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Diário da Resistência


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Paul Krugman e Joseph Stiglitz: É a política, estúpido!


01/10/2012 - 21h21

por Jacob S. Hacker e Paul Pierson

no New York Review of Books

Resenha dos livros End this depression now! [Acabar com a depressão já!], de Paul Krugman, e The Price of Inequality: How Today’s Divided Society Endangers Our Future [O Preço da Desigualdade: Como a Sociedade Dividida de Hoje Coloca em Risco Nosso Futuro], de Joseph Stiglitz.

Excerto:

Num argumento que se encaixa no dos manifestantes do Occupy Wall Street, [Joseph] Stiglitz insiste que a grande e crescente divisão entre o 1% mais rico e “os outros 99%” não é apenas uma de muitas preocupações, mas a característica definidora de uma economia completamente doente. Podemos ser a nação mais rica do mundo, mas a pobreza cresceu e a mobilidade social entre gerações decresceu mais que em outros paises. Em outros aspectos, nosso modelo está inchado: jogamos mais dióxido de carbono na atmosfera e usamos muito mais água per capita; gastamos muito em saúde, ao mesmo tempo em que deixamos milhões sem cobertura e atingimos, ao final, resultados no setor, quando muito, medíocres.

A razão, de acordo com Stiglitz, é que o alardeado mercado norte-americano está quebrado. E a razão para isso, ele argumenta, é que a economia está sobrecarregada por vantagens produzidas politicamente — acertos especiais que Stiglitz rotula com um termo familiar para os economistas, o rentismo. Ele se refere ao retorno econômico derivado de favorecimento político. Nos trechos mais poderosos do livro, Stiglitz descreve as grandes benesses dadas ao agronegócio, às empresas de energia e a vários outros setores da economia.

Também argumenta que muito da praga de nossa economia aparece sob formas mais sutis, que define — noutro termo familiar para economistas — como “externalidades negativas”, ou custos que agentes econômicos impõem à sociedade, pelos quais não pagam.

Os lucros espetaculares da indústria de energia, por exemplo, dependem pesadamente do fracasso da regulamentação em incorporar todos os custos sociais e econômicos associados à degradação ambiental, inclusive o impacto na mudança do clima. Da mesma forma, as crescentemente agressivas atividades de Wall Street — seja na venda de hipotecas duvidosas, na venda de papéis sem lastro ou no uso irresponsável de derivativos — criam grandes riscos para a economia como um todo. Ainda assim, estes riscos não são considerados nos preços pagos no mercado financeiro. Sem regulamentação eficaz, os custos são bancados por todos nós — mais agudamente pelos milhões que perderam o emprego.

Eliminar esta e outras formas de rentismo promoveria tanto a eficiência quanto a equidade e Stiglitz oferece um amplo leque de ideias para reformas, da regulamentação estrita dos mercados financeiros a leis mais eficazes para combater os monopólios. Mas ele demonstra maior paixão pela reforma política. Ou aqueles no topo se dão conta de que as coisas precisam mudar ou, sugere Stiglitz, o tipo de revolta popular que se vê no Oriente Médio chegará aos Estados Unidos. “De maneira importante”, ele escreve, “nosso próprio país se tornou como aqueles paises, servindo aos interesses de pequena elite. Temos uma grande vantagem, vivemos numa democracia, mas é uma democracia que crescentemente não reflete os interesses de grandes parcelas da população”.

Na verdade, o fato mais marcante destes dois livros de ganhadores do Nobel de economia é a ênfase na política. Os economistas tradicionalmente enfatizam a primariedade dos fatores econômicos. Ao estudar a crescente desigualdade, por exemplo, focam em forças econômicas como o comércio e a mudança tecnológica. Somente em anos recentes (em parte atendendo a apelos de iconoclastas como Krugman e Stiglitz) houve uma mudança em busca de explicação política para os desafios econômicos diante dos Estados Unidos — uma reorientação que traz a economia de volta para a sua concepção original, de economia política.

Ninguém duvida que a economia política dos Estados Unidos mudou dramaticamente em uma geração. Talvez a transformação mais fundamental é a que Stiglitz e Krugman assumem como dado quase sem mencionar: a grande mudança na influência relativa das corporações e dos sindicatos. O grande declínio dos sindicatos fora do setor público (onde agora eles estão sendo combatidos) não afetou apenas o poder de barganha e os salários dos empregados no local de trabalho; também enfraqueceu os grupos organizados mais capazes de defender os norte-americanos mais pobres na arena política.

