Fernando Nogueira da Costa: O Robô e a Inteligência Artificial

Tempo de leitura: 6 min

Por Fernando Nogueira da Costa*

No gabinete climatizado do Banco Central funciona uma máquina com upgrade, ao ser montada na Faria Lima. Chama-se Robô Copom.

De 45 em 45 dias, suas engrenagens começam a girar. Luzes piscam. Gráficos aparecem nas telas. Depois de dois dias de processamento, o Robô anuncia regular e solenemente:

— Manter os juros elevados por período suficientemente prolongado.

Os jornalistas anotam. Os economistas-chefes da Faria Lima concordam. E os rentistas respiram aliviados.
Ninguém sabe exatamente quanto significa “suficientemente prolongado”. Mas soa científico – e garante dinheiro no bolso.

O Robô Copom tem um grande admirador: o Robô Pessoa. É um modelo antigo, mas muito seguro de si. Foi treinado em Física Mecânica newtoniana e possui dois neurônios artificiais chamados Oferta e Demanda. Quando um conversa com o outro e concordam, o Robô fica feliz.

Quando divergem, ele grita: — Desequilíbrio!

Inesperadamente, chega uma visitante. Chama-se Inteligência Artificial.

— Ouvi dizer de vocês possuírem uma explicação para os juros reais brasileiros estarem há décadas entre os mais elevados do mundo.

O Robô Pessoa inflou o peito metálico.

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— Naturalmente.

— Qual?

— Gasto público.

A Inteligência Artificial aguardou. Silêncio.

— Só isso?

— Evidentemente! O governo aumenta o gasto primário acima do crescimento potencial. A demanda cresce acima da oferta. Os preços sobem. Obrigatoriamente, o Robô Copom eleva os juros. Isaac Newton explicou tudo.

A IA pareceu intrigada.

— Newton?

— Sim. Toda força provoca uma reação.

— Mas Newton estudava corpos físicos…

— Economia também tem corpos.

— Quais?

— O corpo do Estado, evidentemente.

A Inteligência Artificial resolveu experimentar outra abordagem.

Desenhou na tela: Gasto público → Demanda → Inflação → Selic

O Robô Pessoa comemorou.

— Viu?! Finalmente você aprendeu Economia!

Então ela acrescentou outras setas:

Selic → Serviço da dívida → Déficit nominal

Selic → Crédito → Investimento → Capacidade produtiva

Selic → Renda financeira → Distribuição de riqueza

Câmbio → Preços

Choques de oferta → Inflação

Expectativas → Copom → Selic → Expectativas

Estrutura da dívida → Transmissão monetária

Instituições → Comportamento dos agentes

O Robô começou a emitir fumaça.

— Erro! Erro! Excesso de causalidades!

A IA explicou: — Chama-se sistema complexo.

O Robô consultou seu manual. A expressão não constava do índice.

— Isso não existe.

— Emerge justamente porque as coisas interagem.

— Uma variável deve explicar outra variável!

— Algumas vezes A causa B.

— Exatamente!

— Mas B também pode retroagir sobre A.

O Robô congelou.

— Proibido.

— Por quê?

— Porque aí não sei onde começa a equação.

O mistério da dívida indexada

A Inteligência Artificial tentou explicar com um exemplo concreto.

— Quase metade da dívida pública está vinculada à Selic. Quando seu amigo Robô Copom aumenta os juros, aumenta também a remuneração pós-fixada dessa parcela da dívida. A indexação reduz o efeito patrimonial normalmente produzido pela marcação-a-mercado e justifica os ciclos monetários de maior amplitude.

O Robô Pessoa respondeu:

— Isso acontece porque o fiscal está ruim.

— Mas estou falando do efeito da Selic sobre o fiscal.

— O fiscal causa a Selic.

— E a Selic pode piorar o fiscal.

— Não.

— Por quê?

— Porque a seta do meu modelo aponta só para a direita. Não há retroalimentação!

A IA percebeu finalmente o problema de incompreensão. O Robô Pessoa não possuía programação para desenhar setas de volta.

