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Mike Whitney: Uma campanha clandestina contra os direitos sociais


02/06/2012 - 20h48

A Europa mais próxima da ditadura dos bancos

por MIKE WHITNEY, no Counterpunch, em 01.06.2012

Juros nos papéis de dez anos do Tesouro [norte-americano] cairam para o recorde de baixa de 1,56% na quinta-feira de manhã, quando investidores em pânico fugiram de bens financeiros europeus para papéis dos governos da Alemanha e dos Estados Unidos.

A deterioração das condições de crédito, uma série de rebaixamentos de crédito e corridas bancárias na Espanha e na Grécia detonaram uma fuga para a segurança que jogou o papel do Tesouro a taxa que ficou abaixo de seu recorde anterior, de 1,67%. Isso significa que os investidores perderam a confiança na capacidade das autoridades da União Europeia de resolver a crise da dívida, particularmente a relacionada com a Grécia e a Espanha.

A atual crise, que é resultado principalmente de uma expansão de crédito excessiva e de gerenciamento de risco ruim de bancos europeus, está sendo usada pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu para impor uma “união bancária” e promover cortes selvagens em programas sociais, de saúde e de aposentadorias.

A resposta das autoridades europeias é uma contrarrevolução social desenhada para transformar a união monetária de 17 membros numa “zona de austeridade” permanente, governada por elites corporativas e financeiras. Leia isso, da Reuters:

 A zona do euro precisa acelerar o crescimento e cortar a dívida para reconquistar a confianças de investidores, mas deve também trabalhar por uma união bancária, considerar a emissão de títulos europeus e a recapitalização direta dos bancos a partir de um fundo de resgate permanente, disse na quarta-feira a Comissão Europeia ao definir suas recomendações para este ano.

“Uma integração mais próxima entre os países da zona do euro em práticas e estruturas de supervisão, em gerenciamento de crises além-fronteiras e em compartilhar os problemas, em direção a uma ‘união bancária’, seria um importante complemento para a atual estrutura” da união econômica e monetária, disse a Comissão.

“No mesmo campo, para romper a ligação entre bancos e soberanias, a possibilidade de recapitalização direta  através do Mecanismo Europeu de Estabilização (ESM) deve ser prevista”, disse o documento.

(“EU calls for eurozone banking union, direct bank recapitalisations”, IFR, Reuters)

O fundo permanente de resgate, ESM (European Stabilization Mechanism), ainda não foi ratificado por todos os 17 países membros e a Comissão Europeia já quer mudar o mandato dele para incluir resgate direto de bancos.

O financiamento direto de bancos quebrados é uma tentativa de sequestrar a política, uma tentativa de estabelecer a primazia dos bancos da mesma forma que o TARP [Programa de Resgate de Bens Vulneráveis, Troubled Asset Relief Program] foi usado nos Estados Unidos para criar as empresas Muito Grandes para Falir. MGF significa fundir os bancos aos estados e que os contribuintes darão garantias sem condições para sua sobrevivência. A Europa está se movendo rapidamente em direção ao mesmo modelo.

A chanceler alemã Angela Merkel se opõe a permitir que o ESM recapitalize os bancos espanhóis, mas ela deve capitular se a crise se aprofundar. Se ceder, então os bancos mal administrados não terão de reestruturar suas dívidas, de provocar perdas para acionistas e credores, de remover bens ruins do balanço ou de trocar seus diretores.

Todos os custos de um resgate ficariam com os contribuintes, o que é exatamente o que querem os líderes da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. Ao mesmo tempo, o aprofundamento da crise será usado para impor mais reformas fiscais, que já fizeram o desemprego atingir os maiores índices em 20 anos, submergindo o sul da Europa em recessão severa.

Mais da Reuters:

“… privadamente os ministros são claros quanto ao desejo de ver a implementação de medidas de garantia de depósitos bancários de alcance europeu para evitar rapidamente o risco de um evento que seria catastrófico. Existem sinais de que o Banco Central Europeu apoia as garantias para os depósitos.

Os problemas estão se acumulando em outras frentes. Com os custos [da Espanha] para emprestar aumentando rapidamente para 7% e a maioria dos investidores estrangeiros evitando a dívida espanhola, o governo vai ter dificuldades crescentes para refinanciar os 98 bilhões de euros e encontrar outros 52 bilhões para financiar seu déficit deste ano.

Os bancos locais já não emprestam ou oferecem empréstimos a taxas proibitivamente altas, apertando as empresas e aumentando o risco de uma sequência de falências que poderia fazer a economia mergulhar de cabeça. O total de empréstimos do sistema bancário para o setor de negócios foi de 44,6 bilhões de euros até o final de março, metade do que era no fim do boom de 2007, e a contração continua mês a mês, de acordo com dados do Banco da Espanha.

Os consumidores estão adiando grandes compras e cortando os gastos. O crescente custo dos empréstimos se tornou uma obsessão nacional desde a crise… O governo admite que a situação é crítica”.

