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A guerra suja da Syngenta contra o cientista Tyrone Hayes
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A guerra suja da Syngenta contra o cientista Tyrone Hayes


25/02/2014 - 18h51

O trabalho de pesquisa do cientista Tyrone Hayes mais parece um roteiro pronto para um diretor como Martin Scorsese.

A jornalista Rachel Aviv, da revista New Yorker, contou a saga de Hayes em nome da Ciência.

Uma pesquisa que bateu de frente com a Syngenta, a gigante suíça que fabrica pesticidas e vende sementes.

Em 1998 Tyrone Hayes já trabalhava no laboratório de biologia da Universidade da Califórnia em Berkeley quando foi convidado, pela Syngenta, para fazer uma pesquisa a respeito do herbicida atrazina, fabricado pela Syngenta. Hayes topou. Ele tinha trinta e um anos e já havia publicado vários trabalhos sobre o sistema endocrinológico dos anfíbios.

Os dois lados, com certeza, se arrependeram da parceria. Hayes descobriu que o atrazina atrapalhava, ou até impedia o desenvolvimento sexual dos sapos. A empresa não gostou do resultado, tentou impedir a publicação do estudo, tentou comprar os dados para mantê-los em segredo e as relações da empresa com o cientista foram rompidas, definitivamente, no ano 2000.

Mas Hayes não é do tipo que trabalha apenas pelo dinheiro. O que ele percebeu na pesquisa atiçou a curiosidade do cientista e ele continuou estudando os efeitos do atrazina sobre os anfíbios por conta própria.

O artigo de dez páginas da revista New Yorker conta como a empresa estruturou e levou a cabo uma ampla campanha de difamação de Hayes com o objetivo de destruir a reputação do cientista.

Estudou todos os aspectos profissionais e pessoais da vida dele para melhor explorar qualquer ponto fraco. Lembra demais a descrição de táticas descritas em detalhes pelo jornalista Rubens Valente no livro Operação Banqueiro.

Como já se desconfiava por aqui, as grandes empresas farmacêuticas e do agronegócio contratam cientistas e pesquisadores para que repitam informações que interessam às empresas. E muitos se prestam, sem pudor, a esse papel.

Pior: o artigo da New Yorker relata as manobras adotadas pela empresa para comprar, também, o apoio dos responsáveis pela aprovação de drogas no mercado norte-americano.

Os riscos que o herbicida atrazina oferece à saúde foram considerados sérios o suficiente para que o produto fosse banido na Europa. Nos Estados Unidos, continua sendo usado em cerca de metade da produção de milho do país.

No Brasil, também é aplicado à vontade nas plantações.

A perseguição a Tyrone Hayes foi tão intensa que ele passou a ser visto, pelos colegas, como um paranoico. Achava que tinha a conta de e-mail monitorada, que era perseguido, que não podia fazer palestras sem a presença de agentes da Syngenta que tentavam intimidá-lo e criar dúvidas a respeito das conclusões que ele apresentava.

Para se prevenir, ele passou a copiar os dados da pesquisa e enviar para a casa dos pais. Usou o e-mail como forma de confundir o adversário, com a ajuda dos alunos que trabalhavam no laboratório com ele. Recentemente, ficou provado que Hayes não era nada paranoico e que a conspiração existia de fato.

Um dos únicos biólogos afro-americanos de destaque do país, Tyrone Hayes era considerado um dos melhores professores de Berkeley e uma das grandes promessas do meio acadêmico e científico.

Ao longo dos últimos 14 anos de guerra aberta contra a Syngenta, ele acabou perdendo o laboratório em Berkeley. Mas de certa forma, foi vingado.

A Syngenta foi processada em uma ação coletiva por 23 municípios do meio-oeste dos Estados Unidos. Eles acusaram a empresa de esconder o perigos reais do atrazina para a saúde.

Por conta do processo, jornalistas norte-americanos tiveram acesso a documentos internos, memorandos e e-mails da empresa. O trabalho de Tyrone Hayes foi a base científica usada pelos advogados dos municípios.

Desde que passou a se dedicar ao estudo dos efeitos do atrazina sobre animais e até sobre humanos, Hayes angariou seguidores.

Outros cientistas seguiram a mesma linha e ampliaram as descobertas do pioneiro na área. E hoje já existem resultados que falam em defeitos de nascimento em humanos. Enquanto os pesquisadores acumularam dados contra o herbicida, a empresa se ocupou em colher informações sobre Hayes.

Em entrevista ao programa DemocracyNow! da jornalista Amy Goodman, Tyrone Hayes contou que as ameaças não paravam na esfera científica.

Ele disse que um representante da empresa o abordou antes de uma palestra e sussurrou que ele podia ser linchado, que ía mandar uns rapazes para mostrar a Hayes como é ser gay e chegaram até a ameaçar a segurança da mulher e da filha dele.

Enquanto isso, vários trabalhos foram apresentados à EPA (Agência de Proteção Ambiental) a respeito dos perigos do atrazina para a saúde e da contaminação do solo e da água nos locais onde ele é usado.

Dados científicos que as autoridades norte-americanas refutaram duas vezes: mantiveram a licença do produto, sem restrições.

Depois também veio à tona que alguns membros do comitê da EPA, que tomou a decisão favorável ao atrazina, tinham relações com a Syngenta.

