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Diário da Resistência


O segredo das Sete Irmãs e o pré-sal brasileiro
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O segredo das Sete Irmãs e o pré-sal brasileiro


26/10/2013 - 14h46

sugerido pelo leitor Claudius, nos comentários, ao qual Francisco Pereira Neto acrescentou:

25/10/2013

AS LIÇÕES DE LIBRA

por Mauro Santayana, em seu blog 

A mobilização de várias organizações, e a greve dos petroleiros, com a apresentação de dezenas de ações na justiça, não conseguiu impedir que o Leilão de Libra fosse realizado, com a vitória de duas estatais chinesas, duas multinacionais européias, e participação, em 40%, da Petrobras.

Obviamente, do ponto de vista do interesse nacional, o ideal seria que o negócio tivesse ficado totalmente com a Petrobras, ou melhor, com outra empresa, 100% estatal e brasileira (a PPSA não tem estrutura de produção  própria) que fosse encarregada de operar exclusivamente essas reservas.

Não podemos esquecer que a Petrobras – por obra e arte sabe-se muito bem de quem – não é mais uma empresa totalmente nacional. Os manifestantes que enfrentaram a polícia, nas ruas do Rio de Janeiro, ontem, estavam – infelizmente – e muitos nem sabem disso, defendendo não a Petrobras do “petróleo é nosso”, mas uma empresa que pertence, em mais de 40%, a capitais privados nacionais e estrangeiros, que irão lucrar, e muito, com o petróleo de Libra nos próximos anos.

De qualquer forma, a lei de partilha, da forma como foi aprovada, praticamente impedia que a Petrobras ficasse com 100% do negócio. Além disso, institucionalmente, a empresa tem sido sistematicamente sabotada, nos últimos anos, pelo lobby internacional do petróleo. E cometeram-se, no Brasil, diversos equívocos que a enfraqueceram empresarialmente, o mais grave deles, o incentivo dado à venda de automóveis, sem que se tivesse assegurado, primeiro, fontes alternativas – e, sobretudo nacionais – de combustível.

A questão geopolítica é, também, bastante delicada. O Brasil lançou-se, com determinação e talento, à pesquisa de petróleo na zona de projeção de nosso território no Atlântico Sul, antes de estar militarmente preparado para defendê-la.

O embate entre certos segmentos da reserva das Forças Armadas – principalmente aqueles que fazem lobby ou estão ligados a empresas de países ocidentais – e militares nacionalistas que propugnam que se busque tecnologia onde ela esteja disponível, como os BRICS, tem atrasado o efetivo rearme do país, que, embora necessário, deve ser conduzido com cautela, para não provocar nem atrair demasiadamente a  atenção de nossos adversários.

O mundo está mudando, e o Brasil com ele. Seria ideal se pudéssemos simplesmente virar as costas para os países ocidentais – que sempre exploraram nossas riquezas e tudo fizeram para tolher nosso  desenvolvimento – e nos integrarmos, de uma vez por todas, ao projeto BRICS, e a países como a China e a Índia, que estarão entre os maiores  mercados do mundo nas próximas décadas.

Esse movimento de aproximação com os maiores países emergentes –  lógico e inevitável, do ponto de vista histórico – terá que ser feito, no entanto, de forma paulatina e ponderada. Parte da sociedade ainda acredita – por ingenuidade, interesse próprio ou falta de brio, mesmo – que para sermos prósperos e felizes basta integrarmo-nos e sujeitarmo-nos plenamente à Europa e aos Estados Unidos. E que temos que abandonar toda veleidade de assumir um papel de importância no contexto geopolítico global, mesmo sendo a sexta maior economia e o quinto maior país do mundo em território e população.

É essa contradição e esse embate, que vivemos hoje, em vários aspectos da vida nacional, incluindo a defesa e a exploração de petróleo. É preciso explorar o petróleo do pré-sal e nos armar, para, se preciso for, defendê-lo.  Mas, nos dois casos, não podemos esperar para fazê-lo nas condições ideais.

O resultado do Leilão de Libra reflete, estrategicamente, essa contradição geopolítica. Mesmo que esse quadro não tenha sido ponderado para efeito da negociação, ele sugere que se buscou uma solução feita, na medida, para agradar a gregos e troianos. Sem deixar de mandar um recado aos norte-americanos.