Acrescente a este desequilíbrio a crescente vazão de dinheiro para a política dos Estados Unidos, vivamente demonstrada na primeira corrida presidencial que acontece depois da decisão Citizens United [NR: Decisão pela qual a Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou as corporações a doarem de forma ilimitada]. Os analistas se perguntam se mesmo o presidente Obama conseguirá empatar a disputa. Mas o impacto de grandes doadores e de lobbies altamente partidarizados deverá ser tão grande e muito mais desequilibrado em favor dos republicanos nas batalhas pelo controle do Congresso, especialmente da Câmara Federal. Como na corrida presidencial, os gastos nas eleições parlamentares deverão bater recorde, particularmente com a tentativa do Partido Republicano de manter controle da Câmara.

Além disso, as contribuições de campanha são apenas um pequena fatia dos gastos na política. A energia organizada das corporações e os ricos influenciam todos os aspectos da governança dos Estados Unidos. Isso cobre do lobby direto de autoridades políticas a tentativas de influenciar a opinião de massa e das elites, do trabalho de ativistas conservadores por uma maioria na Suprema Corte que avance uma agenda econômica pró-business ao uso cautelosamente planejado de crises fiscais para promover, nos estados, um assalto frontal aos sindicatos do setor público.

Para o Partido Republicano, o efeito deste novo equilíbrio de poder organizado é a radicalização. Interesses econômicos que apoiam o partido tem muito dinheiro para dar e doam agressivamente. Os doadores tiveram enorme sucesso na criação de organizações que determinam e fazem cumprir uma agenda  de extrema direita. Tais organizações incluem a Norte-Americanos por Reforma Fiscal, de Grover Norquist, institutos influentes como a Fundação Heritage e organizações lobistas que atuam nos estados como o American Legislative Exchange Council, financiado pelos irmãos multibilionários Charles e David Koch. Esta marcha direitista foi acelerada pela ascensão do Tea Party — financiado em parte pelos mesmos grupos.

O caso do outro lado é bem diferente. Enquanto a mudança no equilíbrio do dinheiro e da organização encorajou os republicanos a se tornarem mais conservadores, criou incentivos conflitantes para os democratas. Ainda dependentes de sua base tradicional dos sindicatos, em declínio, os democratas buscaram — com crescente sucesso, pelo menos até recentemente — desenvolver bolsões de apoio financeiro junto a corporações. Agora que a indústria financeira se moveu para o Partido Republicano, é facil se esquecer que foi a busca por doadores de Wall Street que permitiu aos democratas atingir paridade financeira com os republicanos nos anos 2000. Ao contrário do Partido Republicano, onde os moderados desapareceram, importantes grupos de políticos democratas se descrevem hoje como centristas (usualmente, são aqueles que buscam o apoio dos homens de negócios). O resultado para o Partido Democrata é uma dança entre o populismo morno e o centrismo comprometido, que frequentemente divide o partido e confunde a mensagem dele.

PS do Viomundo: Infelizmente, os autores da resenha não tocam na questão da mídia, que é a gazua das corporações para fazer parecer que os interesses delas se confundem com o interesse público.

 

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9 comentários

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Breves Notas sobre o Mensalão « Rio Revolta !

29 de outubro de 2012 às 17h17

[…] para fins ilustrativos, vale ler a tradução deste artigo do NY Times, com destaque para o trabalho da mídia de fazer parecer que os interesses exclusivamente egoísta […]

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Hans Bintje

02 de outubro de 2012 às 12h13

Azenha:

Você se fixa na mídia, mas eu vejo algo pior: os EUA não abraçaram a ideia do “Empire”.

Eis o perfil de um típico homem do “Empire” ( fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5797 ):

“Eric Hobsbawm, nascido em Alexandria no Egito em 1917, de origens judias, possui, na sua própria biografia, a dupla característica de um típico homem do ‘Empire’ – as origens, a diversidade social e étnica, os amplos deslocamentos geográficos e, acima de tudo, o cosmopolitismo – com a tradição cultural judia do ‘fin de siècle’ da Europa central. Poliglota, viajante incansável, profundamente humanista, amante da música e das artes, escritor combativo e aguerrido. Amigo do Brasil, apreciador do ‘chorinho’ carioca”.

