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Alexandro e Marcelo: Sobre os rumos da política brasileira


05/05/2012 - 12h00

por Alexandro Rodrigues e Marcelo de Matos, em comentários no post do Márcio Pochmann

Alexandro:
Márcio Pochmann é um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros de sua geração. Claro, enfático, prático. Diz o que deve ser dito sem aquela linguagem rebuscada e cafona da intelectualidade tradicional. Tive o prazer de assistir algumas palestras suas enquanto cursava Economia na PUC de Campinas. Ele é amigo do meu orientador na graduação.

O que ele diz, é aquilo que grande parte da tradicional militância de esquerda declara e, por isso, é taxada de fazer o jogo da direita pelos lulistas fundamentalistas. Os ganhos sociais, econômicos e institucionais para o país da Era Lula são indiscutíveis. Mas, na sana tresloucada de se fazer hegemônico, o PT esqueceu de levar consigo aqueles que emergiam a partir das políticas que seu governo implantou.

O resultado disso está por vir. Como diz PHA (a quem eu classifico como um governista fanático), o Brasil que elegeu Lula e Dilma poderá eleger em 2014 (sim, 2014, o jogo não está ganho) ou em 2018 o Piñera tupiniquim (talvez um Eike Batista).

Com a ascensão da classe remediada (esse é o termo correto, por que estamos longe de ser classe média), o PT deveria ter dado condições para que esta população tenha acesso a outros mecanismos de informação para formar sua opinião. Quais instrumentos? Banda larga, uma TV pública de qualidade (não esta porcaria da TV Brasil) e educação básica sólida ensinando aos mais jovens a verdadeira História do Brasil (contando com todos pingos nos “is” a formação de nossa sociedade racista, elitista e corrupta).

Mas havia um projeto de poder e enriquecimento ilítico de alguns líderes petistas no caminho. Eles tinham mais o que fazer… O resultado é um governo altamente aprovado pela população refém de quadrilhas políticas e midiáticas e que não consegue implantar uma agenda transformadora, uma verdadeira revolução cidadã.

O jogo está no começo, quem será o nosso Piñera?

Marcelo responde:

Não sou psicólogo, mas, talvez consiga afastar essa sua fobia de um Piñera na Presidência. Ser Presidente não é um bônus, mas, um ônus. Dúvido que algum empresário bem sucedido queira deixar o mundo dos negócios para ficar no fogo cruzado PT/PSDB. O único que cometeu essa loucura foi Ermírio de Moraes que, em 1986, concorreu nas eleições para governador de São Paulo, mas perdeu para Orestes Quércia. Outros milionários (ou candidatos a) têm recusado cargos públicos. Marcio Thomaz Bastos aceitou ser ministro da Justiça perdendo muito dinheiro. Agora está ganhando mais como advogado do Cachoeira. Pérsio Arida e Daniel Dantas foram convidados por Collor para o Ministério da Fazenda, mas, declinaram o convite, aceito por Zélia Cardoso. Eike jamais aceitaria: ele é candidato a homem mais rico do mundo e não está difícil consegui-lo. Olavo Setúbal, do Banco Itaú, aceitou ser prefeito biônico de Sampa e disse que não queria ser Presidente: só se tivesse a “clear majority” (clara maioria) de que falam os ingleses. Nada desse entrevero PT/PSDB.

Alexandro, de novo

Marcelo, minha citação à Eike Batista é só uma provocação. O quero dizer nas entrelinhas é que um vagabundo qualquer, ala Collor, Serra ou Aécio, que garantir para a massa despolitizada que o seu Iphone ou Ipad novo estará garantido, não titubeará a apoiá-lo numa eventual candidatura!

Aqui cabe uma crítica. Falamos muito de Sarneys, Renans, Malufs. Quem os coloca lá? Ok, a mídia é controlada por estes caras, mas não precisamos de muita coisa para saber que a saúde está ruim, que a educação é uma porcaria e que nossas cidades beiram à uma guerra civil.

Por isso sempre afirmo: o povo do Maranhão merece morrer de fome! O povo de São Paulo merece pegar trem e metrô lotado todas as manhãs! O povo do Rio merece viver sobre o fogo cruzado do crime organizado! Nós merecemos o Congresso Nacional que temos, fomos nós que os colocamos lá!

