Por Fernando Nogueira da Costa*
A Política Recessiva entrou no café apressada.
Vestia um tailleur sóbrio, carregava uma maleta do Banco Central e consultava o celular a cada trinta segundos.
Sentada no fundo do salão estava a Produtividade, cercada de livros, projetos de engenharia, plantas de ferrovias, computadores, laboratórios, escolas técnicas e uma enorme pasta intitulada: PLANO DE LONGO PRAZO.
— Longo prazo?! — exclamou a Política Recessiva. — Não tenho tempo para isso!
Produtividade levantou os olhos.
— Percebi.
— Como assim?
— Você nunca tem tempo.
A Política Recessiva sentou-se.
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— Preciso resolver um problema urgente. A economia está em pleno emprego.
— Está mesmo?
— O desemprego está baixíssimo.
— E a subutilização da força de trabalho?
— Não complique.
— A taxa de informalidade no Brasil está em 37,5% da população ocupada…
— Estamos falando de Macroeconomia.
— Subocupação?
— Depois vemos isso.
— Diferenças regionais?
— Minha senhora, preciso tomar decisões. Tenho um mandato.
Produtividade sorriu.
— Esse é justamente o problema. Você não tem um duplo mandato: controlar a inflação e promover o crescimento.
O diagnóstico
A Política Recessiva abriu sua maleta.
— O país está crescendo acima de sua capacidade.
— Quanto?
— A demanda cresce mais depressa diante da oferta.
— E por quê?
— Porque renda e crédito cresceram.
— Isso parece bom.
— Nem sempre.
— Trabalhadores ganhando mais é ruim?
— Não coloque dessa maneira.
— Famílias consumindo mais?
— Também não é exatamente ruim.
— Empresas vendendo mais?
— Pode ser bom.
— Então qual é o problema?
A Política Recessiva perdeu a paciência.
— Tudo isso junto!
Produtividade tomou um gole de café.
— Interessante. Durante décadas disseram ao país precisar crescer, aumentar renda, criar empregos e expandir o crédito. Quando consegue…
— …descobrimos ter crescido demais.
— Quanto é demais?
— Mais diante da oferta.
— Então aumentemos a oferta!
A Política Recessiva olhou-a como se tivesse ouvido uma obscenidade.
— Isso demora além do meu mandato! A porta-giratória do BC gira rapidamente…
O botão
Ela abriu a maleta.
Dentro havia um enorme botão vermelho.
Estava escrito: SELIC.
Produtividade recuou.
— Você ainda usa isso?
— É meu instrumento.
— Único?
— O principal.
— E como funciona?
A Política Recessiva assumiu a postura professoral de ex-novo-desenvolvimentista convertido às responsabilidades de banqueiro central.
— Simples. Se a demanda está acima da oferta…
Apertou imaginariamente o botão.
— …eu aumento os juros.
— E depois?
— Crédito fica mais caro.
— Depois?
— Famílias consomem menos.
— Depois?
— Empresas investem menos.
— Depois?
— A economia desacelera.
— Depois?
— O mercado de trabalho esfria.
— Depois?
— Salários pressionam menos.
— Depois?
— A inflação cai.
Produtividade ficou pensativa.
— Entendi. Você não aumenta a oferta.
— Não.
— Reduz a demanda.
— Exatamente.
— Até ela caber na oferta existente.
— Finalmente você compreendeu política monetária!
Produtividade anotou em um guardanapo:
DEMANDA > OFERTA
↓
JUROS ↑
↓
CRÉDITO ↓
↓
CONSUMO ↓
↓
INVESTIMENTO ↓
↓
EMPREGO E RENDA ↓
↓
DEMANDA = OFERTA
— Pronto — disse ela. — Equilíbrio por baixo.
A Política Recessiva fez cara feia.
— Prefiro chamar de reequilíbrio macroeconômico.
— Fica realmente mais elegante.
O estranho caso da Produtividade
A Política Recessiva retomou:
— Mas concordamos em uma coisa.
— Qual?
— O Brasil precisa aumentar a produtividade.
Produtividade quase derrubou a xícara.
— Finalmente lembrou de mim!
— Você é fundamental.
— Fico emocionada.
— Sem você não existe crescimento sustentável.
— Continue.
— Precisamos de mais produtividade para a renda crescer sem inflação.
— Excelente!
— Portanto…
Produtividade aproximou a cadeira.
— Portanto?
— …vou manter os juros elevados.
Ela ficou imóvel.
— Repita.
— Juros elevados.
— Para aumentar a produtividade?!
— Não diretamente.
— Indiretamente?
— Também não exatamente.
— Então para quê?
— Para reduzir a demanda enquanto você cresce. Você está muito pequeninha…
Produtividade olhou ao redor.
— E como devo crescer?
A Política Recessiva hesitou.
— Bem…
— Máquinas?
— Sim.
— Investimento?
— Naturalmente.
— Tecnologia?
— Fundamental.
— Infraestrutura?
— Sem dúvida.
— Pesquisa?
— Importantíssima.
— Digitalização?
— Certamente.
— Reindustrialização em novas bases?
— Talvez.
— Então tudo isso exige investimento.
— Sim.
— E investimento depende do custo do capital de terceiros.
A Política Recessiva começou a desconfiar do rumo da conversa.
