VIOMUNDO

Diário da Resistência


Você escreve

Gerson Carneiro: Minha máscara caiu em pleno carnaval. Sou machista


18/02/2015 - 09h45

Gerson Carneiro

Sou machista

por Gerson Carneiro, na sua página no Facebook

Tribunal do Face.

Personagem da vez: Gerson Carneiro.

Ofereço minha cabeça. Sou machista.

Carnaval. Período em que usam-se fantasias e máscaras.

Entediado e insone em casa, na madrugada da segunda-feira de carnaval vou às redes sociais buscar conversa e encontro todos acompanhando pela TV o desfile (para mim, chato) das escolas de samba. Na tentativa de atrair interlocutores, na desleal competição com as maravilhas do desfile, inicio uma série de provocações. E chega a mim uma foto de uma grávida sambando, acompanhada de uma manifestação de contrariedade de uma mulher.

Sem querer parar para refletir, mas ciente do consequente debate e eventuais acusações, decidi postar a foto com a mesma provocação feita pela mulher no facebook. E certo de que concordava com a manifestação de contrariedade postada por ela: “Se pode sambar no carnaval, por que não pode enfrentar uma fila?”.

E o debate foi acontecendo. E eu resistindo. Primeiro porque sem disposição para se ater à questão, as pessoas chegavam atirando pedra. Julgando o provocador e não a questão cerne proposta. Como observou uma das debatedoras: – Só me assusta ver que ainda não sabemos debater sem partir para o menosprezo ao outro.

Aos poucos e lentamente foram surgindo argumentos consistentes que me convenceram.

Caiu a minha máscara e minha fantasia em pleno carnaval. Fiquei nu.

Eu sou machista.

Eu sou “macho”. Nasci e cresci em meio a machos pregando machismos a todo instante em volta de mim. Em uma sociedade extremamente machista. Então eu absorvi isso por osmose. Não tem jeito. Em algum momento, ainda que eu lute para combater isso, em algum momento o machismo impregnado em mim irá se manifestar. E se eu não expor isso, estarei recrudescendo ainda mais.

Não é possível guardar machismo. Ele se manifesta independente da vontade (em muito casos com vontade). E outra coisa é que não é possível aprender e corrigir preconceitos se não tiver coragem de admiti-los e discuti-los. Se refugiar no travesseiro apenas não irá desconstruí-los. A reflexão tem sim que acontecer em debate sincero e honesto.

Não faço tipo. Uma das facetas canalhas do machismo é bancar o defensor das mulheres para em seguida tentar xavecá-las. Isso ocorre muito.

Fui aconselhado a apagar a postagem. Não concordei. Tenho dificuldade em aceitar a atitude de quem comete algum deslize na internet sai apagando e colocando cadeado em tudo. Espero jamais ter a coragem de apagar alguma coisa que eu escrever. Não sou perfeito, e quero que minhas imperfeições sejam também conhecidas. Também porque há argumentos bastante consistentes distribuídos nos comentários da postagem que seria um prejuízo apagá-los.

Diante de tamanha riqueza do debate, pensei na possibilidade de alguém com o pensamento errado como eu estava inicialmente vir e aprender também. Por que apagar?

E para além, o pecado que cometi foi questionar, querer debater. Tanto que comecei minha postagem com um “Para pensar”. Jamais, ninguém deve ficar inibido de questionar. De querer debater.

Ficaria desprovido dos argumentos valiosos e seguiria com meu pensamento errado caso não tivesse questionado, me manifestado.

Como poderemos aprender se formos inibidos a não expressar nossos questionamentos e colocá-los em debate?

Sinto-me gratificado pelo debate. Aprendi bastante. E agradeço a todos que participaram.

Leia também:

Altamiro Borges: Skol retira campanha machista do ar. Basta?

Livro do Luiz Carlos Azenha
O lado sujo do futebol

Tudo o que a Globo escondeu de você sobre o futebol brasileiro durante meio século!

A Trama de Propinas, Negociatas e Traições que Abalou o Esporte Mais Popular do Mundo.

Por Luiz Carlos Azenha, Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni e Tony Chastinet



19 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

João Aguiar

19 de fevereiro de 2015 às 23h00

Zoei no post inicial que deveriam proibir a participação dos veín, deficientes físicos e folliões com criança no colo rs mas tem preconceitos muito mais arraigados e o racismo pra mim é o campeão num país recém liberto da escravidão legalmente, valeu por levantar a questão.

Responder

FrancoAtirador

19 de fevereiro de 2015 às 16h25

.
.
Caríssimo Hermano. Não se penitencie.

O Amadurecimento da Consciência Política,

tanto individual quanto coletivamente,

demanda um Longo Processo de Evolução

Cultural e Educacional no Meio Social.

