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José Antonio Lima: Quando falta espírito olímpico nas Olimpíadas


08/08/2012 - 20h28

Ética no esporte

08.08.2012 07:25

Em Londres, o espírito olímpico está em falta

por José Antonio Lima, na CartaCapital

A cinco dias do fim das Olimpíadas de Londres, é certo que os Jogos de 2012 entrarão para a história marcados pelo grande número de violações éticas. As “entregadas” e outros artifícios usados para levar vantagem foram cometidos em diversos esportes, do ciclismo ao badminton, por atletas de inúmeros países. O Comitê Olímpico Internacional (COI) e as federações de cada modalidade tentaram reagir, mas pouco puderam fazer para conter a desonestidade, um sinal de que precisam se mover de olho em futuras competições.

O mais notório feito antiético de 2012 ocorreu no badminton. Quatro duplas femininas – duas da China, uma da Coreia do Sul e outra da Indonésia – foram eliminadas por entregar Jogos em busca de uma chave mais favorável na segunda fase da competição. A falta de esforço e os erros propositais ficaram tão claros que a Federação Mundial de Badminton exigiu a eliminação das atletas para não prejudicar a imagem do esporte. A fraude foi facilitada por uma mudança no regulamento do badminton nos Jogos. Antes, os times se enfrentavam no chamado confronto mata-mata e os vencedores iam avançando até as finais. A partir de 2012, há grupos na primeira fase, e as duplas podem “manejar” seu resultados para escolher quem enfrentarão nas fases subsequentes.

Regulamentos parecidos provocaram “entregadas” em outros esportes. Na segunda-feira 6, após estar ganhando do Brasil por 66 a 57 no terceiro quarto, a seleção masculina de basquete da Espanha perdeu por 88 a 82. Com o resultado, caiu em uma chave na qual não está a seleção norte-americana, amplamente favorita ao ouro. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) celebrou a vitória da “dignidade”. O técnico do Brasil, o argentino Rubén Magnano, afirmou que o triunfo representava o “caráter” de seu time. Os espanhóis negaram ter facilitado o jogo, mas a França, rival da Espanha nas quartas de final, entrou com um protesto solicitando a eliminação da rival, rejeitada pelo COI.

Episódios semelhantes ocorreram no handebol e no futebol femininos. O Brasil foi eliminado na manhã da terça-feira 7 pela Noruega, atual campeã olímpica, um confronto que só ocorreu logo nas quartas de final porque as norueguesas perderam seu último jogo da classificação, de forma suspeita, para a Espanha. Para a Noruega, instável na competição, enfrentar o Brasil, um time sem muita tradição, seria mais fácil que encarar a Croácia. O dinamarquês Morten Soubak, técnico do Brasil, lamentou o confronto precoce e a eliminação. “Na maneira como eu cresci, não posso admitir perder de propósito”, disse ele ao portal UOL.

No futebol, a coisa foi mais escancarada. Norio Sasaki, técnico do Japão, convenceu suas jogadoras a empatar com a fraca África do Sul no último jogo da primeira fase. Com o segundo lugar (em vez do primeiro) as japonesas escaparam dos Estados Unidos e da França e enfrentaram também o Brasil, mais fraco. Ganharam por 2 a 0 e estão na semifinais. Sasaki não escondeu o desejo pelo empate. “Foi uma forma diferente de jogar comparada com o jogo normal, mas as jogadoras concordaram comigo”, disse ele à agência AP.

A mesma desfaçatez de Sasaki tiveram o nadador sul-africano Cameron van den Burgh e o ciclista britânico Philip Hindes. Em entrevista ao jornal Sydney Morning Herald, o campeão dos 100m peito admitiu ter “roubado” na final ao fazer um movimento submerso irregular capaz de dar a ele alguns importantes centésimos de segundo. Sua justificativa? Todo mundo faz. “Se você não faz isso, vai ficar para trás”, disse.