Marcelo, em outro post:

O que vou dizer não é, de forma alguma, uma provocação à esquerda predominante aqui no Viomundo. Duas notícias deixaram-me perplexo nesta manhã: 1ª) o blog 247 acena com uma possível chapa única em Minas, com Fernando Pimentel (PT) para governador, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), para vice e o governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), para o Senado; 2ª) em Itupeva-SP, o jornal arqui-tucano da cidade anuncia a candidatura de um petista à prefeitura, apoiado por uma coligação de 17 partidos. No romance “O Leopardo”, de Lampedusa, o personagem Tancredi declara: “É preciso que tudo mude para que tudo fique como está”. Quer dizer: seria preciso acabar logo com o regime monárquico e proclamar a república, não como na França, com derramamento de sangue, mas, encenando uma farsa. Assim os nobres unir-se-iam à nascente burguesia siciliana e continuariam no poder, que é o que realmente importa. Bem, esse é o cenário que se anuncia. Cada qual que faça a sua leitura.

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16 comentários

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Fabio Passos

06 de maio de 2012 às 11h18

Há o risco sim.
No fundamento são os interesses do capital que determinam nossa “democracia”.

Precisamos fazer uma Revolução para dar cabo deste regime podre que tanto mal faz ao planeta e a humanidade.

Responder

    Filipe Rodrigues

    06 de maio de 2012 às 13h42

    O PMDB poderia dar sua contribuição para melhorar a política brasileira, o problema é o fato do partido está dividido e os oportunistas terem muita força.
    Depois dos escândalos do Cachoeira, uma provável candidatura presidencial de Sérgio Cabral já era (ainda bem)…

    Requião seria um nome certo para incendiar o cenário político nacional, mas a mudança teria que começar por baixo:
    Em Belo Horizonte, se o PMDB for inteligente deveria lançar o deputado estadual Sávio Souza Cruz no lugar de Leonardo Quintão para prefeito, Sávio é do PMDB autêntico e oposição declarada a Aécio, ao lado de Rogério Correia (PT) formam uma dupla afiada na Assémbleia legislativa estadual.
    Os petistas contrários a aliança com o PSDB através de Márcio Lacerda (PSB) votariam todos em Sávio Souza Cruz que em seu currículo: foi líder dos governos Célio de Castro na prefeitura de BH e Itamar Franco no governo de Minas.

    Fabio Passos

    06 de maio de 2012 às 21h16

    Podemos torcer por Requião ou algum outro esquerdista com gana de promover rupturas assumir a presidência. O inusitado pode acontecer… mas não é bom passar a vida esperando pelo inusuitado. Não parece haver nenhum movimento político preparando uma alternativa de ruptura embora eu acredite que há na sociedade muitos que desejam uma Revolução.

dimitri

06 de maio de 2012 às 09h55

Nosso Pinera será o Eduardo Campos (PSB), mas só em 2018. Até lá fica calmo, Alexandro

Responder

    Marcelo de Matos

    06 de maio de 2012 às 11h40

    Aí eu concordo. É possível e viável porque o PSB está crescendo bastante. Não será um paraquedista qualquer, como Jânio ou Collor, que chegaram a bordo de uma legenda de aluguel, sem respaldo parlamentar. Collor agora está no PTB e se for candidato a algum cargo majoritário terá apoio de um partido grande (não confundir com grande partido). Para viabilizar sua candidatura Eduardo terá de formar uma coligação que lhe garanta bom tempo na TV e otras cositas más.

    Alexandro Rodrigues

    06 de maio de 2012 às 13h17

    Dimitri, bem lembrado! Eduardo Campos. O queridinho do PHA. Você pode ter feito uma lembrança despretenciosa, mas o jogo político do Eduardo Campos para se tornar uma liderança nacional me lembra muito o praticado por José Serra. O cara se alia até ao Kassab se for preciso. Eu não confio no Eduardo Campos, nunca votaria nele. O PSB só é socialista no nome. Até o PT, lambuzado por anos de poder, é mais esquerda que estes socialistas cor-de-rosa. As únicas personalidades que merecem respeito dentro do PSB são a Luiza Erundina e a Lídice da Mata. Isso entre as que estão em evidência. Mas não se engane. Se for preciso o Eduardo Campos escanteia quem for dentro do partido dele para conseguir o poder completo! Repito: não confio nesse cara!

