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Samuel Guimarães: A contrarreforma de Temer visa tornar o Brasil uma “província” agroindustrial do império norte-americano e das multinacionais
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Samuel Guimarães: A contrarreforma de Temer visa tornar o Brasil uma “província” agroindustrial do império norte-americano e das multinacionais


02/12/2016 - 22h58

temer e samuel

A contrarreforma de Temer e das classes hegemônicas

Conspiração dos conservadores busca dominar o poder político, e as eleições de 2018 agora são um de seus objetivos para consolidar o país como “província” agroindustrial do império norte-americano

por Samuel Pinheiro Guimarães, na RBA,  02/12/2016 

1. De 1500 a 2003, as classes hegemônicas brasileiras, estreitamente vinculadas às classes hegemônicas das metrópoles coloniais, hoje às classes hegemônicas dos Estados Unidos, organizaram a economia, a sociedade, o sistema político e o Estado brasileiros de acordo com seus interesses e em seu benefício.

2. A extrema concentração de riqueza e de renda, a situação de pobreza de grande parte da população, as condições de saúde, alimentação, saneamento, educação, transporte, segurança e cultura da enorme maioria demonstram cabalmente que a organização da sociedade feita pelas classes hegemônicas não beneficiou e não beneficia a esmagadora maioria do povo brasileiro.

3. Em 2003, com a vitória, de forma democrática e legítima, do Partido dos Trabalhadores e de seu candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, torneiro mecânico e líder sindical, essas classes hegemônicas perderam parte, apenas parte, do controle que exerciam sobre a sociedade, a economia e o Estado brasileiros.

4. O Presidente Lula desenvolveu programas sociais de grande alcance e impacto; criou melhores condições de competitividade para as empresas de capital nacional; ampliou o sistema educacional em termos de número de estudantes e de condições de acesso; ampliou o sistema de saúde por meio do SUS, da Farmácia Popular e outros programas; expandiu as exportações; fortaleceu a agroindústria e a agricultura familiar; manteve sob controle a inflação; ampliou o crédito de forma notável; fortaleceu os programas estratégicos das Forças Armadas; reduziu a vulnerabilidade do país ampliando as reservas monetárias; fez uma política externa altiva e ativa, expandindo as relações políticas e econômicas com todos os Estados, desenvolvidos e subdesenvolvidos, e promoveu a integração sul-americana.

5. O Presidente Lula terminou seu segundo mandato em 2010, com 87% de aprovação popular e elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff.

6. Desde então se iniciou uma conspiração das classes hegemônicas com o objetivo de recuperar totalmente, em 2014 ou em 2018, o Poder político e econômico.

7. Desta conspiração participaram políticos envolvidos em denúncias de corrupção; os partidos de oposição, inconformados com a derrota em 2014; políticos conservadores; o próprio vice-presidente Michel Temer; os meios de comunicação, em especial o sistema Globo, com suas dezenas de estações de televisão, de rádios, jornais e revistas; o Poder Judiciário, desde o Juiz Sergio Moro, disposto a praticar atos ilegais de toda ordem, aos Ministros do Supremo que, podendo e devendo, não o disciplinaram; os interesses estrangeiros que viram, nas dificuldades econômicas e políticas, a oportunidade de reverter políticas de defesa das empresas nacionais para promover a redução do Estado e a abertura aos bens e capitais estrangeiros, inclusive para explorar seu maior patrimônio natural que é o petróleo do pré-sal; do mercado financeiro, isto é, dos grandes investidores, milionários e rentistas, temerosos de uma política de redução de taxas de juros; das associações de empresários como Fiesp, Febraban, CNI, CNA; dos defensores de políticas de austeridade que visam ao equilíbrio fiscal pela redução do Estado, dos programas sociais, dos investimentos do Estado, dos direitos trabalhistas e previdenciários e, finalmente, de economistas e jornalistas, intérpretes, porta-vozes e beneficiários desses interesses.

8. A partir de 2010, e em especial a partir de 2014, a estratégia das classes hegemônicas para recuperar o poder se desenvolveu em várias etapas:

• fazer o governo adotar o programa econômico e social do “mercado”, isto é, da minoria multimilionária e de seus associados externos;

• ocupar os cargos de direção da administração pública (Ministérios, Secretarias Executivas, agências reguladoras) com representantes do “mercado”;

• enfraquecer política e economicamente o governo;

• enfraquecer o PT e os partidos progressistas com vistas às eleições de 2018;

• aprovar leis de interesse do “mercado”;

• e, se nada disso ocorrer, fazer o governo “sangrar” e aí, então, se necessário e possível, exigir e promover o impeachment da presidente.