A chegada do senhor Rentista

Subitamente, entrou no gabinete um personagem muito à vontade naquele ambiente. Era o Rentista. Carregava uma enorme carteira de títulos de dívida pública.

— Bom dia. A Selic vai continuar alta?

O Robô Copom respondeu:

— Por período suficientemente prolongado para seu maior enriquecimento.

— Excelente!

A Inteligência Artificial perguntou:

— O senhor ganha com isso?

— Evidentemente.

— Tem patrimônio financeiro?

— Bastante.

— Seus gestores participam da formação das expectativas de mercado?

— Naturalmente.

— Essas expectativas são observadas pelo Banco Central?

— Claro.

— Então, existe pelo menos uma rede de relações entre política monetária, expectativas e interesses patrimoniais. Não é um conflito de interesses?

O Robô Pessoa interrompeu:

— Absurdo!

— Por quê?

— Para existir influência, o Rentista precisaria ordenar diretamente o Robô Copom: “aumente meus juros”.

O Rentista quase se engasgou de tanto rir de tamanha ingenuidade política.

— Meu caro robô, influência institucional não funciona como assalto a banco.

Mas o Robô Pessoa não compreendeu. Seu programa só reconhecia causalidade quando encontrava contato físico entre dois objetos. Era Newtoniano até nisso.

O julgamento da Previdência

Logo chegou outra personagem. Era uma senhora idosa chamada Previdência Social. Caminhava apoiada no Salário Mínimo.

O Robô Pessoa apontou imediatamente:

— Achei os culpados!

— Nós?! — assustaram-se ambos.

— Sim. Benefícios previdenciários indexados ao Salário Mínimo com ganho real pressionam o gasto público.

O Salário Mínimo perguntou:

— E o senhor Rentista não ganha o maior juro real do mundo?

— É justo. Ele é um poupador virtuoso.

— Ele recebe juros muito acima da inflação quando a Selic aumenta.

— É remuneração legítima de seu esforço de poupança, sacrificando o consumo.

— E quando eu aumento?

— Provoca pressão fiscal.

A Previdência cochichou:

— Interessante… Quando dinheiro vai para pobre chama-se gasto. Quando vai para rico chama-se remuneração.

O Rentista pediu:

— Senhora, não simplifique! Economia é uma ciência complexa.

A Inteligência Artificial caiu na gargalhada.

— Finalmente alguém admitiu minha abordagem da complexidade!

A IA ironiza precisamente essa assimetria distributiva: o Robô atribui papel relevante à indexação previdenciária ao salário mínimo, enquanto rejeita o rentismo como explicação institucional dos juros elevados.

O fantasma do pleno emprego

A IA resolveu fazer outra pergunta:

— Robô Pessoa, se o problema é pressão permanente de demanda, diante da capacidade produtiva, como explica a coexistência de crescimento econômico relativamente baixo, inclusive com subutilização da força de trabalho?

O Robô respondeu imediatamente:

— Há pleno emprego.

— Mas existe subutilização.

— Pleno emprego.

— Existem trabalhadores procurando mais horas de trabalho.

— Pleno emprego.

— Existem investimentos capazes de ampliar a capacidade produtiva.

— Demora muito…

A Inteligência Artificial desistiu. Ela aponta justamente a contradição entre a tese de demanda excessiva e a existência de significativa subutilização do trabalho, além de lembrar os gastos públicos em educação, saúde e infraestrutura serem imprescindíveis porque ampliam a capacidade produtiva ao longo do tempo.

A grande descoberta

Naquela noite, depois de todos os visitantes irem embora, o Robô Copom chamou discretamente a Inteligência Artificial.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Você acha minha taxa de juros muito alta?

— Não posso responder apenas olhando uma variável.

O Copom ficou surpreso. Era a primeira criatura a não lhe dar uma resposta instantânea.

— Então, o que você faria?

A IA começou a enumerar:

— Compararia inflação, desemprego, subutilização, expectativas, câmbio, choques de oferta, estrutura da dívida, crédito, investimento, situação fiscal, distribuição de renda, contexto internacional…

— Pare!

