VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Você escreve

Rodrigo Martins: A solução é negar um prato de comida?


06/07/2012 - 16h29

por Rodrigo Martins, em CartaCapital

“Cuidado com a crítica fácil, potencializada num ano eleitoral”. O alerta de Gilberto Dimenstein, ongueiro profissional e colunista da Folha de S.Paulo, tinha alvo certo: os cidadãos que articulam pela internet um “sopaço” contra o prefeito paulistano, Gilberto Kassab, e o nebuloso projeto de proibir a distribuição de comida a quem dorme debaixo das marquises da capital.

“Está parecendo, pelas manifestações, que Kassab quer que os moradores de rua passem fome. Não é o caso. Ele só está tentando estimular que as pessoas fiquem mais tempo nos abrigos, onde há vagas ociosas”, escreveu na quinta-feira 26. “Essa campanha está cheirando a uma mistura de eleição com falta de informação.”

O jornalista parece ter se afobado na defesa solitária do governo. Com a repercussão negativa da notícia, a própria prefeitura voltou atrás em sua decisão. Kassab desautorizou o secretário municipal de Segurança Urbana, Edsom Ortega, que havia dito que as instituições que insistissem em oferecer comida em via pública seriam “enquadradas administrativa e criminalmente”.

Dito pelo não dito, dois protestos organizados em redes sociais continuam marcados para esta sexta-feira 6: um na Praça da Sé e outro em frente à casa do prefeito, em Pinheiros, na zona oeste. Ao contrário de Dimenstein, os manifestantes parecem estar fartos das desculpas esfarrapadas para justificar as políticas higienistas implantadas pela prefeitura. A sopa na rua é o enésimo capítulo de uma longa novela.

Não é de hoje que o governo municipal quer varrer para longe os miseráveis que vivem nas ruas do centro. Em 2005, o então prefeito José Serra iniciou a construção das assombrosas rampas antimendigo debaixo de pontes e viadutos onde os moradores de rua costumam se abrigar da chuva. Depois, a prefeitura, já entregue às mãos de Kassab, sua grande invenção, passou a murar parques e instalar apoios de braços em bancos de praças públicas. Objetivo: impedir que qualquer um pudesse deitar e dormir impunemente por ali. Não satisfeito, iniciou seu polêmico projeto de “descentralizar” as vagas em albergues.

Diversos abrigos foram fechados, e não por conta das estruturas precárias ou da coleção de denúncias de maus tratos. Mais de mil vagas foram extintas no centro, enquanto a prefeitura inaugurava outras unidades na periferia, sobretudo em áreas afastadas da zona leste. Desde 2008, foram desativados ao menos quatro albergues na região central: o Jacareí (antigo Cirineu), com quase 400 leitos; o Glicério, com 300 vagas; uma pequena unidade na República para 85 usuários e o Pedroso, com 400.

Para levar moradores de rua do centro para a periferia, estruturou-se um ineficaz sistema de transporte por Kombis. Os veículos, além de insuficientes para a demanda, só ofereciam a passagem de ida. Era dado como certo que os miseráveis acabariam por fixar residência nos bairros dos novos abrigos.

As autoridades municipais só não se atentaram para o óbvio: é justamente o centro que concentra os serviços de assistência social e de saúde voltados a essa população, além das poucas oportunidades de trabalho disponíveis, como as centrais de triagem de material reciclável. A cama digna é importante, mas não indispensável à sobrevivência daquelas pessoas.

Isso talvez explique por que os albergues de São Paulo estão com vagas ociosas, e cada vez mais desvalidos preferem a cama de cimento aos leitos distantes da periferia. De acordo com o Movimento Nacional da População de Rua, são cerca de 15 mil moradores de rua em toda a capital. Mas o que a prefeitura ainda não explicou, tampouco os defensores da versão oficialesca, é como a cidade mais populosa e rica do Brasil, com um orçamento anual de 38,8 bilhões de reais, ainda não apresentou uma solução razoável e digna para essa diminuta população vulnerável.

Ou seria solução negar um prato de comida?

Em tempo: O promotor de Justiça de Direitos Humanos da capital, Alexandre Marcos Pereira, antecipou que não será tolerada a criminalização das entidades que distribuem alimentos para moradores de rua.

“Em se concretizando qualquer arbitrariedade contra as nobres almas que se dedicam a suprir a falta do Poder Público no dever de propiciar alimentação a quem dela necessita, o Ministério Público intervirá em prol de quem tem o direito a seu favor e o amor ao próximo por inspiração”, afirmou por meio de nota.