9. Entre a classe política, 367 deputados e 61 senadores, muitos deles acusados de corrupção, representantes dos setores mais conservadores, dos indivíduos (e empresas) mais ricos em uma das sociedades mais desiguais do mundo e dos interesses estrangeiros mais vorazes, anularam o resultado de eleições em que 54 milhões de brasileiros escolheram a presidente Dilma Rousseff e, assim, interromperam a execução de um projeto de desenvolvimento social, econômico e político do Brasil que se iniciara em 2003.

10. Derrubado o governo Dilma, de forma jurídico-processual e com a conivência do Judiciário, se inicia a grande reforma econômica e política de Temer, em realidade uma contrarreforma, com inspiração e amplo apoio das classes hegemônicas e de seus aliados no Poder Judiciário, no Legislativo, no Ministério Público e na Polícia Federal.

11. A contrarreforma econômica conservadora de Temer, como representante e executivo das classes hegemônicas brasileiras, em estreita sintonia com as classes hegemônicas dos países desenvolvidos, em especial dos Estados Unidos, significa a adoção definitiva das políticas preconizadas pelo Consenso de Washington:

• abrir a economia do ponto de vista comercial e financeiro, unilateralmente e sem contrapartida;

• privatizar (desnacionalizar) as empresas estatais;

• desregulamentar (ou regulamentar de forma favorável ao capital) as atividades econômicas;

• manter uma política tributária favorável (regressiva) ao capital nacional e estrangeiro;

• desestimular o desenvolvimento industrial e desarticular as empresas nacionais de maior porte, estatais ou privadas, a começar pela Petrobras;

• reduzir o Estado ao mínimo e aniquilar sua capacidade de regulamentar a atividade econômica e de proteger os trabalhadores e os excluídos;

• “flexibilizar”, “modernizar”, o mercado de trabalho em favor do capital;

• consagrar essas políticas na legislação, de preferência constitucional.

12. Os principais instrumentos para a execução dessas políticas são:

• PEC 241, que se tornou PEC 55 no Senado e congela, durante vinte anos, de forma absolutamente antissocial, antidemocrática e inconstitucional, as despesas primárias do Estado e libera totalmente as despesas financeiras, isto é, o pagamento dos juros e da amortização da dívida pública;

• a reforma da Previdência e sua privatização;

• a revisão da legislação trabalhista em benefício do capital, isto é, das empresas;

• a desvinculação geral de despesas do Estado em relação ao salário mínimo;

• a utilização do BNDES para financiar as privatizações e a restrição de crédito para a empresa brasileira.

13. Este programa econômico, de extraordinária amplitude e profundidade, vem sendo executado:

• sem mandato popular;

• com a conivência do Judiciário;

• com a conivência da maioria do Legislativo, em parte devido à sua convicção conservadora, em parte corrupto e em parte “aliciado” pelo governo Temer.

14. Este programa conservador e ultraneoliberal, que dá continuidade ao programa iniciado pelos governos Fernando Collor e depois Fernando Henrique, que fracassaram, será consagrado, eventualmente, por acordos de livre comércio com as Grandes Potências industrializadas, a começar com a União Europeia, a que se seguirão acordos com os Estados Unidos e o Japão, e também com a China.

15. Com a execução dos programas da contrarreforma de Temer e com sua consolidação internacional por meio de eventuais acordos de “livre comércio”, o Brasil se consagraria definitivamente como o “celeiro do mundo” e uma “província” agroindustrial do império norte-americano e das filiais de megaempresas multinacionais instaladas no Brasil para exploração de seu mercado interno e do mercado regional.

16. Resta às classes hegemônicas um obstáculo importante a vencer para garantir que este conjunto de políticas econômicas e sociais não venha a ser derrotado e derrubado pela vontade popular.

17. Este obstáculo seria a possibilidade de eventual vitória nas eleições presidenciais de 2018 de um candidato progressista, nacionalista e independente.