Como se vê, o dinheiro foi usado muito além de um meio para comprar quinquilharias, por exemplo, Ipads que já saem da loja obsoletos e sem perspectiva nenhuma de conserto caso quebrem ( fonte: http://www.hardware.com.br/noticias/2011-03/ipad2tear.html )

É por esse motivo que eu prestigio os saraus do Luis Nassif, os “chorinhos” que ele toca: “Empire, always Empire”.

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claret

02 de outubro de 2012 às 11h09

As tentativas de tornar o Estado um paraíso, sempre o levarão a se tornar um inferno.
Incrível como as pessoas não vêm o mal atual , decorrente do endividamento dos Estados em prover o paraíso sem os fundos necessários para tanto.É mentira, Terta?
O financiamento desta “aventura social”,coube ao sistema financeiro, os rentistas, como aqui são chamados, e por fim os culpados de toda esta porcaria.
Quem pariu Mateus, que o embale, vamos colocar mais Estado para resolver o imbroglio, só que agora sem os rentistas malditos, rsrsrsrsr

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Mardones Ferreira

02 de outubro de 2012 às 08h45

O pior é que esse modelo de democracia rentista é espalhado mundo afora. E até que os Estados Unidos se transformem num Egito, muitos ainda perderão o emprego e poucos multibilionários vão seguir dando as regras do jogo.

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alexandre moreira

01 de outubro de 2012 às 23h31

PS do Viomundo: Infelizmente, os autores da resenha não tocam na questão da mídia, que é a gazua das corporações para fazer parecer que os interesses delas se confundem com o interesse público.

Faz uma placa ! um anúncio subliminar secreto na globo ! canta nas esquinas ! transforma em RAP ! Spam saudável ! Contrata um DJ e envenena os ouvidos da moçada !
Depois vamos ver o Sol se recostar nos dois irmãos e torçer para o povo entender e mudar de atitude …na maciota como diz meu pai.
abs.

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FrancoAtirador

01 de outubro de 2012 às 23h22

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IX — O estilo no trabalho

Não se trata do estilo literário.
Refiro-me ao estilo no trabalho, ao que há de específico e peculiar na prática, que cria o tipo especial do militante revolucionário.

Em que consistem os traços característicos deste estilo?
Quais são as suas peculiaridades?

Estas peculiaridades são duas:

a) o ímpeto revolucionário russo e

b) o espírito prático americano.

O estilo consiste na união destas duas peculiaridades no trabalho…

O ímpeto revolucionário russo é um antídoto contra a inércia, contra o espírito rotineiro e conservador, contra a submissão servil às tradições seculares.
O ímpeto revolucionário russo é uma força vivificante, que desperta o pensamento, que impulsiona, que destrói o passado, que dá uma perspectiva.
Sem ele não é possível nenhum movimento para a frente.

Mas o ímpeto revolucionário russo pode degenerar na prática em vazio manilovismo “revolucionário”, se não se une, no trabalho, ao espírito prático americano.
Abundam exemplos dessa degeneração.
Quem não conhece a doença do arbítrio “revolucionário”, da planomania “revolucionária”, que têm origem na fé cega na força de um decreto, capaz de tudo organizar, de tudo transformar?
Um escritor russo, I. Ehrenburg, descreve, no seu conto “O homo comper”, (“O homem comunista perfeito”), o tipo de um “bolchevique” que, atacado dessa doença, se lança à tarefa de fazer o esquema do homem idealmente perfeito e… se “afoga” nesse “trabalho”.
O conto exagera muito, mas é indubitável que pinta bem a enfermidade. Parece-me, porém, que ninguém soube escarnecer dessa espécie de doença de modo tão cruel e implacável como Vladimir Ilyitch Uliánov.
“Presunção comunista”, assim qualificava Vladimir essa fé mórbida nos projetos miraculosos e na decretomania.

«A presunção «comunista — disse Vladimir — significa que um indivíduo, que se acha no Partido Comunista e ainda não foi expulso, imagina poder cumprir todas as tarefas a golpes de decretos comunistas». (Vide vol. XXVII, págs. 50-51).[N91]
À tagarelice “revolucionária”, Vladimir Uliánov costumava opor coisas simples, cotidianas, sublinhando desse modo que o arbítrio “revolucionário” é contrário ao espírito e à letra do verdadeiro Socialismo.

