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FUP quer movimentos sociais na campanha contra os leilões da franja do pré-sal


01/10/2012 - 00h53

O coordenador da FUP fala sobre o imenso prejuízo que a retomada dos leilões de petróleo traz à soberania nacional

do site da Federação Única dos Petroleiros

Em entrevista ao Portal do Mundo do Trabalho, o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antonio Moraes, condenou a retomada dos leilões de concessão de petróleo e gás, marcada para 12 de setembro, “cinco dias depois do dia da Pátria”, como “uma agressão à nacionalidade” [NR: data do anúncio oficial das futuras rodadas]. “É como se desconhecessem que cada gota deste patrimônio é estratégico para o desenvolvimento desta e das futuras gerações. A retomada dos leilões de petróleo traz imensos prejuízos à soberania nacional”. Na entrevista, Moraes demonstra como o país necessita contar com estruturas públicas, e elogia a postura da BR Distribuidora de enfrentar os abusos do cartel de combustíveis e derrubar o preço a fim de beneficiar o consumidor. Caso a Petrobrás tivesse sido privatizada, como queriam Fernando Henrique, David Zilberstajn e Reichstul Henri Philippe — recém nomeado para ser conselheiro do governo – o estado não teria como intervir, destaca.  “A FUP entrará em campo ao lado dos movimentos sociais para defender o patrimônio dos brasileiros, mobilizando a sociedade contra a alienação das nossas riquezas a meia dúzia de exploradores privados, na sua maioria estrangeiros, que querem se adonar do nosso petróleo”, acrescentou.

Por Leonardo Severo

O que significa esta retomada dos leilões de petróleo e gás num momento em que as grandes potências fomentam guerras e intervenções para dominar as fontes de energia?

Pensamos que a retomada dos leilões de petróleo e gás significa um imenso prejuízo à nossa soberania e ao futuro do Brasil enquanto nação. O petróleo é e continuará sendo por décadas um recurso estratégico para o desenvolvimento das nações, portanto não deve ser disponibilizado para interesses privados – principalmente estrangeiros — que têm o lucro em primeiro lugar, colocando em risco o futuro das novas gerações. O fato é que o mundo todo precisa de energia para se desenvolver. Se um país necessita crescer 5%, o consumo de energia terá de ser de 6% e este é um desafio para as nações. Com o desastre ocorrido em Fukushima, no Japão, muitos países como a Alemanha, estão revendo sua política nuclear, o que amplia a procura por petróleo. Ou seja, se já havia necessidade de petróleo e gás, agora ela está ampliada. Então, as nações imperialistas promovem guerras e usam todo o tipo de subterfúgios e alegações para intervir, como ficou demonstrado nas agressões ao Afeganistão, ao Iraque e, mais recentemente, à Líbia. A retomada dos leilões de concessão de petróleo e gás marcada para 12 de setembro, cinco dias depois do dia da Pátria, é uma agressão à nacionalidade.

Uma agressão à nacionalidade…

Exatamente. É como se desconhecessem que cada gota deste patrimônio é estratégico não só para nós, mas para as grandes potências também. As nações imperialistas já demonstraram até onde estão dispostas a ir, e vão à guerra se necessário, para garantir a manutenção dos seus interesses energéticos, do seu padrão de consumo. Este será o 11º leilão de concessão de petróleo e gás, desde a criação da Lei 9.478, em 1997, quando FHC abriu o setor — após ter quebrado o monopólio estatal que era exercido pela Petrobrás — junto com gente como David Zilberstajn e Henri Philippe Reichstul, recém nomeado pelo governo para ser seu “conselheiro”. Graças à nossa luta, não serão licitados blocos do pré-sal, cuja regulamentação ainda não foi concluída, pois aguarda aprovação na Câmara dos Deputados do projeto de lei que trata da partilha dos royalties. No entanto, serão ofertados às multinacionais 174 blocos, dos quais 87 no mar, alguns deles “em águas não rasas”, como disse o ministro Edson Lobão. Ou seja, na chamada franja do pré-sal. Ao todo serão 123 quilômetros quadrados de áreas exploratórias, localizadas no Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará, Bahia, Maranhão, Amapá, Piauí e Pará.