Independente da questão de capital e de tecnologia – a da Petrobras é  superior à dos outros participantes do consórcio – poderíamos dizer que:

a) Os chineses entraram porque, como membros do BRICS, e parceiros antigos em outros projetos estratégicos, como o CBERS, não poderiam ficar de fora.

b) Os franceses foram contemplados porque são também parceiros estratégicos, no caso, na área bélica, por meio do PROSUB, na construção de nossos submarinos convencionais e atômico.

c)  Os anglo-holandeses da Shell – mais os ingleses que os holandeses – entraram não só para reforçar a postura de que o Brasil não estava fechando as portas ao “ocidente”, mas também para tapar a boca de quem, no país e no exterior, dizia que o leilão estaria fadado ao fracasso devido à ausência de capital privado.

O lobby internacional do petróleo, no entanto, não descansa. Antes e depois do resultado do leilão, já podia ser lido em dezenas de jornais, do Brasil e do exterior, que o modelo de partilha, do jeito que está, é insustentável e terá que ser mudado.

Apesar da declaração do Ministro de Minas e Energia de que o governo não pretende alterar nada – e da defesa dos resultados do leilão feita pela Presidente da República na televisão – já se fala na pele do urso e as favas se dão por contadas.

Os argumentos são de que não houve concorrência – interessante, será que o “mercado” pretendia que o governo ficasse com mais petróleo do que ficou? – que a Petrobras não tem escala para assumir os poços que serão licitados no futuro – uma “consultoria” estrangeira disse que a Petrobras já está com “as mãos cheias” com Libra, e as exigências de conteúdo local.

Isso tudo quer dizer o seguinte: a guerra pelo petróleo brasileiro não acaba com o leilão de Libra. Ela está apenas começando, e vai ficar cada vez pior. Já que não podemos ter o ideal, fiquemos com o possível. Os desafios para a Petrobras, daqui pra frente, serão tremendos, tanto do ponto de vista institucional, quanto do operacional, na formação e contratação de mão de obra, no gerenciamento de projetos, no endividamento, no conteúdo nacional.

É hora de cerrar fileiras em torno daquela que é – com todos os seus problemas – a nossa maior empresa de petróleo.

A sorte está lançada. A partir de agora, os adversários do Brasil, e da Petrobras, vão fazer de tudo para que ela se dê mal no pré-sal.

Leia também:

Paulo Metri: Muito além do branco ou preto





40 comentários

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maria meneses

27 de outubro de 2013 às 17h51

Eu tenho a maior admiração pelo Mauro Santayana por sua experiência sua coerência e lucidez.Escreve com clareza e ama este país.Parabéns Azenha por nos brindar com seus artigos e articulistas. Um abração.

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RETAS DE VISTAS

27 de outubro de 2013 às 14h58

Abaixo,a introdução de uma entrevista do cientista político Muniz Bandeira, publica no portal Carta Maior, e que dialoga com o texto de Santayna, em sua ênfase geopolítica.

Em 2005, o cientista político e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira apontou em seu livro “Formação do Império Americano” as práticas de espionagem exercidas pelas agências de inteligência dos Estados Unidos. Uma prática que, segundo ele, já tem aproximadamente meio século de existência. Desde os fins dos anos 60, diz Moniz Bandeira, a coleta de inteligência econômica e informações sobre o desenvolvimento científico e tecnológico de outros países, adversos e aliados, tornou-se uma prioridade do trabalho dessas agências.

Em seu novo livro, “A Segunda Guerra Fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos – Das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio” (Civilização Brasileira), Moniz Bandeira defende a tese de que os Estados Unidos continuam a implementar a estratégia da full spectrum dominance (dominação de espectro total) contra a presença da Rússia e da China naquelas regiões. “As revoltas da Primavera Árabe”, afirma o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que assina o prefácio do livro, “não foram nem espontâneas e ainda muito menos democráticas, mas que nelas tiveram papel fundamental os Estados Unidos, na promoção da agitação e da subversão, por meio do envio de armas e de pessoal, direta ou indiretamente, através do Qatar e da Arábia Saudita”,

Nesta nova obra, Moniz Bandeira aprofunda e atualiza as questões apresentadas em “Formação do Império Americano”. “Em face das revoltas ocorridas na África do Norte e no Oriente Médio a partir de 2010, julguei necessário expandir e atualizar o estudo. Tratei de fazê-lo, entre e março e novembro de 2012”, afirma o autor. É neste contexto que o cientista político analisa as recentes denúncias de espionagem praticadas pelos EUA em vários países, inclusive o Brasil.

