Fernando Nogueira da Costa: A Faria Lima e o Ex-Bacen

Tempo de leitura: 10 min

Por Fernando Nogueira da Costa*

Na abertura da campanha eleitoral, dois velhos conhecidos encontraram-se diante dos microfones do podcast promovido pelo jornal Falha de S. Paulo.

Um chamava-se Faria Lima. Embora tivesse nome de avenida, apresentava-se como economista. Falava com a serenidade característica de quem sabe exatamente o que o governo deve fazer, sobretudo quando não está no governo.

O outro era o Ex-Bacen. Carregava esse sobrenome desde quando presidira o Banco Central e criara o Tripé Macroeconômico. Ganhou, por isso, o privilégio de ter palanque garantido no jornalismo econômico brasileiro como fosse um guru.

— Bom dia, Ex-Bacen.

— Bom dia, Faria Lima.

— Como vai o Brasil?

— Péssimo.

— Que coincidência! Era exatamente o que eu ia dizer.

Os dois sorriram satisfeitos. O debate prometia.

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A Faria Lima abriu seu enorme Manual da Economia Ortodoxa.

— O problema brasileiro é fiscal.

— Evidentemente — concordou o Ex-Bacen.

— O governo gasta demais.

— Sem dúvida.

— E, quando gasta demais, o Banco Central precisa aumentar os juros.

— Elementar.

— E, quando os juros ficam altos, a dívida aumenta.

— Naturalmente.

— Logo, para reduzir a dívida…

— …é preciso cortar gastos!

Olharam um para o outro encantados. Era maravilhoso um debate plural quando ambos chegavam à mesma conclusão antes mesmo de começar.

A apresentadora anunciou:
— Hoje, teremos um debate sobre os diferentes pontos de vista a respeito da economia brasileira.
Faria Lima olhou para Ex-Bacen. Ex-Bacen olhou para Faria Lima.

— Diferentes?!

A apresentadora corrigiu-se: — Perdão. Diferentes maneiras de chegar à mesma conclusão.
Respiraram aliviados.

O credo

A Faria Lima ajeitou os óculos.

— Eu acredito em instituições.

— Eu também.

— Responsabilidade fiscal.

— Eu também.

— Reformas.

— Eu também.

— Mercado.

— Amém! — exclamou Ex-Bacen.

Houve um breve silêncio.

— Você disse “amém”?

— Força do hábito. Depois de tantos anos, certas convicções econômicas tornam-se crenças religiosas.

Faria Lima concordou.

O neoliberalismo dos dois possuía dez mandamentos simples.

Primeiro: não gastarás.

Segundo: não subsidiarás.

Terceiro: não protegerás.

Quarto: privatizarás.

Quinto: honrarás a meta de inflação sobre todas as coisas.

Sexto: não cobiçarás os juros do rentista, porque são determinados pelas circunstâncias.

Sétimo: não permitirás alavancagem porque as despesas financeiras são elevadas.

Oitavo: não priorizarás baixar o desemprego porque ele é natural.

Nono: deixarás eventual desenvolvimento por conta do livre mercado.

Décimo: se alguma coisa der errado, acusarás o excesso de gasto fiscal.

— E se o déficit primário estiver pequeno? — perguntou a apresentadora.

— Corte mais gastos públicos — respondeu Faria Lima.

— Sempre há algum excesso de benesses escondido — tranquilizou-a Ex-Bacen.

Entra uma intrusa

Foi quando uma senhora desconhecida abriu a porta do estúdio. Vestia-se sem elegância financeira. Trazia debaixo do braço uma pilha de tabelas do IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional e Ministério do Desenvolvimento.

— Quem é a senhora? — perguntou Faria Lima.

A Realidade.

Os dois economistas franziram a testa.

— Não estava prevista na pauta! — reclamou Ex-Bacen.

— Raramente estou — respondeu ela.

A apresentadora tentou impedir sua entrada.

— Este é um debate entre especialistas.

— Percebi. Por isso vim trazer os dados.

A Realidade sentou-se entre os dois.

