do STF como um todo, que isto também se reflita nas posições tomadas individualmente por seus membros. Não se pode, diante das câmeras de tevê, anunciar com toda a pompa a condenação e a prisão de poderosos e, à sorrelfa, na calada da noite, soltar outros. Cada vez que um poderoso for libertado por um habeas corpus inexplicável, ou que uma liminar sem pé nem cabeça for concedida por um ministro do Supremo para adiar o julgamento de gente rica, estará demonstrado que o mensalão não foi um divisor de águas coisa nenhuma.

Daqui para a frente, os ministros do Supremo Tribunal Federal têm, mais do que nunca, a obrigação de serem fiéis a si próprios e ao que demarcaram neste julgamento. Nós, cidadãos, estaremos atentos às contradições. Elas serão denunciadas, ainda que ignoradas pela grande mídia.

A Justiça pode ser cega. Mas nós, brasileiros, temos milhões de olhos. E estaremos vigiando.

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28 comentários

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Marcos Coimbra: Analistas da “grande imprensa” devem ficar ainda mais atordoados « Viomundo – O que você não vê na mídia

24 de outubro de 2012 às 18h22

[…] Cynara Menezes: O julgamento do mensalão mudou o País? […]

Responder

Messias Franca de Macedo

24 de outubro de 2012 às 02h15

O MAIS RECENTE ‘DOMÍNIO DO FATO’: ‘O CHEF’ MERVAL PEREIRA “COMEÇA A COLOCAR NA FRIGIDEIRA, COMEÇA A DESCARTAR, COMEÇA A APLICAR ‘A DOSIMETRIA’ NO MINISTRO RELATOR JOAQUIM BARBOSA!” ENTENDA

[Ou será um novo Merval “soprado pelos ventos do fim definitivo (sic) da impunidade no Brasil?!…”]

CENA I- [Merval Pereira faz um breve relato do script(!) do ‘julgamento do século’(!)] “O início da sessão de hoje do STF foi muito conturbada. Em observância ao recato que deve caracterizar uma Sala do Júri de uma Corte – e levando em consideração que o julgamento está sendo televisionado -, as discussões, as divergências entre os magistrados deveriam ser mais bem combinadas na *base, ‘in off’!…”
*“Por acauso”, existiria ‘base de apoio’ no “supremoTF”?! Olha de novo aí, gente, o tal ‘domínio do fato’! – adendo nosso!

CENA II – [Merval Pereira questiona o saber jurídico do ministro relator Joaquim Barbosa – e manifesta profunda preocupação] “… [Na sessão de hoje do STF] O ministro relator Joaquim Barbosa cometeu dois erros crassos! Primeiro, aplicou multas aos réus condenados por formação de quadrilha! Um absurdo! Não existe multa relacionada a este tipo de delito; segundo, aplicou penas fundamentadas na Lei atual, tendo os delitos acontecidos à época da legislação anterior, cujas punições eram mais brandas!… O relator do processo do mensalão recorreu à Lei atual, mais rigorosa, quando não é possível aplicar! E isto não é bom! No afã de estabelecer condenações grandes, ele pode incorrer em outros erros graves!… Em algumas situações, o José Dirceu deveria ser julgado pela Lei antiga!…”

CENA III – [Merval Pereira “sapeca” uma reprimenda no ‘onisciente’ (sic) ministro do STF, Joaquim Barbosa! E, por tabela, infla o próprio ego ao demonstrar “notório saber jurídico” (idem sic)…] “… O ministro relator errou feio! Cometeu erros crassos! Vai ter que refazer o dever de casa!… [Juro, a frase foi, literalmente, esta!]”

EPÍLOGO(!?) – [Merval Pereira, ‘O Mestre’, ensina a Joaquim Barbosa técnicas de leitura dinâmica!] “O ministro relator Joaquim Barbosa precisa ser mais cuidadoso nas suas leituras! Joaquim Barbosa está muito açodado, dando votos que não poderia ter dado!…”

EM TEMPO: cada um que faça o seu juízo de valor!…
Reproduzindo um enunciado proferido pelo professor de Direito Penal da USP [perdão, esqueci o nome do jurista!]: “Em se tratando deste julgamento específico [ação penal 470], tudo é possível de acontecer!” Ou seja, tudo pode ou não ser ‘plausível’! Tudo pode ou não ser ‘crível’!…

NOTA: durma com um barulho deste, e diga que sonhou ouvindo a voz maviosa de Leila Pinheiro!

