Check up: Conversa é a parte mais importante da consulta

por Conceição Lemes

Check ups com maior número de exames laboratoriais e inovações tecnológicas são a preferência nacional. Quanto mais testes realizados, mais valorizados. Porém, ao contrário do que muitos imaginam, exames de laboratório não previnem doenças.

A advertência é do médico Mílton de Arruda Martins, professor titular de Clínica Médica da Faculdade da USP, no livro Saúde – A hora é agora. Ele é um dos autores.

“Prevenção e promoção de saúde só se conseguem com estilo de vida saudável: exercícios regulares, não fumar, sexo seguro, cinto de segurança, entre outros cuidados”, afirma o professor Martins. “Consequentemente, as orientações dos profissionais de saúde envolvidos no atendimento fazem a diferença. Sem elas, o check-up não serve para nada.”

O MÉDICO DEVE PERGUNTAR MUITO E OUVIR MAIS AINDA

A prática do check-up de saúde começou na década de 1960 e tomou fôlego nos anos 1970. O termo foi emprestado da revisão de material da engenharia mecânica e incorporado à medicina como avaliação periódica de saúde.

A finalidade é avaliar a sua saúde no momento em que é realizado. Mais precisamente, rastrear determinadas doenças, visando ao diagnóstico precoce em pessoas assintomáticas, ou seja, que não sentem nada e estão muito bem, obrigada.

Ele não precisa ser em serviço especializado ou no ambulatório da empresa; pode ser com o seu próprio clínico geral. É recomendável a homens e mulheres. Para um adulto sem doença e com menos de 50 anos, basta pelo menos uma avaliação de saúde a cada dois anos; acima de 50, uma por ano.

“A conversa, para saber sua história pessoal e familiar de doenças, queixas atuais e antigas, é a parte mais importante da consulta”, ressalta Martins. “Associada ao exame físico, fornece os principais dados para o médico ir atrás das doenças de cada pessoa.”

Por isso, a conversa deve ser demorada: o médico deve perguntar muito e ouvir mais ainda. Eis algumas das perguntas obrigatórias e os respectivos motivos:

* Qual é a sua atividade profissional? É para, se necessário, indagar sobre possíveis problemas de saúde que decorrem do seu tipo de trabalho.

* Onde nasceu, viveu e mora? Determinadas doenças são preocupação apenas em certas regiões do Brasil. A resposta, portanto, pode fornecer pistas para o médico investigar problemas específicos.

* Tem alguma doença? Que medicamentos toma? Por exemplo, hipertensão, diabetes e colesterol elevado aumentam o risco de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame cerebral. Alguns remédios também podem colocar a sua saúde em risco, devido aos efeitos colaterais.

* Tem sentido ou observado algo diferente no corpo nos últimos tempos? Essas questões visam a identificar sintomas iniciais de eventual distúrbio.

* Tem antecedentes familiares de câncer, doença cardíaca ou diabetes? Quando existem casos na família, principalmente pais e irmãos, cuidados especiais são indispensáveis, inclusive avaliações de saúde e testes laboratoriais mais precoces.

* Está em dia com as vacinas? Adultos devem tomar algumas, e muitos não sabem disso.

* Tem praticado atividade física? Qual, quantos minutos diariamente, quantas vezes por semana? É para, dependendo do caso, indicar uma atividade física mais adequada.

* Fuma cigarro (industrializado, de palha, indiano ou de Bali), cigarrilha, charuto ou cachimbo? Quantos por dia? Há quanto tempo? Já pensou em largar? Qualquer que seja a sua idade, sempre é tempo para parar, e o médico pode orientá-lo sobre as melhores estratégias ou encaminhá-lo a serviços especializados.

* Consome bebida alcoólica todo dia? Quanto bebe por semana? Muitas vezes a pessoa passa da conta, sem ter consciência do abuso, e o consumo excessivo põe em risco a sua saúde e até a sua própria vida.

* Usa maconha, cocaína, crack ou ecstasy? Além de esclarecer sobre os riscos à saúde dessas drogas, o médico tem condições de indicar onde buscar ajuda para a pessoa dar um basta.

* Usa preservativo nas relações sexuais? A camisinha é um método eficaz para a prevenção da aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

* Como é o seu sono? Qualidade e quantidade são essenciais para uma vida saudável. Existem problemas que a orientação adequada resolve.

