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Gerson Carneiro: No Haiti, não há espaço para a soberba


16/08/2013 - 11h49

por Gerson Carneiro, do Haiti, especial para o Viomundo

Caindo a ficha…

Era uma hora e meia da madrugada de quarta-feira, 14 de agosto, quando lia comentários sobre meu texto a respeito das minhas impressões iniciais sobre o Haiti. Alguém chegou para verificar se estava tudo fechado, pois havia tiros próximo ao acampamento. Ingenuamente, exclamei: são tiros?!

– Sim.

Decidi ir dormir. Corrijo: decidi recolher-me.

Não há pacificação no Haiti. A presença maciça de militares, fortemente armados, de diversas nações, não configura paz ao Haiti. Não é objetivo primordial dos militares garantir segurança ao povo. Não é mesmo.

Há menos de dez anos matava-se no Haiti apenas por circular nas ruas em horário proibido, inclusive durante o dia, ainda que a pessoa não soubesse que havia proibição de circulação naquele determinado horário.

Há regiões perigosíssimas onde, especialmente estrangeiros, não devem circular.

Aliás, a cultura de violência é utilizada inclusive para “educar”.

Nas escolas (só há uma escola pública, o restante é particular) utilizam um chicote para “silenciar” a algazarra da criançada. Batem esse chicote na parede, ou nas mesas das crianças. As crianças até sorriem com o barulho da chicotada.

A estratégia imposta pelo dominador (franceses depois sucessivos ditadores; atualmente a casta de haitianos contemplados com empregos públicos – há pessoas com quatro simultaneamente, não há concursos públicos) é tão cruel que faz com que a população sinta prazer e dê risada quando um igual, por cometer algum delito, apanha. Por exemplo, quando a população bate em um ladrão na rua para que ele “aprenda” a não invadir a casa de alguém.

Nessas ocasiões, os homens surram o infrator e as mulheres manifestam alegria gritando e batendo palmas. Isso ocorreu com um jovem que foi flagrado dentro de uma casa mexendo em panelas sobre o fogão.

Ao mesmo tempo a mesma estratégia do dominador faz com que essa mesma população sinta medo e se curve ao dominador em “sinal de respeito à autoridade” até mesmo quando, por pura necessidade, precisa solicitar melhoria, ou quando não o próprio, benefício.

O povo haitiano é extremamente observador. E, de surpresa, faz perguntas diretas, incisivas, difíceis de serem respondidas. Ele te coloca contra a parede. Como na seguinte situação ocorrida em uma rua qualquer, quando por milagre meu Padim Ciço “alumiou” meu pensamento e consegui ser rápido:

– É a primeira vez que você está no Haiti?

– Sim.

– O que tem no Haiti que te traz aqui?

– Você. Só você é capaz de me fazer sair do meu país para estar aqui.

– Você voltaria aqui?

– Se eu perceber que estarei sendo útil voltando, voltarei. Mas não voltarei apenas por curiosidade. Apenas para observar você.

De verdade. O povo haitiano está saturado da presença rotativa de estrangeiros. De gente que vem aqui em busca de remissão. Gente que vem fotografar a dificuldade deles. Pra não dizer, a miséria deles.

É preciso estar atento. E manter o espírito humilde. Ninguém vem ao Haiti ensinar nada. Todos vêm ao Haiti aprender com o sofrido povo haitiano. Ainda que não admita, ou não tenha ciência disso. Ou acha que não. Um simples olhar de um haitiano pode desarmar qualquer forasteiro desavisado.

É um povo inteligente, com um talento enorme para cantar (especialmente as crianças), e uma facilidade espantosa de aprender rapidamente a se comunicar em diferentes línguas. Porém, com um forte bloqueio resultante de anos de submissão e opressão, que, cruelmente, impuseram a cada haitiano a convicção de que não são capazes de conduzir suas vidas sem a dependência de um forasteiro.

É possível e relativamente fácil encontrar um haitiano que fale ao menos francês e inglês. Não que fale fluentemente, mas  consegue fazer-se entender e ser entendido.