Francisco Nogueira

06 de maio de 2012 às 09h49

É isso aí, pontos de vista corretos. Quero lembrar que a história é feita numa velocidade que a gente numa ou duas gerações não conseguimos perceber. É fácil lembrar de 500 ou 100 anos atrás, isto ocorre em um segundo apenas. A gente pode em algumas linhas falar da Guerra dos 100 anos, por exemplo, relacionando os motivos e os resultados. A mudança é gradual, por isto humanamente, e a vivenciando, ficamos ansiosos que ela ocorra logo. O caminho está sendo andado, alguns passos já foram dados e os outros virão. Claro que temos que olhar para o contexto, pois a grande maioria não querem que eles sejam dados. E esta preocupação está muito bem sendo levantada aqui, servindo de olhos e discutindo a melhor forma de transpô-la.
Quanto a discussão de esquerda e direita não vejo muita contradição, pois o conceito de ambas se baseiam na solidariedade: a primeira com a elite e a segunda com o povo. Ou seja pode-se passar facilmente de lado. Por isto é extremamente necessário politizar os remediados, independentemente de sua escolha final, mas que ela seja feita por eles próprios.

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Alexandro Rodrigues

06 de maio de 2012 às 02h25

Eu queria deixar claro uma coisa. Nos blogs ditos progressistas é quase uma ofensa como xingar a mãe de alguém tecer qualquer crítica, mesmo que branda, ao PT, Lula ou Dilma. Parece até que está se criando uma versão Tea Party vermelho-desbotada no Brasil.

Eu sou fruto da Era Lula. Fiz faculdade na PUC graças ao PROUNI que ele criou. Melhorei de vida e vivo em um país com mais perspectivas graças a semente por ele plantada e que espero que a Dilma continue a arar.

Desde 2002 (a primeira eleição que participei como eleitor) sempre votei no PT. Pra tudo. Isso não me impede de achar que o PT está perdendo sua essência. Ao crescer e se tornar a mais estruturada máquina partidária do país, alguns de seus líderes indiscutivelmente se renderam as beneces do poder. Veja o senador do Rio que defendeu o pastor homofóbico. Veja o PT mineiro de braços dados com os tucanos. Veja o PT paulista, o responsável por manchar o partido de corrupção. Veja Dilma dando um singelo “amasso” no “empresário” mais canastrão que temos no Brasil: Eike Batista. Enxergar estes fatos não me faz “estar jogando o jogo da direita”, como acusam todos aqueles que à esquerda do PT tecem suas críticas.

Política não se faz com fundamentalismo cego. O contraditório é importante para que desvios dolorosos não joguem por água abaixo este esboço de projeto de país que Lula implantou a partir de 2003.

Responder

E. S. Fernandes

05 de maio de 2012 às 20h43

É isso mesmo. Bom Texto.
Daqui a pouco nossa concertación vai para o espaço.
Daqui a pouco, o dono da padaria que compro pão e leite, volta de onde veio, pro dem e psdb. Quem manda a concertación não politizar, educar, criar “barricadas”, acumular forças e construir a contra hegemonia.
Só se o governo estiver mudando agora, como o fez com os bancos.
Só se peitar o PIG
Só se vetar o código do sonho do latifundio.
Só se detonar a cpi da privataria.
Só se peitar as teles.
Quem sabe a concertación não tem concerto!

Responder

FrancoAtirador

05 de maio de 2012 às 17h52

.
.
Uma palhinha do conservadorismo brasileiro
em localidades simpáticas ao agronegócio.
.
.
PESQUISA CNA/IPESP/PSD

CLASSE C
Renda familiar de 2,5 a 9,5 salários mínimos

REGIÕES PESQUISADAS
São Paulo Capital e Região Metropolitana
Rio de Janeiro Capital e Região Metropolitana
Curitiba Capital e Região Metropolitana
Pouso Alegre (MG)
Campo Mourão (PR)
Sinop (MT)
Petrolina (PE)

MEIOS PELOS QUAIS SE MANTÊM INFORMADOS
1º) Televisão: 89%
2º) Jornal: 31%

CRIMES CONTRA A VIDA
60% favoráveis à pena de morte para assassinos (SIC)

CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO
46% favoráveis à pena de morte para assaltantes (SIC)

http://www.canaldoprodutor.com.br/sites/default/files/A_CLASSE_C_BRASILEIRA_21112011_versaoFinal.pdf