* Como é sua alimentação? Alimentação mais saudável ajuda a prevenir infarto do miocárdio, AVC, diabetes e vários tipos de câncer, entre outras doenças.

* Como anda seu humor? Tem se sentido para baixo, sem prazer, interesse ou disposição para as tarefas do dia a dia? O objetivo é descobrir quem tem depressão. O problema é frequente e piora muito a qualidade de vida, mas tem tratamento.

* Experimenta situações de risco de acidente ou violência no trabalho ou em casa? A identificação delas permite estabelecer estratégias de prevenção.

* Quantas vezes por dia escova os dentes? A higiene bucal adequada é essencial em todas as fases da vida.

* No lazer ou no trabalho, fica muito no sol? A exposição excessiva à luz solar aumenta o risco de câncer de pele, especialmente em quem tem pele clara. Uso de protetor solar é uma das maneiras de reduzir a ameaça.

* Está enxergando bem? E a sua audição, como anda? Para detectar problemas de visão e/ou audição.

– Ah, é pergunta demais! Demora muito, não tenho tempo a perder…

Acredite: não é invasão de privacidade nem tempo perdido ou exagero. A avaliação periódica de saúde só acontece uma vez a cada um ou dois anos, dependendo da sua idade. Logo, a conversa aprofundada é vital.

Fornece as principais pistas para rastrear sintomas e sinais que possam indicar doença em fase inicial e mereçam investigação. “Portanto, não minta nem omita”, aconselha Martins. “Pistas erradas muitas vezes atrasam diagnósticos, tratamentos e até impedem prevenções adequadas.”

A etapa seguinte ao check up é o exame físico. É importante sempre verificar: peso, altura e circunferência abdominal (devido à obesidade, que aumenta o risco de diabetes, infarto do coração, AVC e alguns tipos de câncer, entre outras doenças), pressão arterial e visão.

EXAMES INDISPENSÁVEIS A TODOS OS ADULTOS

A combinação da conversa com o exame físico é que determina o passo seguinte: os testes laboratoriais. Eles são importantes para pesquisar distúrbios que possam estar presentes, mas ainda não dão sintomas ou sinais.

O Centro de Promoção da Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo,  o CPS do HC-SP, recomenda de rotina para adultos apenas os seguintes exames:

1) Colesterol total e frações – É fator de risco importante para doenças nas coronárias (artérias que irrigam o coração) e AVC.

2) Glicemia – Verifica se a pessoa tem diabetes, que é o aumento do “açúcar” no sangue.

3) Densitometria óssea – Para saber se a mulher tem osteoporose.

4) Mamografia – Destina-se ao diagnóstico precoce do câncer de mama.

5) Papanicolau – Visa a diagnosticar câncer do colo do útero bem no início.

6) Pesquisa de sangue oculto nas fezes – Objetiva a detecção precoce de câncer no intestino grosso ou colorretal (cólon e reto).

“Esses testes são obrigatórios na avaliação periódica de saúde, mesmo que você esteja muito bem”, frisa o professor Martins.

Mas se pela avaliação clínica houver suspeita de algum problema, o médico pode solicitar mais exames. É igualmente necessário a pessoas em situações que implicam maior perigo à saúde.

— Ah, mas há médicos que não gostam de dar muitas explicações…A gente pergunta, eles não dão bola… Eles não gostam de ouvir…Se respondem, a gente não entende…

Verdade. Verdade. Verdade. Verdade. Mas não se intimide. Você tem direito a esclarecimentos não só sobre as questões levantadas acima, mas também sobre os exames que ele solicitar.  Por exemplo: Qual o objetivo do teste? Tem risco? Qual?  Informe-se antes de fazer os exames. Pese os prós e os contras e tome a decisão.

“Juntando o que foi detectado na conversa, no exame físico e nos testes, o médico deve orientar sobre o que é necessário para diminuir ou evitar riscos futuros à sua saúde”, arremata  o professor Martins. “As orientações do médico e dos demais profissionais de saúde envolvidos no check up são mais importantes do que os exames de laboratório solicitados.”

Nota do Viomundo: Esta repórter é um dos três autores do livro Saúde — A hora é agora. O professor Mílton de Arruda Martins e o médico Mario Ferreira Jr, coordenador do CPS-HC-SP, são os outros.