Como a FUP vê a nomeação de Reichstul, um privatista empedernido, que até posou para foto ao lado de placa da Petrobrax, que tudo fez para privatizar a empresa, como conselheiro do governo?

Este senhor foi colocado pelo governo FHC na presidência da Petrobrás entre 1999 e 2001. Era tamanha a identidade de Reichstul com o projeto privatista de FHC que até os estatutos da Petrobrás foram modificados para que ele pudesse ocupar a presidência. Para ser presidente tinha de ser brasileiro nato e ele tem nacionalidade francesa. É uma figura muito conhecida dos petroleiros, pois dentro do processo de desmonte da empresa, de tudo fez para implantar o arrocho salarial, comandando diversos ataques a direitos, ao mesmo tempo em que promovia uma farta distribuição de bônus  para gerentes, coordenadores e supervisores.

No triste período de três anos em que presidiu a Petrobrás, Reichstul foi um agente do sucateamento e da privatização da estatal, em sintonia com o projeto de demos e tucanos. Em sua ficha corrida está a tentativa de mudança de nome da empresa para Petrobrax, a entrega de 30% da Refap para a Repsol/YPF, o afundamento da P-36 que matou 11 petroleiros, os catastróficos acidentes ambientais na Baía de Guanabara e no rio Iguaçu Paraná, a reestruturação que fragmentou a Petrobrás em 40 unidades autônomas de negócio, entre outras performances de triste memória.

Mais do que figura carimbada, um entreguista de carteirinha.

Sem dúvida, Reichstul nunca dormiu em serviço quando o que estava em jogo era prejudicar o país. Só não privatizou as FAFENs, a Replan, a Reduc e outras refinarias do Sistema Petrobrás porque os trabalhadores, organizados nacionalmente pela FUP, resistiram com muita mobilização. Após deixar a Petrobrás, Reichstul integrou vários Conselhos de Administração de multinacionais, entre elas a Repsol – a mesma que foi agraciada em sua gestão com ativos da Refap e de blocos de petróleo.

Na nossa opinião, é, no mínimo, muita ingenuidade do governo querer ouvir conselhos desse tipo de empresário para controlar e reduzir gastos públicos. Se este senhor ainda fosse o presidente da Petrobrás, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não existiria, pois a estatal jamais investiria no fortalecimento do Estado e em projetos de desenvolvimento nacional. O pré-sal, então, já estaria entregue às multinacionais há muito tempo. Caso tivesse êxito o projeto de FHC, Zilberstajn e Reichstul, hoje o governo não teria como intervir no mercado de combustíveis, pois o Brasil não contaria mais com a Petrobrás Distribuidora, e os consumidores ficariam à mercê da flutuação do mercado internacional e dos interesses gananciosos dos usineiros de álcool.

Diante dos reiterados abusos do cartel de combustíveis, a Petrobrás decidiu intervir no mercado e derrubar o preço. Este aumento da participação da estatal na produção do etanol não é uma demonstração inequívoca da necessidade de uma maior participação do estado para evitar novas crises?

Ao decidir reduzir o preço de venda da gasolina e do etanol hidratado para os postos revendedores, a Petrobrás Distribuidora age, por determinação do governo, muito corretamente para enfrentar os abusos provocados pelo domínio privado e pela crescente desnacionalização. Assim, a previsão é de que o álcool vai cair 13 % e a gasolina, 6%. Isso só foi possível, como disse anteriormente, porque a BR Distribuidora não foi privatizada e é líder do mercado com sete mil postos em todo o Brasil e 47,8% do volume de combustíveis vendido. Assim, consegue forçar as demais distribuidoras a também reduzir seus preços aos postos e fazer com que esta diminuição seja repassada ao consumidor.