Este ano, o herbicida, o segundo mais usado nos Estados Unidos, será avaliado novamente. Quem sabe qual será o resultado da análise desta vez…

PS do Viomundo: A pesquisa do cientista demonstrou que o herbicida provoca a mudança de sexo em sapos; na excelente entrevista que deu ao DemocracyNow!, ele estranha que os conglomerados produzam tanto substâncias cancerígenas quanto contra o câncer. Por que $erá?

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Fiocruz: Mudanças na lei de agrotóxicos são inaceitáveis



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26 comentários

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vinícius

01 de março de 2014 às 20h10

Tentei inserir um comentário sobre este tema por duas vezes e não consegui. Será que posso saber o motivo?

Vou escrever o mesmo que escrevi antes:

Existe um livro com o nome “Futuro Roubado” que aborda o tema. A Engª. Agrª. Ana Primavesi tb comentou sobre o tem em palestras.
Quem se interessa pelo tema deve acompanhar uma “nova praga” na lavoura brasileira: Helicoverpa armigera.

Responder

    Conceição Lemes

    01 de março de 2014 às 20h23

    Vinicius, tente trocar o navegador. abs

vinicius

27 de fevereiro de 2014 às 10h41

O tema foi tratado em um livro: futuro roubado, Theo Colborn, editora LP&M.
A professora Ana Primavesi falava sobre o tema.
Para quem tem interesse em interação entre aumento do uso de agrotóxico em lavoura transgênica e interação com insetos, sugiro acompanhar com lupa o caso da lagarta Helicoverma armigera, prima muito próxima da Helicoverpa zea.

Responder

Nelson

27 de fevereiro de 2014 às 00h15

Esta excelente matéria da Heloísa – mais uma, aliás – deve ser lida e relida por aqueles que seguem acreditando na arenga que tenta nos convencer de que, privatizando, entregando tudo à “mão invisível” do mercado, passaremos a viver no melhor dos mundos, num quase-paraíso.

Responder

vinícius

26 de fevereiro de 2014 às 21h18

Esse tema já foi abordado em um livro da década de 90.
http://www.ourstolenfuture.org/Languages/portuguese.htm

O livro explica o papel de agentes sintéticos nas disfunções endócrinas. Assunto interessante para quem é da área de famácia, bioquímica. Médicos brasileiros não se interessam com o tema.

Quem é da área de agricultura de viés alternativo (já sou véio e prefiro essa denominação à denominação “orgânico”) e conheceu a Ana Primavesi sabe do assunto pq ela falava sobre isso.

Uma dica para quem tá interessado na área de agricultura:
acompanhem com lupa o caso recente da lagarta “Helicoverpa armigera”. O assunto é quente! A velha e nova guarda do agrobusines capitalizarão com a “nova praga”.

Responder

Mário SF Alves

26 de fevereiro de 2014 às 18h55

Essa é de morrer de rir:

http://veja.abril.com.br/noticia/vida-digital/capas-atribuidas-a-veja-tentam-confundir-o-leitor
________________________________

Nada será como antes. E só os vivos perceberão. Coisas virão. Ninguém mais será senhor absoluto na arte da manipulação.

A propósito, a (in)Veja, baluarte de uma outra guerra igualmente suja, encontra um rival à altura.

Responder

Mário SF Alves

26 de fevereiro de 2014 às 15h46

Resta saber:

Se a sueca Syngenta, com o segundo herbicida mais vendido nos SPYstates, sair da concorrência, quem ficaria com o domínio absoluto do mercado?

Resposta: a Monsanto. E a Monsanto tá quietinha nessa estória toda por quê?

Por que será que a Monsanto não entrou na briga para torcer o parecer da EPA? Não seria apenas por temer que se apertarem demais a Syngenta, a coisa tende a sobrar também pra ela. Afinal, não bastasse essa estranheza toda que é o patenteamento de sementes, a dobradinha Roundap® e soja transgênica não têm nenhuma cara de ser panaceia isenta de responsabilidade, não. Vejamos:

“A soja resistente ao Roundup® (RR) da Monsanto foi uma das primeiras culturas transgênicas a serem co­mercializadas. Essa soja foi modificada geneticamente para adquirir resistência ao agrotóxico glifosato, que é comerciali­zado pela Monsanto sob a marca registra­da “Roundup ® ”. Quando a patente do gli­fosato expirou, outras empresas também passaram a comercializar herbicidas com este ingrediente ativo.

O Roundup ® ou outra formulação de glifosato mata a soja convencional. Com a modificação genética da soja, esse agrotóxico pode ser usado pelo agricultor para elimi­nar as ervas daninhas nas culturas de soja transgênica sem afetar sua plantação.

A permissão para plantar ou importar soja RR foi baseada em informações for­necidas apenas pela Monsanto. As auto­ridades governamentais de muitos países aceitaram essas informações e permitiram seu uso comercial. Porém, desde meados da década de 90, foi descoberta uma série de anomalias e de efeitos imprevistos rela­cionados à soja RR, fazendo surgir sérias dúvidas quanto à segurança do meio am­biente onde é exposta.

Existem questões importantes, até agora não resolvidas, a respeito do que é realmente a soja transgênica RR da Monsanto e, de fato, o que mais resta para ser descoberto.
Fonte:http://www.dag.uem.br/gaama/trans4.htm

_________________________________________
“Enquanto isso, vários trabalhos foram apresentados à EPA (Agência de Proteção Ambiental) a respeito dos perigos do atrazina para a saúde e da contaminação do solo e da água nos locais onde ele é usado. Dados científicos que as autoridades norte-americanas refutaram duas vezes: mantiveram a licença do produto, sem restrições.”