A definição do Brasil como alvo de espionagem também não é de hoje. Em entrevista à Carta Maior, Moniz Bandeira assinala que a Agência Nacional de Segurança (NSA) interveio na concorrência para a montagem do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), pelo Brasil, e assegurou a vitória da Raytheon, a companhia encarregada da manutenção e serviços de engenharia da estação de interceptação de satélites do sistema Echelon. Na entrevista, o cientista político conta um pouco da história desse esquema de espionagem que, para ele, está a serviço de um projeto de poder imperial de proporções planetárias.

Moniz Bandeira defende que o Brasil, especialmente a partir da descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, deve se preparar para defender seus interesses contra esse projeto imperial. “As ameaças existem, conquanto possam parecer remotas. Mas o Direito Internacional só é respeitado quando uma nação tem capacidade de retaliar”, afirma.

A entrevista na íntegra pode ser acessada em http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Moniz-Bandeira-O-Brasil-e-as-ameacas-de-projeto-imperial-dos-EUA/6/29340

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Fernando

27 de outubro de 2013 às 12h54

Já que não podemos ter o ideal, fiquemos com o possível. Essa frase diz tudo o que penso e até esçrevi dias atrás em comentário aqui no site. Dilma é a îúnica candidata que ainda olha o campo progressista e quem duvidar que leia a entrevista do eduardo campos hj.

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Reviravolta nas ruas fortalece Dilma para 2014 - Viomundo - O que você não vê na mídia

27 de outubro de 2013 às 11h13

[…] O segredo das Sete Irmãs e o pré-sal brasileiro […]

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Jayme Vasconcellos Soares

27 de outubro de 2013 às 11h03

Os fundamentalistas do PT agora são defensores intransigentes do neoliberalismo, do entreguismo, da globalização de nossas riquezas econômicas. Os argumentos são os mesmos da nossa direita: não temos condições de tomar conta do que é nosso; precisamos de economias externas fortes para defender os interesses de nosso País. Alegar que o modelo econômico atual exige da economia brasileira acomodar-se ao modelo neoliberal, de interesse de empresa multinacionais, vigente, que atingem os países emergentes, contradiz o que os representantes do PT defendiam e diziam para os eleitores brasileiros, na eleição passada para Presidente. O que os fundamentalistas do PT defendem, e querem , a todo preço, é a continuidade do poder, não importa o sacrifício, e a alienação dos direitos de gerações futuras dos brasileiros.

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    rafaelV

    27 de outubro de 2013 às 13h50

    Somente um beócio fundamentalista obsessivo desinformado e desinformante chamaria Mauro Santayana de “petista fundamentalista”.

    RIcardo Munhoz

    27 de outubro de 2013 às 17h31

    Como uma pessoa pode ser tão mesquinha em atacar o PT desta forma. Não se compara o que o que o psdb e a direita colonizada fez com o que os Governos Lula-Dilma estão fazendo. Eles queriam vender a Petrobras, hoje o PT está fazendo dinheiro para aplicar em educação e saúde, coisa que os filhotes da ditadura junto com seus pais destruíram desde 1964. Temos e teremos o controle do petróleo diferentemente daqueles que queriam transformá-la em Petrobrax. A política de favorecimento para os mais pobres e com transformação social relevante é e será a bandeira permanente do PT. Agora, se vc acha que o que está sendo feito para a manutenção do poder, excelente, somente assim recuperaremos a dignidade do povo brasileiro, não aquela economia de inércia e escravidão aos países do norte. Chega de sermos subjugados, abram as portas, povo está chegando para ficar. Saudações sempre brasileiras.

Capilé

27 de outubro de 2013 às 11h00

Para pensar:
“O PT sempre enxergou os movimentos sociais como suas extensões partidárias. Os líderes mais destacados desses movimentos são militantes petistas. O financiamento público elevou a conexão a um novo patamar: na última década, eles se converteram em satélites do Palácio. Os dirigentes do MST, do MAB e de vários movimentos similares ajustam suas agendas políticas às do PT e cerram fileiras com o lulopetismo nos embates eleitorais. Durante a odisseia do mensalão, eles desceram às trincheiras da guerra para proteger José Dirceu e amigos. Contudo, na dialética do supercorporativismo, os movimentos sociais também precisam promover mobilizações contra o governo, sob pena de se condenarem à irrelevância.

O corporativismo varguista almejava a harmonia social. No mecanismo de regulação do lulopetismo, a desordem é um componente da ordem. Os movimentos sociais palacianos produzem fricções cíclicas, que são reabsorvidas pelo recurso a negociações simbólicas e compensações materiais. A extensão inevitável do “direito à desordem” a movimentos controlados por facções dissidentes (PSOL, PSTU) provoca perturbações suplementares, mas, paradoxalmente, robustece os alicerces lógicos do supercorporativismo. Os invasores do Ministério de Minas e Energia são obrigados a confirmar periodicamente seu estatuto de interlocutores privilegiados do poder por meio de ações de contestação limitada da ordem.”