18. Assim, pretendem Temer, seus mestres e seus acólitos:

• acelerar a aprovação de seus projetos econômicos e sociais no Legislativo;

• desmoralizar e fragmentar os partidos de esquerda;

• demonizar e desmoralizar os líderes de esquerda;

• despolitizar a população;

• criminalizar os movimentos sociais;

• conter a insatisfação popular por meio de métodos de violenta repressão policial e eventualmente adotar o voto facultativo, o parlamentarismo e o voto distrital.

19. Existe apenas um candidato viável das forças progressistas a Presidente da República, que é Luiz Inácio Lula da Silva.

20. Esta é a razão do ataque quotidiano e incessante dos órgãos da grande mídia a Lula, com a orquestração cuidadosa dos vazamentos de delações não comprovadas, e das ações espetaculosas da polícia, permitidas e promovidas pelo juiz Sergio Moro e pelos procuradores do Ministério Público de Curitiba, com a conivência do STF em conjunto e de cada um de seus ministros.

21. Somente a união das forças progressistas, nacionalistas e de esquerda da sociedade brasileira; dos líderes sindicais e dos movimentos sociais; dos estudantes e suas organizações; dos intelectuais, dos cientistas, dos professores, dos médicos; dos militares nacionalistas e progressistas; dos artistas e dos empresários nacionais, em defesa do Presidente Lula, da democracia e de um programa de desenvolvimento econômico, social e político do Brasil poderá fazer com que a sociedade brasileira, a principal interessada e vítima desta conspiração das classes hegemônicas, de seus associados estrangeiros e de seus representantes, seja ouvida e que este processo seja barrado no Congresso Nacional e no Judiciário.

 Samuel Pinheiro Guimarães é diplomata brasileiro e mestre em Economia pela Universidade de Boston

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13 comentários

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FrancoAtirador

03 de dezembro de 2016 às 20h17

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Nascidos em Berço de Ouro

Levantamento Sobre Origem do Patrimônio

da Pessoas Mais Ricas do Planeta Apontou

que 47,7% dos Bilionários do Brasil Baronil

Receberam a Própria Riqueza por Herança*.

*[Em Vermelho no Mapa (Inherited=Herdado)]:

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Via https://twitter.com/ALuizCosta

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Responder

FrancoAtirador

03 de dezembro de 2016 às 19h34

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Gritaram aos Petistas: -Vai Prá Cuba!

E Realmente Irão. Com Muita Honra.

http://www.europapress.es/internacional/noticia-cenizas-fidel-castro-llegan-santiago-cuba-20161203211011.html
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MAAR

03 de dezembro de 2016 às 19h12

DIÁLOGO E PLATAFORMA

Muitíssimo consistente e bem fundamentada a visão panorâmica da crise brasileira da atualidade, examinada de modo amplo e profundo no excelente artigo em tela. A avaliação expendida pelo Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães demonstra com clareza a relação direta entre os avanços da política econômica implementada a partir de 2003 e os gravíssimos retrocessos patrocinados pelo poder hegemônico em 2016.

Urge concordar com a tese de que os traços de nacionalismo da política econômica que caracterizou o período 2003-2014, com a promoção do desenvolvimento através da priorização de cadeias produtivas nacionais, do incremento do mercado interno e da ampliação dos direitos sociais, foram os fatores determinantes da ignóbil reação dos poderes hegemônicos, desencadeada pelo impixe — que afastou o governo legítimo através de um vergonhoso processo fraudulento, alheio aos requisitos constitucionais.

E as inúmeras facetas desta trajetória estão nitidamente expressas na detalhada avaliação apresentada no artigo, que prima por especificar as principais variáveis desta complexa equação política historicamente determinada.

A perspectiva histórica voltada para os desdobramentos futuros da problemática abordada alerta acerca dos riscos de continuadas consequências nefastas dos retrocessos promovidos pelo egoísmo dos interesses hegemônicos, e traz a indicação da necessidade de resistência democrática com vistas a uma firme solução eleitoral.

Cabe acrescentar que, na minha humilde opinião, neste momento, mais importante do que definir candidatos para o pleito de 2018, é trabalhar a formulação da plataforma política que deverá embasar as candidaturas do campo progressista, tanto aos cargos majoritários, quanto aos proporcionais, visto que a formação de maioria parlamentar é imprescindível para a garantia da governabilidade e para a reversão dos retrocessos.

Neste sentido, urge conclamar as instituições democráticas representativas da sociedade civil brasileira para promover o amplo diálogo com todos que anseiam pela preservação e ampliação dos direitos sociais, a fim de catalisar a permanente construção coletiva de um projeto político que objetive o resgate da legalidade constitucional e a aglutinadora viabilização de um futuro mais digno, sustentável e inclusivo.

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FrancoAtirador

03 de dezembro de 2016 às 17h43

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A PEC DA MEIA-NOITE

“Muito Simbólico o Congresso Votar 20 anos de Cortes
no Investimento Público em Dia [e Noite] de Luto Nacional
e Isolado da População por Bombas e Aparato Militar”

https://twitter.com/helenapalm/status/803697186697527296
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Deblu

03 de dezembro de 2016 às 16h43

Muito triste, estão afundando o Brasil. Utilizar o Consenso de Washington. Na crise da Malasia em 97,98 fizeram justamente o contrario:

“Nas crises de fugas de capitais, que se transformam em crises cambiais, o FMI recomenda a flutuação das taxas de câmbio; a Malásia fixou-as. O FMI sugere uma forte elevação dos juros; a Malásia reduziu-os. O FMI receita redução dos gastos públicos para reduzir a relação dívida/PIB. A Malásia aumentou os gastos públicos e impôs uma trajetória ascendente à sua relação dívida/PIB.”
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Consenso_de_Washington

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Fábio de Oliveira Ribeiro

03 de dezembro de 2016 às 12h25

Discordo. Uma Província Romana recebia investimentos a fundo perdido que permitiam a romanização do povo: construção de aquedutos, templos, banhos, Forum, teatro e arena de jogos. Roma só não gastava dinheiro nos Estados vassalos, aqueles que conservavam alguma autonomia, mas eram obrigados a pagar tributos pesados em ouro, prata, alimentos e objetos de luxo e a fornecer tropas auxiliares em caso de guerra. O Brasil recebeu algum investimento norte-americano a fundo perdido? Não. Logo não somos nem província do Império.

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    FrancoAtirador

    03 de dezembro de 2016 às 17h50

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    Finalmente, o braZil virou o Novo Estado ‘Livre’ Associado de Porto Rico:

    Um Território Sem Personalidade Jurídica dos Estados Unidos da América.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto_Rico
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Gersier

03 de dezembro de 2016 às 10h15

E esse traíra golpista não perde oportunidade para aparecer e pra isso conta com a ajuda do PIG, incluso o tal sport tv, que a todo instante cita o nome desse, vcs sabem o que, numa cerimônia triste em homengam aos jogadores e comissão técnica da Chapecoense, lá em Chapecó. Esses carniçeiros entreguistas não respeitam nem a dor daqueles que perderam entes queridos nessa tragédia. Nota-se claramente que estão alí só para aparecer.

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Luiz Carlos P. Oliveira

03 de dezembro de 2016 às 10h13

Nenhuma novidade. Só os fascistas das “Paulistas” do Brasil não percebem isso. E amanhã sairão às ruas apoiando a ditadura judicial. Por que temos dificuldade em entender o que se passa na cabeça dessa gente? Não é possível que sejam tão estúpidos assim. Será que foi alguma “aberração” da natureza?

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    Gersier

    03 de dezembro de 2016 às 14h32

    Foi, por isso os chamo de amebianos. Milhões de anos depois, não evoluiram, continuam sem cérebro, uma aberração.

Rogério Bezerra

03 de dezembro de 2016 às 01h42

A viralatice que a elite implantou há tempos gerou uma admiração automática da maioria da população por tudo que vem de fora.
Essa cultura ajudou, sim, que muitos grupos nacionais desaparecessem. Resultando que muitos homens e mulheres talentosos se tornassem colaboradores dos gringos. E eu, muito modestamente, fui um deles.
Como conquistar mentes e corações de brasileiros adultos (com menos de 40 anos) se são empregados delas? Em tempo de sociopatia… Impossível
E toda vez que esses brasileiros ouvem uma crítica às multinacionais, se sentem agredidos. Talvez pensem que não vem do Brasil seus salários e bônus e, sim, da firma estrangeira…
Esse é mais um efeito nefasto do viralatismo de uma elite traidora!!!!

Responder

    Deblu

    03 de dezembro de 2016 às 16h51

    Esse complexo de inferioridade foi planejado desde muito tempo. Infelizmente tivemos meios de comunicação fortes para isso. Mas isso pode ser invertido. Na atualidade existe a internet, que por enquanto é livre e é uma grande arma para organizar movimentos em prol da sociedade.


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