“Depois também veio à tona que alguns membros do comitê da EPA, que tomou a decisão favorável ao atrazina, tinham relações com a Syngenta.”

__________________________________________________
PS do Viomundo: A pesquisa do cientista demonstrou que o herbicida provoca a mudança de sexo em sapos; na excelente entrevista que deu ao DemocracyNow!, ele estranha que os conglomerados produzam tanto substâncias cancerígenas quanto contra o câncer. Por que $erá?

___________________________________
Lembro-me vagamente do juramento que fiz na solenidade de colação de grau para a obtenção do diploma de engenheiro agrônomo. Parece que foi assim, todo mundo de bracinho estendido em frente à bandeira e a um governador biônico:

“Prometo que, no cumprimento do meu dever de ENGENHEIRO
AGRÔNOMO, não me deixarei cegar pelo brilho excessivo da
tecnologia, esquecendo-me de que trabalho para o bem do homem.
Respeitarei a natureza, evitando que destruam o equilíbrio
ecológico ou o poluam. Em paz comigo e com Deus, colocarei todo
o meu conhecimento científico a serviço da agricultura e
desenvolvimento da humanidade.”

_____________________________

Bem que podia ser um simples, sonoro e bem assumido:

“Juro não introduzir, propagar ou difundir qualquer tecnologia, matéria, processo ou substância… que possam causar irreversível… ou irreparável dano socioambiental.
Com essa nova consciência, declaro publicamente que a quebra deste juramento, em qualquer escala ou circunstância, pressupõe e implicará na imediata e irreconciliável perda de minha recém adquirida autoridade profissional.”
______________________________________________
Seria um tanto mais verdadeiro e talvez até mais produtivo. Até porque, agricultura que é bom mesmo, essa já não existe faz tempo. Sem dizer que a tal referida perda de autoridade seria, de tal sorte, tão impactante, que os conselhos de classe, aqueles cartorialistas, por excelência, iriam à imediata falência. No mínimo, mais econômico.

Responder

sergioa

26 de fevereiro de 2014 às 13h09

Tá tudo dominado pelo dinheiro das grandes corporações, sejam elas farmaceuticas, industriais, financeiras …

Quem assistiu o documentário INSIDE JOB (Trabalho Interno) pode constatar como Wall Street compra professores de economia das mais importantes universidades norte-americanas, para ficarem repetindo o receituário neo-liberal.

Poucos, como Haynes, tem a decência de não se vender e continuar a luta para denunciar verdadeiros criminosos que mesmo diante de um perigo eminente preferem subornar, corromper, distorcer e omitir fatos, do que retroceder um só milimetro em seus projetos ambiciosos. O importante sempre é gerar lucro e mais lucro, independente das consequências posteriores.

O dinheiro dominou tanto o seres humanos, que a maioria não hesita um só segundo em se vender e garantir uma vida confortável para si e seus familiares, pouco importando a falta de ética, moral, profissionalismo, senso de humanidade e responsabilidade no exercício de sua área de conhecimento.

Estudam não para promover um mundo melhor … estudam tão somente para promover uma vida melhor para si …

Se queremos um mundo melhor temos que ser seres humanos melhores. Não tem outro caminho a ser seguido.

Responder

Jair Fonseca

26 de fevereiro de 2014 às 12h45

Syngenta, Bunge, Massey Ferguson bancam Canal Rural, em parceria inclusive com a Embrapa, e universidades em quatro estados. Nomeadamente, as universidades parceiras são: Universidade Federal do Mato Grosso,
Universidade de Rio Verde, Universidade Estadual de Maringá e Universidade de Passo Fundo.

Responder

Jair Fonseca

26 de fevereiro de 2014 às 12h39 Responder

Pafúncio Brasileiro

26 de fevereiro de 2014 às 06h10

Se for investigar certos professores-doutores, em universidades públicas paulistas, se encontrará o seu íntimo relacionamento com empresas de agroquímicos, do tipo apontado pela matéria. Estas empresas oferecem a eles diversos tipos de mimos, viagens e grana, a título de “avaliações” em seus trabalhos. Praticamente, orientam toda a “produção” acadêmica destes.

Responder

FrancoAtirador

25 de fevereiro de 2014 às 23h57

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Quem paga a campanha do candidato privatiza o recurso público

Por Ladislau Dowbor*, na Carta Maior, via ESCREVINHADOR

Podemos começar com um exemplo prático. A Friboi é da JBS, o maior grupo mundial na área de carne.
O pesquisador Alceu Castilho constata:

“Existe uma bancada da Friboi no Congresso, com 41 deputados federais eleitos e 7 senadores.
Desses 41 deputados financiados pela empresa, apenas um, o gaúcho Vieira da Cunha, votou contra as modificações no Código Florestal.
O próprio relator do código, Paulo Piau, recebeu R$ 1,25 milhão de empresas agropecuárias, sendo que o total de doações para a sua campanha foi de R$ 2,3 milhões.

Então temos algumas questões.

Por que a Friboi patrocinou essas campanhas?
Para que eles votassem contra os interesses da empresa?
É evidente que a Friboi é a favor das mudanças no Código Florestal.