Por exemplo, se, há uns 30 ou 40 anos,

você escrevesse esse desabafo sincero,

provavelmente seria chamado de ‘Maricas’.

E em Países como o nosso, que sofreu

a Influência de uma Elite Econômica

fundada no Feudalismo e na Escravidão

formando, na Nobreza, uma Casta Política

sob o Manto da Monarquia Absolutista,

o Preconceito está arraigado em [email protected],

muito embora haja avanços substanciais

e bruscos, quando Movimentos de Massa

Revolucionários quebram os Paradigmas,

como ocorreu na Geração dos anos 60.

Mas a Luta é Constante, Contínua.

Um Abraço Camarada e Libertário.
.
.

Responder

Leo V

19 de fevereiro de 2015 às 13h34

O teu argumento é bem usado pelos patrões: se pode sambar, se pode ir na praia, pode trabalhar.

Só que há a diferença crucial entre fazer algo autonomamente, com prazer e com controle sobre o corpo, e algo imposto externamente.

Responder

    Gerson Carneiro

    19 de fevereiro de 2015 às 21h36

    “Tente me ensinar das tuas coisas
    Que a vida é séria e a guerra é dura
    Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
    E deixa eu viver minha loucura”

    Meu Amigo Pedro – Raul Seixas

Eunice

19 de fevereiro de 2015 às 12h14

Oi Gerson. Valeu pelo girassol final.

Responder

Romanelli

19 de fevereiro de 2015 às 08h11

sei lá dos seus argumentos, e do que vc entendeu por se dizer machista ..mas só isso valeu o texto:

“..Só me assusta ver que ainda não sabemos debater sem partir para o menosprezo ao outro..”

Agora, fossemos um país SUFICIENTE, e não estaríamos discutindo, direitos, foros, assentos, vagas ou filas preferenciais.

Em tempo, minha esposa, mais ainda do que eu, é da que faz severas críticas aos tratamentos diferenciados dados a este ou aquele grupo ..aos DIAS comemorativos (aliás, quer deixá-la fula, é só cumprimentá-la pela dia internacional das mulheres) ..diz ela: Já que queremos ser iguais, NÃO podemos ficar nos exaltando por diferenças superficiais

Quanto ao desconforto que ALGUMAS PESSOAS sentem, um deficiente, idoso, gravida, ou mesmo um homem e/ou jovem feridos ..aí, melhor seria a EDUCAÇÃO indistinta de todos, a conscientização ..ou isso, ou JAMAIS, neste ritmo, teremos Vagões exclusivos pra todos

Responder

Marcos Carvalho

19 de fevereiro de 2015 às 04h52

Parabéns pelo post. Sem jurgar se você estava certo ou errado, afinal como disse o Raul Seixas “Não tem certo nem errado, todo mundo tem razão…”, acho que podemos e devemos mudar de opinião quando acharmos correto e isto não é vergonha alguma.
Em relação a questão da mulher grávida sambando, acho que muitos argumentos já foram postos e que lhe fizeram mudar de opinião, mas duas idéias me passaram imediatamente na cabeça, e mesmo sabendo que estarei chovendo no molhado vou dizer:

1- Seguindo a mesma lógica, uma pessoa idosa não poderia praticar esporte ou pular carnaval e etc.;
2- Se nós modificássemos uma regra por causa do comportamento de uma pessoa, teríamos que modificar as regras todos os dias.

Responder

Edgar Rocha

18 de fevereiro de 2015 às 23h41

E não é que além de bom de contar histórias, pega um limão e faz uma limonada como ninguém!

Gerson, seu texto é um importante exercício de metalinguagem, no sentido mesmo de olhar pra si e discutir a função e a responsabilidade do formador de opinião. Parabéns! Você fez de uma “falha nossa” um manifesto ao bom senso.

Responder

Diano Lauar

18 de fevereiro de 2015 às 20h33

Quanto a mulher grávida que pode sambar no carnaval, mas não pode enfrentar uma fila, tem uma outra situação que me deixa bastante indignado:Quando estou em uma fila imensa de uma lotérica aí chega um camarada com cabelo pintado, camiseta regata, bermuda até /abaixo do joelh, meinha soquete, tênis de marca, e entra na fila dos idosos. Saí dali e vai mexer com mocinhas que poderiam ser suas netas. Se sentem idosos para enfrentar filas, mas querem se passar por garotões nas ruas.

Responder

    Lukas

    18 de fevereiro de 2015 às 22h38

    Os escritorios de contabilidade costumam contratar idosos que não enfrentam filas. São os chamados office-olds.