Faria Lima ficou incomodada.

Até então, o programa estava perfeitamente equilibrado: um economista neoliberal de um lado e outro economista neoliberal do outro.

Agora havia uma extremista no centro como um terceiro incluído. A Realidade.

O desemprego inconveniente

Ex-Bacen retomou a palavra:
— O país caminha para uma situação muito difícil. Há uma “herança complicada”, por causa de um “cabo de guerra” entre Banco Central e governo.

A Realidade abriu uma folha.

— Desemprego em 5,6%?

— Não mude de assunto.

— Está perto dos menores níveis da série histórica.

— Justamente! — respondeu Ex-Bacen. — Isso pode esconder o problema.

A Realidade estranhou.

— Quando o desemprego sobe, demonstra o fracasso da política econômica?

— Naturalmente.

— E quando cai?

— Pode mascarar o fracasso.

— Interessante. Então esse indicador só funciona em uma direção?

Faria Lima interveio:
— Minha senhora, Economia não é tão lógica.

— Estou começando a perceber.

— Emprego demais pode pressionar salários.

— E salário maior é ruim?

— Não necessariamente.

— Então é bom?

— Também não necessariamente.

A Realidade anotou o seguinte. Primeira Lei do Debate Econômico Midiático: um indicador favorável ao governo necessita de contextualização; um indicador desfavorável dispensa contexto.

A inflação rebelde

— Mas temos inflação! — anunciou Faria Lima.

A Realidade consultou outra folha.

— IPCA em doze meses: 4,44%.

— Acima do centro da meta!

— E a Selic?

Ex-Bacen pigarreou.

— Elevada: 14% aa. Muito acima da inflação.

— Porque as expectativas estão desancoradas…

— Sempre as expectativas incertas — suspirou a Realidade. — Quando o presente não confirma a tese, convocam o futuro para testemunhar.

Faria Lima explicou pacientemente:
— A taxa de juros precisa permanecer restritiva porque a política fiscal é expansionista, devido ao populismo.

— E quanto o governo está pagando de juros?

Silêncio.

— Aproximadamente 8,8% do PIB — respondeu a própria Realidade.

— Isso é consequência do problema fiscal — disse Ex-Bacen.

— Curioso. Os juros entram no déficit nominal?

— Claro.

— Então os juros aumentam o déficit?

— Contabilmente, sim.

— E o déficit justifica juros elevados?

— Economicamente, sim.

A Realidade desenhou:

JUROS ALTOS → DESPESA COM JUROS → DÉFICIT NOMINAL → PRESSÃO FISCAL SOBRE DEMANDA → JUROS ALTOS.

— Encontrei uma cobra mordendo o próprio rabo…

— Isso é populismo gráfico! — protestou Faria Lima.

O mistério da dívida eterna

Ex-Bacen assumiu expressão grave.

— A dívida pública está crescendo para 82% do PIB.

— Dos EUA está em 125% do PIB, da China 88% do PIB, da Índia 56% do PIB e da Rússia 20% do PIB. São os países incluídos nos rankings dos 10 maiores territórios, populações e renda. E quando vence um título público? — perguntou a Realidade.

— O Tesouro paga.

— Fundos de investimentos, bancos, fundos de pensão e seguradoras deixam para sempre o mercado de títulos públicos em seus vencimentos?

— Hã… Não necessariamente.

— Não compram novos títulos porque o interesse de seus detentores está em receber permanentemente os rendimentos dos juros?

— Sim. É fato…

— Então, a dívida não é sempre rolada – e nunca liquidada?

— Evidentemente.

— Por que, então, vocês falam dela como se chegasse um dia no qual o Brasil precisasse juntar 10,8 trilhões de reais e quitar tudo?

Faria Lima irritou-se:
— Nenhum devoto de O Mercado diz isso!

— Ótimo. Então estamos progredindo.

A Realidade anotou. Segunda Lei do Debate: Dívida soberana não é dívida doméstica de uma família.

Ex-Bacen protestou: — Mas há limites!