Procurei saber a razão de se encontrar com relativa facilidade haitianos que se comunicam em diferentes línguas. Um deles me disse que é porque o povo haitiano sempre conviveu com estrangeiros. Ora invasores, ora exploradores, ora missionários em ajuda humanitária, catequizando-os/evangelizando-os. Assim, o instinto de sobrevivência os conduziu à facilidade de comunicação como adaptação às constantes e rápidas mudanças políticas na babilônia que é o Haiti.

O que vou relatar a seguir, de tão inusitado, se não tivesse ocorrido comigo, pensaria tratar-se de invenção, de um exagero. Sim, de fato é um exagero, mas um exagero real. Acontecido.

Em uma tarde, eu caminhava em uma rua em direção a um hospital. Nisso passou um rapaz em uma bicicleta e me cumprimentou em Kreyol (dialeto haitiano): – Bonswa! (Boa tarde!)

Eu respondi: – Bonswa!

Ele parou, desceu da bicicleta, passou a me acompanhar e me perguntou em inglês em qual língua eu me expresso. Respondi que português. Ele então disse que também fala português. E acrescentou que fala italiano, espanhol e francês, além do inglês, português e kreyol. E relatava algo em cada uma dessas línguas ao passo que as citava.

Era um haitiano aparentemente simples, com sua bicicleta simples, com sua roupa simples, com seu calçado simples, sem emprego, esbanjando seu rico conhecimento em línguas para um estrangeiro brasileiro trajando roupas novas, calçado novo, bem empregado, bem remunerado, viajado, que fala porcamente inglês.

Aqui, não há espaço para soberba.

Leia também:

Gerson Carneiro: Revivendo infância em cidade pobre da Bahia





21 comentários

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Gerson Carneiro: Alegria em meio ao inferno - Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de agosto de 2013 às 19h33

[…] Gerson Carneiro: No Haiti, não há espaço para a soberba […]

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Leandro Fortes: Marconi Perillo usa a Justiça de Goiás para calar a verdade - Viomundo - O que você não vê na mídia

17 de agosto de 2013 às 13h58

[…] Gerson Carneiro: No Haiti, não há espaço para a soberba […]

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Gilson Teixeira

17 de agosto de 2013 às 11h06

Não temos de dourar a pílula, mesmo em nome da ONU o Brasil é ocupação estrangeira no Haiti. E O Gerson compreende assim, tanto que foi fazer a sua solitária visita de solidariedade de um brasileiro a um sofrido povo irmão. Ou seja, mostar que aqui no Brasil há gente que entende o povo haitiano. As duas crônicas foram muito massas. Estou no aguardo de outras.

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Lando Carlos

17 de agosto de 2013 às 10h37

gerson parabens.narrativa emocionante eu lamento por não ser uma ficção,uma escola publica e triste saber desta verdade.

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    Yole

    22 de junho de 2016 às 15h50

    Eu sou haitiana,pode ser que o autor se refere a uma cidadezinha falando de ” uma escola pública”,sem querer contradizer,sou de Cabo Haitiano e lá tem várias escolas públicas!

Ana Raposo

17 de agosto de 2013 às 09h42

E aí, já comeu Frango Haitiano? Muito gostoso.

Receita de Frango haitiano
Por Sarah Maria Silva

Ingredientes
•6 colheres (sopa) de óleo
•2 cebolas grandes picadas
•2 dentes de alho espremidos
•1 frango grande cortado em pedaços
•6 tomates maduros sem sementes picados
•2 cenouras picadas
•2 talos de salsão picados
•2 colheres (sopa) de manjericão
•Sal a gosto
•Pimenta vermelha picada a gosto
•Pimenta da jamaica a gosto (opcional)
•1/2 xícara (chá) de suco de laranja
•1/2 xícara (chá) de leite de coco
•1 colher (chá) de gengibre ralado

Modo de preparo
•Em uma panela, esquente o óleo, refogue a cebola, o alho, junte o frango, deixando em fogo forte até dourar ligeiramente.
•Junte os demais ingredientes, abaixe o fogo e cozinhe lentamente até a cenoura ficar macia.
•Sirva este prato acompanhado com polenta em ponto de cortar.