«Menos frases pomposas — disse Uliánov — mais trabalho concreto, cotidiano…
Menos estrépito político, maior atenção aos fatos mais simples, mais vivos… da edificação comunista…» (Vide vol. XXIV, págs. 335 e 343).[N92]

O espírito prático americano é, ao contrário, o antídoto contra o manilovismo “revolucionário” e o arbítrio fantasista.
O espírito prático americano é uma força indomável, que não conhece nem admite barreiras, que remove com a sua tenacidade prática toda espécie de obstáculos, que, uma vez iniciada uma obra, por menor que seja, não pode deixá-la sem acabar, uma força sem a qual é inconcebível um trabalho construtivo sério.

Mas o espírito prático americano tem todas as probabilidades de degenerar num utilitarismo mesquinho e sem princípios, se não se unir ao ímpeto revolucionário russo.
Quem não conhece a enfermidade do praticismo mesquinho e do utilitarismo sem princípios que costuma levar certos, “bolcheviques” à degeneração e ao abandono da causa da revolução?
Esta doença peculiar é descrita num conto de Pilniak, “A Fome”, em que são representados tipos “bolcheviques” russos, cheios de vontade e de decisão prática, que “funcionam” de modo muito “enérgico”, mas não têm perspectivas, ignoram “o porquê e o como” e em conseqüência se desviam do caminho do trabalho revolucionário.
Ninguém escarneceu de modo mais causticante do que Vladimir Ilyitch Uliánov a doença do utilitarismo.
“Praticismo mesquinho” e “utilitarismo estúpido”, assim Uliánov qualificava essa doença, à qual costumava opor a atividade revolucionária viva e a necessidade de uma perspectiva revolucionária em todos os aspectos do nosso trabalho cotidiano, sublinhando desse modo que o utilitarismo sem princípios é tão contrário ao verdadeiro Socialismo quanto o arbítrio “revolucionário”.

União do ímpeto revolucionário russo com o espírito prático americano:
eis a essência do estilo socialista no trabalho.

Somente essa união produz o tipo completo do militante revolucionário.

(Sobre os Fundamentos do Leninismo, J. V. Stálin; 1924)
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UM ABRAÇO CAMARADA E LIBERTÁRIO A TODOS
EM ESPECIAL AOS MILITANTES REVOLUCIONÁRIOS
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Responder

    assalariado.

    02 de outubro de 2012 às 11h44

    Franco, chou de bola! Esse trabalho a que se refere seu comentário é justamente ao que o internauta Mario SF se referiu a um comentário meu, aqui no Viomundo. Mário SF afirmava que: ‘precisamos de educação politica ou de uma reeducação politica.’ E acrescento: ou os dois juntos?

    E, nesta parte de seu comentário, diz: “Quem não conhece a enfermidade do praticismo mesquinho e do utilitarismo sem princípios que costuma levar certos, “bolcheviques” à degeneração e ao abandono da causa da revolução?”

    Tentando explicar: A enfermidade do praticismo mesquinho, tem como irmão o (pragmatismo), hoje em voga na esquerda brasileira, sendo que, o seu elo politico ideologico do (poder pelo poder), nos leva ao utilitarismo sem principios e, do vale tudo. Então deu no que deu, …

    Cabe aos de esquerda sentarem e fazer uma análise auto critica. Seremos capazes?

    Abraços camaradas. Sem medo de ser feliz, rumo ao socialismo!

    vinicius

    02 de outubro de 2012 às 13h54

    Foi ótimo ler o comentário do Franco atirador e do assalariado.
    Por mais de uma vez pensei em me tornar pragmático!!!
    Parece que já estou vacinado contra o pragmatismo e vou mesmo é continuar com meus antigos sonhos.

    Abraço Dilmais de apertado e um passo a cada dia.

Nelson

01 de outubro de 2012 às 22h46

Bem, cara pálida. Pelo que nos mostra a resenha, o livro de Stiglitz descreve o que é a realidade sob o que chamam de democracia estadunidense. A democracia que o monumental aparato de propaganda e sua plêiade de comentaristas, supostos especialistas em tudo, nos sugerem rotineiramente, insistente e exaustivamente, como sendo o melhor, senão o único, caminho que devemos trilhar.

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