Responder

Euler

27 de outubro de 2013 às 01h13

O texto é ponderado, sem os dogmatismos ideológicos de parte da esquerda e dos nacionalistas. Mas exagera um pouco na questão da defesa militar. Não que seja uma questão irrelevante, mas o Brasil não tem a menor condição de defesa contra países imperialistas, como EUA ou Inglaterra. Mas tem um grande poder e potencial de articulação política e diplomática com outros povos e países, como Rússia, China, além dos vizinhos latino-americanos. E talvez a grande força do Brasil seja justamente esta sua condição de não possuir um poder bélico que se destaque, mas de possuir um capital moral, político, que imponha o mínimo de respeito.

Nosso maior problema é interno mesmo, e não relacionado à defesa militar externa. As grandes empresas multinacionais, seus governos e associados locais vão tentar se apropriar de mais estas riquezas do Brasil através de mecanismos que sempre utilizaram. Um destes mecanismos, o controle do monopólio da mídia, que diariamente sabota os projetos a favor da população pobre e defende políticas neoliberais ao agrado dos “donos do mundo”. Um outro mecanismo: o controle das instituições brasileiras – parlamentos, justiça, governos, partidos, sindicatos, etc. Quem tem um congresso nacional e um stf como os do Brasil não precisa de inimigos externos.

Nos limites da coalizão que mantém o governo Dilma, se conseguirem que pelo menos a metade do petróleo extraído de Libra seja revertido em políticas sociais – Educação, Saúde, moradia popular, transporte coletivo melhor e mais eficiente (ou de graça), já terá sido um grande ganho.

É bom lembrar – e já disse isso em outros textos – que o Brasil hoje produz (PIB) em torno de R$ 4 trilhões anualmente – valor que representa o dobro do que se espera do petróleo de Libra num período de 20 anos. Ou seja: a realidade atual revela um país cujas riquezas, que são gigantescas, não são usadas em benefício da maioria pobre, mas são abocanhadas por uma reduzida e privilegiada elite.

Imaginar, portanto, que este país, com estas características, incluindo a realidade de uma débil democracia e instituições não controladas pelos de baixo, de repente passasse a se apropriar das riquezas como o pré-sal de uma forma totalmente diferente, em favor dos de baixo, é, no mínimo, ingenuidade.

A população brasileira – dos de baixo – terá que se organizar e lutar muito ainda para construir um presente mais próximo do futuro que sempre fora prometido.

Responder

    Joseney Matos

    27 de outubro de 2013 às 10h47

    Euler,

    Parabéns pelo comentário. Realmente o grande problema do Brasil é não ser valorizado pelos próprios brasileiros, a exemplo do nosso corpo jurídico ( STF) e político.

    Bertold

    27 de outubro de 2013 às 11h00

    Carinha, me desculpe a intimidade, mas é por ai… compartilho o mesmo ponto de vista.

    RETAS DE VISTAS

    27 de outubro de 2013 às 13h27

    A ingenuidade de uma mente reformista que acredita na capacidade de articulação política como neutralizadora do poderio militar custou caro aos povos. Mas , o que fazer? O reformismo exerce uma forte atração ideológica ( a conquista de vitórias sem derramamento de sangue tem forte justificativa moral-religiosa) e , por isso mesmo, os trabalhadores e os povos seguem marcando passo em sua luta em defesa de sua soberania, da democracia e do socialismo. Enquanto os reformistas se elogiam, os navios da IV frota singram as águas do Atlântico Sul, os iaques levantam o cerco militar à China no Pacífico, e o futuro prepara a terceira guerra mundial.

    maria meneses

    27 de outubro de 2013 às 17h06

    eu também gostei de seu comentário.