Fonte: Comida e Receitas – http://www.comidaereceitas.com.br/aves/frango-haitiano.html#ixzz2cEIiDVxA

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Rita

17 de agosto de 2013 às 09h35

Eu gostaria de estar dentro da cabeça do Gerson quando ele decidiu empregar suas férias numa viagem de solidariedade ao Haiti. Massa demais

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Romanelli

17 de agosto de 2013 às 08h28

UMA escola só é pública ..afinal, o que fazemos lá ? Francamente, fora da remissão hipócrita citada pelo Gerson, na pratica digo que estamos enxugando gelo e jogando fora rios de dinheiro, BILHÕES deles

e pior, atraindo problemas (como se já não tivéssemos os nossos) quando “atraímos” ou facilitamos a entrada deles pelo Acre por exemplo, assim como já fazemos com nossos miseráveis vizinhos que acabam vindo pra cá com todos os seus PASSIVOS e mazelas também.

Sinceramente, se não sabemos o que propor e/ou fazer, acho que esta na hora de recolhermos nossas tropas de vez ..ou corrermos o risco de ficarmos cada vez mais parecidos com outros que nos suprimiram

Uma só escola é publica ??!! barbaridade, depois dessa pode vir embora colega, acho que vc já nos escancarou o que esta na base deste ciclo de misérias e tragédias (..isso pra não viram uns daqui a pouco dizer que isso aí é uma questão básica seria a do racismo ..sei sei)

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Berenice

17 de agosto de 2013 às 08h03

Gerson no Haiti tem muios ângulos. Mas eu gostaria de saber o que o motivou a ir pro Haiti. E por que o Haiti? Um relato interessante da viagem. Li os dois episódios e achei muito bons e descolados. Dará muitas crônicas, um blog e até um livro.

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Edgar Rocha

17 de agosto de 2013 às 03h10

Devo entender esta crônica como o mais contundente contraponto ao texto do juiz Genivaldo Neiva. Quando o Gerson Carneiro descreve a reação inconsciente da população mais oprimida que se refastela com a opressão de um igual, sua análise sobre este fato se mostra a mais sincera e realista possível. A aceitação do direito inquestionável daquele que oprime gera a desagregação social e anula qualquer pensamento de compaixão e solidariedade diante do sofrimento do outro. Ainda mais se este outro se mostra igualmente indiferente e capaz de direcionar sua violência contra seus pares. Acho que a ideia é esta mesmo. O nível de autoritarismo de um governo ou de uma representação institucional deveria ser medido pelo grau de crueldade de um membro do grupo contra os demais. Não sei se estou sendo claro. A lei do mais forte, antes de tudo, desagrega. Depois oferece a estabilidade desejada às custas da autonomia e das relações pessoais. Estas são absolutamente desnecessárias numa sociedade tutelada. O Haiti nos mostra um espelho do que somos por dentro. E se não nos é tão notória tal comparação é porque o nível de sofisticação do sistema aqui é muito maior. Voltando ao discurso do Genival, eu pergunto: teria ele esta consciência solidária se, porventura, um grupo de pessoas decidisse pegar de pau um assaltante ou qualquer outro tipo de bandido? Desconsiderem o fato de que no Haiti a miséria graça. Aqui, quase sempre quem assalta, mata, barbariza, o faz porque simplesmente é fácil. Quase nunca são pobres ou famintos. Enfim, teria o Genival esta consciência do nível de desagregação social e seu equivalente autoritarismo institucional? Consideraria o nobre juiz a possibilidade de que aqueles que aparentemente se dizem sedentos de sangue, ainda não o fizeram porque estão impotentes com a condescendência dos agentes institucionais à violência de seus paus mandados e que, apesar do discurso a favor de pena de morte, redução da maioridade, tudo que esperam, ainda, é uma atitude institucional? Será que vão continuar culpando àqueles que endossam tal discurso por pura falta de opção e desespero? Vai o juiz continuar culpando a sociedade pela discriminação de seus jovens infratores? Será tão difícil ser solidário a quem é tão vítima do sistema autoritário quanto aquele que se entrega ao crime pra morrer cedo depois pelas mãos de seus próprios senhores? Não dá pra perceber o nível de autoritarismo sujo de nossas instituições e entender de uma vez por todas que é isto o principal motivo de nossa sociedade desagregada e desumana? Perguntas, perguntas…