RESCALDO: AS RUAS, BECOS E AVENIDAS ESPERAM – E CLAMAM -, ANSIOSAS E PREOCUPADAS, POR VOZES! OU NÃO?!…

Respeitosas saudações democráticas, progressistas, nacionalistas, civilizatórias e antigolpistas,

Messias Franca de Macedo
Feira de Santana, Bahia
República de ‘Nois’ Bananas

Responder

Messias Franca de Macedo

24 de outubro de 2012 às 01h02

‘A DOSIMETRIA DAS PENAS’ DOS RÉUS DO MENSALÃO MINEIRO PASSARÁ A INTEGRAR… UM CAPÍTULO A MAIS DO BEST-SELLER ‘A PRIVATARIA TUCANA’?! QUE NADA! PASSARÁ A INTEGRAR ‘O livro Guinness World Records.’ ENTENDA

O professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas afirmou, abre aspas para que ‘a âncora da saia justa’ possa “ouvir” novamente: “… Pesquisas científicas realizadas nos Estados Unidos comprovaram que a maioria dos juízes define ‘a dosimetria da pena’ a partir de elementos aleatórios!… [Sem passar a ideia de ‘colonizado’ e já passando! A pesquisa aplicada entre juízes dos Estados Unidos! Imagine, leitor(a), os critérios usados pelos “supremos” nesta republiqueta de bananas sob a égide de uma subdemocracia!…] Realmente, é de arrepiar as tripas [as tripas: os intestinos, no dialeto ‘bananês’ (RISOS)]…
Adiante um professor de Direito Penal da USP discorreu sobre os limites das faixas condenatórias, afirmando que “a maioria dos ministros do STF estão partindo de penas altas, muito provavelmente no sentido de evitar a prescrição dos processos…” Seguiu-se o comentário extasiado – quase orgástico (sic) – da ‘saia justa’, abre aspas – e um sorriso(!): “Com base neste critério, o José Dirceu pode ser condenado até a 102 (cento e dois!) anos de prisão!… [Viva!: o Ali Kamel!]”
RESCALDO: bom, partindo deste pressuposto, os réus dos outros mensalões do PSDB, do DEMo, do [nefasto e famigerado] consórcio PSDB/DEMo, da compra de votos para a re-eleição do presidente FHC [“do time do (S)erra, do Marconi ‘Perrigo’, do Paulo Preto…”]… Partindo deste pressuposto – e considerando que o nascedouro do ‘Valerioduto’, leia-se MENSALÃO do PSDB/DEMo mineiro, começou anos antes do mensalão do PT… Para que os inclementes e isentos(!) “supremos do supremoTF” não corram o risco de deixar prescrever ‘estes crimes deste e dos séculos pregressos’ (idem sic), ‘a dosimetria da pena’ a ser aplicada aos réus envolvidos tenderá a ser grafada com quatro dígitos… Quatro! Quatro de quadrilha!… ‘Dosimetria das penas’!… ‘Penas’ lembram… Tucanos – e outras aves de rapina!…

NOTA FÚNEBRE: quem estiver vivo em 23 de outubro de 3025(!) e/ou de 3045(!) assistirá a essa festa cívico-revolucionária ‘bananiense’!…

Que país é esse, sô?! República de ‘Nois’ Bananas [e Babacas], responde, “na lata”, o matuto ‘bananiense’!

Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo

Responder

Ódio hediondo também é crime hediondo « Ficha Corrida

23 de outubro de 2012 às 22h37

[…] Cynara Menezes: O julgamento do mensalão mudou o País? […]

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Genoino: “O que fiz pelo PT foi legítimo e necessário” « Viomundo – O que você não vê na mídia

23 de outubro de 2012 às 22h31

[…] Cynara Menezes: O julgamento do mensalão mudou o País? […]

Responder

Mário Alves: O Jornal Nacional, em êxtase com as condenações do mensalão « Viomundo – O que você não vê na mídia

23 de outubro de 2012 às 22h30

[…] Cynara Menezes: O julgamento do mensalão mudou o País? […]

Responder

francisco pereira neto

23 de outubro de 2012 às 22h22

É isso aí.
E vamos ficar com conversinhas molengas pra cima dessa cambada.
Pau neles!!!

Responder

Bonifa

23 de outubro de 2012 às 22h12

Se já é terrível que o Supremo tenha ficado, por conta da corte que lhe tem feito a mídia, exposto ao mais vulgar falatório de botequim, daqueles que não deixam pedra sobre pedra, mais terrível ainda é o inventário de atos completamente injustificados de alguns de seus membros, que nestes tempos de lavagem de roupa suja foi dado a conhecer até ao mais humilde dos cidadãos. Basta citar dois ou três dos ítens deste inventário para calar a boca de qualquer moralista que elogie o Supremo pelo julgamento do Mensalão.

Responder

O JUIZ

23 de outubro de 2012 às 22h09

A matéria ecoa por todo o Brasil.
Todos desejamos que isso pudesse ser possível.
Mas cara Cynara, vivemos no Braisl. Aqui, o Ministro Barbosa julga por presunção, e não por provas. Ele mudou todo rito processual para condenar o PT, a pedido da grande mídia. O Ministro Mello, deu demonstrações de despreso ao povo Brasileiro, se referindo ao número do Partido dos Trabalhadores, o 13, de forma pejorativa, como se estivesse condenando todo um partido a pedido da elite Brasileira. Como brasileiro de cara limpa, não acredito mais que essa Côrte tenha moral para julgar quem quer que seja. Os motivos estão bem expostos na matéria acima. Entendo que todos os condenados, devem recorrer às Instâncias Internacionais para garantirem sua liberdade, pois aqui, ela foi negada por um processo encomendado e um linchamento midiático. O STF não vai mudar.
Não tem coragem para julgar os tucanos.
Não tem peito para enfrentar a elite golpista deste País.
O SFT pode fechar as portas, pois sua serventia findou.
Lamentamos que, nessa Côrte alguns poucos Ministros fizeram seu real papel de julgar, e aí se diferenciaram dos obcessivos seguidores do Relator.
Às urnas Brasil. Precisamos dar a resposta ao STF.

Responder

    Mário SF Alves

    23 de outubro de 2012 às 22h51

    Comentário claro, franco e imprescindível. Parabéns, cidadão.

Urbano

23 de outubro de 2012 às 22h08

Mudar não mudou não, mas nos deixou um benefício enorme. Hoje sabemos perfeitamente e sem a menor sombra de dúvidas, excluindo-se obviamente a exígua exceção (nunca vi tantos xis juntos), o quanto vale realmente a salvação de tarados e fraudadores. Só pra se ter uma ideia, escaterina perde longe…

Responder

Caca Oliveira

23 de outubro de 2012 às 21h59

Eu já postei um comentário sobre seu texto lá no CA, mas fico empolgada para comentar de novo (coisa de menino quando vê doce muito bom, sabe!).

NÓ, ÊTA TREM DANADO DE BÃO, SÔ!

Espero que “alguns” conterrâneos leiam também…
E aí, a gente vai reproduzir e distribuir na rodoviária, para que o povo tenha acesso a informação de verdade?

Responder

trombeta

23 de outubro de 2012 às 21h57

Leiam abaixo o relato do jurista Saulo Ramos, ex-ministro da Justiça, responsável pela nomeação de Celso Mello para o STF no governo José Sarney. Saulo revela que Mello votou depois contra Sarney, que o nomeara, por medo da Folha de S. Paulo. Mello alegou a Saulo que votou contra Sarney porque o ex-presidente da República já tinha votos suficientes, mas que se precisasse, votaria a favor.