Sergio Medeiros Rodrigues

27 de outubro de 2013 às 00h51

O leilão de Libra e a imprescindível correlação de forças
Sergio Medeiros Rodrigues
Nesta análise o autor não esqueceu a mais importante questão a ser apreciada, e que se tornou de tal forma evidente antes do leilão que fica difícil entender tal esquecimento. Pelos demais analistas
Falo da questão básica acerca da correlação de forças necessárias para que um empreendimento com tal magnitude tenha plenas condições de êxito.
E, não se trata de mera questão conjuntural, e sim estrutural, pois ínsita ao modelo capitalista – quer queiramos ou não -, em que vivemos (este, aliás, o componente que certos setores mais à esquerda não consideraram em suas manifestações).
Ressalto, a referida correlação de forças, não tem componentes únicos, ou seja, não é somente a mídia, mas também o capital financeiro, as concorrentes, o setor político, com matizes ideológicas extremas etc.
Pois bem, dentro deste espectro, se considerarmos somente o comportamento da mídia, a qual tem importante participação, inclusive anímica, em relação ao mercado e, tomando-se como exemplo os recentes ataques a Petrobras, que inegavelmente causaram prejuízos não somente a imagem, mas também a força financeira necessária em tempos normais, o que diríamos em tempos de crise mundial, pode, de logo, ver que tipo de adversários teríamos pela frente.
Assim, o acordo, do qual resultou o consórcio noticiado, foi sem dúvida nenhuma excepcional.
A política, diz-se, é a arte do possível
Muitas vezes, a economia, em face de determinadas forças antagonistas, também revela ser a arte do possível, e mais, do recomendável.
A inclusão de multinacionais de capital privado como a SHELL (anglo-holandesa) e da TOTAL (francesa), combinados com o maciço investimento a ser despendido na exploração de Libra, trazem a segurança de que eventuais campanhas midiáticas, terão a devida resposta, não somente do campo governamental, mas também do setor espinhoso que envolve o grande capital internacional.
A aposta das consorciadas, neste ponto, pelo valor investido, é que sem dúvida alguma foi um grande negócio, e, portanto, merece ser protegido do interesse das demais concorrentes. Quanto ao mercado, este tratará de proteger as usas mais nobres integrantes
Neste panorama, uma exploração do Pré-sal somente pela PETROBRAS, teria tal oposição (não somente política, mas midiática, financeira, ideológica, etc), que seria um milagre se o empreendimento tivesse êxito.
Desta forma, a alternativa colocada por muitos analistas, a de exploração de Libra de forma integral pelo Brasil, através da PETROBRAS, não resiste a uma simples análise, pois, não é uma impossibilidade técnica ou meramente financeira, o problema é que estaria em desconformidade com o modelo econômico hegemônico em todo o planeta, e que não mediria esforços em derrotar tal iniciativa.
Outro ponto lembrado pelo Nassif, mas infelizmente subestimado, e que considero a questão central, é o fato de que a operação é toda da PETROBRAS. Aliado a isso temos a ênfase legal e contratual dada ao desenvolvimento de tecnologias nacionais e, da prioridade para a atuação de empresas brasileiras, fato este fundamental para o desenvolvimento da nossa economia.
Certamente que o destino e a forma de partição do produto e dos lucros do empreendimento são, sem dúvida alguma, de importância exponencial, mas, e a questão concernente a quem deve explorar, no sentido exato do termo, qual a dimensão da concretização da exploração??
Cito inicialmente apenas a manchete de alguns dias atrás, em que o superávit primário somente resultou positivo em razão da comercialização de plataformas de petróleo. Outra, a previsão de investimentos no Porto de Rio Grande (RS), na construção de plataformas de petróleo na ordem de vários bilhões. O desenvolvimento do pólo naval do Rio de Janeiro, etc..
Tais previsões com a entrada em exploração do pré-sal deve ser reestimada em centenas de bilhões.
Desta forma, sendo a PETROBRAS o operador, ou seja, quem explora, e estando legal e contratualmente previstas as contrapartidas de nacionalização dos produtos e materiais necessários a exploração, qual será a real participação dos lucros da referida estatal e por via indireta, do governo.
A mudança de paradigma da PETROBRAS não se resumiu a determinação governamental de que se fizessem plataformas no Brasil, mas, fundamentalmente porque a partir daí se desenvolveu um know-how nacional na produção de tais instrumentos.
O desenvolvimento da indústria naval e petrolífera no Brasil, somente com este direcionamento para a produção nacional, já foi excepcional, o que comprovaria que, tanto quanto a definição de para quem vão os lucros ao final apurados, é o fato que indubitavelmente, o maior lucro é do PAÍS que desenvolve tecnologias, cria um inteligência – cada vez mais reconhecida no setor, dá empregos e, ainda, até mesmo, no campo dos lucros, em razão de ser quem operacionaliza a produção, é quem obterá, efetivamente, a maior parte dos lucros monetários.
Por fim, a PETROBRAS é uma empresa de economia mista que compete em um mercado extremamente competitivo e cartelizado, fato este que impede o governo de direcioná-la tão somente para os fins de beneficiamento do Estado, uma vez presente os interesses dos demais acionistas e, é claro, da própria saúde financeira da própria.
Considera-se Sociedade de Economia Mista a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, criada por lei para a exploração de atividade econômica, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto pertençam em sua maioria à União ou a entidade da Administração Indireta.
As premissas acima levantadas, pelo autor e por vários outros que eram contra o leilão, se baseiam, eminentemente em questões técnicas, sobre as quais, diga-se de passagem, em tese, não há discordância entre os debatedores, ou seja, todos concordam que o campo de Libra, teoricamente é maior que o anunciado e que a Petrobras teria plenas condições de explorá-lo.
Entretanto, todos concordam que a Petrobras também não tem dinheiro para isso.
Sugerem que bastaria a Petrobrás pegar dinheiro emprestado junto ao mercado internacional. Neste caso, junto ao mercado financeiro, sabidamente o maior predador que existe e que, em hipótese alguma sairia barato.
Ao invés disso, o governo escolheu buscar o dinheiro para a exploração junto ao capital das empresas petrolíferas.
Esta opção, tanto no que se refere a opção pelo dito capital produtivo em oposição ao capital especulativo, tem duas vertentes, uma, o fortalecimento das empresas frente ao rentismo e outra, a proteção da Petrobras frente a este capital especulativo que via de regra tenta a todo momento inviabilizar a empresa.
A sugestão de que com o potencial de Libra seria fácil obter capital internacional, teria no mínimo um óbice neste mesmo campo. Quando da capitalização da Petrobrás, foi cedido à empresa pela União, a cessão onerosa para a exploração de 5 bilhões barris (Libra tem avaliações entre 8 e 12 bilhões) e, isso, não resultou na alavancagem necessária para a exploração do pré-sal.
Vejam bem, a opção não foi feita sem bases sólidas.
A busca de capital não é tão fácil como foi apregoado, vide a questão da capitalização da Petrobras que resultou, ao final, na compra pela própria União de grande parte das ações colocadas a venda. Esquecem que o retorno do investimento do pré-sal virá a longo prazo e que no Brasil ninguém que aplica na Bolsa, quer ficar com capital investido durante mais de dez anos para só então começar a ter suas expectativas de retorno se concretizando, e o capital especulativo é extremamente volátil e não se envolve em projetos produtivos.
Por fim, a questão da correlação de forças, ínsita em tais embates, não pode ser desconhecida de nenhum dirigente sindical que se preze, e sabe que estava em jogo algo mais que a simples decisão de quem tem condições de explorar, mas sim, a de a quem será dado condições de explorar.
O governo fez a escolha pela opção viável.