A plantação de soja empurra os rebanhos de gado para o Norte, para a Amazônia, e a Friboi tem muito interesse nisso.
Será que é mera coincidência que somente um (Alceu Castilho, Partido da Terra) entre 41 deputados financiados pela empresa votou contra o novo código?”

No Brasil este sistema foi legalizado através da lei de 1997 que libera o financiamento das campanhas por interesses privados. (2) Podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral)”(3).

A empresa que financia um candidato – um assento de deputado federal tipicamente custa 2,5 milhões de reais – tem interesses. Estes interesses se manifestam do lado das políticas que serão aprovadas, por exemplo contratos de construção de viadutos e de pistas para mais carros, ainda que se saiba que as cidades estão ficando paralisadas.

Ou maior facilidade para o desmatamento, como no exemplo acima. Do lado do candidato, apenas assentado, já lhe aparece a preocupação com a dívida de campanha que ficou pendurada, e a necessidade de pensar na reeleição. Quatro anos passam rápido. Entre representar interesses legítimos do povo – por exemplo, mais transporte de massa e mais saúde preventiva – e assegurar a próxima eleição, o político fica preso na armadilha. É o próprio processo de decisão sobre o uso dos recursos públicos que é de certa maneira privatizado. Neste sentido o resgate da dimensão pública do Estado torna-se essencial.

O Brasil não está sozinho neste processo de deformação da política. O próprio custo das campanhas, quando estas viram uma indústria de marketing político, é cada vez mais descontrolado. Segundo o Economist, no caso dos EUA, os gastos com a eleição de 2004 foram de 2,5 bilhões de dólares, em 2010 foram de 4,5 bilhões, e em 2012 ultrapassaram 5 bilhões. Isto está “baseado na decisão da Corte Suprema em 2010 que permite que empresas e sindicatos gastem somas ilimitadas em marketing eleitoral”. Quanto mais cara a campanha, mais o processo é dominado por grandes contribuintes, e mais a política se vê colonizada. E resultam custos muito mais elevados para todos, já que são repassados para o público através dos preços.

E a deformação é sistêmica: além de amarrar os futuros eleitos, quando uma empresa “contribui” e por tanto prepara o seu acesso privilegiado aos contratos públicos, outras empresas se vêem obrigadas a seguir o mesmo caminho, para não se verem alijadas. E o candidato que não tiver acesso aos recursos, simplesmente não será eleito. E como este dinheiro gira em grande parte na mídia, que veicula as campanhas, não se denuncia o processo. Todos ficam amarrados. Começa a girar a grande roda do dinheiro, partindo do sistema eleitoral. Ficam deformados tanto os sistemas de captação, como de alocação final dos recursos.

Uma dimensão importante deste círculo vicioso, e que resulta diretamente do processo, é o sobre-faturamento. Quanto mais se eleva o custo financeiro das campanhas, conforme vimos acima com os exemplos americano e brasileiro, mais a pressão empresarial sobre os políticos se concentra em grandes empresas. Quando são poucas, e poderosas, e com muitos laços políticos, a tendência é a distribuição organizada dos contratos, o que por sua vez reduz a concorrência pública a um simulacro, e permite elevar radicalmente o custo dos grandes contratos. Os lucros assim adquiridos permitirão financiar a campanha seguinte, além de engordarem contas em paraísos fiscais.

Se juntarmos o crescimento do custo das campanhas, os custos do sobre-faturamento das obras, e em particular o custo da deformação do uso dos recursos públicos, estamos falando no vazamento de imensos recursos para onde não deveriam ir. Estes “gatos” que sugam os recursos públicos são muito mais poderosos do que os que encontramos nos postes de iluminação das nossas cidades. Pior: o processo corrói a gestão pública e deforma a democracia ao gerar uma perda de confiança popular nas dinâmicas públicas em geral.

Não que não devam ser veiculados os interesses de diversos agentes econômicos na área pública. Mas para a isto existem as associações de classe e diversas formas de articulação. A FIESP, por exemplo, articula os interesses da classe industrial do Estado de São Paulo, e é poderosa. É a forma correta de exercer a sua função, de canalizar interesses privados. O voto deve representar cidadãos. Quando se deforma o processo eleitoral através de grandes somas de dinheiro, é o processo decisório sobre o uso dos recursos que é deformado.

* Este artigo foi editado a partir do capítulo 4 do livro “Os Estranhos Caminhos do Nosso Dinheiro”, de autoria do professor. Você pode conferir o livro completo aqui: (http://www.fpabramo.org.br/forum2013/wp-content/uploads/2013/12/colecaooquesaber-01.pdf).

Íntegra em:

(http://www.rodrigovianna.com.br/forca-da-grana/dowbor-quem-paga-a-campanha-do-candidato-privatiza-o-recurso-publico.html#more-25790)
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Responder

    FrancoAtirador

    26 de fevereiro de 2014 às 00h38

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    Lista de algumas marcas que pertencem à JBS:

    Proteína Animal
    Friboi
    Seara [!!!]
    Vigor
    Frangosul
    LeBon
    Tramonto
    Agrovêneto
    Vêneto
    Leco
    Mesa
    Faixa Azul
    Amélia
    Sola
    Anglo
    Bertin
    Pilgrims
    Swift
    Swift Angus Prime
    Swift Maturatta
    Swift Orgânico
    Swift Black
    Cabana Las Lilas
    Gold Kist Farms
    Pierce
    1855
    Canelones Foods

    Embalagens metálicas
    JBS Embalagens Metálicas

    Colágeno
    NovaProm

    Transportes
    TRP

    Gestão de resíduos
    JBS Ambiental [SIC]

    (http://pt.wikipedia.org/wiki/JBS)
    .
    .
    14 de abril de 2010
    FIFA.com

    O fornecedor internacional de alimentos Seara assina acordo
    de Patrocinadora das Copas do Mundo da FIFA™ 2010 e 2014.

