Gilson Caroni Filho: O amargo chá do colonialismo inglês

publicado em 22 de fevereiro de 2012 às 12:28

Ao negar as acusações da presidente Cristina Kirchner de que esteja militarizando o Atlântico Sul e rejeitar qualquer solução negociada sobre a soberania das ilhas Malvinas, o governo do premiê David Cameron comprou uma briga complicadíssima, impossível de ser vencida: com seu próprio passado que combinou, com perfeição, a intransigência, o garrote e a libra.

A diplomacia britânica ainda conserva desconcertantes sutilezas herdadas do seu passado imperial. Sofismas e negação de evidências são a marca registrada quando se trata de ocultar velhos métodos. No transcurso de dois séculos, os ingleses usaram e abusaram da ingerência política, econômica, diplomática e militar. Possivelmente, mesmo depois do declínio, ainda conservem o modus operandi.

Para alcançar seus objetivos, os sucessivos governos de Sua Majestade recorreram a invasões, guerras, à desestabilização interna e ao acirramento de conflitos regionais para assegurar sua supremacia em regiões colonizadas. Também, em diferentes épocas, contaram com diversos aliados: presidentes, ministros, chanceleres, generais, banqueiros e mercenários de toda ordem.

Voltemos à guerra de 1982. Quatro anos antes, em 1978, Chile e Argentina estiveram a ponto de entrar em guerra pelo litígio do Canal de Beagle. Ao serem desatadas as hostilidades pelas Malvinas, o governo de Santiago recusou a aliar-se aos seus vizinhos como fez o resto da América Latina, opôs-se à convocação do Tiar (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca) e absteve-se em todas as votações que condenaram a agressão britânica e o apoio norte-americano. A posição chilena favorecia o Reino Unido e, contudo, os ingleses colocaram o parceiro em evidência, expondo-o a consequências desagradáveis.

Foi a própria mídia estatal inglesa a encarregada de revelar o papel determinante do Chile para a inteligência britânica que teria instalado naquele país um sistema de espionagem eletrônica das bases argentinas em Ushuaia, Rio Grande e Rio Gallego.

Não, não houve qualquer trapalhada diplomática. Essas declarações de “gratidão” não obedeceram aos bons modos britânicos, mas sim à sua prática constante de dividir para reinar, fomentando a ressurreição de antigos eixos geopolíticos, pelos quais cada país se considera inimigo de seu vizinho, em proveito do inimigo de todos eles que costuma ser também o abastecedor de armas. Um cenário felizmente superado na região.

Quando negam as intenções militares, os ingleses parecem ter esquecido que, em 1985, a Argentina protestou energicamente perante a OEA contra uma base aérea no arquipélago. O então ministro das Relações Exteriores, Dante Caputto, garantiu que a conversão das Malvinas numa poderosa base militar constituía “uma grave ameaça à segurança de nossa nação, à paz e à tranquilidade do nosso continente e, por conseguinte, à paz e à tranquilidade no mundo”.

O comunicado da Secretaria de Exterior britânica, afirmando que cabe aos Kelpers (como são chamados os habitantes das ilhas) decidirem seu próprio destino (“Eles escolheram a cidadania britânica, têm liberdade para determinar seu futuro e não haverá negociações com a Argentina a não ser que eles assim desejem”), prima pelo sofisma e pela jactância imperial.

Como recorda o historiador Dino Freitas “no século XVII, Oliver Cromwell esmagou a rebelião irlandesa usando tropas escocesas, e colonizou o norte da Irlanda com essas forças, que se ambientaram à região do Ulster, dando origem às raízes do atual conflito anglo-irlandês. Os chamados protestantes irlandeses, de irlandeses não tem quase nada. Com o estabelecimento de uma população de colonos britânicos no Atlântico Sul, os ingleses aplicam a mesma estratégia. Introduzem uma população fanática e cegamente leal para defender seus interesses, já que nunca desejarão ser argentinos”.