Responder

Marcelo Sant'Anna

27 de outubro de 2013 às 00h28

Cada vez a minha certeza que não se deve tramar contra os outros se torna verdade. É só ver o que acontece com os EUA, tramam e são engolidos pelas suas próprias criaturas. Quais serão as próximos monstros que devorarão os americanos: os chineses, os indianos, os brasileiros, quem sabe.

Responder

Luís CPPrudente

26 de outubro de 2013 às 21h25

O ideal é que o campo de Libra ficasse 100% nas mãos do povo brasileiro, ou seja do PPSA. Mas a realidade é outra.

A realidade, no momento, impôs que houvesse a necessidade do Leilão de Libra como ocorreu.

Muitos dos que criticam o leilão de Libra preferiam que não houvesse leilão, que não houvesse Petrobras, que o Brasil fosse o Brasil da Era FHC, entreguista e privatista. Um Brasil de estado mínimo e Mercado Máximo.

Responder

Pedro Cavalcante

26 de outubro de 2013 às 21h10

Parabéns Azenha
pela puta melhora de compania
Santayana
mas Azenha ele não é do teu time!

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    26 de outubro de 2013 às 21h38

    Santayana é meu amigo. Sorry!

    Pedro Cavalcante

    26 de outubro de 2013 às 21h48

    Tenho amigos que
    não são do meu time

    Luís CPPrudente

    27 de outubro de 2013 às 10h36

    Já que estamos falando de time. O Luiz Carlos Azenha é do mesmo time que eu: torcemos para o eterno Santos Futebol Clube.

    Parabéns Santayana por conseguir resumir em poucas linhas e de forma clara o que penso.

    Com certeza ele deve jogar no meu time também: o time que defende a democracia e os avanços sociais.

    Luiz Carlos Azenha

    27 de outubro de 2013 às 10h47

    Por Mauro Santayana: O jornalista é um homem comum, que consegue ver o mundo e escrever sobre seu dia-a-dia. Não é escritor, na identificação que a sociedade dá ao homem de letras. Não é especialista em nada; flutua sobre os assuntos, como uma libélula recenseia as lagunas de águas estanhadas, com sua vegetação estranha. Sua notoriedade é efêmera. Mas, de alguma forma, os bons jornalistas têm a sua atuação gravada no tempo, e queiram ou não queiram, ao influir sobre o cotidiano, influem na História.