“Terminado seu mandato na Presidência da República, Sarney resolveu candidatar-se a Senador. O PMDB — Partido do Movimento Democrático Brasileiro — negou-lhe a legenda no Maranhão. Candidatou-se pelo Amapá. Houve impugnações fundadas em questão de domicílio, e o caso acabou no Supremo Tribunal Federal.

Naquele momento, não sei por que, a Suprema Corte estava em meio recesso, e o Ministro Celso de Mello, meu ex-secretário na Consultoria Geral da República, me telefonou:

— O processo do Presidente será distribuído amanhã. Em Brasília, somente estão por aqui dois ministros: o Marco Aurélio de Mello e eu. Tenho receio de que caia com ele, primo do Presidente Collor. Não sei como vai considerar a questão.

— O Presidente tem muita fé em Deus. Tudo vai sair bem, mesmo porque a tese jurídica da defesa do Sarney está absolutamente correta.

Celso de Mello concordou plenamente com a observação, acrescentando ser indiscutível a matéria de fato, isto é, a transferência do domicílio eleitoral no prazo da lei.

O advogado de Sarney era o Dr. José Guilherme Vilela, ótimo profissional. Fez excelente trabalho e demonstrou a simplicidade da questão: Sarney havia transferido seu domicílio eleitoral no prazo da lei. Simples. O que há para discutir? É público e notório que ele é do Maranhão! Ora, também era público e notório que ele morava em Brasília, onde exercera o cargo de Senador e, nos últimos cinco anos, o de Presidente da República. Desde a faculdade de Direito, a gente aprende que não se pode confundir o domicílio civil com o domicílio eleitoral. E a Constituição de 88, ainda grande desconhecida (como até hoje), não estabelecia nenhum prazo para mudança de domicílio.

O sistema de sorteio do Supremo fez o processo cair com o Ministro Marco Aurélio, que, no mesmo dia, concedeu medida liminar, mantendo a candidatura de Sarney pelo Amapá.

Veio o dia do julgamento do mérito pelo plenário. Sarney ganhou, mas o último a votar foi o Ministro Celso de Mello, que votou pela cassação da candidatura do Sarney.

Deus do céu! O que deu no garoto? Estava preocupado com a distribuição do processo para a apreciação da liminar, afirmando que a concederia em favor da tese de Sarney, e, agora, no mérito, vota contra e fica vencido no plenário. O que aconteceu? Não teve sequer a gentileza, ou habilidade, de dar-se por impedido. Votou contra o Presidente que o nomeara, depois de ter demonstrado grande preocupação com a hipótese de Marco Aurélio ser o relator.

Apressou-se ele próprio a me telefonar, explicando:

— Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no caso do Presidente.

— Claro! O que deu em você?

— É que a Folha de S. Paulo, na véspera da votação, noticiou a afirmação de que o Presidente Sarney tinha os votos certos dos ministros que enumerou e citou meu nome como um deles. Quando chegou minha vez de votar, o Presidente já estava vitorioso pelo número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei contra para desmentir a Folha de S. Paulo. Mas fique tranqüilo. Se meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do Presidente.

Não acreditei no que estava ouvindo. Recusei-me a engolir e perguntei:

— Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você votou contra o Sarney porque a Folha de S. Paulo noticiou que você votaria a favor?

— Sim.

— E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?

— Exatamente. O senhor entendeu?

— Entendi. Entendi que você é um juiz de merda! Bati o telefone e nunca mais falei com ele.”

(Saulo Ramos, “Código da Vida”, Ed. Planeta, 8ª reimpressão, 2007)

Responder

Messias Franca de Macedo

23 de outubro de 2012 às 21h14

errata em comentário anterior: … Portanto, urge encerrar ‘o julgamento do século’!… (… encerrar… em vez de … ‘encerrará’…)

Respeitosas saudações,

Messias Franca de Macedo
Feira de Santana, Bahia
República de ‘Nois’ Bananas

Responder

    Conceição Lemes

    23 de outubro de 2012 às 21h19

    Messias, nós não mexemos nos comentários dos leitores. Minha sugestão: mande de novo como vc quer que saia e aponte qual comentário é pra ser deletado. abs

    Messias Franca de Macedo

    23 de outubro de 2012 às 21h29

    Prezada e competente jornalista Conceição Lemes, sinceramente, peço desculpas! O açodamento enquanto decorrência da indignação e preocupação, não justifica a minha imprudência!