    (http://pt.fifa.com/worldcup/archive/southafrica2010/organisation/media/newsid=1193774/index.html)
    .
    .
    01/10/2013 10:08
    Reuters, via Exame/Abril/Naspers

    JBS e Marfrig assinam transferência da Seara Brasil

    A JBS, maior empresa de carnes do mundo, comprou a Seara Brasil, divisão de aves e suínos da Marfrig, no início de junho, em uma operação que envolveu a assunção de 5,85 bilhões de reais em dívidas e levou a empresa à liderança global na produção de aves.

    O negócio, que inclui ainda participação na empresa de couros Zenda, no Uruguai, torna a JBS a segunda maior processadora de carnes do Brasil, atrás da BRF.

    (http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/jbs-e-marfrig-assinam-transferencia-da-seara-brasil)
    (http://www.seara.com.br/seara/historia-da-marca)
    (http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/26227_A+JOGADA+GLOBAL+DO+MARFRIG)
    (http://www.jbs.com.br/pt-br/historia)
    .
    .
    24/02/2014
    Exame/Abril/Naspers

    Fátima Bernardes estreia como garota-propaganda da Seara

    São Paulo – A jornalista e apresentadora Fátima Bernardes estreou no mundo dos comerciais na noite de ontem, como garota-propaganda da Seara, marca de produtos da empresa JBS.

    Veiculado em rede nacional, o comercial promove a conversa da apresentadora com os consumidores e tem como objetivo de encorajar mudança de hábitos, assim como ela fez quando optou deixar a bancada do Jornal Nacional, da Rede Globo, para assumir um programa matinal na mesma emissora.

    Realizada pela agência da WMcCann, a campanha tenta traçar o paralelo entre a mudança do comando da Seara, que foi comprada no ano passado pela JBS, com o da carreira da jornalista.

    Após falar de si, Fátima, já cercada de produtos da Seara, convida a todos para experimentar os produtos da marca.

    Por meio de comunicado oficial, Washington Olivetto, presidente do conselho da WMcCann, afirmou que a ideia é que a campanha consiga mesclar a persuasão da propaganda e a credibilidade do jornalismo. Segundo o publicitário, neste quesito, ninguém melhor que a própria Fátima para assumir o papel.

    O fato é inédito na carreira da jornalista, pois, quando atuava na bancada do Jornal Nacional, o contrato firmado com a Rede Globo não permitia nenhum tipo de merchandising – jornalistas da casa não podem ter contrato publicitário.

    Fátima se tornou exceção por desvincular sua imagem do jornalismo, passar a atuar como apresentadora e integrar o time de entretenimento da Globo. Já no ano passado, a emissora fechou um contrato milionário de merchandising com o Banco Itaú, o primeiro de uma série de ações previstas para o programa, que deverá contar com um modelo semelhante aos que outros apresentadores da casa, como o Faustão e a Ana Maria Braga, têm.

    Queridinha do público

    Em 2013, Fátima Bernardes desbancou o Silvio Santos e foi apontada como a apresentadora mais confiável do Brasil, de acordo com lista elaborada pela 12ª edição da Pesquisa Marcas de Confiança, parceria da Revista Seleções e Ibope Inteligência

    Segundo o estudo, a global conquistou a confiança de 74% dos entrevistados para o estudo, cerca de 1.500 pessoas.

    A previsão é que a campanha, que também conta com versão para mídia impresa [SIC], ações de internet, mídia exterior e rádio, fique no ar nas próximas semanas.

    Veja, a seguir, o comercial: (http://www.youtube.com/watch?v=uE_r_YITWhs)

    (http://exame.abril.com.br/topicos/seara)







    FrancoAtirador

    26 de fevereiro de 2014 às 01h08

    .
    .
    Livro:
    CASTILHO, Alceu Luís. O partido da terra: como os políticos conquistam o
    território brasileiro. São Paulo: Contexto, 2012, 238p.

    Resenha

    O PARTIDO DA TERRA:
    COMO OS POLÍTICOS CONQUISTAM O TERRITÓRIO BRASILEIRO.

    Por Camila Ferracini Origuéla*, Mestranda em Geografia
    FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente

    Alceu Luís Castilho é formado em Jornalismo desde 1994 pela Universidade de São Paulo (USP).
    Foi repórter do jornal O Estado de São Paulo (1994-2001), fundador e diretor-executivo da Agência Repórter Social (2003-2010).
    Ao longo de sua carreira jornalística recebeu diversos prêmios: Fiat Allis de Jornalismo Econômico (1999), Vladimir Herzog (2004), Direitos Humanos de Jornalismo (2004), Andifes (2007). Recebeu em 2007 o título de jornalista Amigo da Criança, pela Agência de Noticias dos Direitos da Infância e foi, neste mesmo ano, finalista do Prêmio Esso com a reportagem Câmara Bilionária.
    Atualmente, além da carreira como jornalista, cursa graduação em Geografia pela USP.