Jayme Vasconcellos Soares

26 de outubro de 2013 às 21h04

Embora o governo Dilma e de Fernando Henrique tenham privatizado quase integralmente quase todas as nossas alternativas de desenvolvimento econômico. ainda nos restam algumas fatias expressivas de reservas de petróleo e minerais que devemos preservar, para as gerações futuras de brasileiros; e para defender estes recursos devemos partir para a criação e implementção de um sistema de defesa nacional, com armas capazes de dissuadir a pirataria exógena de outros Países imperialistas, já sobejamente conhecidos na história das sociedades de todas as partes do mundo.

Responder

Antonio Vieira

26 de outubro de 2013 às 20h27

Enfrentamos vários problemas ao mesmo tempo. Graves problemas acumulados ao longo de nossa história como na saúde, educação, saneamento, infra estrutura, etc..etc… Cada coisa a seu tempo. Com os recursos que gerarmos com a extração do petróleo, poderemos constituir uma força de defesa dissuasiva, que nos dará maior segurança. Concordo que deveríamos fortalecer a UNASUL e juntos defendermos os interesses de nossa região.

Responder

RETAS DE VISTAS

26 de outubro de 2013 às 19h40

Esse foi o único artigo que abordou a questão pelo ângulo a que venho me referindo ( e que desisti de referir) ou seja, a questão geopolítica, da nossa capacidade de defender militarmente as nossas reservas de petróleo em alto mar. Não tenho a menor dúvida que dispomos de condições mais do que suficientes para defender nossas riquezas em terra firme. Ou melhor, uma defesa dessa natureza depende apenas de uma adequada capacidade de mobilização do povo, tal como se viu no Vietnã ou na Coréia. Citei como exemplo, o caso das Malvinas. Se tivessem os colonialistas ingleses ocupando uma faixa de terra firme da Argentina ( e não um arquipélago argentino em alto-mar) , estes poderiam facilmente ser expulsos deste suposto enclave colonial, já que bastaria mobilizar a sociedade argentina e lançar-se sobre os invasores. Como esse enclave colonial realiza-se em um conjunto de ilhas, a questão do poder militar marítimo favorece mais uma vez à marinha de “Sua Majestade Imperial”, dificultando as coisas para os argentinos. Estabeleci,então, um paralelo com a defesa de nossas reservas de petróleo em alto mar, considerando que a vulnerabilidade geopolítica desses recursos são muito grandes, e não está sendo levada em conta pelos comentaristas e analistas ( com exceção,agora, de Mauro Santayana). Rendo-me inteiramente aos argumentos e a análise de Santayana. Aliás, fico impressionado com os casos em que coincidimos nos pontos de vista. Considero tudo o que li até aqui, enfoques economicistas, uns travestidos de nacionalismo esquerdista e, outros, de desenvolvimentismo pragmático. Falar em soberania e não levar em conta as condições objetivas indispensáveis para defendê-la é falar para não dizer nada. Já disse que , em minha opinião, os demais países da Unasul devem fazer parte dessa equação. A construção de uma capacidade militar de defender nossas riquezas da em alto-mar pode legitimar um processo de integração regional que padece de maior efetividade. Uma força naval unasulina capaz de defender não apenas as riquezas do pré-sal , mas também de anular o poder intimidatório da marinha britânica nas Malvinas e da IV frota ianque no Atlântico Sul pode ser um passo consistente no sentido de construção de uma América Latina unitária.

Responder

FrancoAtirador

26 de outubro de 2013 às 19h30

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Movimentos Sociais, Estudantis e Sindicais acusados de ‘Traíras’.

Isso está muito bem registrado para a campanha eleitoral de 2014.

Apoiadores da Campanha ‘O Petróleo Tem de Ser Nosso!’:


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Responder

m.a.p

26 de outubro de 2013 às 19h13

Realmente é um prazer ler um artigo no qual todas as variáveis são escrutinadas não ficando a mercê somente da ideologia ou dos interesses corporativos.
Vida longa ao velho mestre Santayana.

Responder

Flávio Antonio Ferlin Lopes

26 de outubro de 2013 às 18h52

Concordo com o Mauro: o “ótimo” é inimigo do “bom” e nós fizemos um bom leilão.