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Tetê Sanches

16 de agosto de 2013 às 23h01

Literatura de viagem é gênero literário que consiste geralmente em uma narrativa acerca das experiências, descobertas e reflexões de um viajante durante seu percurso. O texto exibe geralmente uma coerência narrativa ou estética, de modo que a aventura pessoal do autor assume uma dimensão bem mais ampla, universal, diferenciando-se dos diários de viagem ou diários de bordo , que se caracterizam pelo simples registro de datas e eventos.

Geralmente baseada em relatos de viagens reais, a narrativa pode também ser ficcional, como acontece em “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift. Entre os muitos exemplos famosos de literatura de viagem estão “As Viagens” de Marco Polo, ou a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Literatura_de_viagem

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Edson Augusto

16 de agosto de 2013 às 20h06

Parabéns, Gerson, pela sensibilidade. Narrativa deliciosa e esclarecedora.

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Tetê Sanches

16 de agosto de 2013 às 16h35

O Gerson está se revelando um cronista de viagem dos bons. Parabéns!!!

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Mardones

16 de agosto de 2013 às 16h02

Aqui em Curitiba parece haver vários haitianos trabalhando. A população já percebeu a presença desse contingente. Alguns costumam comentar que eles sim são negros de verdade (sic). Ao contrário dos ‘miscigenados’ brasileiros. É interessante notar que desconhecem a história do Haiti e sua libertação – a primeira de uma nação negra nas Américas! Não sabem também que pagam por isso até hoje.
Com relação ao talento dos haitianos com os idiomas, fico surpreso com o relato do Gerson, pois é de conhecimento geral que os africanos falam vários dialetos e ainda incluíram os idiomas dos estrangeiros colonizadores nesse menu.
Aliás, a pior elite do planeta, a brasileira, nos impediu de ter acesso aos idiomas dos povos ‘formadores’ e dos nossos vizinhos sulamericanos. Só por isso não temos um menu mais amplo. E não se vê iniciativa do MEC nesse sentido. Vem daí o nosso ‘espanto’ com povos que têm mais de um idioma no currículo, como Suíços e Holandeses, por exemplo.

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Alberto

16 de agosto de 2013 às 13h47

Caro Gerson, gostei muito. na verdade saboreei sua crônica. Aguardo outras

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Ana Cruzzeli

16 de agosto de 2013 às 12h39

É triste ver o que os EUA fizeram a ilha só pra atingir Fidel. De lá eles não largam a mão de jeito nenhum imagina o Haiti virando um ilha de prosperidade do lado de Cuba?

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    Fernando

    16 de agosto de 2013 às 14h24

    E Cuba é uma ilha de prosperidade?

    Fernando

    16 de agosto de 2013 às 14h52

    claro que é!!!

    Douglas da Mata

    16 de agosto de 2013 às 15h20

    Bem, depende: se você conseguir fazer a diferença entre riqueza e prosperidade, a resposta é: Cuba é pobre, mas próspera.

    Afinal, conseguir média de vida de 78,7 anos, analfabetismo zero, 7 médicos a cada mil habitantes, etc, etc, ainda que sob intenso, continuado e criminoso bloqueio econômico é algo que nem toda a riqueza do mercado e do consumo conseguiu fazer pelos EEUU, por exemplo…

    Mirtes

    16 de agosto de 2013 às 21h22

    Perfeita a resposta do Douglas Mata ao sr. fernando que pelo que escreveu só conhece Cuba pelos jornais.

Genivaldo Neiva: Você quer saber de onde nascem os bandidos? - Viomundo - O que você não vê na mídia

16 de agosto de 2013 às 12h38

[…] Gerson Carneiro: No Haiti, não há espaço para a soberba […]

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