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Diário da Resistência


Adrián Fanjul: “É alemão no campus da USP, malandragem!”
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Adrián Fanjul: “É alemão no campus da USP, malandragem!”


17/10/2013 - 14h43

O ridículo ameaçador da grande mídia

por Adrián Pablo Fanjul, especial para o Viomundo

A rádio CBN, da rede Globo, gravou, na manhã da sexta-feira, dia 11 de outubro de 2013, uma matéria, na USP, sobre a greve dos estudantes. Como se podia esperar, uma emissão direcionada a desmoralizar e, se possível, criminalizar, mesmo que fosse no  discurso, os grevistas. Quase no início da sua fala, a repórter no afã de dar “o furo de reportagem”, deu, na verdade, um furo [PS do Viomundo: no jargão jornalístico, uma “barrigada”], já retirado do ar pela emissora, que, sem qualquer retificação, reeditou a alocução. Eis o fragmento e mais abaixo a íntegra do áudio da matéria:

Na Faculdade de Letras, grevistas montaram piquetes com cadeiras empilhadas para impedir o acesso às salas de aula. No interior do prédio, onde a gente conseguiu entrar, havia também um recado de uma das professoras, que dizia “Alemão no Campus”, uma referência ao termo dado nas favelas ao falar dos inimigos. Ela dizia também que os alunos deviam ficar atentos aos e-mails, para saber das próximas atividades.

Gravacao CBN (2)

As aulas de “Alemão no Campus” correspondem ao curso extra-curricular de língua alemã oferecido à comunidade, interna e externa, pela correspondente área do Departamento de Letras Modernas. Sua denominação é acorde com cursos análogos de outras áreas do mesmo Departamento, como “Francês no Campus” e “Italiano no Campus”. As aulas de todos eles têm sido afetadas pelo bloqueio de salas com cadeiras que a jornalista viu e menciona.

Tudo bem, a repórter podia não saber previamente o que são esses cursos de línguas “no Campus”. Mas podia informar-se a respeito. E, sobretudo, estando no que ela denomina como “a Faculdade de Letras” [1], poderíamos esperar que fizesse a hipótese de que tal mensagem, ainda mais provindo de uma professora, tivesse a ver com alguma atividade relacionada à aprendizagem de línguas mais do que ser o recado de um olheiro para certas “próximas atividades” que devem ser dissimuladas.

Quais fatores podem ter favorecido que, na leitura do cartaz pela repórter, tenha sido ativado um contexto cognitivo ou um espaço de memória relativo a cenários de favelas e criminalidade e não a aulas, línguas e “letras”? Questão interessante para refletir não apenas sobre os processos de leitura, mas também sobre as políticas de construção informativa.

Não é difícil pensar o “furo” da jornalista como acorde com a construção criminalizadora que a grande mídia tem desenvolvido em relação a todo setor em protesto, e em especial ao movimento estudantil. A repórter “precisava” encontrar signos de descaso com o conhecimento, preguiça, vandalismo; se possível, uso de drogas, para daí fazer os já sabidos deslocamentos para o narcotráfico e outras formas de delito. Devia percorrer a série metonímica que já conhecemos pela qual, em última instância, toda forma de mobilização e resistência conduz ao “eixo do mal” por uma via retilínea. No fim das contas, foi a mídia para a qual ela trabalha que, em 2011, revelou ao mundo o caráter “maconheiro” da grande mobilização democrática que enfrentou o convênio entre a USP e a Polícia Militar.

Porém, observando o conteúdo específico da gafe da CBN, não podemos deixar de encontrar na palavra da própria reitoria da USP um fundamento primeiro para a imagem que nela se manifestou. Com efeito, foi o próprio Rodas, reitor da USP, o primeiro a comparar publicamente a Universidade com “os morros do Rio de Janeiro” em uma entrevista dada no início da sua gestão a um programa sensacionalista da Rádio Bandeirantes:

A comparação deu-se em ocasião de uma greve de funcionários com ocupação da reitoria. A entrevista inaugurou, por uma parte, um estreito relacionamento com o mais vulgar da mídia, que se manteria até hoje. Mas também preparou o terreno para a escalada repressiva que ainda tem expressão no malfadado convênio entre a USP e uma das polícias mais letais do mundo, a PM paulista. Ou para a presença, na Superintendência de Segurança da Universidade de um coronel da PM que se dá ao luxo de comparar, publicamente e com impunidade, estudantes em greve ao PCC.

Por isso, tentativas jornalísticas como a que nos ocupa fazem parte de uma ameaça constante contra toda ação coletiva de contestação. Desta vez, ganhou a forma do ridículo.

