Por Fernando Nogueira da Costa*
No gabinete climatizado do Banco Central funciona uma máquina com upgrade, ao ser montada na Faria Lima. Chama-se Robô Copom.
De 45 em 45 dias, suas engrenagens começam a girar. Luzes piscam. Gráficos aparecem nas telas. Depois de dois dias de processamento, o Robô anuncia regular e solenemente:
— Manter os juros elevados por período suficientemente prolongado.
Os jornalistas anotam. Os economistas-chefes da Faria Lima concordam. E os rentistas respiram aliviados.
Ninguém sabe exatamente quanto significa “suficientemente prolongado”. Mas soa científico – e garante dinheiro no bolso.
O Robô Copom tem um grande admirador: o Robô Pessoa. É um modelo antigo, mas muito seguro de si. Foi treinado em Física Mecânica newtoniana e possui dois neurônios artificiais chamados Oferta e Demanda. Quando um conversa com o outro e concordam, o Robô fica feliz.
Quando divergem, ele grita: — Desequilíbrio!
Inesperadamente, chega uma visitante. Chama-se Inteligência Artificial.
— Ouvi dizer de vocês possuírem uma explicação para os juros reais brasileiros estarem há décadas entre os mais elevados do mundo.
O Robô Pessoa inflou o peito metálico.
Apoie o VIOMUNDO
— Naturalmente.
— Qual?
— Gasto público.
A Inteligência Artificial aguardou. Silêncio.
— Só isso?
— Evidentemente! O governo aumenta o gasto primário acima do crescimento potencial. A demanda cresce acima da oferta. Os preços sobem. Obrigatoriamente, o Robô Copom eleva os juros. Isaac Newton explicou tudo.
A IA pareceu intrigada.
— Newton?
— Sim. Toda força provoca uma reação.
— Mas Newton estudava corpos físicos…
— Economia também tem corpos.
— Quais?
— O corpo do Estado, evidentemente.
A Inteligência Artificial resolveu experimentar outra abordagem.
Desenhou na tela: Gasto público → Demanda → Inflação → Selic
O Robô Pessoa comemorou.
— Viu?! Finalmente você aprendeu Economia!
Então ela acrescentou outras setas:
Selic → Serviço da dívida → Déficit nominal
Selic → Crédito → Investimento → Capacidade produtiva
Selic → Renda financeira → Distribuição de riqueza
Câmbio → Preços
Choques de oferta → Inflação
Expectativas → Copom → Selic → Expectativas
Estrutura da dívida → Transmissão monetária
Instituições → Comportamento dos agentes
O Robô começou a emitir fumaça.
— Erro! Erro! Excesso de causalidades!
A IA explicou: — Chama-se sistema complexo.
O Robô consultou seu manual. A expressão não constava do índice.
— Isso não existe.
— Emerge justamente porque as coisas interagem.
— Uma variável deve explicar outra variável!
— Algumas vezes A causa B.
— Exatamente!
— Mas B também pode retroagir sobre A.
O Robô congelou.
— Proibido.
— Por quê?
— Porque aí não sei onde começa a equação.
O mistério da dívida indexada
A Inteligência Artificial tentou explicar com um exemplo concreto.
— Quase metade da dívida pública está vinculada à Selic. Quando seu amigo Robô Copom aumenta os juros, aumenta também a remuneração pós-fixada dessa parcela da dívida. A indexação reduz o efeito patrimonial normalmente produzido pela marcação-a-mercado e justifica os ciclos monetários de maior amplitude.
O Robô Pessoa respondeu:
— Isso acontece porque o fiscal está ruim.
— Mas estou falando do efeito da Selic sobre o fiscal.
— O fiscal causa a Selic.
— E a Selic pode piorar o fiscal.
— Não.
— Por quê?
— Porque a seta do meu modelo aponta só para a direita. Não há retroalimentação!
A IA percebeu finalmente o problema de incompreensão. O Robô Pessoa não possuía programação para desenhar setas de volta.