    Comprometido com um jornalismo em defesa dos direitos humanos e sociais, Alceu Luís Castilho lançou recentemente o livro O partido da terra: como os políticos conquistam o território brasileiro, no qual expõe de maneira didática quem são os políticos eleitos nos anos de 2008 e 2010 (ou 2006 no caso de 27 senadores e 54 suplentes) proprietários de terras no Brasil e como estes detêm uma parcela do território nacional.
    Para isto, o autor reuniu, comparou e analisou mais de 13 mil declarações de bens apresentadas pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
    São senadores, deputados federais, deputados estaduais, governadores, vice-governadores, vice-presidente da República, prefeitos e vice-prefeitos que juntos possuem pelo menos 2,03 milhões de hectares declarados à Justiça Eleitoral.
    Desta forma, o autor revela um Brasil agrário dominado por alguns poucos homens públicos.

    O livro é composto por 5 capítulos, além de uma breve apresentação.

    No primeiro capítulo, “O território”, o autor revela a dimensão da posse da terra por políticos eleitos em 2008 e 2010.
    São aproximadamente 1,2% do território nacional ou 4,4 milhões de hectares controlados por estes políticos, sendo que 2,3 milhões de hectares foram declarados pelos próprios proprietários à Justiça Eleitoral.
    Acontece que, estes 2,3 milhões de hectares apresentados equivalem a apenas R$ 1,37 bilhões dos R$ 2,16 bilhões declarados em imóveis rurais, os R$ 785 milhões restantes, seguindo a mesma lógica, corresponderia a 1,3 milhões de hectares não informados somados a 1,1 milhão de hectares de empresas controladas por estes políticos.
    Os dados apresentados pelo autor, ainda que exorbitantes, expõem apenas uma parte desta realidade.
    Estas propriedades têm se multiplicado não só nas Unidades da Federação em que estes políticos foram eleitos, mas, sobretudo, fora delas, corroborando na migração das posses para áreas de fronteira agrícola, sobretudo, para as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

    No segundo capítulo, “O dinheiro”, o autor dispõe acerca dos preços das terras declaradas pelos políticos à Justiça Eleitoral. Estes valores em alguns casos são extremamente pequenos, pois a Justiça considera como válido os valores históricos dos imóveis.
    A evolução patrimonial destes políticos também é discutida.
    Além da aquisição de propriedades rurais, estes políticos atuam em diferentes atividades agropecuárias, como:
    usinas de cana-de-açúcar, frigoríficos, indústrias de alimentos, mineradoras, madeireiras, entre outras.
    Um exemplo claro disto é o caso do deputado mais rico do Brasil, o alagoano João Lyra (PTB), que declarou em 2010 a Usina Lagina Agroindustrial S/A, de açúcar e álcool no valor de R$ 213 milhões.
    Estes homens públicos controlam parte significativa do território nacional e, ainda, empresas no ramo do agronegócio.
    Estes elementos explicam a existência no país de políticos que dominam a produção de soja e gado, por exemplo, além da mineração.

    No terceiro capítulo, “A política”, há detalhes a respeito dos partidos políticos que concentram o maior número de proprietários de terras, com destaque para o PMDB, seguido do PSDB, PR e PP.
    O autor também retrata neste capítulo a lógica de atuação da bancada ruralista no Congresso Nacional, que possui grande capacidade de organização e articulação em assuntos que lhes são de interesse como, por exemplo, o novo Código Florestal Brasileiro.
    A maior parte destes políticos proprietários de terras representam poderes e interesses regionais ou locais e se perpetuam no poder por meio da transmissão familiar de cargos públicos, conformando uma espécie de coronelismo, segundo o autor.
    Grande parte destes políticos, principalmente governadores, deputados federais, estaduais e senadores receberam para a campanha política de 2010 mais de R$ 50 milhões de grupos ligados ao agronegócio como, por exemplo, o Grupo Friboi (JBS) que doou mais de R$ 30 milhões, a Cosan R$ 3,8 milhões, Bunge Fertilizantes R$2,72 milhões, Cutrale R$ 1,89 milhão e Marfrig Frigoríficos R$ 1,2 milhão.
    Dentre as empresas financiadoras de campanhas, algumas já foram acusadas de cometer irregularidades ambientais e, até mesmo, trabalho escravo.

    No quarto capítulo, “O ambiente”, há informações sobre 69 madeireiras e serrarias que estão entre os bens dos políticos eleitos, e os estados do Amazonas, Rondônia, Pará e Mato Grosso são alvos deste tipo de atividade.
    O autor cruzou os dados referentes ao “arco do desmatamento”, lista dos municípios que mais desmataram no país segundo o IBAMA, com as informações a respeito dos políticos com propriedades rurais nestes municípios, que equivale a 95 mil hectares.
    Deste modo, o arco do desmatamento no Brasil coincide com os arcos do trabalho escravo, assassinatos de camponeses e posse de latifúndios por políticos eleitos.

    No último e quinto capítulo, “Excluídos”, o autor apresenta, primeiramente, casos de políticos eleitos envolvidos em denúncias de trabalho escravo, segundo, em assassinatos e, por fim, em ameaças de morte, relatando o quão violento é o campo brasileiro e a participação de políticos nesta barbárie social. O autor apresenta alguns dos casos mais emblemáticos da história recente do Brasil no que diz respeito a mortes no campo como: o assassinato da missionária Dorothy Stang em 2005, os massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás em 1995 e 1996 e a execução de líderes camponeses na Paraíba.
    Evidenciando que o acesso a terra no Brasil é repleto de conflitos.