Responder

Marcelo de Matos

05 de maio de 2012 às 14h37

Duas coisas que eu quero acrescentar: 1ª) o Alexandro disse que o tal Piñeda no nosso governo não seria necessariamente um empresário, mas, um cidadão qualquer. Já tivemos dois presidentes que chegaram ao poder a bordo de partidos de aluguel: Jânio e Collor. Alguém que emerge assim não tem respaldo parlamentar e acaba como eles acabaram. Política é coisa de políticos, ou seja, de profissionais. Para um empresário chegar ao poder é complicado: quando lançaram a candidatura Sílvio Santos a Globo protestou. Não queria saber de um concorrente na Presidência; 2ª) o cenário de Pimentel (PT) candidato a governador em Minas pode ser o plano A de Aécio. Ele ainda não desistiu de ser candidato a Presidente, embora esteja, no momento, blefando. O plano B seria sua própria candidatura a governador. Segundo dizem, nesse caso ele seria imbatível. Se Aécio for candidato a Presidente, disputando com Dilma, em quem votará a maioria dos mineiros?

Responder

Zilda

05 de maio de 2012 às 13h14

Corrigindo: o compartilhamento que não pode mais ser feito via e-mail.

Responder

Zilda

05 de maio de 2012 às 13h10

Quero protestar pela exclusão do e-mail como meio de fazer comentário. Quem fez essa barbaridade não levou em conta que pessoas “mais vividas”não gostam de mudanças todo dia, não conseguem acompanhar ou não querem esses meios moderníssimos de rede social. Eu, por exemplo, não gosto desse reallity show que é o Facebook. Jamais colocaria uma foto minha ou algo de minha vida no face. Defendo minha privacidade com unhas e dentes e não quero ser amiga de pessoas que não conheço pessoalmente, que não possa olhar nos olhos…Será que os jovens podem respeitar os idosos e suas limitações?

Responder

Willian

05 de maio de 2012 às 12h59

É isto aí, Alexandro, bem fez o pessoal da Bahia que votou no PT e vive praticamente no paraíso. Não há fome, não há trem lotado, não há fogo cruzado entre a bandidagem na Bahia. As críticas que os dois fazem é aquela que a esquerda aceita que sejam feitas, ou seja, uma crítica à esquerda, levando o governo mais para a esquerda. Ai daquele que critique um governo do PT pelo que tem de ruim em administração, saúde, transporte, educação, coisas práticas. Se não for da patota, faz a crítica porque é tucano. Quanto ao Eike e outros milionários do Brasil, fiquem tranquilos, estão ficando cada vez mais ricos durante o governo do PT, pra quê mudar?

Responder

    Alexandro Rodrigues

    06 de maio de 2012 às 02h05

    William, eu acho que melhor que o povo da Bahia que elegeu o governador galego que entregou o estado às milícias policiais, fez o povo de São Paulo que há vinte anos concedeu o poder do estado a um mesmo grupo. O que nós paulistas ganhamos?

    A Bahia vivia sobre a ditadura oligárquica dos Carlistas. Caiu numa furada? Uma outra oligarquia? Que mude novamente! Este é o barato da democracia. OS estados que listei não tem nada a ver com questão ideológica não. É pura realidade.

    Sempre se atribui a perpetuação de vagabundos no poder ao baixo grau de escolarização da população. Ok, instrução formal é essencial para se quebrar as correntes que nos amarram à ignorância. Mas o bom e velho senso comum de se prestar atenção ao que acontece em nossa volta pode ser usado nestes casos. Vá a uma escola pública, de São Paulo, da Bahia, ou de Goiás… A um hospital público. Ande a noite, despretenciosamente em qualquer bairro barra pesada de qualquer grande cidade brasileira. Tente, mesmo com essa ofensiva tardia da Dilma, conseguir um empréstimo nos bancos para comprar uma casa, abrir um negócio, financiar seus estudos.

    Estes são sinais que qualquer um independentemente da sua formação educacional poderia utilizar para pautar sua atuação como cidadão político. É isso que nós brasileiros devemos aprender. Aprender com os argentinos. Nós somos a política. Os picaretas do Congresso são nossa responsabilidade. Se erramos ao colocar lá quem não está disposto a trabalhar pela sociedade, não podemos cometer o mesmo erro mais de uma vez. Não é o que acontece… Estão aí Sarney, Renan, Tucanos de SP, Mensaleiros petistas… a lista é longa! Esta é minha crítica William. Ou nós brasileiros assumimos o controle da política do país, ou a política das ratazanas tomará conta do nosso cotidiano.

Mario Silva Lima

05 de maio de 2012 às 12h54

“Façamos a revolução antes que o povo a faça”.Essa tem sido a tradição em nosso país.Logo,não há nada de novo nas alianças espurias aqui denunciadas.E,como diz Paulo Henrrique Amorim,”viva o Brasil!”

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