    Mico Jager

    19 de fevereiro de 2015 às 16h49

    Ha! Não sabia dessa, mas é uma “solução criativa” para aumentar a produtividade dos “boys”…

    Walter

    19 de fevereiro de 2015 às 00h16

    São os Vovôboys…

    João Aguiar

    19 de fevereiro de 2015 às 22h52

    É uma questão cultural, quando moleque aí de mim se ousasse pegar o pedaço de frango preferido do meu pai ou passasse correndo na frente de uma grávida pra pegar o melhor lugar. Em alguns países europeus, na França, como me contaram, dar lugar na fila de cinema é reprovável e anti_igualitário. Aqui a lei veio consolidar legitimamente um costume.

Cláudio

18 de fevereiro de 2015 às 17h13

:

**** ♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥ **** ♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥
♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥ **** ♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥ ****

************* Abaixo o PIG brasileiro — Partido da Imprensa Golpista no Brasil, na feliz definição do deputado Fernando Ferro; pig que é a míRdia que se acredita dona de mandato divino para governar.

Lei de Mídias Já!!!! **** … “Com o tempo, uma imprensa [mídia] cínica, mercenária, demagógica e corruta formará um público tão vil como ela mesma” *** * Joseph Pulitzer. **** … … “Se você não for cuidadoso(a), os jornais [mídias] farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo” *** * Malcolm X. … … … Ley de Medios Já ! ! ! . . . … … … …

Responder

Morvan

18 de fevereiro de 2015 às 11h54

Boa tarde.

Gerson, antes de tudo, se todos tivessem esta postura, de rever seus conceitos, teríamos um mundo bem mais racional. Ficou a lição. Gostei; aquela imagem da mulher sambando com o bebê não passou incólume pela nossa “banca examinadora de assuntos diversos”; eu, defronte a tevê, esperando a hora de acalmar as lombrigas com suco etílico, vejo aquela cena e a primeira coisa que questionei, talvez por leiguice, foi sobre a saúde e o bem-estar do folião involuntário. A conversa sempre se circunscreveu a este tópico. Algumas mulheres (parentes minhas) indignadas, outras afastando qualquer risco de o ‘folião precoce’ vir a ter problema de qualquer monta. Gostaria de ouvir a Conceição Lemes, a Fátima Oliveira e outras pessoas afetas ao assunto, pois a mim causou apreensão.

Saudações “Dilma, Vamos De Coração Valente. Enfrentar Os Golpistas E Defender A Petrobrás“,
Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

Responder

    Gerson Carneiro

    19 de fevereiro de 2015 às 06h10

    Morvan, bom dia.

    No tópico em que debati esse tema na página no meu face, fiz esses questionamentos também. E tem respostas interessantes como:

    “A passagem por um desfile de carnaval é extasiante. A alegria e felicidade são imensas, proporcionada pela carga enorme dos hormônios da felicidade e bem estar. Isso não estressa ninguém, muito menos o feto. Quanto mais alegria a mãe sente, melhor o feto se sente.”

    “Gerson, o bebê escuta sim, o som da bateria, principalmente pq a mulher em questão foi a rainha da bateria da Mangueira, certo? Mas olha a cara dela! Vc a viu desfilando ou só nesta foto? Ela estava imensamente feliz, portanto foi essa energia que ela transmitiu pro bebê. Certamente esse neném vem sambando na barriga da mãe desde a concepção até esses 7 meses que ela tá. Jamais, em hipótese alguma, uma mulher sedentária ou que nunca tivesse desfilado, conseguiria ir até o fial, mas não é o caso dessa mulher. Fez mal pro bebê não!!! Maaassssssssss se tivesse feito, abriríamos uma outra questão nesta discussão né?! Post infinito.”

    Se puder conferir, dê uma chegada lá.

    Abraço.

    Fátima Oliveira

    21 de fevereiro de 2015 às 00h59

    Caros Morvan e Gerson

    Desculpem-me o atraso para entrar na conversa. Honestamente? Fiquei com preguiça, embora o texto do Gerson seja interessante.

    Enfim, cheguei! Gravidez não é doença. Se a grávida está bem de saúde e o pré-natal indica uma gravidez sem riscos e ela acha que pode dançar, por exemplo, e se apresentar num desfile de Escola de Samba, é uma decisão pessoal que precisamos respeitar, já que ela não está cometendo nenhuma imprudência.

    Do que sei como médica, e por ser uma área de interesse pessoal – gosto de cavalgar e nunca o fiz quando grávida – é que há restrições em relação à montaria, pois com a gravidez o centro da gravidade do corpo muda, e caso não seja uma amazona experiente, é melhor não tentar montar a cavalo, pois realmente a contraindicação de cavalgar durante a gravidez é o risco de uma queda.

Saravá

18 de fevereiro de 2015 às 10h08

Você é Clã!

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
O lado sujo do futebol

Tudo o que a Globo escondeu de você sobre o futebol brasileiro durante meio século!