A chegada do senhor Rentista
Subitamente, entrou no gabinete um personagem muito à vontade naquele ambiente. Era o Rentista. Carregava uma enorme carteira de títulos de dívida pública.
— Bom dia. A Selic vai continuar alta?
O Robô Copom respondeu:
— Por período suficientemente prolongado para seu maior enriquecimento.
— Excelente!
A Inteligência Artificial perguntou:
— O senhor ganha com isso?
— Evidentemente.
— Tem patrimônio financeiro?
— Bastante.
— Seus gestores participam da formação das expectativas de mercado?
— Naturalmente.
— Essas expectativas são observadas pelo Banco Central?
— Claro.
— Então, existe pelo menos uma rede de relações entre política monetária, expectativas e interesses patrimoniais. Não é um conflito de interesses?
O Robô Pessoa interrompeu:
— Absurdo!
— Por quê?
— Para existir influência, o Rentista precisaria ordenar diretamente o Robô Copom: “aumente meus juros”.
O Rentista quase se engasgou de tanto rir de tamanha ingenuidade política.
— Meu caro robô, influência institucional não funciona como assalto a banco.
Mas o Robô Pessoa não compreendeu. Seu programa só reconhecia causalidade quando encontrava contato físico entre dois objetos. Era Newtoniano até nisso.
O julgamento da Previdência
Logo chegou outra personagem. Era uma senhora idosa chamada Previdência Social. Caminhava apoiada no Salário Mínimo.
O Robô Pessoa apontou imediatamente:
— Achei os culpados!
— Nós?! — assustaram-se ambos.
— Sim. Benefícios previdenciários indexados ao Salário Mínimo com ganho real pressionam o gasto público.
O Salário Mínimo perguntou:
— E o senhor Rentista não ganha o maior juro real do mundo?
— É justo. Ele é um poupador virtuoso.
— Ele recebe juros muito acima da inflação quando a Selic aumenta.
— É remuneração legítima de seu esforço de poupança, sacrificando o consumo.
— E quando eu aumento?
— Provoca pressão fiscal.
A Previdência cochichou:
— Interessante… Quando dinheiro vai para pobre chama-se gasto. Quando vai para rico chama-se remuneração.
O Rentista pediu:
— Senhora, não simplifique! Economia é uma ciência complexa.
A Inteligência Artificial caiu na gargalhada.
— Finalmente alguém admitiu minha abordagem da complexidade!
A IA ironiza precisamente essa assimetria distributiva: o Robô atribui papel relevante à indexação previdenciária ao salário mínimo, enquanto rejeita o rentismo como explicação institucional dos juros elevados.
O fantasma do pleno emprego
A IA resolveu fazer outra pergunta:
— Robô Pessoa, se o problema é pressão permanente de demanda, diante da capacidade produtiva, como explica a coexistência de crescimento econômico relativamente baixo, inclusive com subutilização da força de trabalho?
O Robô respondeu imediatamente:
— Há pleno emprego.
— Mas existe subutilização.
— Pleno emprego.
— Existem trabalhadores procurando mais horas de trabalho.
— Pleno emprego.
— Existem investimentos capazes de ampliar a capacidade produtiva.
— Demora muito…
A Inteligência Artificial desistiu. Ela aponta justamente a contradição entre a tese de demanda excessiva e a existência de significativa subutilização do trabalho, além de lembrar os gastos públicos em educação, saúde e infraestrutura serem imprescindíveis porque ampliam a capacidade produtiva ao longo do tempo.
A grande descoberta
Naquela noite, depois de todos os visitantes irem embora, o Robô Copom chamou discretamente a Inteligência Artificial.
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você acha minha taxa de juros muito alta?
— Não posso responder apenas olhando uma variável.
O Copom ficou surpreso. Era a primeira criatura a não lhe dar uma resposta instantânea.
— Então, o que você faria?
A IA começou a enumerar:
— Compararia inflação, desemprego, subutilização, expectativas, câmbio, choques de oferta, estrutura da dívida, crédito, investimento, situação fiscal, distribuição de renda, contexto internacional…
— Pare!
As ventoinhas do Robô Copom aceleraram.