É particularmente grave a desnacionalização e a crescente monopolização na produção de álcool e açúcar no Brasil, como exemplifica a compra da brasileira Cosan, maior produtora de açúcar e álcool do mundo, pela multinacional anglo-holandesa Shell. Com o negócio, a Shell passou a deter o controle de etanol, açúcar e energia e o suprimento, além da distribuição e comercialização de combustíveis. Resultado: a Shell passou a controlar aproximadamente 60 milhões de toneladas de capacidade de moagem de cana-de-açúcar por ano, com capacidade de produção de mais de dois bilhões de litros de etanol. O Brasil precisa ter o controle dos setores estratégicos.

Focado no mercado interno, o governo Lula decidiu que o grosso das compras da Petrobrás fossem feitas dentro do Brasil, encomendando vários navios e plataformas. Agora, o dono da OGX, Eike Batista, anuncia que vai importar plataformas e navios. O que achas disso?

É a lógica de um arquimilionário, de uma das maiores fortunas do mundo: colocar em primeiro lugar os seus interesses, em detrimento do país. Vale lembrar que, durante o governo Lula, a orientação de privilegiar o interesse nacional repercutiu muito favoravelmente na geração de emprego, sendo responsável, só na indústria naval, por cerca de 60 mil novos postos de trabalho aqui dentro, no país. O caso de Eike Batista, que passou a ser dono de poços de petróleo, devido ao governo não ter modificado a lei dos tempos de FHC, é um bom exemplo de como não devemos deixar ao “mercado” a definição de questões que são estratégicas para o desenvolvimento nacional.

Quais serão os próximos passos dos petroleiros?

A FUP entrará em campo ao lado da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e os movimentos sociais para defender o patrimônio dos brasileiros, mobilizando a sociedade contra a alienação das nossas riquezas a meia dúzia de exploradores privados, na sua maioria estrangeiros, que querem se adonar do nosso petróleo. Com certeza, a mobilização popular cumprirá um papel fundamental na definição dos rumos do setor.

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12 comentários

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Moraes, da FUP: Que interesses que estão por trás de a mídia esconder os excelentes resultados operacionais da Petrobras? « Viomundo - O que você não vê na mídia

05 de fevereiro de 2015 às 21h56

[…] FUP quer movimentos sociais na campanha contra os leilões da franja do pré-sal […]

Responder

Fabio Passos

01 de outubro de 2012 às 22h09

É preciso resistir as pressões para entregar esta riqueza toda aos abutres.
O governo deveria rever os leilões já realizados pelos entreguistas… e não ofertar mais um naco de nossa riqueza para satisfazer interesses imperialistas.

Responder

Vinícius Camargo Pereira da Costa

01 de outubro de 2012 às 17h45

Ao que nos parece, a FUP vinha se fazendo de morta na Campanha “O Petróleo tem que ser nosso!” porque entendia que o governo Lula e o governo Dilma eram o seu próprio governo e, por isso, qualquer contestação contra os leilões seriam atos de oposição.

Esse galo vem sendo cozinhado já há algum tempo. Pela postura da FUP, internamente, entre os petroleiros, a mesma vem perdendo legitimidade. O quadro é contraditório, tanto do ponto de vista da ação sindical corporativa, quanto da ação política estratégica de pressionar para rever a legislação remendada para o Pré-Sal como, também, para ajustar toda a legislação do Petróleo no Brasil.

Nesse sentido, os petroleiros criaram uma nova Federação (FNP – http://www.fnpetroleiros.org.br/) que, logo, tomará o lugar de coordenação de toda a Categoria dos Petroleiros.

Temos tido fortes indícios desses fatos. O próprio Coordenador da FUP, Antônio de Moraes, único nome nacional e conhecido na categoria, foi derrotado em uma eleição nacional para representante dos empregados no Conselho de Administração da Petrobras. Perdeu, apesar de dirigirem o processo eleitoral e, da imensa máquina sindical nacional. A direção sindical perdeu na escolha livre dos trabalhadores.

Abraço a todos.

Responder

vinícius

01 de outubro de 2012 às 16h34

Locatelli, não penso assim.
Existem movimentom que já possuem sua própria inércia e alterá-la exige tempo e esforço.

Nosso país passa por um processo, repito processo, que está em curso.
Muito do que vinha lá de trás ainda está sendo operado e reagindo às mudanças propostas pelo atual governo.

Pense nisso, Locatelli. Há muita gente dentro do governo que opera contra o atual governo e contra política de Estado estruturado pelos governo Lula e. agora, da Dilma.

Abraço

Responder

LEANDRO

01 de outubro de 2012 às 13h57

E viva o governo do populista, um discurso para a torcida e acordos escondidos….

“A parceria entre a Usace e a Codevasf, de R$ 7,8 milhões (US$ 3,84 milhões), foi assinada em dezembro de 2011 e, em março de 2012, os primeiros engenheiros do Exército norte-americano chegaram ao país.”

“Se temos tropas brasileiras que podem fazer este projeto, por que contratar militares dos Estados Unidos?”

Responder

    Rafael

    01 de outubro de 2012 às 14h41

    Vi essa notícias uns dias atrás e é bem clara: é para fazer o projeto. Repito PROJETO.

    vinícius

    01 de outubro de 2012 às 16h28

    Parece que o exército dos EUA tem conhecimento em projeots de engenharia com fins de navegabilidade de rios. A própria SUDENE e projeots de irrigação, hidrelétricas e navegabilidade do São Francisco foram inspirados em modelo americano, se não me engano do Missisipi.
    Será que não podemos ter intercâmbio com os EUA???
    Não podemos é deixar eles passarem a perna em nós.

    Ora, somo grandes o suficiente para conversar de igual para igual com os americanos e aprender o que eles tem de bom.

    Além disso, o problema não são os americanos e sim brasileirios que não são nacionalista.

    Abraço Dilmais de apertado para todos.

xacal

01 de outubro de 2012 às 13h28

Caros amigos,

Já disse isto aqui antes e repito: permitir o acesso as franjas do pré-sal é dar o mingau as petroleiras, que vão comê-lo pelas beiradas até consumirem o prato inteiro.

Foi isto que a Chevron fazia, quando foi surpreendida pelo incidente:

“chupava” óleo do pré-sal, sem ter tecnologia nem a outorga., a partir de um poço na “franja”.

O leilão vai oficializar a bandalha, sem que tenhamos a mínima condição de fiscalizarmos, como até agora não fizemos, a não ser que aconteça outra tragédia ambiental.

Na pesquisa e exploração de óleo em alto mar, quer seja nas camadas do pós e pré-sal, não temos a menor necessidade de incluir neste jogo as empresas privadas internacionais ou nacionais, haja vista todo o acúmulo da Petrobrás.

Temos o capital e a tecnologia.

Reserva, o nome já diz, é para ser usada com parcimônia, de acordo com a demanda do detentor deste patrimônio ( o povo brasileiro) e não pela lógica do mercado de commodities ou pela demanda das economias hegemônicas.

Responder

Mardones Ferreira

01 de outubro de 2012 às 11h03

Por essas e outras, é preciso manter-se alerta, pois, aos poucos, a Dilma vai enveredando por uma linha pragmática-populista. O pragmatismo de sempre (favorecer o capital privado para manter a economia forte) e adoçar a boca dos mais pobres com aumentos no salário mínimo e nos repasses sociais.

Atuação forte do Estado no mercado, esqueça. Reformas estruturais só se for para beneficiar mais grupos privados. Assim fica difícil defender o governo federal.

Responder

Willian

01 de outubro de 2012 às 10h44

Isto não foi uma entrevista, foi um ação entre amigos…rs

Responder

Julio Silveira

01 de outubro de 2012 às 10h36

Tá mais que na hora do pessoal acordar, ou esse governo foi convertido ou então eram enrustidos. Uma coisa é certa essa gente parece laranja da direita.

Responder

Roberto Locatelli

01 de outubro de 2012 às 09h16

O Governo Dilma continua “concedendo”. Conceder é assim: nós damos um passo atrás e eles dão um passo à frente.

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