“Obviamente não é a coisa moral a se fazer, mas não estou disposto a sacrificar minha performance pessoal e quatro anos de trabalho por alguém que está disposto a fazer (o movimento ilegal) e não ser pego”, disse. Hindes também admitiu uma fraude. Após um início ruim na prova da perseguição por equipes, Hindes caiu de propósito na pista. Como o regulamento autoriza o reinício em caso de queda, Hindes teve uma segunda chance, foi melhor e, como consequência, o Reino Unido levou a medalha de ouro.

Atos antiéticos no esporte estão longe de ser uma novidade, mas são ainda mais graves nos Jogos Olímpicos. A competição foi fundada por um homem que imortalizou o pensamento segundo o qual “o essencial não é ter vencido, mas ter lutado bem” e hoje exige, por regulamento, “fazer o máximo esforço para vencer”.

O mundo que o barão Pierre de Coubertin imaginou, porém, não existe mais, ou talvez jamais tenha existido. O esporte não é um mundo afastado do restante da sociedade. O esporte é parte da sociedade e, assim, é preciso que as autoridades estabelecidas atuem para reduzir as oportunidades de desvios éticos. Para preservar a imagem do esporte, seu produto, o COI e as federações precisam agir.

No vôlei, uma parte dos confrontos da segunda fase é sorteada para evitar falcatruas como a que ocorreu no Mundial de 2010. Naquele ano, diante de um regulamento feito para beneficiar a Itália, sede do torneio, Rússia, Estados Unidos e Brasil perderam jogos de propósito em busca de confrontos mais fáceis. A medida não evita “entregadas”, mas minimiza a chance de escândalo, e poderia dar resultado em outros esportes coletivos. Mudanças de regras beneficiariam também o ciclismo e a natação, especialmente no nado peito, conhecido pelas polêmicas.

Além de Van den Burgh, o medalhista de prata em Londres, Brenton Rickard, também fez o movimento irregular, assim como campeões em outros torneios, como o japonês Kosuke Kitajima e o brasileiro Felipe França. Todos se sentem à vontade para burlar as regras pois não há fiscalização submersa nos Jogos. Gravações em vídeo embaixo da água só foram usados num único campeonato, na Suécia, em 2010. O nadador sul-africano, que venceu “roubando”, se lembra com saudades da competição. “Foi realmente sensacional, porque ninguém tentou fazer (o movimento ilegal)”, disse Van den Burgh. “Todo mundo jogou limpo e todos estávamos tranquilos porque sabíamos que ninguém iria tentar”.

PS do Viomundo: A Espanha, que perdeu do Brasil no basquete, derrotou a França (66-59) e vai jogar a semifinal com a Rússia (que bateu o Brasil por um ponto na primeira fase) a semifinal; o Brasil perdeu da Argentina e está fora. E o técnico do atleta chinês que perdeu a medalha de ouro para o brasileiro Arthur Zanetti diz que foi roubo!

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9 comentários

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FrancoAtirador

09 de agosto de 2012 às 16h45

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O ESPÍRITO OLÍMPICO ACABOU,

QUANDO TROCARAM AS FOLHAS DE LOURO

POR OURO, PRATA & BRONZE.

O DESPORTO FOI INCORPORADO AO CAPITALISMO

FUNDADO NO TRINÔMIO DINHEIRO, FAMA & PODER.

É TAMBÉM UMA FORMA DE DARWINISMO SOCIAL.
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A Flor da Inglaterra (Keep the Aspidistra Flying)
George Orwell
Tradução de Sérgio Flaksman
Companhia das Letras, 2007
320 páginas

Sinopse

Trata da subordinação forçada a que a Humanidade está submetida em relação ao dinheiro.

O personagem principal, Gordon Comstock, vive na Inglaterra nutrindo constantemente uma sensação de asco e pavor pelo capitalismo e por tudo o que é dele derivado.
Essa obsessão para não embarcar no sistema capitalista inicia em sua infância pobre e o persegue até seus trinta anos, época em que encara tudo isso muito mais à sério, o que o leva a não aceitar empregos que o paguem bem e a se envolver em situações complicadas por causa da falta de dinheiro.

