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João Paulo Rillo: Mãe, mais uma vez a desigualdade social mostra as suas vísceras!
Repolitizando

João Paulo Rillo: Mãe, mais uma vez a desigualdade social mostra as suas vísceras!


10/05/2020 - 16h23

 De um filho qualquer

por João Paulo Rillo*

“Vai com Deus, meu filho, e tome cuidado!”

Nunca saí de casa sem ouvir essa frase, esse mantra obrigatório.

Como se, ao proferir essas palavras, ela chacoalhasse meu anjo da guarda pra me guiar e proteger.

É, mãe, você não me impediu de caminhar, mas tinha medo que eu morresse de tiro, acidente, infarto.

Nada disso aconteceu. Cá estou, sozinho, esperando que o tempo mude.

Você nunca falou, mas, no fundo, achava que o Raul Seixas não era uma boa companhia.

E não é que ele tinha razão? A terra parou mesmo, mãe!

Nunca imaginamos que respirar pudesse ser tão perigoso.

Você sempre dizia pra eu analisar bem quem levava pra dentro de casa.

Pra sua tranquilidade, ninguém tá entrando na casa de ninguém. O mal agora invade sem pedir licença.

Lembra-se da música da guitarra elétrica? Pois é, mãe, “agora, lá fora, todo mundo é uma ilha…”.

Eles continuam trocando vidas por diamantes.

Nos lugares mais humanos e civilizados, a tragédia é invisível, mas aqui, na pátria amada, ela tem cor, classe social, mora longe e anda de ônibus.

Mais uma vez, a desigualdade mostra suas vísceras, os mais pobres estão morrendo fadigados, mãe.

As covas mudaram o cartão postal da cidade. É a parte ofertada aos que construíram esse grandioso latifúndio urbano.

Passamos de 10 mil vidas ceifadas e a viúva Porcina, de Asa Branca, desdenha, saúda a tortura e a morte, pisa nos corpos em sofrimento.

Ela é asquerosa, mãe. Entrou no vale tudo, trocou a coroa por uma sucata humana.

A Malu enganou a todos nós. Não passa de uma emprestadora de corpo, uma vigarista servil.

Desculpe-me pela crueza da carta, tô muito triste.

Nessa semana, a barra foi pesada, mãe, o Aldir subiu, o Migliaccio foi atrás.

Já esqueci a data do seu aniversário, sumi algumas vezes, já estive longe em datas importantes.

Mas passei os últimos 15 dias angustiado, por saber que, hoje, mesmo estando perto, não vou te abraçar.

Mas o que é um abraço diante do amor de uma vida inteira?

Foi você, mãe, com sua leveza, que me ensinou a ter mais medo de uma vida medíocre do que do fim dela.

Estamos tristes, mas vivos e atentos.

Te amo.

*João Paulo Rillo é diretor de teatro, militante do PSOL e ex-deputado estadual paulista.



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