— Entre outras coisas…
Produtividade pegou outro guardanapo:
SELIC ↑
↓
CUSTO DO CAPITAL EM DESPESAS FINANCEIRAS ↑
↓
PROJETOS RENTÁVEIS ↓
↓
INVESTIMENTO ↓
↓
CAPACIDADE PRODUTIVA FUTURA ↓
Colocou-o ao lado do primeiro.
— Minha cara Política Recessiva, você está me pedindo para eu crescer enquanto corta minha alimentação…
Produtividade desenhou dois caminhos alternativos.
No primeiro:
DEMANDA > OFERTA
→ JUROS ALTOS
→ CONSUMO ↓
→ INVESTIMENTO ↓
→ EMPREGO ↓
→ RENDA ↓
→ DEMANDA = OFERTA
No segundo:
DEMANDA > OFERTA
→ INVESTIMENTO ↑
→ TECNOLOGIA + INFRAESTRUTURA
→ PRODUTIVIDADE ↑
→ CAPACIDADE PRODUTIVA ↑
→ OFERTA = DEMANDA
Consultou Keynes e ele lhe disse:
— Investimento tem dupla personalidade.
HOJE: INVESTIMENTO ↑ → DEMANDA ↑
AMANHÃ: INVESTIMENTO ↑ → CAPACIDADE PRODUTIVA ↑
— Portanto — concluiu —, investimento é demanda presente e oferta futura.
O problema do tempo
A Política Recessiva respirou fundo.
Era chegada a hora de apresentar seu argumento definitivo.
— O problema é o tempo. Tenho um mandato curto e eu só pratico política econômica de curto prazo…
Produtividade permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Ah.
— Compreendeu?
— Perfeitamente.
— Ótimo.
— Então seu problema não é econômico.
— Como não?!
— É temporal.
A Política Recessiva franziu a testa.
Produtividade explicou:
— Você precisa mostrar resultado em quatro anos.
— Exatamente.
— Eu preciso talvez de uma década para crescer.
— Infelizmente.
— Uma ferrovia demora.
— Sim.
— Uma escola técnica demora.
— Sim.
— Formar engenheiros demora.
— Muito.
— Desenvolver tecnologia demora.
— Demais.
— Construir infraestrutura demora.
— Uma eternidade.
— Criar empresas inovadoras demora.
— Não tenho mandato para te esperar…
Produtividade sorriu.
— Então você vence sempre.
— Não se trata de vencer.
— Claramente se trata de entregar juros para os vencedores. Você produz riqueza financeira antes de eu produzir renda do trabalho.
— Essa é minha missão.
— Você derruba demanda em meses. Eu aumento capacidade produtiva em anos.
— Exato.
— Logo, diante de qualquer esgotamento da oferta agregada, chamam você.
— Naturalmente.
— E, quando você chega, reduz investimento.
— Temporariamente, em curto prazo.
— E adia minha chegada.
A Política Recessiva ficou calada.
A sucessão dos curtos prazos
Produtividade retirou um calendário da pasta.
— Vamos fazer uma experiência.
— Qual?
— Quanto dura seu curto prazo?
— Depende.
— Um ano?
— Talvez.
Ela arrancou uma folha.
— Depois desse ano vem o quê?
— Outro ano.
Arrancou outra.
— E depois?
— Outro.
Mais uma folha.
— E depois?
— Outro.
A Política Recessiva começou a ficar irritada.
— Onde você quer chegar?
Produtividade empilhou as folhas sobre a mesa.
— Aqui.
Apontou para elas.
— O longo prazo é uma sucessão de curtos prazos!
Silêncio.
— Se em cada curto prazo você disser “agora não podemos investir porque precisamos esfriar a economia”…
Empilhou mais uma folha.
— …e no curto prazo seguinte repetir…
Outra.
— …e depois repetir novamente…
Outra.
— …quando exatamente chega o longo prazo?!
A Política Recessiva consultou o seu calendário.
Em todas as páginas encontrou escrito:
“Agora não. Precisamos primeiro resolver o curto prazo.”
Olhou para a falta de ferrovias, a desindustrialização, o laboratório aguardando financiamento, a escola técnica sem equipamentos e o empresário comparando o retorno esperado de seu negócio com a renda financeira oferecida sem esforço por títulos pós-fixados.
Depois olhou para o relógio da economia brasileira. O ponteiro continuava girando.
Curto prazo depois de curto prazo… e mais curtos prazos.
Enquanto a Política Recessiva repetia o mantra “primeiro precisamos resolver o problema em curto prazo”, a Produtividade murmurou:
— O desenvolvimento também acontece no tempo. Se o longo prazo nada mais é senão uma sucessão de curtos prazos recessivos… Quando crescerei?!
Moral da estória: A Política Recessiva consegue fazer a demanda caber na capacidade produtiva existente em curto prazo. A Produtividade precisa ampliar essa capacidade para a economia crescer de maneira sustentada. Enquanto o combate à inflação em curto prazo encarecer permanentemente o investimento necessário ao longo prazo, o país permanecerá em estagdesigualdade — fluxo de renda do trabalho estagnado e riqueza financeira cada vez mais concentrada.
Obs.: O eixo dramático é tenso: a Política Recessiva age imediatamente porque dispõe da Selic; a Produtividade precisa de investimento, tecnologia, infraestrutura, educação e transformação estrutural, cujos efeitos amadurecem lentamente. O paradoxo é a primeira destruir hoje parte das condições necessárias à outra amanhã. Foi apresentada no apólogo a oposição entre ambas.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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