[1] Não existe, na USP, uma Faculdade de Letras. A repórter se encontrava no prédio dos departamentos de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Adrián Pablo Fanjul é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Leia também:

Juiz nega reintegração: “Reitoria optou pela força em vez do debate”





20 comentários

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Antônio David aos alunos da USP em greve: Cobrem desde já a fatura! - Viomundo - O que você não vê na mídia

24 de outubro de 2013 às 18h29

[…] Adrián Fanjul: “É alemão no campus da USP, malandragem!” […]

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“É alemão no campus da USP, malandragem!” | Ágora

21 de outubro de 2013 às 03h17

[…] VIOMUNDO […]

Responder

A explicação da Folha e o áudio da "denunciante" que se diz usada - Viomundo - O que você não vê na mídia

20 de outubro de 2013 às 17h19

[…] Adrián Fanjul: “É alemão no campus da USP, moçada!” […]

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Maria

20 de outubro de 2013 às 11h50

Puta ato falho! Freud explica.

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FrancoAtirador

19 de outubro de 2013 às 19h36

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MÍDIA BANDIDA EM MANCHETES

1) Repórter Imbecil e Mal-Intencionado, tentando denegrir a imagem de um Movimento Social do Campo, compara Agricultura Familiar e Cooperativismo do MST com Modo Capitalista de Produção.
(https://www.viomundo.com.br/politica/as-estrategias-capitalistas-do-mst-segundo-o-ig.html)

2) Bandido de Mídia Mentiroso, para falar mal de um Programa Habitacional do Governo Federal, aproveita-se da imagem de uma simples e digna cidadã braSileira que adquiriu a casa própria, mediante regular financiamento, em um Município do Interior do Estado da Bahia.
(https://www.viomundo.com.br/denuncias/denunciante-da-folha-diz-que-vai-acionar-jornal-por-danos-morais.html)

3) Meliante de Emissora de Rádio pertencente ao maior Conglomerado de Mídia Sonegadora da América Latina compara Estudantes Universitários a Traficantes de Favela, em São Paulo.
(https://www.viomundo.com.br/humor/adrian-fanjul-2.html)

4) Chefe de Redação Sem-Vergonha, de Famigerado Jornal Carioca, do mesmo Grupo Midiático Sonegador antes mencionado, compara a vândalos criminosos alguns estudantes e professores estaduais do Rio de Janeiro presos arbitrariamente pela Polícia Militar nas escadarias da Câmara Municipal da Capital.
(https://www.viomundo.com.br/denuncias/o-protesto-de-manifestantes-contra-a-capa-de-o-globo.html)

Realmente a Bandidagem Midiática anda solta…
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Responder

Mário SF Alves

18 de outubro de 2013 às 18h10

Pensando bem, deve ter sido um ato falho qualquer, pois, alemão mesmo tem é no PiG. Aliás, novidade nenhuma, o PiG é feito de alemão.

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Julio Silveira

18 de outubro de 2013 às 14h17

Os alunos da USP, que para o caro Rodrigo se equiparam a assaltantes, estão fadados ao tratamento da lei do porrete dado pelo “democrático” partido, e seu mais fiel representante, no cargo do governo do estado de São Paulo.
Gente que só espera pela implantação do RFID vinda de cima, para aderirem e mais facilmente controlarem e monitorarem aqueles que para eles podem representar uma ameaça ao sistema.
Essas pessoas não gostam de inteligência a lhes contestar, preferem massificar a idiotização e com isso produzir um exercito de homens amebas como muitos que aparecem por aqui. Homens que sirvam apenas para cumprir sua utilidade ao sistema e seus prazos de validade e após isso sucumbir. Um mundo com cada vez menos luz intelectual e diversidade de pensamentos. Tem esses homens a pura e simples visão do conquistador dominador aquele mesmo que chegou por aqui pelos idos de 1500 e extinguiu uma civilização e sua maneira de enxergar o planeta, sem tirar nenhum proveito dessa cultura.

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Mardones

18 de outubro de 2013 às 09h47

Adrián, vc disse tudo.

No afã de distorcer a realidade, a repórter e a empresa para qual trabalha, esquecem da própria realidade. Vão acabar sozinhas.

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Rodrigo Leme

18 de outubro de 2013 às 08h35

Imagina, criminalizar gente que invade prédio público e inviabiliza o acesso às dependências para 90% da universidade que não concordam com eles. Daqui a pouco vão querer criminalizar assaltante tbm. Onde vamos parar?

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    Tiao Macalé

    18 de outubro de 2013 às 10h41

    Imagina dizer a verdade!?!