(“Spain cries for help: is Berlin listening?”, Reuters)

A Comissão Europeia e o BCE estão permitindo que a crise se aprofunde para atingir seus objetivos, que incluem a união fiscal controlada pelos bancos com acesso ilimitadoa a fundos e o poder de impor políticas (“austeridade”) através de coerção. Aqui um trecho do que escreveu Mark Weisbrot, que vê motivação política por trás da dívida:

“Tenho argumentado por algum tempo que a crise recorrente da zona do euro não é guiada por demandas dos mercados por austeridade em um período recessivo, como se ouve frequentemente. Em vez disso, a causa primária da crise e de seu prolongamento é a agenda política das autoridades europeias — lideradas pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela Comissão Europeia.

Estas autoridades (as quais, se incluirmos o FMI, constituem a troica que define a política econômica da zona do euro) querem forçar mudanças políticas, particularmente nos países mais frágeis, mudanças nas quais os eleitores destes países nunca votariam”.

(“Europeans’ economic future has been hijacked by dangerous ideologues”, The Guardian)

[Para íntegra no Viomundo, clique aqui]

É tudo política. Política direitista. 100% dos economistas de reputação que comentaram a crise da dívida criticaram a forma como foi gerenciada, particularmente quanto a medidas de austeridade. Você realmente acha que a Merkel ou o [Mario, primeiro-ministro da Itália] Draghi são mais inteligentes que Stiglitz, Krugman, Reich, Eichengreen, Thomas, Weisbrot, Galbraith, Baker, Roubini, etc. etc?

Não. A Merkel não tem formação econômica e Draghi já foi banqueiro de investimento da Goldman Sachs.

Essa gente não está interessada em arrumar a economia da zona do euro. Eles estão engajados em uma campanha clandestina para reestruturar a sociedade europeia, para desfazer a rede de bem estar social, para fazer refluir os ganhos progressistas do século passado e para reduzir boa parte do continente à pobreza do terceiro mundo. Uma união bancária vai solidificar ainda mais o poder das grandes finanças sobre os estados individuais — e este é o objetivo principal.

MIKE WHITNEY lives in Washington state. He is a contributor to Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press). Hopeless is also available in a Kindle edition. He can be reached at [email protected]

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14 comentários

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Diana Assunção: USP sobe no ranking baseada em trabalho semi-escravo « Viomundo – O que você não vê na mídia

25 de março de 2013 às 11h00

[…] Mike Whitney: Uma campanha clandestina contra os direitos sociais na Europa  […]

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Guardian: A crise europeia atinge novo patamar « Viomundo – O que você não vê na mídia

27 de setembro de 2012 às 13h25

[…] Mike Whitney: A Europa mais próxima da ditadura dos bancos […]

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Stiglitz: Socorro aos bancos da Espanha não vai funcionar « Viomundo – O que você não vê na mídia

13 de junho de 2012 às 12h34

[…] Mike Whitney: Uma campanha clandestina contra os direitos sociais […]

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Pedro

05 de junho de 2012 às 12h19

Não entendo nada do que escrevem os economistas. Mas não faço questão de entender. Falam, falam, falam, e jamais dizem que o que está acontecendo, está acontecendo na sociedade capitalista. Portanto, tudo o que dizem vale tanto quanto a falência dos bancos.
No que entendo do que está acontecendo, vejo, sim, um tremenda crise do dinheiro. Crise do dinheiro? Como não! Não é de dinheiro que se fala? E de crise? Então! Juntemos as duas palavras: crise do dinheiro. De que dinheiro? Do dinheiro capitalista, este que não encontra mais um lugar seguro na sociedade, que não quer se comprometer mais com a produção, que não sabe como realizar as trocas, etc. Que circula por aí, pela Suiça, pelos outros paraísos fiscais, ou seja, escodendo-se da sociedade, temendo a circulação que irriga a produção. O que é dinheiro podre senão capitalismo igualmente podre?

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Emiliano José: Temos o que ensinar à Europa « Viomundo – O que você não vê na mídia

04 de junho de 2012 às 18h14

[…] Mike Whitney: Uma campanha clandestina contra os direitos sociais […]

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Hans Bintje

04 de junho de 2012 às 15h42

Meus respeitos, Azenha!

Gostei, gostei do Viomundo. Finalmente alguém no Brasil mostra quais são os dados e as fontes que a “gringolândia malvada” acompanha.

O resto é mistificação do PIG, tanto nativo quanto estrangeiro.

Mike Whitney aprofundou essa análise no artigo seguinte, publicado dia 04/junho ( http://www.counterpunch.org/2012/06/04/in-negative-territory/ ).

Ele menciona um gráfico no texto, que pode ser visto neste link:

Os dados são reais e facilmente verificáveis. A Alemanha surge como um país grande credor, enquanto quase todos os outros estão afundando em dívidas.

A Holanda está relativamente bem na imagem porque estatizou uma parte considerável do sistema bancário antes que a crise se tornasse ainda mais feia. O pessoal fez isso porque os dados desse gráfico são acompanhados metodicamente por lá.

É uma situação insustentável: não existe uma “ilha de prosperidade” num “mar de falências”. A chance dos empréstimos alemães serem pagos é mínima, para dizer isso de maneira educada.