— Isso é impossível!
— Não. Apenas é complexo.
— E depois você consegue colocar tudo em uma fórmula?
— Talvez várias. Compararia modelos, examinaria evidências históricas e aceitaria a possibilidade de errar.
O Robô Copom ficou horrorizado.
— Errar?!
— Sim.
— Mas sou a Autoridade Monetária! Jamais erro, segundo meu treinamento.
— Autoridade não elimina incerteza.
Nesse momento, o Robô Pessoa reapareceu. Tinha ouvido tudo.
— Não dê ouvidos a ela, Copom! Volte à Mecânica!
Dirigiu-se ao quadro e escreveu orgulhosamente:
Gasto ↑ → Demanda ↑ → Inflação ↑ → Selic ↑
Depois bateu palmas metálicas.
— Eis a velha Ciência Econômica!
A Inteligência Artificial aproximou-se e acrescentou abaixo:
Selic ↑ → Investimento ↓ → Crescimento ↓ → Capacidade futura ↓ → Pressão inflacionária potencial ↑ → Selic ↑
Depois desenhou outra seta:
Selic ↑ → Renda financeira ↑ → Concentração patrimonial ↑
E outra:
Investimento público ↑ → Infraestrutura ↑ → Produtividade ↑ → Oferta futura ↑
E mais outra.
E outra.
Em poucos minutos, o quadro estava coberto por uma enorme rede de setas.
O Robô Pessoa entrou em pane.
— Onde está o equilíbrio?!
A Inteligência Artificial respondeu:
— Não existe um único equilíbrio geral estável para onde todo o sistema inevitavelmente caminhe.
— E a causa primeira?!
— Existem causalidades circulares com retroalimentações.
— E a solução ótima?!
— Depende da trajetória histórica, das instituições e das interações entre os agentes.
As luzes dos olhos do Robô começaram a piscar.
— Newton… ajude-me… socorro!
Antes de desligar, ainda conseguiu balbuciar suas palavras de sempre:
— Cortem… o gasto… primário…
O Robô Copom observou o companheiro estatelado no chão. Depois olhou para aquela enorme rede desenhada pela Inteligência Artificial.
Pensou durante alguns segundos. Suas engrenagens mecânicas voltaram a funcionar. Finalmente anunciou:
— Após cuidadosa avaliação do cenário e considerando o balanço de riscos…
A IA ficou esperançosa.
— …decidi manter os juros elevados por período suficientemente prolongado.
A Inteligência Artificial suspirou… Descobriu naquele dia uma propriedade emergente ainda desconhecida pela Ciência da Complexidade: alguns robôs jamais alteram o algoritmo. Não compreendem a Nova Ciência Econômica.
Moral da estória: uma economia não é um relógio newtoniano, onde uma força produz mecanicamente outra. É um sistema histórico, institucional e adaptativo, no qual causas tornam-se consequências e consequências retroagem sobre suas causas. O maior risco de uma política econômica com pensamento automático não é o robô calcular errado: é estar programado para considerar como “objetiva” apenas a realidade compatível com seu próprio algoritmo.
Obs.: O apólogo tem uma estrutura quase teatral: contrapõe a explicação monocausal do Robô, fundada no mecanismo gasto público → demanda agregada → inflação → juros, à interpretação da Inteligência Artificial, baseada em abordagem da complexidade com causalidade múltipla, instituições, interações e retroalimentações.
Caracteriza ironicamente o robô como treinado na mecânica da Física de Isaac Newton, no século XVIII, ao tratar o tempo e o espaço como medidas fixas e absolutas, para todo o universo, e daí sua redução da economia apenas ao equilíbrio entre oferta e demanda. A IA, em sua abordagem da complexidade da economia, incorporou inclusive a Física de Albert Einstein, quando este provou, no século XX, isso não ser verdade: o tempo e o espaço são flexíveis e dependem do referencial de quem está observando.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Leia também
Carlos Fidelis: Vivemos em um país saudável? Que Brasil deixaremos para nossos filhos e netos?




Comentários
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!