VIOMUNDO

Diário da Resistência


Blog da Saúde

Ronco alto? Todas as noites? Cuidado, pode ser apneia


04/09/2011 - 12h47

por Conceição Lemes

Maurício Rocha e Silva, 71 anos, é médico e professor emérito do Departamento de Cardiopneumologia da Faculdade de Medicina da USP. Em fevereiro de 2000, mal começara um relacionamento, sua namorada e atual esposa, Vera, deu-lhe uma cotovelada no fígado.

“Você ronca feito um serrote e para de respirar durante o sono”, repete ele hoje, às gargalhadas. “Claro, não acreditei. Como era possível eu, médico, nunca ter percebido minhas paradas respiratórias, e ela, uma leiga, fazer um diagnóstico? Só podia ser implicância com o meu ronco, que eu imaginava normal.”

Em 2001, em Londres, na primeira noite que o casal passou na casa de amigos, a anfitriã, que é pneumologista, confirmou o “diagnóstico” de Vera: “O barulho do seu ronco é suficiente para acordar um bairro. Você tem apneia obstrutiva do sono. Chegando ao Brasil, vá fazer uma polissonografia”.

Foi seu primeiro compromisso ao retornar a São Paulo. O exame é feito enquanto a pessoa dorme e monitora os estágios do sono, a respiração a  oxigenação do sangue, entre outros parâmetros. Assim, com fios conectados em vários pontos do corpo, ele passou a noite no Laboratório do Sono do Instituto do Coração de São Paulo (Incor-SP). “Não tenho nada, não é?”, perguntou quando acordou ao técnico que fazia o exame. A resposta foi na lata. “É a apneia mais grave que eu já vi. O senhor para de respirar a cada um minuto e meio.”

Maurício saiu do hospital com um aparelho chamado CPAP (Continuous Positive Airway Pressure ou, em português, pressão positiva contínua em vias aéreas), que ele utiliza para dormir: uma máscara no nariz é conectada a um gerador de pressão contínua, que joga ar nas vias aéreas superiores e impede que a garganta se feche, eliminando as paradas respiratórias. Na primeira semana, Maurício dormiu 12 horas por noite.

“Eu tinha uma sonolência diurna muito forte e não sabia por quê”, relembra o médico, dando o braço a torcer à esposa. “Minha vida mudou completamente. Se tivesse ouvido a Vera, provavelmente não teria dormido em palestras de colegas, nem ela teria usado protetores auditivos para se proteger dos meus serrotes.”

PARADA RESPIRATÓRIA E RISCOS

Em se tratando de ronco, Maurício Rocha e Silva é a regra. Quem ronca não tem consciência do próprio ronco, que é sempre relatado por terceiros. “O ronco acontece, porque durante o sono a musculatura da faringe [garganta] relaxa, dificultando a passagem de ar quando se respira. Essa obstrução leva ao ronco”, ensina o médico e especialista do sono Geraldo Lorenzi Filho, no capítulo Sono — Questão de vida ou ... , do livro  “Saúde — A hora é Agora”. Lorenzi é professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Laboratório do Sono do Incor-SP.

O ronco é gerado pela vibração das paredes da garganta. Roncar de vez em quando e não muito alto não é “um crime”. Você pode roncar, por exemplo, quando: 1) usa bebida alcoólica ou sedativos — eles promovem maior relaxamento da musculatura; 2) está na fase REM do sono — aqui existe um grande relaxamento da musculatura; 3) o nariz está entupido.

Além disso, existe gente que ronca sempre que está de barriga para cima, porque a força da gravidade contribui para o fechamento da garganta. Por isso, se você vive ganhando cotoveladas à noite, cuidado. É um sinal de alerta: significa que a sua garganta tem grande tendência a se fechar durante o sono. Nesses casos, perder um pouco de peso e acostumar-se a dormir de lado podem ser a solução.

Mas vamos em frente, isso é só o começo. Existem roncos e roncos. O sinal vermelho surge quando o ronco tem as seguintes características:

* É muito alto, a ponto de incomodar quem dorme no mesmo quarto (muitas vezes até o vizinho de quarto!).

* Ocorre todas as noites.