    Alceu Luís Castilho conclui afirmando que embora o livro seja uma espécie de reportagem, levanta a tese de que não existe apenas uma bancada ruralista no Brasil, mas, sim, um sistema político ruralista que controla parte do território nacional, formado por clãs familiares e financiado pelo agronegócio.

    *(http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=W0052442)

    (http://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/viewFile/1858/1757)
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    FrancoAtirador

    26 de fevereiro de 2014 às 03h02

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    Leia também:

    JBS aceita reduzir ritmo em frigorífico

    Por Leonardo Sakamoto, no Brasil de Fato

    O Ministério do Trabalho e Emprego suspendeu, nesta segunda (24), a interdição que havia imposto à unidade do JBS, em Montenegro (RS), no último dia 19, motivada por uma “situação de grave e iminente risco à saúde e segurança dos trabalhadores” – detectada após fiscalização em conjunto com o Ministério Público do Trabalho.

    A interdição havia ocorrido na mesma semana em que a JBS apresentou seu novo garoto-propaganda, o cantor e ex-vegetariano Roberto Carlos. O que está acontecendo com a unidade é um exemplo do debate que está em curso, em todo o país, sobre a qualidade de vida dos trabalhadores desse setor. E a necessidade de diminuir o ritmo do trabalho a fim de garantir isso.

    Os empregados da fábrica não tiveram desconto em seus vencimentos no período. Alguns equipamentos e setores ainda estão passando por ajustes e devem ser liberados em breve, de acordo com o Olavio Lepper, gerente de recursos humanos da unidade. A JBS de Montenegro processa frangos, parte deles exportados para o Oriente Médio.

    Máquinas com risco de causar amputação e esmagamentos de membros, provocar choques elétricos fatais e adoecimento. Atividades de movimentação de cargas sob riscos de queda sobre o trabalhador, entre outros problemas foram apontamos pelo MTE e o MPT. De acordo com o auditor fiscal do trabalho Mauro Muller, coordenador estadual do programa de fiscalização em frigoríficos, a empresa atendeu às determinações, realizando melhorias em seu maquinários e removeram processos que levavam ao adoecimento dos empregados.

    Um dos fatores mais críticos era o “ritmo de trabalho imposto pelas máquinas”. Por isso, uma das mudanças mais significativas foi a redução no ritmo de embalagem de frangos inteiros. Segundo relatório técnico elaborado para justificar a interdição, os trabalhadores do setor de frangos embalavam de 30 a 32 aves por minuto, o que exigia mais de 85 ações técnicas (movimentos) nesse período de tempo. Pelas normas brasileiras, o ideal seria no máximo 40 ações por minuto.

    A empresa aceitou reduzir até esse limite e, para isso, irá instalar mais máquinas e empregar mais pessoas. “Estamos redistribuindo com mais funis de envasamento. E contrataremos mais equipes”, explica Olavio.

    A suspensão da interdição está condicionada ao cumprimento dessas mudanças. A cada dez dias, a unidade deverá encaminhar um relatório informando a produção e o pessoal empregado nessas atividades a fim de que os auditores fiscais possam checar se o combinado vem sendo cumprido.

    O trecho, a seguir, foi retirado do relatório técnico e feito com base em questionamento aos trabalhadores. Traz as consequências do ritmo acelerado no frigorífico:

    “- Cerca de 73% dos empregados responderam ser necessário a redução do ritmo de trabalho para assegurar a adequação das condições de trabalho.

    – Em relação as queixas de dor, 93,33% dos empregados relataram terem sentido dor na última semana. As regiões corporais com maior comprometimento foram o ombro, seguido de costas e braços.

    – Em relação ao uso de medicamentos para dor, 73% dos empregados relataram o uso na última semana, com uso predominante de analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares.

    – Em relação a permanência do estado doloroso, 46,66% dos entrevistados relataram que as dores não são sentidas após um final de semana completo de repouso, sendo que 40% relataram que as dores não são sentidas após o término da jornada com um descanso noturno.

    – A dor e o uso de medicamentos foi relatada por empregados bastante jovens, muitos com idade variando entre 22 a 26 anos de idade.
    Aproximadamente, 60% dos entrevistados relatou quadro de dormência em membros superiores fato que comprova a grave inadequação das condições de trabalho.”

    De acordo com o Procurador do Trabalho e coordenador nacional do projeto de adequação das condições de trabalho nos frigoríficos, Sandro Sardá, essa mudança por parte da empresa pode ser considerada um avanço importante, uma vez que o ritmo acelerado e os movimentos repetitivos nas indústrias processadoras de carne tem levado à aposentadoria precoce de milhares de trabalhadores em todo o país.

    “A empresa poderá voltar a trabalhar, desde que o ritmo seja adequado e não cause o adoecimento dos trabalhadores.”

    No relatório técnico elaborado para justificar a interdição, aliás, há uma parte que diz bastante sobre o nosso tempo. E sobre quem manda em quem:

    “A empresa sabedora dessas condições já desenvolveu uma máquina para automatizar a atividade de ensacamento.
    Tal máquina realizará o ensacamento de 20 frangos por minuto.”

    Ou seja, o ritmo intenso estava exigindo forças do trabalhador para além de sua capacidade.
    Na prática, ele ensacava dez frangos a mais do que uma máquina deve fazer nas mesmas condições.
    Como resultado, dor e adoecimento.