Leia também:

Sinto um certo olhar de desaprovação…

JT: Kassab quer cassar sopão para ‘atrair’ sem-teto





16 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

“Eu existo” denuncia situação desumana dos moradores de rua no centro de SP « Viomundo – O que você não vê na mídia

08 de agosto de 2012 às 00h19

[…] Rodrigo Martins: A solução é negar um prato de comida? […]

Responder

francisco.latorre

10 de julho de 2012 às 11h32

dimenstein. picareta.

outro que enche o bolso posando de ‘educador’.

podre.

..

Responder

Paulo Figueira

08 de julho de 2012 às 14h00

A tentativa de criminalizar as entidaes que distribuem sopa e outras iniciativas, que visam minorar o sofrimento de moradores de rua, irmãos brasileiros abandonados a própia sorte pelo estado e pela sociedade, não é uma atitude isolada das adminastrações DEM/PSDB, a sensibilidade social dessa gente já foi demonstrada em várias ocasiões, vide a ação na cracolândia e a desocupação do Pinheirinho, para ficar nas mais recentes.
Triste é ver que setores da classe média paulista, apoiam e aprovam esse
tipo ação, assim como setores da imprensa, que se colocam na condição ridícula de justificar esse tipo de coisa.
O fascismo desavergonhado desses governantes, e seus apoiadores na imprensa e na sociedade é muito preocupante, pois nos mostra como ainda estamos vulneráveis à visões de mundo, que despresam a democracia e a solidariedade humana.

Responder

Fátima Oliveira: A festa de São João em São Luís é ópera de rua « Viomundo – O que você não vê na mídia

08 de julho de 2012 às 12h24

[…] Rodrigo Martins: A solução é negar um prato de comida? […]

Responder

André Luís Omote

08 de julho de 2012 às 05h07

Participei, com muito orgulho, da manifestação. O que o senhor Dimenstein não percebeu, ou não quis perceber, é que muito além do “Sopaço”, nos manifestamos contra o que está por trás do “sopaço”, ou seja, as POLÍTICAS HIGIENISTAS, SEGREGACIONISTAS e DESUMANAS que vêm acontecendo na cidade de São Paulo, desde que o senhor Serra tomou posse e entregou, de mão beijada, a cidade ao Kassab (posteriormente legitimado pelo povo). Nos manifestamos para, principalmente, mostrar aos candidatos à prefeitura de São Paulo, o que nós não aceitamos, não acreditamos, não somos a favor. Focamos na questão da higienização adotada como política pública pela prefeitura de São Paulo; como, por exemplo: a criminalização do sopão (que após a repercução negativa, Kassab trocou o substantivo feminino “criminalização” por “sugestão”), os bancos e rampas antimendigos, o fechamento de albergues no centro e a periferização da miséria, a desumana e atabalhoada ação na cracolândia, etc.

Quanto à questão eleitoral, vi, sim, alguns militantes partidários. Uns dez com camiseta do PSOL, outros 20 com adesivos do Haddad, mas a grande maioria estava ali por uma causa e não por um partido. A manifestação foi apartidária. Seria interessante o jornalista dar uma olhada na página “Sopão da Gente diferenciada!” https://www.facebook.com/events/257864867655473/ ,antes de emitir certezas.

Responder

Geysa Guimarães

07 de julho de 2012 às 20h48

O desprefeito fecha os principais albergues do centro na intenção de empurrá-los para a periferia?
Ah, mas que ideia brilhante! Não admira que estejam com vagas ociosas.
O centro das capitais têm vida pululante, de onde os moradores de rua podem extrair a indigência necessária pra sobreviver. E se divertir, que eles também têm direito.
Kassab tá querendo imprimir aos “rueiros” o modus vivendi do cidadão comum, com trabalho de horário certo e registro em carteira.
Vai dormir, Kassab! Num dos albergues vazios, assim ele fica mais lotadinho.

Responder

mfs

07 de julho de 2012 às 17h33

Eu me recordo bem que nas eleições daquela época o sr. Marcelo Tas CQC dizia que votaria em Kassab porque não havia mais diferença entre direita e esquerda.
É, não tem não.
Cortes pesados de gastos públicos apenas nos bairros marginais e agora essa de proibir a elementar caridade.
A quem interessa dizer que não há diferença, que se Haddad fosse eleito também seria assim com os pobres?