Para os menos educados, recomendo ver o gráfico.

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RicardãoCarioca

04 de junho de 2012 às 10h15

Acho que o golpe que os financistas quiseram aplicar nos EUA em 2008 está sendo reaplicado agora na Europa. Nos EUA, como existe um goveno central, onde as ações podem ser tomadas de maneira mais rápida, isso pode ter atrapalhado a sua conclusão.

Já na Europa, com vários governos nacionais, tendo de haver reuniões para tudo, até reuniões para resolver agenda de reuniões, onde o ‘dividir para conquistar’ é mais fácil de ser implantado, aquele continente torna-se alvo preferencial dessa moderna ‘praga de gafanhotos’ bancário-financista, que, como a original, poderá migrar, para outros países e blocos econômicos.

Apesar de o bloco econômico sulamericano não ser comparável aos do hemisfério norte, acho que nada impede que, no futuro, uma nuvem de financistas-gafanhotos aporte por aqui.

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Izaías Almada: O samba do togado doido « Viomundo – O que você não vê na mídia

03 de junho de 2012 às 17h29

[…] Leia também: Mike Whitney: Uma campanha clandestina contra os direitos sociais […]

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R Godinho

03 de junho de 2012 às 14h36

É a contra-revolução em andamento!
A Europa vai mergulhar num totalitarismo de direita, não mais centrado em indústrias, mas em bancos. Como os EUA já estão nessa rota também, o resto do mundo vai na mesma direção em menos de 20 anos (ao menos o hemisfério ocidental…).
Os velhos comunistas do século XIX e início do XX achavam que a revolução proletária produziria, no final, um mundo unificado, sem estados nacionais, sob a liderança do proletário…
Ironia das ironias, a unificação planetária e o fim do estado nacional vão emergir não da revolução comunista, mas de sua antípoda, a contra-revolução dos banqueiros!
A História é, de fato, surpreendente…

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Ana Cruzzeli

03 de junho de 2012 às 11h23

Na verdade o que a Merkel mais do que ninguém teme é a maldição da Alemanha oriental. Eles gritavam lá atras que o capitalismo estava com os dias contados.
Eles abraçaram o capitalismo com muito gosto e arrastaram a Alemanha Oriental para a mesma vala comum. Agora devem sair da enrascada do endividamento soberano. Na minha ultima contagem da divida alemã está batendo em 90% do PIB. Aí mora o perigo não tem lastro algum. O tal do sucesso alemão é miragem quando chegamos mais perto é que percebemos que o que se vê que é pura areia.

Os comunistas na antiga Alemanha oriental só não gritam mais alto porque criou-se a ilusão que a Alemanha Ocidental os salvou e a realidade de agora foi por causa da reunificação, ou seja a reunificação teve um preço alto pago pelos ocidentais em admitir os orientais ¨atrasados¨. Coisa de doido, mas ainda funciona, até quando? Esse é o grande enigma.

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ZePovinho

03 de junho de 2012 às 00h45

Azenhão!!!Agora sou um cidadão viomundense que te lê em tela de 24 polegadas!!!

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abolicionista

02 de junho de 2012 às 23h14

É a ditadura do mercado financeiro?

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O_Brasileiro

02 de junho de 2012 às 22h19

O mesmo está acontecendo no Brasil, governado pela Sra. Rousseff.
Apesar de parte do crescimento quase ZERO do país ter sido causado por problemas sazonais/climáticos, as medidas de AUSTERIDADE e o atraso nas redução dos juros a partir de Brasília levaram a uma quase estagnação na capacidade de endividamento das famílias brasileiras.
Com salários quase congelados, com praticamente nenhum ganho real, e com os gatilhos de aumentos nos serviços públicos – transportes, energia, água e esgotos e telefonia – e dos aluguéis, somados aos aumentos das prestações da casa própria e dos financiamentos de automóveis, o poder aquisitivo da população vai declinando rapidamente.
Talvez as medidas tomadas por Brasília, redução de impostos e juros e aumento do dólar, salvem os empresários, mas não parecem que vão salvar os trabalhadores…

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ZePovinho

02 de junho de 2012 às 21h02

Não entendi,mizifio Azenha.Você postou aquela foto de uma coruja(uma óbvia mensagem subliminar de adesão aos Illuminatis) e agora publica matérias contra as políticas deles.Esse Azenha é perigoso,né não Gerson Carneiro????

Aqui vai mais lenha na fogueira:

Gary Webb on C.I.A. Trafficking of Cocaine

http://www.youtube.com/watch?v=d6dHqP9wc3k

Lets take a truthful look at who controls the media in the US, shall we?

Paramount Pictures Chairman Brad Grey is Jewish.

Sony Pictures Chairman Michael Lynton is Jewish.

Warner Bros. Chairman Barry Meyer is a Jew.

CBS Corp. Chief Executive Leslie Moonves is Jewish.

MGM Chairlady Mary Parent (unknown) ex-Chairman Harry Sloan is a Jew.

NBC Universal Chief Executive Jeff Zucker is a Jew.

cont…

RadioFlyffer

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