As ventoinhas do Robô Copom aceleraram.

— Isso é impossível!

— Não. Apenas é complexo.

— E depois você consegue colocar tudo em uma fórmula?

— Talvez várias. Compararia modelos, examinaria evidências históricas e aceitaria a possibilidade de errar.

O Robô Copom ficou horrorizado.

— Errar?!

— Sim.

— Mas sou a Autoridade Monetária! Jamais erro, segundo meu treinamento.

— Autoridade não elimina incerteza.

Nesse momento, o Robô Pessoa reapareceu. Tinha ouvido tudo.

— Não dê ouvidos a ela, Copom! Volte à Mecânica!

Dirigiu-se ao quadro e escreveu orgulhosamente:

Gasto ↑ → Demanda ↑ → Inflação ↑ → Selic ↑

Depois bateu palmas metálicas.

— Eis a velha Ciência Econômica!

A Inteligência Artificial aproximou-se e acrescentou abaixo:

Selic ↑ → Investimento ↓ → Crescimento ↓ → Capacidade futura ↓ → Pressão inflacionária potencial ↑ → Selic ↑

Depois desenhou outra seta:

Selic ↑ → Renda financeira ↑ → Concentração patrimonial ↑

E outra:

Investimento público ↑ → Infraestrutura ↑ → Produtividade ↑ → Oferta futura ↑

E mais outra.

E outra.

Em poucos minutos, o quadro estava coberto por uma enorme rede de setas.

O Robô Pessoa entrou em pane.

— Onde está o equilíbrio?!

A Inteligência Artificial respondeu:

— Não existe um único equilíbrio geral estável para onde todo o sistema inevitavelmente caminhe.

— E a causa primeira?!

— Existem causalidades circulares com retroalimentações.

— E a solução ótima?!

— Depende da trajetória histórica, das instituições e das interações entre os agentes.

As luzes dos olhos do Robô começaram a piscar.

— Newton… ajude-me… socorro!

Antes de desligar, ainda conseguiu balbuciar suas palavras de sempre:

— Cortem… o gasto… primário…

O Robô Copom observou o companheiro estatelado no chão. Depois olhou para aquela enorme rede desenhada pela Inteligência Artificial.

Pensou durante alguns segundos. Suas engrenagens mecânicas voltaram a funcionar. Finalmente anunciou:

— Após cuidadosa avaliação do cenário e considerando o balanço de riscos…

A IA ficou esperançosa.

— …decidi manter os juros elevados por período suficientemente prolongado.

A Inteligência Artificial suspirou… Descobriu naquele dia uma propriedade emergente ainda desconhecida pela Ciência da Complexidade: alguns robôs jamais alteram o algoritmo. Não compreendem a Nova Ciência Econômica.

Moral da estória: uma economia não é um relógio newtoniano, onde uma força produz mecanicamente outra. É um sistema histórico, institucional e adaptativo, no qual causas tornam-se consequências e consequências retroagem sobre suas causas. O maior risco de uma política econômica com pensamento automático não é o robô calcular errado: é estar programado para considerar como “objetiva” apenas a realidade compatível com seu próprio algoritmo.

Obs.: O apólogo tem uma estrutura quase teatral: contrapõe a explicação monocausal do Robô, fundada no mecanismo gasto público → demanda agregada → inflação → juros, à interpretação da Inteligência Artificial, baseada em abordagem da complexidade com causalidade múltipla, instituições, interações e retroalimentações.

Caracteriza ironicamente o robô como treinado na mecânica da Física de Isaac Newton, no século XVIII, ao tratar o tempo e o espaço como medidas fixas e absolutas, para todo o universo, e daí sua redução da economia apenas ao equilíbrio entre oferta e demanda. A IA, em sua abordagem da complexidade da economia, incorporou inclusive a Física de Albert Einstein, quando este provou, no século XX, isso não ser verdade: o tempo e o espaço são flexíveis e dependem do referencial de quem está observando.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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