Responder

Clarice

26 de outubro de 2013 às 17h57

“que a Petrobras não tem escala para assumir os poços que serão licitados no futuro” -> isso já foi feito pelo lobby governista pra justificar o leilão de Libra

“E cometeram-se, no Brasil, diversos equívocos que a enfraqueceram empresarialmente, o mais grave deles, o incentivo dado à venda de automóveis, sem que se tivesse assegurado, primeiro, fontes alternativas – e, sobretudo nacionais – de combustível” -> IPI zero para os empresários e importação de derivados sem reajuste bancado pela Petrobras, que é quem desenvolve os combustíveis “alternativos” e convencionais – bom frisar que nenhuma das refinarias anunciadas saiu, no caso da Premium II o terreno não foi sequer terraplanado (mas o sujeito entra no site do PAC e vê que 10% da obra está concluída, só se o projeto corresponder a 10%)

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J Souza

26 de outubro de 2013 às 17h41

E os “‘royalties’ para a educação e a saúde”, hein?
Só vão sair depois de 2020!
Mas, a presidente Dilma “João Santana” Rousseff já os usou no seu “pronunciamento de campanha” em rede nacional sobre o pré-sal…

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    Clarice

    26 de outubro de 2013 às 18h07

    E a Petrobras que está de “mãos amarradas” com conteúdo local. Não entendi. Não iriam, pela primeira vez na história da ANP, TODOS cumprir o conteúdo local? A indústria naval, ressuscitada apenas e somente pelas encomendas da Petrobras, não seria “aquecida” e “incendiada” pelas encomendas a Libra?

    Julio Kling

    26 de outubro de 2013 às 18h28

    Vc. preferia pagar do seu bolso a exploração do pré-sal ? Aí sim não sobraria dinheiro para educação ou saúde. Não existe modelo alternativo nesse caso Os críticos de plantão sequer tem alternativas viáveis para apresentar Só querem é encher o saco com suas bazófias.

    Clarice

    26 de outubro de 2013 às 20h41

    Quem iria pagar era o mercado financeiro. A propósito, nem a Presidenta nem seus impostos pagam a conta dos importados sem reajustes.

    Antonio Vieira

    26 de outubro de 2013 às 20h16

    Vão sair em 8 anos mas, só vão sair porque a Presidenta Dilma garantiu hoje.

Márcia

26 de outubro de 2013 às 16h25

Até que em fim um artigo sensato que, mesmo não abordando as questões técnicas, aponta os interesses da macro-política sem ficar tergiversando sobre os estádios da Copa, sobre a precariedade da educação e da saúde no Brasil nos moldes da “discussão política” do Ildo Sauer tão contemplada aqui.

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    assalariado.

    26 de outubro de 2013 às 17h51

    Caríssima Márcia, como falar dos ovos sem falar das galinhas. Ou seja, o petróleo, segundo a ‘lógica’ de que é do povo brasileiro, nada melhor do que ter efeitos colaterais de melhoras nas condições de vida do povo, ora essa!

    Abraços Fraternos.

    Janah

    26 de outubro de 2013 às 18h04

    5 Estrelas

Clarice

26 de outubro de 2013 às 16h01

Uai, vi a chamada e pensei que iam revelar o GRANDE SEGREDO(que deve ter até no Wikipedia) que a Shell (anglo-holandesa) pertence ao cartel das desistentes BP (UK), ExxonMobil (US) e Chevron (US). A questão não é de lucros, é de controle e retenção de produção in natura.

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lukas

26 de outubro de 2013 às 15h28

Talvez o articulista considere também que o pão, tão ou mais importante que o petróleo, devesse ficar sob responsabilidade de uma empresa 100% estatal, a Pãobrás.

Para aqueles que acham que é piada, perguntem a ele…

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    pedro

    26 de outubro de 2013 às 19h53

    Lukas, o caminhão que leva a farinha até a padaria é movido a diesel, produto do petróleo.

    RETAS DE VISTAS

    27 de outubro de 2013 às 13h37

    O trigo é uma riqueza renovável e nem mesmo estratégica ( pode-se ficar sem comer trigo, embora os italianos certamente se ressentiriam de sua falta à mesa, a ponto de ter a ilusão de que não mais teriam o que comer). Não existe monopólio de sua produção ao largo do mundo, mas apenas limitações de ordem climáticas que impõem, por enquanto, a sua produção em áreas temperadas, embora a EMBRAPA ( uma empresa de pesquisa 100% estatal) já esteja desenvolvendo variedades passíveis de serem cultivas em áreas de cerrado ou savana, como as existentes no Brasil e na África).


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