    A automação deve ocorrer em novembro.
    (…)
    Coincidentemente, esses números de frangos embalados por máquina (20) e por gente (30) por minuto repetiram-se em outra ação envolvendo a empresa, esta ganhadora de holofotes da mídia.

    O cantor Roberto Carlos, que passou 30 anos sem comer carne, tornou-se garoto propaganda da Friboi, pertencendo à JBS, a maior processadora de proteína animal do mundo.

    De acordo com o que foi divulgado pela empresa, o objetivo é que as campanhas de marketing – na qual as peças do cantor estão inseridas – ajudem a aumentar em 20% a receita líquida global neste ano.

    Cresci ouvindo LPs do Roberto Carlos que minha mãe colocava na vitrola, dividindo espaço com os do Julio Iglesias – o que deve ter marcado indelevelmente minha personalidade…

    Portanto, tenho em minhas memórias um tempo em que ele jogava flores ao público – ao invés de bifes, coxas e sobrecoxas.

    Longe de mim questioná-lo por isso. Cada um sabe o tamanho do carnê do crediário que tem em casa para pagar.

    Não seria simpático se, além da redução no ritmo de trabalho sem redução de salário, os trabalhadores que reclamam de dores e adoecimentos em frigoríficos tivessem direito a um show, daqueles que Roberto Carlos faz em cruzeiros por aí?

    Ou pelo menos um DVD grátis, daquele do especial de Natal, para assistir enquanto estiverem afastados por lesões causadas pelo trabalho?
    Tantas emoções…

    Veja o documentário ‘Carne, Osso’, sobre a situação dos trabalhadores em frigoríficos brasileiros, clicando aqui: (http://globotv.globo.com/globonews/globonews-documentario/v/carne-osso-mostra-a-dura-rotina-de-quem-trabalha-em-frigorificos-no-brasil/2557412).

    Íntegra em:

    (http://www.brasildefato.com.br/node/27557)
    .
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    Demetrius

    28 de fevereiro de 2014 às 09h54

    Franco atirador, como sempre só headshot.
    Obrigado pelas informações.

Luís Carlos

25 de fevereiro de 2014 às 22h47

Heloísa Villela novamente com ótima matéria. É um espanto com ela consegue fazer um texto leve e agradável mesmo falando de um tema tão sórdido como mentira, assassinato de reputação e perseguição. Sempre me agradam os textos dela, conduzindo o leitor de forma suave e perspicaz, e sempre citando espaços de informação muito ricos como DemocracyNow e Couterpunch.
Corrupção para licenças de medicamentos e venenos agrícolas tem longa história, e sempre feito por “gente de bem” das grandes empresas e do meio acadêmico.

Responder

renato

25 de fevereiro de 2014 às 21h56

Assim, depois de reconhecer que o Demônio tem inimigos.
Posso dizer, que este produto o ATRASA O ZINA, pode me
fazer nascer gay, e com câncer, mas ele tem remédio para
o segundo.
Monsanto é fichinha…mas dá para pensar…com meus botões.
Botões??? nãooooooooo…!!!!
Falando sério….
Não teríamos que ter nos rótulos, quais os produtos foram usados
para combater pragas….

Responder

Urbano

25 de fevereiro de 2014 às 21h48

Syngenta! Tchan!

Responder

Marcio Ramos Terrorista

25 de fevereiro de 2014 às 21h37

… infelizmente Haynes não é a regra… toda “Universidade” é de direita e reforça o poder dos “donos do meio de produção”, duvidas? Que tal a USP?

Responder

rios

25 de fevereiro de 2014 às 19h59

Toda vez que lia Syngenta só lembrava de Monsanto. Não sei porque.

Responder

Lucian

25 de fevereiro de 2014 às 19h57

Isso também mostra que a utilidade das escolas é pura ilusão. Se cria estes universitários para serem obedientes ao sistema e não eles mudarem o sistema que vivem.Por isso eu acho uma merda todo esse papo de “ciencia salva o mundo”.

Responder

    jader

    25 de fevereiro de 2014 às 21h38

    O que fazes em frente a um computador?
    Foi Deus que o inventou?

    Mário SF Alves

    26 de fevereiro de 2014 às 16h16

    Não. Não foi Deus, foi uma sequência de deuses. Teve, inclusive, um que se suicidou na Inglaterra. Dizem que com uma maçã envenenada. Um gênio, o cara. O nome dele: Alan Turing¹.
    E sabe o porquê do suicídio: pressão política contra sua homossexualidade declarada. Antes disso, porém, quiseram metamorfoseá-lo pela via da castração química.
    ___________________________________________
    ¹Alan Mathison Turing OBE (23 de Junho de 1912 — 7 de Junho de 1954) foi um matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação britânico. Foi influente no desenvolvimento da ciência da computação e na formalização do conceito de algoritmo e computação com a máquina de Turing, desempenhando um papel importante na criação do computador moderno. Ele também é pioneiro na inteligência artificial e na ciência da computação.

    Em 10 de setembro de 2009, após uma campanha de internet, o primeiro-ministro britânico Gordon Brown fez um pedido oficial de desculpas público, em nome do governo britânico, devido à maneira pela qual Turing foi tratado após a guerra.
    Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alan_Turing

    Nelson

    27 de fevereiro de 2014 às 00h10

    Entendo perfeitamente o que queres dizer, Lucian.


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