— Claro. Juros, crescimento, resultado primário, prazo, composição da dívida, confiança, inflação inercial…

— Exatamente!

— Então por que vocês discutem apenas gasto primário?

Novo silêncio.

O pecado do gasto social

Faria Lima encontrou finalmente terreno seguro.

— O Estado brasileiro cresceu demais.

— Cresceu onde? — perguntou a Realidade.

— Gastos sociais.

— Previdência com o envelhecimento populacional?

— Sim.

— O Sistema Único de Saúde (SUS) garantindo acesso universal, integral e gratuito à saúde para toda a população no Brasil?

— Sim.

— Educação pública, ao assegurar o acesso universal ao conhecimento, promover a inclusão social, reduzir as desigualdades regionais e econômicas, e formar cidadãos críticos e aptos para a vida em sociedade e para o mercado de trabalho?

— Sim.

— Bolsa Família ao garantir uma renda básica e combater a fome de famílias em situação de pobreza?

— Também.

— Salário mínimo real como a base legal de remuneração para garantir cada trabalhador suprir necessidades vitais básicas — como alimentação, moradia, saúde, educação e transporte?

— O reajuste real dele contamina o gasto previdenciário com os aposentados!

— Minha Casa Minha Vida para combater o déficit habitacional no Brasil?

— Cobra juros baixos e concede subsídios!

— Universidades públicas com ensino, pesquisa e extensão, responsável por cerca de 90% da produção científica nacional?

— Precisamos avaliar resultados das cotas para estudantes de escolas públicas, pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência…

— E juros da dívida?

— Isso é outra questão.

A Realidade sorriu. — Ah! Agora compreendi. Quando o dinheiro vai para aposentado, estudante, paciente, trabalhador pobre ou comprador da primeira casa chama-se gasto. Quando remunera patrimônio financeiro chama-se encargo.

Ex-Bacen corrigiu: — Tecnicamente são categorias diferentes.

— Politicamente também, pelo visto.

O país à beira do abismo

Ex-Bacen voltou ao tom solene.

— Estamos repetindo erros do passado. Há uma “herança complicada” com o quadro atual igual ao período anterior à recessão da Presidenta eleita e deposta.

A Realidade retirou mais algumas folhas da pasta.

— Reservas internacionais? US$ 369 bilhões. Dívida pública externa? A parcela da dívida pública federal em moeda estrangeira permanece em torno de 3% da dívida mobiliária, praticamente sem riscos cambiais para os títulos emitidos pelo Tesouro Nacional. FMI? Não dita mais a política econômica brasileira. Balanço comercial? Estruturalmente superavitário. Produção de petróleo? O pré-sal transformou o país em grande produtor e exportador. Dependência comercial dos Estados Unidos? Bem menor, porque a China se tornou o principal parceiro comercial. Então, onde está a crise cambial iminente?

Faria Lima respondeu:

— Pode acontecer.

— Evidentemente pode. Também pode não acontecer.

— Precisamos prevenir.

— Foi justamente por isso que o Brasil tem 369 bilhões de dólares em reservas.

Ex-Bacen mexeu-se incomodado na cadeira. A conversa começava a ficar perigosamente empírica e saía da pauta de oposição.

O crime da alavancagem

A Realidade resolveu inverter a pergunta.

— Por qual razão as empresas fazem alavancagem financeira?

— Para investir quando encontram projetos rentáveis — explicou Faria Lima.

— E qual é a condição básica?

— O retorno operacional esperado superar o custo do capital de terceiros.

— Excelente! Finalmente concordamos.

A Realidade escreveu:

RETORNO OPERACIONAL > CUSTO FINANCEIRO → ALAVANCAGEM FAVORÁVEL.

Depois perguntou:

— E o que acontece quando a taxa básica de juros é extremamente elevada?

Ex-Bacen respondeu:

— Os projetos precisam apresentar retorno operacional maior.

— Exatamente. Portanto, vários investimentos deixam de ser viáveis devido às despesas financeiras superarem esse retorno…

— Mas isso é necessário para combater a inflação.