* É irregular, com momentos em que desaparece totalmente, ressurgindo alto. Cuidado! Pode ser sinal de uma parada respiratória.

É a apneia obstrutiva do sono: a significa ausência e pneia, respiração. Portanto, apneia é ausência de respiração. Nesse caso, há fechamento completo da garganta (faringe), a pessoa tenta respirar, mas não consegue: é o momento em que o ronco desaparece. O bloqueio da garganta só termina com um pequeno despertar, quando o tônus da musculatura se restabelece e a pessoa volta a respirar. Cada despertar desses dura apenas alguns segundos e, na grande maioria das vezes, a pessoa não tem consciência do processo. Ela volta imediatamente a dormir, e o processo se repete. Às vezes, nem para de respirar totalmente, mas seu fluxo de respiração diminui muito. Aí, tem de acordar para respirar direito. É a hipopneia.

Dependendo do número de apneias (paradas respiratórias) e de hipopneias (redução importante da respiração) por hora de sono, a doença pode ser leve (5 a 15 eventos), moderada (16 a 30) e grave (mais de 30 paradas respiratórias por hora de sono). O professor Maurício Rocha e Silva tinha – pasme! – fazia 40 paradas respiratórias por hora de sono.

“A pessoa com apneia obstrutiva dorme, dorme, dorme, mas o sono é fragmentado e não repousante, já que ela desperta centenas de vezes por noite”, esclarece Lorenzi. A consequência óbvia é a sonolência diurna, pois ela não passa por todas as fases do sono. Como essa história se repete noite após noite, pode ter conseqüências devastadoras para a saúde e a vida pessoal, profissional e social. Além de contribuir para a perda de memória, diminuição da concentração e sonolência diurna, a apneia obstrutiva do sono aumenta o risco de o seu portador ter depressão, pressão alta, acidente vascular cerebral (derrame), infarto do miocárdio e impotência sexual.

EMAGRECER AJUDA MUITO

Prótese dentária para ser colocada à noite para dormir (casos leves a moderados), cirurgia, CPAP (tratamento de escolha para casos moderados a graves) e perda de peso são os tratamentos disponíveis para a apneia obstrutiva do sono.

“Emagrecer é sempre ótima ideia. A gente não engorda só por fora, por dentro também; a garganta fica mais estreita, dificultando a passagem de ar”, adverte Lorenzi. “Setenta por cento dos portadores de apneia têm obesidade ou sobrepeso. Daí perder peso ajuda muito; em alguns casos pode resolver.”

Outra medida que pode ajudar alguns é dormir de lado, nunca de barriga para baixo (prejudica a coluna vertebral) nem de barriga para cima (faz a língua cair para trás e roncar mais). Costure uma bolinha nas costas do seu pijama ou camisola. Assim, aprenderá a dormir de lado. No mínimo, a sua coluna se sentirá melhor.

Meu twitter: @conceicao_lemes, siga à vontade.

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9 comentários

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Leandro Lopes

30 de novembro de 2011 às 10h02

Muito interessante essas questão,quando estou dormindo minha esposa e meu filho me acordam dizendo que estou roncando muito alto alto mesmo e isso pra mim é normal pq nunca escutei nada, mais por diversas vezes acordei com meu próprio ronco,isso me incomoda pelo motivo que quando acordo minha garganta esta ressecada e o céu da boca com dor,não sei se isso tem alguma coisa ligada, mais durmo por noite 8:00 só que nessas oito horas não acordo pra nada, sou fumante e a noite tomo uma latinha de cerveja,parece que não mais pratico exercícios físicos (musculação) eu treino a 5 anos e estou afastado ha 3 meses pois não tenho tempo pra exercer essa atividade,mas o cigarro estou largando aos poucos,tenho 25 anos e estou a 5Kg acima do meu peso,se alguém tiver uma resposta pra mim ficarei muito agradecido.
pelo que estava vendo nos post anteriores como funciona o uso desse CPAP ,eu teria que dividir minha cama com ele ? pelo que estava vendo o uso é frequente ou tem uma fase que não mais seria necessário o uso do mesmo ! a e detalhe minha memoria esta um horror por exemplo ontem minha irmã deixou a filha dela comigo e levou a outra pro médico e fui dormir ela chegou pra pegar a criança eu a entreguei perguntei o que a outra filha tinha é ela me respondeu que era conjuntivite e hoje pela manha perguntei pra minha esposa que tinha vindo buscar a minha sobrinha em casa e ela me respondeu ! Leandro como que você nao lembra se foi você que a atendeu entregou a menina e ainda me disse que problema a criança tinha só assim consegui associar o que eu tinha feito na noite de ontem !estou muito preocupado pq lembro dela mencionar que as vezes eu fico em silencio sem o ronco mais depois ele vem como um estrondo (muito forte)
muito obrigado a quem te a resposta pra mim estou no aguardo !

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Juréia Z Alves

22 de novembro de 2011 às 15h34

Meu marido ronca demais e me preocupa muito.
Se for possivel me informe onde devo procurar tratamento pelo sus, ou se é só particular.
Obrigada.

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    Conceição Lemes

    22 de novembro de 2011 às 16h42

    Juréia, vc mora onde? abs

jairo

25 de outubro de 2011 às 19h59

Eu tenho apnéia obstrutiva do sono, e ja fiz polissonografia. Minha vida só melhorou com o uso do CPAP. Hoje durmo oito horas seguidas, acordo bem disposto,e não tenho sono durante o dia e com o aparelho, eu não ronco. Concordo que seja um investimento alto, mas valeu a pena. Outro dia vi uma reportagem onde a pessoa conseguiu o cpap pelo SUS, mas eu nao podia mais esperar. Vale a pena tentar

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Mayana Zatz: É ético selecionar embriões de um determinado sexo? | Viomundo - O que você não vê na mídia

11 de setembro de 2011 às 21h02

[…] Ronco alto todas as noites? Cuidado, pode ser apneia   […]

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bene nadal

06 de setembro de 2011 às 21h24

Sofro de apneia do sono há sete anos, já passei por tres médicos especialistas, no entanto apesar de minhas polissonografias indicarem duzentas e setenta apneias em oito horas de sono, eles insistem em me indicarem apenas remédios químicos, estou a caminho do quarto médico, espero dessa vez ter mais sucesso. Gostei da matéria, muito boa.

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    Victor Portela

    12 de outubro de 2011 às 14h21

    Uma das condutas nem sempre abordadas é aquela feita pelo dentista especialista em cirurgia buco maxilofacial. Ele avaliará se suas estruturas ósseo-musculares contribuem para o estreitamento das vias aérea e causam comprometimento da respiração. Eu sofria de apneia e apos avaliação do bucomaxilo, viu-se necessaria cirurgia de correção de deformidade ossea (meu queixo era retraído). Eu sofria 20 episodios de apneia por hora. Após a cirurgia (que não é pequena, mas também não há sofrimento), diminuiu pra apenas 1 por hora. Detalhe, sou dentista e mesmo assim demorei a abrir os olhos para este problema.

JOSE DANTAS

06 de setembro de 2011 às 17h54

Esse é apenas mais um problema, além dos demais que são descobertos a cada dia e nos tornam pacientes de mais um especialista na área médica. Entretanto os problemas maiores são outros, que envolvem a questão financeira e a disponibilidade de tempo: os planos de saúde ficam cada vez mais caros a medida que surgem novas séries de atendimentos vitalícios, os médicos cada vez mais se descredenciam dos planos, as filas nos consultórios dos remanescentes credenciados tornam-se insuportáveis e sonhar com esse tipo de atendimento pelo SUS é pura utopia. Por aí já se chega a conclusão que isso é coisa para rico, ou seja, aquele que tem condições de mexer na agenda do médico e escolher a hora da consulta. No mais, chego aos 60, vejo a estrada se afunilando à minha frente, ponho a vida na banguela e espero os acontecimentos para engrenar a velocidade correta, conforme a situação que se apresente.

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NELSON NISENBAUM

04 de setembro de 2011 às 20h43

Problema sério que deve ser tratado com seriedade. Sou médico, roncador e uso CPAP, a vida melhora muito. Se você tem este problema, procure diagnóstico e tratamento, pois sem tratamento aumentam muito os seus riscos metabólicos, e cardiovasculares em geral. Claro, você tem muitas chances de viver menos ou viver mal.

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