    … Portanto,ao invés de ler duas ou três vezes os comentários, tentarei (re)ler ‘trocentas’ [RISOS] vezes, para não incorrer nestes erros! E mais: honestamente, ‘trocentas’ [vezes] foi uma sincera tentativa de desanuviar as minhas tensões!

    Aproveito para parabenizá-la pelo excelente trabalho – “e ainda ter de aguentar certos matutos!”, a tarefa tornasse ainda mais exaustiva! [De novo, RISOS do matuto ‘bananiense’!]

    Muito obrigado.

    Felicidades!

    Hasta la Victoria Siempre!

    Respeitosas saudações democráticas, progressistas, nacionalistas, civilizatórias e anti-golpistas,

    Messias Franca de Macedo
    Feira de Santana, Bahia
    República de ‘Nois’ Bananas

Messias Franca de Macedo

23 de outubro de 2012 às 21h05

[Perdão, mais uma vez: o texto revisado! Muito obrigado!]

O julgamento do mensalão mudou o País?
Por Cynara Menezes, em CartaCapital
publicado em 23 de outubro de 2012 às 19:09
texto repercutido em https://www.viomundo.com.br/politica/cynara-menezes-o-julgamento-do-mensalao-mudou-o-brasil.html – ínclito, competente, radicalmente democrata e intrépido jornalista brasileiro Luiz Carlos Azenha

LÁ VEM O PITACO DO MATUTO ‘BANANIENSE’!

… O que a *DIREITONA objetiva é mudar o país: para pior! Ou seja, os incautos golpistas pretendem ‘(re)recolonizar’ o Brasil – primeiro, os portugueses; em seguida, “as nossas” ‘ellites’, defenestradas, democraticamente, pelo primeiro presidente do Brasil egresso das camadas marginalizadas da sociedade usurpada por esta mesma ‘ellite’, estúpida, alienada, aloprada, incompetente, antinacionalista, ‘o cheiro dos cavalos ao do povo’… Golpista de meia-tigela, corrupta, impunemente terrorista, “a ditadura foi um mal necessário”, segundo um dos seus representantes incrustado na Corte “suprema”!…
*DIREITONA, ETERNA OPOSIÇÃO AO BRASIL!

ALVÍSSARAS: na sessão de ontem do STF, alguns “supremos” começaram a advertir que a pauta da Corte está empacada, muitos processos precisam ser votados… Portanto, urge encerrará ‘o julgamento do século’!… [mesmo porque “o que tinha de impactar nas eleições ‘já fez água’!” [RISOS do matuto ‘bananiense’]… Para “os supremos do supremoTF”, a fila dos processos tem que andar contanto que a **AÇÃO PENAL 536 e os outros mensalões, do PSDB, do DEMo, da compra de votos para a re-eleição de FFHH “do time do candidato (S)erra e assemelhados se percam mofados nas primeiras instâncias dos subsolos do obscurantismo(!)…
**AÇÃO PENAL 536, cujo ministro relator é o “supremo” Joaquim Barbosa, trata do MENSALÃO tucanoDEMoníaco das Minas Gerais, ‘estrelado’ pelo, à época, governador do referido estado da federação… MENSALÃO MINEIRO, nascedouro do ‘Valerioduto’!…

ENFIM, AS ALVÍSSARAS: no entanto, as energias cósmicas, que regem o equilíbrio do Universo, sopraram, em tempo hábil, o primeiro teste a desmascarar a beócia bravata golpista de que, a partir das condenações exemplares(!) dos “mensaleiros” [exclusivamente os mensaleiros do PT, revisor!], banqueiros, megaempresários, políticos, pilantras de toga (lembrando a egrégia, competente e impávida doutora Eliana Calmon), jornalistas do PIG [RISOS]… Afinal, todos os meliantes – independentemente do brasão que ostenta e/ou do matiz econômico e social – estariam, de forma isonômica, submetidos ‘ao domínio dos fatos’, condenações inclementes, as massas a tripudiar sobre os algozes da nação, verdugos responsáveis pelo anátema social que nos envergonha e avilta!…

EM TEMPO REAL: vamos acompanhar – atentamente – os próximos capítulos das sessões do ‘Circus Brazilis’!…

É BOM LEMBRAR: desde o início desta patacoada televisionada, nós avisamos – ao “supremoTF” & aos demais interessados – que o casuísmo golpista daria m….!… O cheiro de formol já começou a exalar!…
Portanto, quem (sobre)viver, verá, quer dizer, sentirá!..

Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo – empanturrado de pipoca, ‘doce de leite diet’ e caldo de cana, elevando a audiência da TV (In)Justiça!…
Messias Franca de Macedo

Responder

    Malu Busis

    23 de outubro de 2012 às 21h43

    Messias, posso, de vez em quando, publicar no meu perfil no facebook, alguns dos comentários que você faz aqui no viomundo? Há bastante tempo acompanho seus comentários em varios sítios e, de uma forma geral, eles quase sempre dizem o que eu gostaria de dizer sobre determinado acontecimento e não consigo, ser, suficientemente, clara em meus posicionamentos.

    Messias Franca de Macedo

    23 de outubro de 2012 às 22h06

    Prezada e generosa Malu Busis, muito obrigado pela deferência! Ademais, fico lisonjeado ao saber que você coaduna com muitos dos meus pensamentos! Feliz mesmo!…
    .. O poeta Ferreira Gullar disse certa feita: “o poeta não escreve para se exibir! O poeta escreve para liberar suas angústias!”

    Portanto, Malu, quando quiser, fique à vontade para reproduzir os meus singelos comentários, as minhas, incidentais, humildes considerações!

    Viva a possibilidade da coletivização dos pensamentos! Viva a democracia e a liberdade de expressão!

    Hasta la Victoria Siempre!

    Abraço fraternal!

    Respeitosas saudações democráticas, progressistas, nacionalistas, civilizatórias e antigolpistas,

    Messias Franca de Macedo
    Feira de Santana, Bahia
    República de ‘Nois’ Bananas

    Mário SF Alves

    23 de outubro de 2012 às 21h48

    E só pra complementar, segura mais essa, caro Bananinense, entupido até à goela de jabá com jerimum:
    .
    Na edição de hoje do JN [tudo menos nacional] o PiG apresentou-se entre surtado e em êxtase. Assim, ele, o PiG, nesse estado onírico que beira uma representação apocalíptica, repaginou em letras garrafais todo o julgamento da AP 470, nome técnico do improvado mensalão. Reeditou tudo, fala por fala, falácia por falácia. Quer por que quer prejudicar os candidatos do PT. Tarefa árdua, PiG, tarefa árdua. Mentistes a vida inteira e agora vens exigir credibilidade? Como, PiG, como? A mentira está na sua essência, PiG. Você vive de propaganda enganosa, em quase todos os sentidos, PiG. Pois é… e agora?
    .
    Em tempo:
    .
    A continuar nesse ritmo, fica a dúvida [cruel]: quanto tempo mais ainda vai ser preciso até que o PiG comece a ver “linguagem cifrada” neste “entupido até à goela de jabá com jerimum”?

FrancoAtirador

23 de outubro de 2012 às 20h58

.
.
Depois de ouvir os votos passionais de algumas eminências da Suprema Corte brasileira, que exprimiram muito mais sentimentos pessoais carregados de ódio e rancor, do que propriamente pareceres técnicos jurídicos e constitucionais, só me resta lhes dedicar um poema:

MAL SECRETO
(Raimundo Correia)

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

(Poema dedicado ao ilustre Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro-poeta Carlos Ayres Britto, extensivo aos também ministros do STF Marco Aurélio de Mello, Gilmar Mendes e Celso de Mello)

Responder

    Mário SF Alves

    23 de outubro de 2012 às 21h56

    Bravo, Franco! Bravíssimo!