Georges Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, foi um rebelde crítico à sociedade em que vivia.

Aqui, em A flor da Inglaterra, Orwell constrói, ao mesmo tempo, uma sátira da vida literária e uma fábula bem realista sobre a sociedade e a marginalização causada pelos problemas sociais.

Uma das melhores críticas em ficção à sociedade capitalista.

Orwell narra os esforços desse personagem atípico de se afundar na lama, com lirismo e ironia, intercalando as desventuras da vida deste guerreiro ao contrário e o encontro a todo instante com uma planta doméstica que ele elege símbolo dessa ordem injusta, vazia e massacrante.

Segundo Gordon, a aspidistra é a flor que todo o inglês “respeitável” que possua uma boa casa, uma família e ao menos um pouco de dinheiro, e todo inglês “não respeitável” e pobre que deseja “entrar na linha”, e assim tornar-se digno de respeito, possuem e regam todos os dias.

A aspidistra simboliza o sentimento de conformidade que a maioria nutre pelo sistema vigente e sobre o qual é impotente, tendo que necessariamente a ele se resignar e se adaptar.

A flor da Inglaterra é um livro único, com um humor seco inigualável e cenas esquálidas em meio à procura por dinheiro e ao combate a esse vil metal.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Keep_the_Aspidistra_Flying#cite_note-2

http://en.wikipedia.org/wiki/Keep_the_Aspidistra_Flying

http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=4813

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12216

http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00599

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Jairo Beraldo

09 de agosto de 2012 às 09h46

Usaram da “malandragem” brasileira…otários foram os comandados do Magnano.

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Willian

09 de agosto de 2012 às 09h15

Aproveitando o ensejo, parabenizo a Confederação Brasileira de Atletismo pelo bom desempenho de nossos atletas em Londres. Vimos que o orçamento de R$25.000.000,00 dese ano (R$16.000.000,00 de patrocínio da Caixa Econômica Federal) foi bem empregado.

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Alexandre Carlos Aguiar

09 de agosto de 2012 às 08h50

O esporte é a atividade que você executa para te dar saúde. A partir do momento em que vira competição se transformar em jogo, onde todos os artifícios possíveis e/ou ilegais são usados para vencer. Jogo é assim. Não se pode ser complascente com a falta de ética, mas deve-se entender, porém, que num jogo vale tudo. Ou ao menos se quer que valha tudo.

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LEANDRO

09 de agosto de 2012 às 08h48

O esporte é resultado. Chamo isso de estratégia usada por todos os países.

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Fabio Passos

08 de agosto de 2012 às 22h51

Eu suspeito que a maior parte dos atletas de ponta são preparados com muito mais do que treinamento e boa alimentação. Estas artimanhas de jogar para perder a fim de evitar cruzamentos difíceis também é lamentável.

O esporte virou negócio.
E o sucesso nos negócios é valor mais importante que saúde e ética no mundo em que vivemos.

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Mateus

08 de agosto de 2012 às 22h20

E deveriam retirar, das olimpiadas, o futebol, de gramado, masculino das olimpiadas. E colocar o futebol de areia no lugar dele. Pra mim o esporte que mais fere as regras de uma competição leal é o futebol do gramado.

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Wagner

08 de agosto de 2012 às 21h36

Isso reflete a falta de valores dos dias atuais.

O ganhar a qualquer preço é a tônica do momento. Partidas combinadas, racismo (!!!), brigas…e nada de espírito olímpico. Triste.

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josaphat

08 de agosto de 2012 às 21h32

Não sei se concordo. Esse papo de espírito olímpico não me convence. Quem que realmente está interessado apenas em competir? O negócio é vencer. Perder uma partida para percorrer um caminho mais fácil é um raciocínio lógico dentro de uma situação de jogo. Em um jogo, sempre há um vencedor. Não se trata de brinquedo ou de brincadeira de faz-de-conta. O que não dá para aceitar é a falta de arte, de mandinga para perder. Tem que fazer um teatro bem feito, né.

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