Responder

Paciente

07 de julho de 2012 às 13h56

guerra contra a globo. vamos deixar de ser babacas e atacar o inimigo, eles nos atacam todos os dias.

Responder

abolicionista

07 de julho de 2012 às 00h02

O Kassab atende aos interesses dos setores imobiliários, filão da burguesia paulista que financiou sua carreira política e para o qual sempre prestará serviço. Os pobres, na visão desses especuladores rentistas imobiliários, desvalorizam o centro. É preciso livrar-se deles. Matar não pode, não a rodo. Então começam a pipocar políticas de repressão, como as que o texto cita. Poderíamos mencionar outras, como os achaques policiais, etc. Quando ao Dimenstein, é um sujeito pago pelo PSDB e uma nulidade em matéria de reflexão, traz saudades dos bons tempos do jornalismo brasileiro.

Responder

José Eduardo

06 de julho de 2012 às 18h53

A eugenia praticada pelos nazi-demo-tucanos só existe porque tem o apoio de setores (parasitários!) da sociedade que tem ódio aos pobres. De qualquer modo, parabéns ao MP por não corroborar com esse vergonhoso genocídio!

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=cmOYg439LtQ&gl=BR

Responder

Jaime

06 de julho de 2012 às 18h37

Existem umas placas na minha cidade, acredito que aí por São Paulo também, onde se lê: Criança não quer esmola, criança quer um futuro. Eu já acho que criança, assim como adulto, não quer mesmo esmola, mas muito menos futuro. As pessoas querem o presente, com tudo o que têm direito, emprego, salário, escola, casa, comida e aí elas mesmas vão escolher seu futuro. Com o cimento que foi gasto para interditar os viadutos, qualquer um com pelo menos 2 neurônios faria melhor se a atitude fosse a de resgatar a dignidade, ajudar, ser solidário. Mas o objetivo era varrer, “limpar” as ruas de seres humanos não enquadrados, “Recolher o lixo”.

Responder

Joe

06 de julho de 2012 às 17h18

ORDEM!!!!!

Responder

    Ricardo JC

    07 de julho de 2012 às 19h04

    Êh para bater continência e acatar? Deus me livre…

Otto

06 de julho de 2012 às 17h06

Agora morar na rua,sem eira nem beira, mofando, com a alma fermentando no álcool e nas drogas, com a saúde se deteriorando ao relento virou “cultura” e “manifestação identitária”. O que estas entidades fazem é um paliativo, atitude nobre e bastante elogiável, mas só um paliativo. Há hipócritas em ambos os lados. O ideal seriam políticas mais incisivas de habitação e emprego, educação e capacitação profissional. Alguns poucos andarilhos gostam de viver dessa forma e devem ser respeitados nesta condição. Todavia boa parte não está satisfeita mas não sabe como sair deste poço. O problema é a ideologização e oportunismo político das partes que se dizem preocupadas com este povo: ONGs, Prefeitura, intelectuais, etc… Tema de difícil resolução que deveria ser tratado com mais serenidade…

Responder

    Flavio Moreira

    06 de julho de 2012 às 17h43

    Otto, embora você esteja certo na sua crítica, enquanto não se “trata com mais serenidade” esse tema, o que devemos fazer com essas pessoas enquanto esse tratamento não chega? Tira-se a sopa? Trabalho na região chamada de “cracolândia” que, da Prefeitura, ganhou o marketeiro nome de “Nova Luz”. Quando a gente oferece comida para as crianças e adolescentes pedintes eles querem dinheiro, porque assim podem comprar pedras de crack ou dar para algum adulto que os explora fazê-lo. Nem todos os que dão comida a essas pessoas são oportunistas, como você diz. São desvalidos que se cansaram de esperar pelo “tratamento sereno” das autoridades na resolução de seus problemas. Quem leva a sopa, muitas vezes, são pessoas comuns que, se não podem dar emprego, saúde, moradia e dignidade ao menos levam um pouco de carinho e conforto a essas pessoas na forma de um prato de comida.
    Também me revolto com o descaso do governo e o oportunismo de algumas instituições, mas não vou condenar quem procura ao menos amenizar um pouco o sofrimento dessas pessoas. Se não é possível fazer muito, podemos, pelo menos, fazer um pouco. É melhor do que não fazer nada.
    Abraços

    Geysa Guimarães

    07 de julho de 2012 às 20h28

    Otto:
    Claro que está longe do que precisa ser feito.
    Mas é melhor PINGAR do que SECAR, concorda?


Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding