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Fátima Oliveira: Precarização e machismo contra pediatras mineiras


04/06/2013 - 18h32

Dr. José Guerra Lages: "...principalmente essas jovens médicas, não digo que são acomodadas, mas elas têm uma visão diferente. Têm maridos, têm filhos, têm namorados e não estão dispostas a enfrentar essa linha de frente”.

por Fátima Oliveira, em O TEMPO

Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Em 2010, em Minas Gerais, havia um pediatra para 1.463 crianças: 3.083 pediatras para 4,4 milhões de habitantes de até 14 anos. Para a OMS, Minas deveria ter 22 mil pediatras.

A precarização do trabalho médico é uma das causas da escassez de pediatras, como ilustra o dr. José Guerra Lages, dono do Hospital Infantil São Camilo, em Belo Horizonte, que, em entrevista à rádio Itatiaia, no último dia 27 de maio, com consciência tranquila, revelou que “praticamente 100% dos pediatras não têm vínculo empregatício com os hospitais, que não têm condições de manter os elevados salários… Dezenove serviços de pediatria foram fechados nos últimos anos em razão de inviabilidade financeira.

“Ganham pelo atendimento. Podem ganhar de R$ 10 a R$ 15… R$ 20 mil, dependendo da quantidade de horário trabalhado… Durante a semana, de segunda a quinta, há garantia mínima de R$ 1.000 pelo plantão de 12 horas noturno. Para o fim de semana, no sentido de tentar encontrar pediatras, a garantia mínima é de R$ 1.500. E, com frequência, faltam (pediatras)”.

Na rede pública, eis duas manchetes de 30.5.2013: “Sem pediatra, maternidade recusa novas pacientes” (Hoje em Dia, Renato Fonseca) e “Pediatras da Maternidade Odete Valadares anunciam atendimento em escala mínima – A decisão dos funcionários é um protesto contra a falta de especialistas em pediatria na capital” (O TEMPO, Pedro Grossi). Uma cena paradigmática da irresponsabilidade: “Na última quinta-feira (30), apenas duas residentes cuidavam dos 16 bebês internados no CTI”. A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), responsável pela Odete, disse que busca profissionais e abriu um “processo seletivo”. E salário decente com concurso, quando?

As declarações do pediatra e empresário da medicina, a situação caótica da maior e mais importante maternidade pública de Minas e a rotineira falta de pediatras em algumas UPAs nos fins de semana confirmam o que escrevi em “Os bastidores, a charlatanice e o escárnio da importação de médicos”.

Há postos de trabalho, mas não há empregos! Os empresários da medicina não cumprem uma regra básica do mercado: “Quem não pode não se estabelece” e não aceitam pagar os custos dos recursos humanos que mantêm suas portas abertas! Sem médico, um hospital é apenas uma hospedaria! Resta aos governos e aos empresários o preenchimento dos postos de trabalho com empregos ou serão milhões sem assistência pediátrica! É uma questão de escolha política!

Em meio ao caos, ainda temos de ouvir coisas de naipe machista e sem noção ditas pelo dono do Hospital Infantil São Camilo, dr. José Guerra Lages, que geraram indignação entre as pediatras mineiras: “O medo de cuidar de crianças entre a vida e a morte no setor de urgência dos hospitais pode ser um dos motivos para a falta de médicos pediatras em Minas Gerais… Revelou que pediatras chegam a recusar salário de R$ 1.500 por um plantão de 12 horas. O local de trabalho é estressante… E os jovens médicos, principalmente essas jovens médicas, não digo que são acomodadas, mas elas têm uma visão diferente. Têm maridos, têm filhos, têm namorados e não estão dispostas a enfrentar essa linha de frente”.

O estressante, meu colega, pode crer, além da pecha de medrosas, é o seu juízo de valor sobre a vida privada das pediatras! Recolha seu machismo, se retrate e reflita sobre a exploração do trabalho médico nos serviços privados de saúde, a quem não bastam as burras de sacos de dinheiro, “querem pro saco e pro bisaco”.

Leia também:

Fátima Oliveira: Os bastidores, a charlatanice e o escárnio da importação de médicos

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13 comentários

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Fátima Oliveira: Lei do Ato Médico é mais proteção para a saúde - Viomundo - O que você não vê na mídia

29 de junho de 2013 às 15h12

[…] Fátima Oliveira: Precarização e machismo contra pediatras mineiras […]

Responder

SILVANA

06 de junho de 2013 às 17h24

Sugro a leitura do livro: O Capital. Neste é possivel entender as relações de opressão para com aqueles que vendem a sua força de trabalho.
O resto é balela.

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Janice Freitas

06 de junho de 2013 às 14h00

O meu repúdio a este senhor pediatra, mas é um explorador de pediatras

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Bruno Almeida

05 de junho de 2013 às 11h54

O Dr. José Guerra Lages, que é um homem civilizado deve pedir desculpas públicas às suas colegas mineiras pelo machismo como as tratou. Agora sobre a exploração deslavada que ele pratica e é regra no empresariado médico, temos de continuar lutando contra e exigir do governo brasileiro que ele mesmo respeite as leis trabalhistas do nosso país (deixe de fazer contratos precários) e exija o mesmo do empresariado.
Os mercantilistas da medicina devem seguir ao pé da letra a conduta do Rei Mercado: QUEM NÃO PODE NÃO SE ESTABELECE.
Fico impressionado com a falta de senso e responsabilidade de quem diz que não paga médico porque não aguenta! Então feche as portas.
A declaração do Dr. José Guerra Lopes expõe um crime trabalhista:
“praticamente 100% dos pediatras não têm vínculo empregatício com os hospitais, que não têm condições de manter os elevados salários… Dezenove serviços de pediatria foram fechados nos últimos anos em razão de inviabilidade financeira”.

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Ge

05 de junho de 2013 às 09h12

Mas a fala do médico foi infeliz. Só nao fiz medicina porque nao tinha condições financeiras. E o tempo passou nao dá mais tempo.

Responder

Ge

05 de junho de 2013 às 09h09

Trabalhei em um município onde em menos de um ano os medicos recebera aumento de 70%. Eles foram lá ameacaram greve e foram atendidos prontamente. O restante dos funcionários receberam 4% de aumento e mesmo assim foi chorado e queriam montar um comissão para montar um plano de carreira etc (ou seja, enganação, só para mostrar conter o ímpeto do restante dos funcionários). Eles não cumpriam a carga horária porque tinha outros empregos. (Havia uma brincadeira tipo medico chega às 7 h e sai 6h55 kkkkk mal olham na sua cara. Podem falar o que quiserem, mas ainda ganham muito bem sim. Médico pobre??? Nunca vi.

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Marcus

05 de junho de 2013 às 00h26

Insuportáveis esses artigos da Fátima Oliveira, recheados de corporativismo e de chavões para defender as “condições de trabalho” (leia-se, salários absurdos) dos médicos brasileiros. A verdade, no entanto, é que falta dinheiro para dar “condições” (leia-se, estrutura médico-hospitalar) porque prefeituras e hospitais tem sua receita profundamente comprometida com médicos que ganham, no mínimo, R$ 20 mil reais por mês.
Foram os próprios médicos que mercantilizaram sua profissão e preferem trabalhar como prostitutas “a quem paga mais onde quer que seja”, pouco se preocupando com as tais “condições” e rasgando o Juramento de Hipócrates (ou seria Hipócritas?).
Conheço muito, mas muito bem o Mercado da Medicina para saber que o único problema da saúde brasileira é a falta de médicos no mercado, que eleva os gastos de uma prefeitura de interior, que se vê obrigada a pagar R$ 20, 30, até 40 mil por mês para médicos que ainda se negam a cumprir a carga horária, pois querem atender em duas ou três cidades ao mesmo tempo.
“Quem não pode não se estabelece”? Sério, dona Fátima Oliveira? Quer dizer que a visão social de um blog de esquerda só tem isso a dizer quando o assunto é o bolso da médica? Faça-me o favor!

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    Tatiana

    05 de junho de 2013 às 09h40

    Caro Marcus, a afirmativa “Quem não pode não se estabelece” não é da dra. Fátima Oliveira. É uma regra muito antiga do mercado. Ela apenas a citou com a finalidade de dizer que os defensores do mercado passam por cima daquilo que eles defendem com unhas e dentes quando é querem mais e maiores benefícios.
    Realmente. Os caras empresários da medicina querem ganhar dinheiros hospitais e não querem pagar médicos? Dizem, como o dr. José Guerra, que “praticamente 100% dos pediatras não têm vínculo empregatício com os hospitais, que não têm condições de manter os elevados salários…”.
    Ora se é assim, se eles não podem pagar médicos, que mudem de ramo, virem só hospedarias.

    Tatiana

    05 de junho de 2013 às 09h42

    E sobre o machismo do dr. José Guerra Lages você está de acordo, não é? Quer dizer que contra as médicas, tudo pode?

    Olívia

    05 de junho de 2013 às 23h03

    O moço aí defende o pediatra machista, é lógico!

Érica Batista

04 de junho de 2013 às 23h50

A fala do pediatra foi infeliz, preconceituosa e totalmente sem noção. Tem de se retratar se tiver algum neurônio funcionando.

Responder

xacal

04 de junho de 2013 às 20h39

Quando brigam as comadres, sabemos as verdades.

De fato é tenebroso o machismo embutido no comentário do médico, assim como assustadora é a precarização do trabalho médico.

Mas a precarização é só um lado da moeda, que tem na outra face a mercantilização, onde médicos saem a caça de especializações que lhes deem duplo retorno: pouco risco e muito dinheiro.

Desta mistura, a pediatria deixou de ser atrativa, e sim, pelo medo que pediatras mulheres e homens têm ao risco de tratar crianças, ainda mais quando sabemos que a formação médica atual é um desastre.

Com o avanço da mobilização das vítimas de erros médicos (erros estes dolosamente acobertados pelas corporações médicas), o caldo entornou de vez.

Ou seja, se colocado em termos mais civilizados, o julgamento do médico-empresário não ficaria longe da verdade!

Responder

Jane

04 de junho de 2013 às 19h09

As pediatras mineiras não podm ter maridos e filhos e nem namorados porque têm que trabalhar para o dono do São Camilo ficar cada vez mais podre de rico. Não faltava mais nada. Exploração quase total é bobagem, tem de ser 100%. Onde está a Sociedade Brasileira de Pediatria que não falou nada ainda?

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