— Mesmo com inflação de 4,44%?

— Há expectativas desancoradas.

— Ah, há sim pequena inércia inflacionária, provocada pelos conflitos distributivos com reajustes defasados.

A Realidade completou o quadro:

JUROS ALTOS → CRÉDITO CARO → MENOR ALAVANCAGEM → MENOR INVESTIMENTO → MENOR CRESCIMENTO → MENOR ARRECADAÇÃO FISCAL.

Faria Lima retrucou: — O crescimento brasileiro é medíocre há décadas!

— Concordo. Desde o fim do Estado Desenvolvimentista com o advento do neoliberalismo. Talvez seja interessante investigar se manter durante décadas uma das maiores taxas reais de juros do mundo, devido ao Tripé Macroeconômico adotado desde o fim do século passado, contribuiu para essa mediocridade.

Fluxos e estoques

— Vocês olham muito para o fluxo fiscal — prosseguiu A Realidade. — Experimentem olhar também para os estoques patrimoniais.

— Como assim?

Ela desenhou dois processos. No primeiro de fluxo: TRABALHO → SALÁRIO → CONSUMO → RENDA. No segundo de estoque: PATRIMÔNIO FINANCEIRO → JUROS → JUROS COMPOSTOS → MAIS PATRIMÔNIO.

— Se a renda da economia cresce devagar, mas os grandes patrimônios recebem juros sobre juros muito elevados, o que acontece?

— Os investidores são remunerados pelo sacrifício de fazer poupança — apelou Faria Lima.

— Não perguntei por essa falsa moralidade anticonsumista. Perguntei sobre o resultado distributivo.

Ex-Bacen ficou pensativo.

A Realidade escreveu uma palavra enorme: ESTAGDESIGUALDADE.

— Que palavrão é esse?

Estagnação do fluxo de renda (relativa ao passado desenvolvimentista) combinada à concentração crescente do estoque de riqueza.

— Isso não existe nos manuais ortodoxos.

— Eu sei. A realidade tem esse péssimo hábito de acontecer antes de receber autorização dos manuais.

A produtividade apareceu atrasada

Faria Lima decidiu mudar de assunto. — O verdadeiro problema brasileiro é a produtividade!

Ex-Bacen animou-se: — Agora chegamos ao ponto!

— Baixíssima!

— Precisamos de reformas!

A Realidade perguntou: — Cerca de três quartos das ocupações brasileiras estão em serviços?

— Sim.

— Muitos desses serviços dependem do encontro direto entre produtor e consumidor?

— Sim.

— Médico, enfermeiro, cabeleireiro, garçom, motorista, cuidador, entre outros?

— Sim.

— Como um médico dobra sua produtividade? Dando consulta simultaneamente para dois clientes?

— Tecnologia…

— Como uma enfermeira cuida do dobro dos pacientes no mesmo tempo?

— Gestão…

— Como um cabeleireiro corta quatro cabelos simultaneamente?

— A senhora está caricaturando.

— Claro. Estamos em um apólogo para todos entenderem: uma economia com baixo ritmo de crescimento e predominância de serviços inevitavelmente tem baixa produtividade.

A eleição que não era eleição

A apresentadora recebeu uma mensagem da direção da Falha de S.Paulo.

— Precisamos encaminhar para o fim deste debate. Gostaria de perguntar aos dois especialistas qual deveria ser a prioridade do próximo governo.

Faria Lima respondeu: — Ajuste fiscal.

Ex-Bacen: — Reforma fiscal.

— Controle de gastos — acrescentou ela.

— Reforma do Estado — completou ele.

— Abertura comercial.

— Privatizações.

— Revisão dos gastos sociais.

— Credibilidade.

— Confiança.

— Reformas neoliberais com flexibilidade de direitos previdenciários.

A Realidade levantou a mão. — Curioso…

— O quê?

— Pensei estar assistindo a uma entrevista sobre economia. Descobri estar diante de um programa de governo de oposição.

A apresentadora assustou-se.