È previsível saber os futuros desejos dos Kelpers. Cameron, como um pugilista desonesto, procura meter o dedo no olho inchado de seu rival. Se no século retrasado, isso serviu para dominar os mares e o comércio – explorar os recursos naturais e amarrar os povos periféricos na roda dos juros compostos de seus créditos que nunca terminavam de se pagar – hoje os ingleses buscam, além do petróleo, conservar os remanescentes daquele esplendor, alimentando sua moderna indústria bélica e agregando valor a vários setores de sua combalida economia. À América Latina não cabe outra posição que não seja de irrestrito apoio às reivindicações do governo de Cristina Kirchner.

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11 Comentários para “Gilson Caroni Filho: O amargo chá do colonialismo inglês”

  1. HMS TIRELESS disse:

    Qualquer pessoa que se debruce o mínimo sobre a história irá perceber que o pleito argentino é absolutamente descabido. Ocorre que o mesmo infelizmente toca muito forte no espírito nacional argentino sendo portanto utilizado por seus políticos em épocas de problemas internos e/ou baixa popularidade para desviar a atenção. FOi o que fez a ditadura militar genocida, é o que está fazendo a perua viciada em botox

  2. kruguer disse:

    É, que falta faz a bomba atômica para a Argentina , não ?

  3. José DF disse:

    A situação é bastante tensa. Se depender da intervenção da ONU, esperemos deitados.

  4. Temos que conviver com os inimigos, mas não temos que concordar com eles e nem manter os dois olhos fechados.
    USA, Inglaterra e Israel são governos perigosos; talvez algum dia venham a experimentar da própria maldade e acabem se matando uns aos outros. Não podemos permitir que nada desuna a América Latina, em especial o Cone Sul. Todos sabemos quem não são nossos amigos há séculos.Lutar contra os cachorros grandes requer muitos recuos e dissimulações. Não diferente deles. Precisamos fazer cara de "Hilary Clinton", ou, como preferem alguns, cara de paisagem simpática e caridosa.

  5. Alexandre Felix disse:

    Há alguns dias vi nos JNs da vida que o governo inglês acusava o argentino de colonialismo. Esse mundo está maluco. É bom ficarmos com as barbas de molho. Quando a Europa implodir, eles voltarão suas atenções para nós, "pobrezinhos do mundo".

  6. Sr.Indignado disse:

    Há um caminho. Tornar as Malvinas inviáveis para os ingleses.

  7. Willian disse:

    As Malvinas foram argentinas durante apenas 13 anos de sua história, embora, de fato, nunca tenha havido colonização argentina na ilha. O único motivo que dá razão à nação sulamericana é a proximidade geográfica. Historicamente, elas são britânicas. E permanecerão, infelizmente.

  8. Paulo disse:

    Os caras estão na Irlanda desde o século XVII mas não são irlandeses? O problema das Malvinas é complicado e é claro que o desejo dos nativos é um ponto relevante da questão.

    • Antonio disse:

      Paulo, eu moro na Irlanda e posso falar como uma testemunha ocular. A situaçao na Irlanda do Norte é bem complicada e catolicos e protestantes vivem separados por parede. Os britanicos que moram lá nao querem fazer parte da República da Irlanda, porém existem os católicos que querem que o país seja anexado a República. A maioria que vive lá no norte recebe essa herança britanica entao está certo dizer que de irlandês eles tem pouco.

    • Éverton Pelegrini disse:

      Paulo, a questão é como eles foram "parar" na Irlanda e o problema que isso criou, mesmo após muitos anos depois. Se fossem irlandeses mesmo, a Irlanda não estaria dividida em duas. É justamente o batido "dividir para governar".
      Nas Malvinas é o mesmo caso. Primeiro enchem o lugar de ingleses e depois perguntam: Vocês desejam ser britânicos ou argentinos/latinoamericanos?

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