Cynara: com esses juízes, o que vai mudar ? | Conversa Afiada

23 de outubro de 2012 às 20h39

[…] Cynara Menezes: O julgamento do mensalão mudou o País? […]

Responder

Julio Silveira

23 de outubro de 2012 às 20h36

O que está escrito é realmente meritório mas como a propria articulista demonstra nunca tivemos o que podemos chamar de uma justiça justa. A justiça, o sistema, sempre esteve a serviço das classes mais favorecidas e dos seus agentes formuladores isso é claro como água para todos. Li muitas e muitas vezes, por parte dos chamados defensores da cidadania, tal qual um desabafo, apenas criticas protocolares ao modo que se opera a justiça no Brasil. Conquistado o poder por esses tambem vi a acomodação, como se ao mudar de nivel, em que se alcança a elite faz-se uma reiterpretação do sentido legal, parecendo para os judiciáveis como uma “adequação” aos novos tempos, por terem atingido um ponto em que aquilo não mais lhes atinge. Crentes na fé de haver na sua inclusão e aceitação aos grupos elitistas que sempre governaram e ainda governam o País, mesmo sem uma dita representação a eles diretamente associada. Os cidadãos, os da parte mais baixa do extrato social, esses de fato nunca tiveram força para mudar o sistema. Se tivessem já teria proferido as mudanças necessárias lidas reconhecidas e tecidas em rosários a todo momento como necessárias, mas que só servem de discursos para alavancar a vida de oportunistas. Talvez agora os oportunistas passem a se sensibilizar de fato e isso resulte em coisa boa para a cidadania. Eu, de minha parte, estarei observando, mas ainda creio que se lutará para que as coisas voltem a ser como era antes, quando criminalizar só era bom ou aceitavel enquanto fosse para os três pês.

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Delta Martins

23 de outubro de 2012 às 20h35

Que tal transformar o texto – excelente!- em Carta Aberta ao Supremo,para que possamos assiná-la? Estou certa de que muitos de nós gostaríamos de fazê-lo.

Delta Martins

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francisco pereira neto

23 de outubro de 2012 às 20h21

Cynara Menezes
Essa é a forma cândida, civilizada de contestar um script já desenhado desde 2005.
A teoria do sangramento do Lula, proposta pelo FHC, não funcionou. Lula se reelegeu. Nem adiantaram os acidentes aéreos da Gol com o jato Legacy, o Caos Aéreo da TAM em Congonhas, a história dos aloprados nas vésperas das eleições. E para piorar Lula elegeu o poste Dilma. Essa foi a gota d’água.
Nós não temos mais tempo e nem estômago para aceitar essa esculhambação que virou o STF.
Nós não podemos aceitar o que está na nossa cara. Tudo que voce disse, fazendo comparações de julgamentos de ministro por ministro em casos semelhantes e decisões diferentes é a prova mais do que cabal da parcialidade dessa turma.
Como voce disse: Lula não quis ser republicano? Se deu mal, achando que o país tinha mudado com o apoio maciço da população.
Se o caminho escolhido por Lula foi bem intencionado, nós que o elegemos por duas vezes e fizemos da Dilma a sucessora, quem deve falar alto e grosso somos nós, o povo.
Temos que descer o porrete nessa turma que se acham intocáveis, que se acham impolutos. Estão claramente indo contra a nossa vontade, ao elegermos um presidente que trouxe grandes benefícios para a sua população e o STF não é merecedor da nossa confiança.
Essa história de que nós ficaremos atentos para os próximos passos do STF, não funciona, porque essa turma estão se aposentando. Depois de aposentados nada lhes acontecerão.
Temos que agir já, nesse momento, apontar as suas parcialidades a favor da casta privilegiada.

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ANIZIO RODRIGUES

23 de outubro de 2012 às 19h44

A vigília pode começar já. A PF prendeu o presidente do Banco Cruzeiro do Sul, Indio da Costa.Podemos fazer um bolão pra ver quem acerta qual Min. do STF vai lhe conceder habeas corpus e em quanto tempo…

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    Pedro Ribeiro

    25 de outubro de 2012 às 05h14

    Anizio, vai ser difícil acertar essa hein..!
    Só se for múltipla escolha, tem pelo menos uns 6 alí que é aposta fácil.


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