— Absolutamente! Este jornal é independente!

— Não duvido. Apenas achei curioso dois convidados diferentes defenderem aproximadamente o mesmo diagnóstico, as mesmas reformas e a mesma concepção do Estado mínimo poucos meses antes de uma eleição.

Faria Lima indignou-se: — Isso é debate técnico!

— Naturalmente. Política econômica torna-se técnica quando coincide com nossas preferências e ideológica quando coincide com as preferências dos outros.

Ex-Bacen perguntou: — E qual seria sua alternativa?

A Realidade respondeu: — Eu não tenho programa partidário.

— Então por que veio?

— Porque vocês estavam discutindo um país onde aparentemente eu não existia.

O terceiro incluído

A Faria Lima fechou o Manual Ortodoxo.

— Então você é heterodoxa?

— Não.

— Ortodoxa?

— Também não.

— Desenvolvimentista?

— Às vezes os dados favorecem argumentos desenvolvimentistas.

— Neoliberal?

— Às vezes favorecem argumentos neoliberais.

Ex-Bacen mostrou-se desconcertado. — Afinal, de qual lado você está?

— De nenhum. Eu sou o terceiro incluído.

— Isso não existe. Há somente políticas certas e políticas erradas.

— Eis justamente o problema.

A Realidade explicou: — Uma economia nacional é um sistema complexo. Política fiscal afeta política monetária; juros afetam dívida; dívida remunera patrimônio; crédito afeta investimento; investimento gera emprego; emprego produz renda; renda gera impostos; exportações fornecem divisas; reservas reduzem vulnerabilidade; políticas sociais alteram distribuição; distribuição modifica consumo; consumo retroage sobre produção.

Desenhou no quadro: PRODUÇÃO → RENDA → CONSUMO → PRODUÇÃO e abaixo: RENDA → POUPANÇA → PATRIMÔNIO → RENDIMENTOS FINANCEIROS → PATRIMÔNIO e ainda: EXPORTAÇÃO → DIVISAS → RESERVAS → SOBERANIA → MAIOR LIBERDADE DE POLÍTICA ECONÔMICA.

— Vocês estão procurando uma causa única para um sistema de causalidades circulares.

Faria Lima perguntou: — E o déficit público?

— Está dentro do sistema.

Ex-Bacen: — E a inflação?

— Também.

— E a produtividade?

— Também.

— E a dívida?

— Também.

— Então nada é prioritário?

— Ao contrário. A prioridade depende da configuração histórica concreta. Esse é justamente o trabalho do economista: descobrir qual restrição está efetivamente ativa, em vez de repetir a mesma receita independentemente da doença.

Fez-se silêncio no estúdio. Era uma situação extremamente desconfortável. Havia surgido o imprevisto pluralismo.

A despedida

Terminada a gravação, Faria Lima e Ex-Bacen caminharam juntos até o elevador.

— Achei aquela senhora muito ideológica — comentou ela.

— Também achei.

— Fica mostrando certos números…

— Perigosíssimo.

— Precisamos voltar para discutir isso com mais profundidade.

— Concordo.

— Quem você sugere para o próximo programa?

Ex-Bacen pensou alguns segundos. — Você.

Faria Lima sorriu. — Excelente. E eu entrevisto você no seguinte.

A porta do elevador fechou.

A Realidade permaneceu sozinha no estúdio, recolhendo suas tabelas.

A faxineira, enquanto varria o chão, perguntou: — Dona Realidade, a senhora volta na semana que vem?

Ela sorriu: — Dificilmente.

— Por quê?

— Porque, em campanha eleitoral, todos dizem querer discutir a realidade.

Colocou as tabelas de volta na pasta.

— O problema começa quando ela pede a palavra.

Moral da estória: Quando dois economistas com a mesma visão de mundo debatem entre si, pode haver divergência de detalhes, mas não há pluralismo de ideias. O contraditório só começa quando aparece o terceiro incluído nessa relação binária: a Realidade não convidada por nenhum dos dois neoliberais.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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