    O certo é pegar uma notícia boa, como os dados do PNUD sobre o IDH, e divulgar SOMENTE os poucos índices ruins…isso sim é jornalismo!!!

    O certo é esconder que o Bolsa Família recebeu o maior premio internacional, para as ações sociais. Deve-se divulgar apenas as falhas residuais do programa…isso sim é jornalismo!!!

    Canalhas como você, Rodrigo…são desmascarados facilmente.

    denis dias ferreira

    18 de outubro de 2013 às 11h10

    Imagina, não criminalizar aqueles que fazem de uma entidade pública um clubinho privado. A USP precisa alterar urgentemente os seus estatutos, para evitar que o seu reitor continue sendo eleito apenas por aquele meio por cento de “iluminados”, enquanto os restantes noventa e nove por cento são unicamente convidados a engolir o próximo tirano.

    demetrius

    18 de outubro de 2013 às 11h32

    Você quis dizer, 90% abduzidos.
    Abraço.

Marat

17 de outubro de 2013 às 20h48

É preciso avisar a repórter que o termo “barricada” seria mais apropriado que “piquete”… Digam a ela, por favor, que não é vergonhoso voltar a estudar… Ah… digam também para ela não confiar demais nos corretores ortográficos dos editores de textos!

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Marat

17 de outubro de 2013 às 20h45

Estudante de letras que a todo momento fala “tipo”… tipo Bob Esponja… Essa é tipo burrinha – rsrsrs

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Marat

17 de outubro de 2013 às 20h43

Há alguns repórteres da CBN grotescos… nem vou citar nomes para não ficar chato… Tem um que era estagiário, e posteriormente foi contratado… Algumas de suas pérolas: […] alienação fiducitária; […] Ao falar de uma linha de ônibus no Bairro elegante do Itaim Bibi, ele mencionou que o ônibus que passava por aquele local era o Itaim Paulista (creio que essa turma jamais utilize transporte coletivo); Também numa dada oportunidade, o tal repórter proferiu: “[…] brinquedos inofensíveis”… tudo bem, todo mundo pode errar, mas seria interessante um pouco mais de estudo por parte dos “profissionais” da informação!

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Tiao Macalé

17 de outubro de 2013 às 20h19

Se a douta jornalista visitasse outros cursos encontraria:

Num vai subir ninguém…para o próximo período!
(curso de engenharia)

Bota na conta do Papa…essa despesa!
(curso de contabilidade)

É 100% !?
Sim, meu capitão!
Então senta o dedo nessa por…caria de mouse.
(curso de ciência da informação)

Os caras fazem a merda e a gente tem que limpar…esse laboratório
(curso de química)

Para mim, quem ajuda traficante a ser armar…é porque talvez, foi excluído da sociedade quando criança e precisa de acolhimento e oportunidades.
(curso de serviço social)

Missão dada é missão cumprida…logo, todos a Igreja da Sé no próximo domingo de manhã.
(curso de teologia)

Onde está o fogueteiro?
(curso de física)

Pede para sair 01! Pede para sair 01! Pede para sair…e derive o seu expoente para o logaritmo neperiano do cateto da hipotenusa da constante W.
(curso de estatística)

Em grego: Estratégia, em latim, Estrategie….em Francês, strategé
(curso de letras)

Está pronto para almoçar, xerife?! Sim, senhor…então pegue uma pequena porção de vegetais, carboidratos, proteína.
(curso de nutrição)

O senhor é um fanfarrão…pegue este trompete e repita as notas
(curso de música)

O lugar do senhor é com prostituta, o lugar do senhor é com cafetão, o lugar do senhor é em clinica de aborto…por isso, um bom médico deve atender em todos os tipos de ambiente e a todas as pessoas, antes de se formar.
(curso de medicina)

Tire essa roupa preta porque….o ensaio acabou.
(curso de artes cênicas)

Responder

    Marat

    18 de outubro de 2013 às 00h05

    rsrsrsrsrs – Fanfarrão foi sensacional!!!!!!!!!!!!!!!!!

renato

17 de outubro de 2013 às 20h12

Desde muito pequeno(1958) eu chamo o meu irmão mais velho de MANO.
Não vai ter problema se eu continuar a chama-lo assim, não?

Responder

Bacellar

17 de outubro de 2013 às 18h00

Atividade na laje!

Responder

Urgente, USP sufocada: Por uma Estatuinte livre, soberana e democrática - Viomundo - O que você não vê na mídia

17 de outubro de 2013 às 15h36

[…] Adrián Fanjul: “É alemão no campus da USP, malandragem!” […]

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